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domingo, 5 de julho de 2009

Os media e a Justiça

Eduardo Dâmaso, director-adjunto do Correio da Manhã, hoje ( comprei o jornal):

"Os diagnósticos repetem-se e apontam sempre o mesmo mal: a Justiça é o pior dos problemas do País. Na verdade, a Justiça não andará no melhor dos tempos. Pesada, ritual, burocrática, demasiado cega, a Justiça é, seguramente, um problema.

Mas um problema que não é em si a origem de todos os males da sociedade portuguesa, como parece decorrer das intervenções de alguns ‘senadores’ e dos ditos diagnósticos. Nesta edição, o juiz António Martins dá uma entrevista em que põe o dedo na ferida. Para muitos a sua voz estará eivada de corporativismo – o que não é verdade. Mas, quer queiram quer não, a razão está com ele. A Justiça é o reflexo das formas de governo que têm sido praticadas em Portugal, sempre assentes numa visão da lei como instrumento de domínio político e não de governo democrático e sério da comunidade. Portugal tem sido o país das leis feitas a correr, sem obedecer à mais elementar técnica legislativa, leis que protegem interesses particulares e poderosos, leis que blindam estratégias delinquentes de gestão do próprio poder.

O mal da Justiça é ter-se transformado no receptáculo passivo e silencioso de políticas desastrosas, carregando o ónus de a sua própria imagem ser atirada para a valeta por estratégias de puro marketing político. Talvez fosse a hora, em tempo de agudo ciclo eleitoral, de dizer um sonoro basta!"

Basta o quê? Os erros dos políticos? Só?

E os dos jornalistas que desinformam e pervertem quotidianamente, o sentido da opinião pública sobre estas questões?

O jornalismo português, mormente o do Correio da Manhã, aparece frequentemente como a fonte de notícias negativas sobre a "Justiça", através de uma informação pouco ou nada rigorosa, tendenciosa em boa parte dos casos e no final de contas contribuindo líquida e eficazmente para este estado de coisas a que chegamos.

Eduardo Dâmaso é um jornalista experimentado nesta área. Frequenta desde há muito, os corredores dos bastidores da máquina judicial, tem apreciado processos concretos e conversado com magistrados e polícias. Sabe geralmente do que escreve quando apresenta um assunto judiciário.
Tem falado publicamente e escrito de igual modo, sobre os fenómenos de Justiça com alguma acuidade que não é lugar comum nos seus colegas de profissão.
Então, porque não se debruça também, por escrito, sobre o papel tremendista e os sucessivos abalos telúricos na credibilidade das instituições e pessoas que as lideram, com epicentro na redacção dos jornais e demais media?

Sempre que uma noticia jornalística que envolva casos judiciais enfrenta a realidade judiciária, normalmente é para lhe desgastar prestígio e credibilidade. Numa boa parte dos casos, de modo injusto, impreciso, incorrecto, faccioso até.

Posso supor e compreender que isso acontece por necessidade jornalística de apresentar notícias que vendam jornais.
Não posso aceitar que esse comércio se faça à conta de mau jornalismo e de errónea percepção de realidades, contextos e explicações.

Por isso mesmo, ao papel dos legisladores, aplicadores e até sujeitos processuais, deve acrescentar-se um factor de relevo no panorama geral da "crise da Justiça": o papel dos media.
Por uma simples razão que pouco tem a ver com a função do mensageiro: os media, em Portugal e neste campo, raramente explicam como deve ser; raramente apresentam o problema do ponto de vista correcto para o leitor julgar por si e raramente se abstêm de comentário e opinião implícita no modo como escrevem a notícia ou reportagem.

Em suma: os media têm grossa responsabilidade no modo como "a crise da Justiça" é percepcionada pelos cidadãos em geral.


8 comentários:

Wegie disse...

Estes últimos posts estão claramente influenciados pelo discurso de tomada de posse do Vice do STJ, que já comentei atrás. Vejamos outras repercursões deste discurso. O Juiz-Conselheiro Artur Marques diz que:"Aguardei-o com expectativa e ouvi-o com toda a atenção. Do que ouvi, ficou-me a sensação do altíssimo nível e da densidade do texto, mais próprio para ser lido do que para ser ouvido, ainda por cima com o aguilhão do tempo a esporear o ritmo da leitura. Mas a audição foi já um prelúdio para a sua fruição e assimilação em silêncio"

Este Artur Marques é conhecido por diminuir as penas aplicadas a pedófilos com o argumento de que vítimas de 13 anos não são crianças e para além disso tiveram erecções duranto o acto.
Bonito não é?

josé disse...

Essa é mais uma ignomínia dirigida ao Artur Costa, como conselheiro.

Por isso é que o mesmo se dirigiu publicamente à Tânia Laranjo que teve o mérito profissional dessa borrada autêntica no jornalismo nacional.

Espero que a Wegie conheça a Tânia e lhe diga que escrevi isto.

josé disse...

Entre o profissionalismo de Artur Costa como juiz e o da Tânia como jornalista vai a diferença entre um Rolls Royce e uma carroça medieval.

Todo um mundo.

CCz disse...

Caro José,
.
Acabo de ouvir as palavras de Ana Gomes na rádio, sobre a forma como a Justiça é pressionável pelo poder político, a propósito dos voos para Guantanamo.
.
Será que ela usa o mesmo critério para todos os casos mediáticos?
.
ccz

josé disse...

Ana Gomes é uma tonta.

Não percebo porque lhe continuam a dar credibilidade.

Wegie disse...

Não conheço, felizmente, nenhum jornalista. Mas tive o prazer de privar,durante alguns anos, no Ateneu Comercial do Porto, com essa elite de Conselheiros e tais. Com eles aprendi que aquele axioma da Faculdade de Direito de Coimbra segundo o qual "para os amigos tudo para os inimigos nada,aos outros aplica-se a Lei" é a máxima da justiça à portuguesa.
O problema é quando os "outros", isto é, os cidadãos e a imprensa começam a colocar questões.

O JUSTICEIRO disse...

É curioso, ainda não vi a Ana Gomes tão incomodada com os casos Casa Pia, Freeport, Cova da Beira, etc.....

Terá ela medo de perder o emprego???

Como é possível que uma destemperada destas nos represente no PE???

josé disse...

Wegie:

É bom e salutar que os cidadãos e a imprensa e media em geral coloquem questões. A todos os poderes, incluindo os de facto, como é o caso da própria imprensa e jornalistas.

Há jornalistas que têm muito poder e sabem-no.

É esse poder que não costuma ser escrutinado por ninguém. A falácia de dizerem que são os leitores quem escrutina é isso mesmo, uma falácia, porque um jornal, rádio ou tv, não são escrutinados apenas pelos níveis de audiência decorrentes da performance profissional dos seus jornalistas. Se assim fosse, a revista Maria seria o expoente máximo do jornalismo português.
E o Público andaria pelas ruas da amargura de um qualquer pasquim.

Para essa figura, já temos o Pedro Tadeu.