quarta-feira, 3 de dezembro de 2008

O aparelho de Estado

o blog Portugal Contemporâneo, Ricardo Arroja, um "gestor de carteiras de investimento" e "analista financeiro", adianta a sua explicação para mais este escândalo, do BPP de João Rendeiro e accionistas de luxo:
"Infelizmente, para além das contradições públicas do nosso ministro, este plano de salvamento, suportado pelo dinheiro dos contribuintes, assenta em três pontos muito discutíveis.
Primeiro, que o incumprimento do BPP, avaliado em cerca de 0,5% do PIB nacional, coloca em risco a credibilidade financeira da República
Portuguesa. Tenho dúvidas. Como ponto de comparação, no caso da Bear Stearns o risco de incumprimento era de 4% do PIB norte-americano.
Segundo, que o valor da carteira de títulos detida pelo BPP recuperará de forma significativa. Talvez. Até pode acontecer, mas quanto tempo demorará?
Terceiro, que existe interesse público no BPP. Não me parece. Pelo contrário, o interesse reside exclusivamente na órbita dos seus "stakeholders" privados, pois trata-se de um banco de investimento que não actua da forma convencional característica de qualquer banco comercial.
O problema registado no BPP é o mesmo em que qualquer investidor particular incorrerá se pedir dinheiro emprestado para investir na bolsa e esta lhe trocar as voltas.
De acordo com a edição de hoje do Público, o empréstimo contraído pelo BPP junto do JP Morgan e que lhe permitiu comprar uma participação de relevo no BCP, era aquele que estava em maior risco de incumprimento e que mais terá assustado o Estado português.
Esse empréstimo foi utilizado pelo BPP para comprar acções do seu concorrente BCP a 3,2 euros por título, cuja cotação baixou, entretanto, para menos de 90 cêntimos - uma desvalorização de 72%.
Deste modo, para que o investimento, concretizado através desse empréstimo, resultasse em mais valias para o BPP, a cotação das acções do BCP teria agora de valorizar 264%. É a velha história da matemática: quando a cotação de um título passa de 100 para 50 ocorre uma desvalorização de 50%, mas depois para regressar ao ponto de partida, para passar de 50 para 100, será então necessária uma valorização, não de 50%, mas sim de 100%. Infelizmente, este exercício aplicar-se-á a outras participações accionistas do BPP, porque o banco se esqueceu da primeira regra de quem investe na bolsa: definir perdas limite e exercer as respectivas "stop losses".
De resto, a imprensa financeira de ontem destacava que o Estado estará protegido pelo conjunto de activos detidos pelo BPP que, por sua vez, estarão avaliados em mais de 650 milhões de euros.
Pois então, se o aval agora concedido pelo Estado representa um montante de 450 milhões de euros, inferior ao património do banco, para quê o salvamento? Por uma simples razão: esses 650 milhões de euros estão empolados, porventura contabilizados ao preço de custo e difíceis de transaccionar no imediato. A própria sede do BPP, que ontem, com algum sensacionalismo, se noticiava como tendo sido hipotecada pelo Estado, não valerá mais do que 3 ou 4% dos 750 milhões que o banco afirmou, publicamente, necessitar com urgência. Portanto, a solução encontrada é engenhosa. Permite ao BPP respirar fundo e esperar que o valor de mercado das suas participações accionistas recupere. Contudo, se isso não acontecer, se as cotações continuarem a afundar - bastando para tal que se repita o cenário de 1929, que muitos analistas consideram análogo ao momento presente - o montante avalizado pelo Estado vai ter de aumentar. Sem nenhum risco para o consórcio de bancos envolvido, mas com todo o risco sobre os contribuintes."
Como refere um comentador naquele blog, o problema do BPP, transcende em muito a questão meramente economocista e passa a assunto da mais alta relevância política porque "temos uma classe política profundamente corrupta e os resultados estão à vista: compadrio político, negócios obscuros, financiamentos mal esclarecidos, favorecimento de personalidades partidárias, offshore accounts, nacionalizações com prejuízos evidentes para os contribuintes, etc."
Evidentemente, é este o problema maior nestes casos.
Por isso, é que se torna importante perceber como é que o pior ministro das Finanças da UE ( jornal inglês dixit) mudou de opinião de uma semana para a outra e passoua a engolir o sapo que antes rejeitou categoricamente.
Perceber quem é que é quem na Superestrutura do Estado actual que nos governa.
Mas...quem é que o vai fazer publicamente? A Assembleia da República, na interpelação parlamentar? Os jornais ou tv´s? As rádios? As agências de notícias?
Os blogs?
Não devemos ter grande esperança. A unanimidade em torno do Governo, sem informação credível ou de contra-peso, reflecte-se nas sondagens de um povo adormecido.

3 comentários:

Karocha disse...

José
Tudo isso ouvi eu do meu rapaz ontem!
Ainda bem que você posta para ver se as pessoas compreendem, porque eu sou uma privilegiada...

Colmeal disse...

Entretanto devagar devagarinho vão acontecendo umas coisas estranhas, como por exemplo a polícia andar a contabilizar os professores que fizeram greve hoje :
ver em http://aeiou.expresso.pt/gen.pl?p=stories&op=view&fokey=ex.stories/469264

Será que a MFL tinha razão e estamos a caminhar para uma suspensão da democracia ???

Não creio em brujas pero que las hay ... hay !

alexandre Iº disse...

Acordam tarde.
Um pais pequeno como este - pequeno em população - é muito difícil de governar com objectividade. Não há, claramente, coragem. E torna-se fácil entalar quem se quer entalar, quando é necessário fazê-lo. E mais uma - tristezas não pagam dívidas, não é verdade?

Carros de música corrida