quarta-feira, 11 de fevereiro de 2009

Não há mal que sempre dure

Está visto. Não largam o gajo. Agora são os projectos das casas de há mais de vinte anos, onde o engenheiro que ainda nem era engenheiro, assinava como engenheiro, projectos de casas. Segundo disseram, feitos por outros e para contornar a proibição legal que impedia os técnicos de os assinarem. Casas situadas, em boa parte, numa zona de "amigos".
Já se concluiu, na altura em que o Público fez manchete com o assunto, que era esta a moeda corrente, na época. Moeda boa e que Greshan não duvidaria comprar. O PR fez vista grossa e não ligou ao assunto que entendeu como menor.
O Correio da Manhã anuncia que 23 desses projectos foram aprovados em tempo recorde e são de casas situadas na zona do Mondego de onde são naturais o actual presidente da Câmara, Fernando Valente e o técnico da autarquia Fernando Caldeira, amigos do então projectado engenheiro civil.
Sendo projectos de Sócrates que deles assumiu a autoria e responsabilidade, não serão projectos de outros, ao contrário do que sugeria a notícia do Público, com os donos das casas a dizerem a quem pagaram e com quem contrataram ( alguns dos projectos, seriam daqueles dois). E aqui surge a primeira dúvida que nunca foi esclarecida: afinal, são projectos de quem?
Esclarecer isso e saber se o PM é um aldrabão acabado, não interessa nada, agora.
Quem deixou passar na altura, a par das restantes aldrabices denunciadas, não vai ser agora que vai retomar o curso da indagação.
O mínimo que se pode dizer, desses mesmos, é que são cúmplices deste charco social e político em que nos colocaram, em que temos um PM sempre atolado neste chiqueiro de vergonhas e que não deveríamos ter, mesmo que os apaniguados percam os seus empreguinhos de Estado e vidinha boa.
O inquérito administrativo instaurado na Câmara da Guarda, para analisar por comparação esses projectos, no sentido de verificar sinais de compadrio e favorecimento, deu em nada.
Os inquiridores, todos altos técnicos da Câmara e só por isso suspeitos e a quem nunca deveria ter sido entregue tal indagação, ouviram ninguém, analisaram comparativamente e decidiram: não houve anomalias nem favorecimentos. Foi tudo normal.
O PSD local, na oposição, denunciou logo a farsa: não ouviram ninguém e escolheram projectos sem ouvirem ninguém. Contestam a aleatoriedade da escolha e denunciam favor ao então engenheiro que não era engenheiro civil mas fazia as vezes dos engenheiros. Anunciam agora que os prazos de aprovação se mediam em dias para esses processos e em meses para os restantes, como se isso fosse prova provada de favorecimento e que não permitisse as dúvidas e a defesa plena de chico-espertos.
E não está o PSD local com meias medidas: participação ao MP e, segundo o jornal, Judiciária. Assim, por atacado porque fica melhor na notícia e até parece que isso vai ser bomba de fragmentação política.
Acontece apenas o seguinte: a denúncia é por favorecimento, ou seja e criminalmente, por qualquer coisa indefinida e que nem é corrupção. Talvez um irregularidade administrativa e quando muito, se bem indagado e por confissão repetida em julgamento, por eventual abuso de poder. Com muitas dúvidas que o poder juidicial relevará sempre. Aliás, nunca chegará agora a julgamento e é muito duvidoso que algum dia chegasse. Está tudo penalmente prescrito.
Quer dizer, em termos penais, este processo agora denunciado "à PGR" ou então "à Judiciária" é um autêntico aborto, maior do que os projectos arquitectónicos do nosso engenheiro que não era engenheiro mas fazia-se passar por coisa parecida, sem o nome técnico.
Mesmo sabendo que é um aborto porque todo e qualquer crime eventual e duvidoso, se encontra prescrito, o PSD local entende por bem participar a coisa abortada para chicana política evidente.
E legítimo e relevante, denunciar estas práticas, mesmo com vinte anos de atraso, principalmente porque nunca foram substituidas, mantendo-se na actualidade.
Em termos de denúncia de costumes apodrecidos e moralmente corruptos, aceita-se perfeitamente. Embora tudo fique na mesma.
Mas...pergunta-se: isso interessa para alguma coisa, no caso concreto?
Não. Não é isso que interessa. O que vale é apenas chatear o gajo. Encostá-lo a mais uma cabala, moendo-lhe a imagem. Contribuindo para aquilo que o pigmeu do PS proclama como uma "tentativa de assassinato moral".
Que o tipo merece a denúncia, lá isso merece. Os costumes corrigem-se assim.
Que seja esse o objectivo, duvido. Não duvido, tenho a certeza que não é.
E o indivíduo a quem chamamos primeiro-ministro, a este tipo de coisas, chama-lhes um figo. Já passou por coisa pior e safou-se. Safa-se sempre, aliás. E desta vez, vai novamente armar em vítima e as sondagens vão dar-lhe razão, por desconto na estupidez de quem assim julga bem fazer na política.
Até um dia destes a casa vir abaixo, com fragor. Por uma razão simples e de senso comum: é possível enganar muitos, algum tempo;poucos , muito tempo; nenhuns o tempo todo.
Está a chegar o tempo do fim.

