quarta-feira, 25 de novembro de 2009

A Itália outra vez tão perto

Na Itália, por estes dias, discute-se publicamente o facto de o poder político aprovar uma espécie de amnistia encapotada por interposta reforma da lei penal. Através da redução de prazos processuais, o poder político de Berlusconi pretende apagar alguns casos mais antigos.
O jornal La Repubblica de ontem dava o destaque a uma carta aberta de Roberto Saviano ( escritor de Gomorra), ao "presidente do conselho", Berlusconi. Isso para além da notícia que um abaixo-assinada sobre o mesmo assunto, já ia nas 350 mil assinaturas.
A carta, breve, começa assim:
" Senhor presidente do Conselho,
Não represento outrém senão eu próprio, a minha palavra, o meu mester de escritor. Sou um cidadão. Peço-lhe: retire a lei sobre o "processo breve" e faça-o em nome da salvaguarda do direito. O risco é o de o direito em Itália poder destruir-se, tornando-se um instrumento apenas para os poderosos, a começar por si.
Com o "processo breve" ficarão prescritos factos criminais gravíssimos e em particular os do colarinho branco. O sonho de uma justiça veloz é partilhado por todos. Mas o único modo de acaparar o tempo é colocar os juizes, os utentes os tribunais na condição de poderem actuar com rapidez. Não acabe com os processos nem cancele a esperança dos que há anos esperam justiça.
Retire a lei sobre o processo breve. Não é uma questão de direita ou esquerda. Não é uma questão política. Não é uma questão ideológica. É uma questão de direito."
E continua neste tom.
Na mesma edição do jornal, dá-se conta de que o editor do La Repubblica, Carlo de Benedetti, o rival de Berlusconi nos media italianos, participou numa conferência na Universidade de Oxford patrocinada pelo Reuters Institute para o Estudo do Jornalismo ( por cá, não temos nada que se pareça, para além dos provedores do leitor e ouvinte. O espectador nem conta, para o caso). Na conferência participaram ainda Chris Patten, reitor de Oxford e Timothy Garton Ash, um tudólogo reconhecido mundialmente, directores de media ( BBC e Sunday Times) e Paolo Mancini, outro tudólogo reconhecido.
De Benedetti disse uma coisa interessante:
"A Itália é o único país democrático no mundo em que um único sujeito, que é ainda chefe do maior partido e da maioria parlamentar e chefe do governo, domina de facto o universo televisivo nacional, com um controlo proprietário sobre três canais privados e um controlo político sobre os canais públicos. No momento em que o PM italiano, reagindo às 10 perguntas colocadas no La Repubblica, convida as empresas a não darem publicidade aos "jornais catastrofistas", convida publicamente os empresários a boicotar Repubblica, sugere aos italianos de não lerem jornais, "explicando que a boa informação existe apenas na televisão" , isto (...) isso torna-se numa questão de liberdade. "
Por cá, em Portugal, sabemos que o primeiro-ministro não detém a propriedade de meios de informação, mas detém um poder importantíssimo de condicionamento dos meios que dependem directamente do Estado ( Antena Um, Diário de Notícias e RTP) e ainda influencia directa ou indirectamente a vida económica interna de outros media.
Sabemos agora, por causa das escutas telefónicas cujo teor a esse respeito foi divulgado, que o PM procurou, em plena prè-campanha eleitoral, e antes disso, condicionar e domesticar esses media activamente, no caso da TVI e Público e apoiando os media do "amigo Joaquim".
Sabemos ainda que o director do Sol se queixou publicamente desse condicionamento e asfixia económica indirecta, por via de entidades bancárias onde estão em lugar executivo, amigos do PM e que colaboraram na estratégia de condicionamento.
Sabemos que objectivamente o Estado das empresas públicas, retirou publicidade de alguns media e entidades privadas onde estão amigos do PM o fizeram também.
Sabendo tudo isso, pouco ou nada se mexe politicamente para o contrariar, para além das queixas dos visados e ofendidos por estas práticas. O povo em geral mantém-se na expectativa e sem reacção, abúlico e com alguns comentadores cuja influência é residual e sem relevo de maior.
A Itália de Berlusconi tem aqui um belíssimo país para análise e para aprender comos e controlam os media, sem reacção popular.
Mesmo que o PM, neste caso, seja " de esquerda". Ou será por isso mesmo e a superioridade moral de antanho já seja tão elástica que ninguém se incomoda verdadeiramente? Nem sequer com um arquivamento liminar de um procedimento que isso poderia mostrar?

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