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segunda-feira, 14 de setembro de 2009

A esquerda pela direita

"Jerónimo de Sousa acusa o PS de não ser de esquerda." - título do Público de hoje. "Não pode ser de esquerda quem assumiu a ideologia neoliberal" (...) "quem retirou legítimos direitos, alguns deles conquistados antes de ele ( José S.) nascer", "quem faz uma ofensiva sem precedentes para privatizar o serviço nacional de saúde, quem cortou salários, reformas e aumentou impostos", rematou Jerónimo para assegurar a sua legitimidade eleitoral de defensor dos pobres, oprimidos, famélicos e desclassificados.
É este o discurso da Esquerda, hoje? Por contraposição à Direita que associa ao neoliberalismo?
O PCP é de Esquerda, sem dúvida alguma. Tal como o BE real, o genuíno que se esconde nos conceitos aveludados e aromatizados com sabor a democracia burguesa que nos servem em propaganda para iludir incautos.
E então que sentido fará uma discussão como a que abaixo decorre, realizada em 1975, a propósito da social-democracia versus socialismo?
Nessa discussão era patente a ausência de dúvidas de que a social-democracia era um conceito de esquerda, herdado do tempo do marxismo-leninismo e que só deste se distinguiria pela adopção da via reformista de mudança da sociedade. Quanto ao mais, incluindo a alteração progressiva do sistema produtivo e portanto capitalista era assente que tendia para a mistura de detentores de meios de produção, com o Estado a assumir fatias importantes do esquema produtivo e de distribuição de serviços. Tal e qual o que acontece hoje em dia, em Portugal e na Europa.
Portanto a social-democracia tal como a conhecemos hoje em dia, um pouco mudada e adaptada a circunstâncias de tempo e modo, é a ideologia que impregna o PS, o PSD e até o CDS. Nenhuma distinção ideológica de base é possível fazer nesse aspecto.
Onde reside a diferença real? Onde sempre residiu: no estilo e importância dada a certa retórica e a certos pormenores que asseguram o mito. O PS assegura a ideia de esquerda com a retórica vazia e mítica de uma importância dada às classes trabalhadoras, numa longínqua alusão à luta de classes e ainda a uma ainda mais longínqua enunciação de uma hipotética revolução de veludo que visa convencer o eleitorado que é de esquerda. Porque tem interesse em captar elitorado a um partido de esquerda como o PCP e também o BE.
Para essa estratégia de engano, o PSD só pode ser a direita, quando não é, de facto ou de direito ideológico.
Entre o PCP e o BE, a diferença é semelhante, em grau mítico e retórico e era caracterizada pelos comunistas mais ortodoxos, com um velho estudo de Lenine, de 1920: O esquerdismo, doença infantil do comunismo.
Estes critérios, no entanto, não estão na moda porque as noções antigas ( com trinta anos) foram abandonadas em favor de um pragmatismo que oblitera os conceitos comuns, para os adaptar a uma realidade incomum. Assim, a convenção actual é dividir a esquerda e a direita, segundo critérios ainda mais vazios de sentido ideológico, mas recheados de noções vagas sobre afectos de classe.
Neste sentido, uma pessoa, como a Patrocínio da juventude do PS, que tem "criados" há mais de trinta anos e precisa que lhe descarocem as azeitonas ou cerejas, é de esquerda ou de direita? E se ainda por cima, entender que o importante é ganhar, mesmo que seja preciso batota, poderá dizer que tal é ideologicamente tributário da ideia de solidariedade ou antes de um neoliberalismo de luta pelo lugar, passando por cima dos outros se preciso for?
É este o sentido de esquerda e direita, hoje em dia?
Parece que é.

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