ADITAMENTO, às 18h e 30m:

Já está. O primeiro-ministro é um perseguido nato. Todos lhe querem mal, menos os que dele directamente dependem. E mesmo esses, a julgar pelas figuras do pigmeu, não é certo que assim não seja.
Em tudo o que não seja claro e indesmentível, haverá fuga para a frente da vitimização. Em tudo o que permita a negação, mesmo parcial, haverá negação, mesmo total. Em tudo o que permita o aproveitamento político a favor, haverá assessores e apaniguados a prestarem o frete.

Nesta situação, não há muitas formas de proceder: ou se é aldrabão e meio, para contrariar o mestre da aldrabice; ou se diz apenas a verdade e só a verdade, logo que conhecida, com o rigor que a tal obriga e não permite todo o aproveitamento de qualquer fait-divers; ou então, alardeia-se a aldrabice, sem ter a certeza de toda a extensão, com o risco de a mesma se transformar num boomerang quando o aldrabão se vitimiza. Como está a acontecer.
Por último, sobra a melhor hipótese: perceber a aldrabice e mostrá-la a todos, claramente e sem dar a mínima hipótese de vitimização.

Nota: o postal foi corrigido quanto ao pormenor da responsabilidade dos projectos.

6 comentários:

Anónimo disse...

José,
Se calhar o mal está na "frescura" do relatório e não na antiguidade do caso.
Obrigado pela resposta sobre questões legais no outro post.
(tudo esclarecido, dentro do habitual)

Karocha disse...

Abraham Lincoln.
Bem citado José !

Colmeal disse...

José,

Caso não tenha assistido, veja este vídeo :

Pires de Lima-Ditadura

Felizmente continuam a aparecer personalidades sem medo de "chamar os BOIS pelos nomes" ...

Trata-se de um excerto do programa Dia D, seria interessante conseguir o link das declarações por inteiro, mas até agora ainda não consegui esse link(penso que a Sic ainda o não disponibilizou).
Se alguém conseguir ...

Tino disse...

Não me recordo das palavras exactas.

Mas, se bem me lembro, o Zezito engenheiro-projectista não disse que era «autor» dos projectos.

Disse que «assumia a autoria», o que faz uma grande diferença num habilidoso como o Zezito.

Pois, uma coisa é ser o pai. Outra é assumir a paternidade.

josé disse...

Pois. A história das casas, está toda aqui

Por outro lado, o que o gabinete do PM mandou dizer foi que

"O gabinete do primeiro-ministro assegura que Sócrates assume a autoria e responsabilidade de todos os projectos."

O que isso significa é apenas um modo de lidar com a aldrabice. Como é costume.

Josão disse...

Chiqueiro. já não oiço, nem lia esta belíssima e substantiva palavra há muito. Chiqueiro, chiqueiro, chiqueiro ... que apropriada, chique, chiquérrimo, depois chiqueiro, cést ça?