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domingo, 13 de setembro de 2009

Socialismo e social-democracia em 1975

Em 29 de Setembro de 1975, o Jornal Novo ( director Artur Portela Filho e com redactores como Torquato da Luz, Carlos Veiga Pereira, José Sasportes, Luís Paixão Martins ( LPM, sim, esse mesmo), Carlos Pinto Coelho ( RTP2, Acontece) e com colaboradores como Vitorino Magalhães Godinho, Eduardo Lourenço ou Marcelo Rebelo de Sousa, Miller Guerra ou Mário Sottomayor Cardia, administrado por António Vasco de Mello) publicou um extenso debate a dois, entre Marcelo Rebelo de Sousa e Mário Sottomayor Cardia, já falecido, sobre...Socialismo e Social-Democracia.
O debate ocupou quatro páginas inteiras do jornal que Vasco Gonçalves classificou por esses dias, na televisão, como "reaccionário" ( a par com o Expresso e A Luta, este do PS, depois do caso República) e portanto condenado a uma censura por encerramento e que só não se concretizou porque o PCP perdeu o poder efectivo no Executivo, dali a dois meses, em 25 de Novembro de 1975.

O debate de há mais de trinta anos, entre esses dois intelectuais, é interessante e demonstra, para quem ainda o não sabia, que Marcelo Rebelo de Sousa é dos indivíduos que em Portugal melhor preparação tem para liderar um projecto político. Falta-lhe o quê? Não sei bem. Nem o próprio saberá...

O debate do jornal que aqui se transcreve em imagem que pode ler-se clicando, demora mais de meia hora a ler, integralmente, mas vale a pena, principalmente o primeiro quarto de hora.
Foi realizado aquando da visita de alguns portugueses ( entre os quais Otelo Saraiva de Carvalho e Rosa Coutinho), à Suécia e centra-se na análise do programa do partido social-democrata sueco. Estes debates, na altura, eram recorrentes. Actualmente, poucos o seguirão e é isto, esta confusão de conceitos, por falta de discussão dos mesmos que aproveita a um BE que aí viceja e prospera eleitoralmente. A ignorância aproveita sempre a quem dela se vale.

No debate, fala-se da diferença entre a social-democracia que então era representada essencialmente pelo PPD ( depois PSD) e também pelo PS ( que metera o socialismo na gaveta quando percebeu que não ia longe com esse anacronismo a que o PCP e a extrema-esquerda se agarravam e continuam a agarrar, como o demonstra o actual PCP e também o Bloco de Esquerda, um embuste que não é demais denunciar como um perigo público para a democracia como a conhecemos e é praticada na Europa.

Sottomayor Cardia e Marcelo concordam num ponto: o socialismo e a social-democracia tem uma raíz comum com o comunismo praticado no Leste, durante o séc. XX. Para realçar a diferença, citam o revisionista Bernstein que sendo marxista e social-democrata defendia a transição pacífica para o socialismo, por via reformista como então se dizia, enquanto os verdadeiros socialistas optavam por uma via revolucionária, inquestionavelmente violenta. Os seus críticos ( Rosa Luxemburgo, apreciada por Francisco Louçã do BE, Karl Kautsky, Lenine e Max Adler) escolhiam a via revolucionária e de confronto de classes, adoptando a ideia básica de Marx e Engels, pela insurreição imediata e da luta de classes, apoiada por Blanqui, em França, ainda no séc. XIX. A ruptura fundamental entre a social-democracia e o socialismo ocorreu em 1917 com a Revolução bolchevique, na Rússia.

Sottomayor Cardia que então se considerava de Esquerda, dizia no debate que a história da social-democracia e do socialismo, como ideologias, "resultam muito mais de posições tácticas, de polémicas historicamente passadas do que de atitudes permanentes e fundamentais de grandes categorias de pensamento político. E assim a história da social-democracia e também do marxismo-leninismo tem oscilado ao longo de décadas e dos países de acordo com questões práticas, de carácter circunstancial, que conduziram a afrontamentos graves a cisões e que por vezes, anos depois, já são assumidas numa acepção inteiramente diferente."

Por causa desta ideia base, Marcelo , mais á frente produz uma teoria interessante e com significado ainda mais valioso hoje em dia:

O PCP ( e agora o BE está a fazer precisamente a mesma coisa), durante o PREC, comportou-se como um partido social-democrata. E depois de 25 de Abril adoptou uma espécie de terceira via que nem passava pela revolução violenta que a extrema-esquerda defendia ( e o BE oculta sempre) e também não passava pelo reformismo social-democrata, embora se lhe aparentasse. O PCP em Portugal tomou conta de posições importantes no aparelho de Estado que lhe permitiram, em 1974/75, fazer a transição que normalmente só é possível com a revolução violenta. Assim fizeram "não uma revolução contra o poder, mas uma insurreição do poder contra a sociedade."

Passados mais de trinta anos sobre este debate, continua a ser este o desiderato do PCP, apoiado em certas instituições que domina, como os sindicatos e estribado numa Constituição que impôs e nunca foi alterada na essência que lhe convém. O BE, segue no mesmo trilho, embora com maior dissimulação.

O debate, extenso, permite perceber isto muito melhor e pode ler-se clicando nas imagens. Dura 3 quartos de hora, a leitura integral.






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