sábado, 23 de outubro de 2010

Arrimar

Um procurador do MP, com nome posto no Expresso de hoje, foi alvo de um inquérito disciplinar porque "chegou vinte minutos atrasado ao julgamento de um caso banal, ouviu um reparo da juiza e justificou-se com o despertador do telemóvel que não tocou. Depois, mandou o funcionário judicial ir ao casaco buscar umas folhas e disse dez quadras que escreveu durante a viagem de metro até ao tribunal cível de Lisboa."

O Expresso que continua a valorizar muito este tipo de notícias que envolvem magistrados, -vá lá saber-se porquê!- ouviu uma fonte anónima, precisamente um membro do Conselho Superior que já ditou a sua sentença em "off": imperdoável o comportamento do magistrado. O seu, em dar paleio a um jornalista num caso que está em reserva processual, não conta. Deve ser a tal "absoluta normalidade".

O Expresso como teve acesso ao processo, sem que daí venha qualquer processo disciplinar para quem o guarda, deu-se ao cuidado de transcrever algumas dessas quadras. Uma delas rima assim:

"São sete e pouco da manhã
Viajo de metro para o trabalho
Fi-lo ontem, farei-o amanhã
só sou aquilo que valho."

Poesia desta, publicada em processos, merece reparo a valer... mas não do género disciplinar. Acho.

6 comentários:

Ritinha disse...

E quanto não vale um farei-o?

Rosa disse...

As quadras já circulam a toda velocidade pela net, pulando de mail para mail. Isto pela simples razão de que tudo se passou em plena sessão (pública) de um julgamento cível e, claro, a acta de tal audiência não está sujeita a qualquer segredo.

Dá para perceber que o Procurador o que quis foi expor o ridículo do remoque que levou da juíza, decidindo dar-lhe um baile durante uns minutos. O problema é que aquele não era nem o lugar, nem o momento para tal.

Que isto ao menos sirva para que as instâncias com competência disciplinar sobre os magistrados judiciais atentem mais no respeito pelo tempo dos outros e passem a iniciar as diligências às exactas horas a que as marcam. Pois que, desconhecendo se a dita juíza prima ou não pela pontualidade, os juízes em geral são os últimos a poder mandar recados seja a quem for em matéria de pontualidade!

rosa

Buriti disse...

FAREI-O?

Só por isto está a pedir um processo. Evidentemente, deverá ter como pena a obrigação de estudar as conjugações verbais. Sugiro o método rudimentar da cópia exaustiva, digamos, escrever 500 vezes a forma correcta.

josé disse...

A acta pode não estar em segredo, mas quem passou as quadras cá para o povo ler as maravilhas da rima e da ortografia, não foi ninguém do processo cível, penso eu de que.

Aliás, a simples menção ao processo disciplinar dá o tom da coisa feita fonte.

Milan Kem-Dera disse...

Ahhhhh... perfeitamente ao nível deste:

«Ê subi a um êcaliptre
Cu tê retrate na mão
Desencalitrê-me lá de cima
Malhê cus cornos no chão!»

Parabéns ao magistrado.

Jack disse...

Os versos originais, tive o prazer de os ler no blogue, http://josecarlospereira.blogspot.com/

No fim a veia poética veio ao de cima, e aqui vai o resultado.

Versitos da minha lavra.

Os tribunais estão cheios,
E ninguém cumpre o horário,
A uns cortam no vencimento,
Aos outros não pagam salário(1).


Eu nunca fui mentiroso,
Sou aquilo que valho,
Desejo às virgens ofendidas,
Boa viagem pró c ...


(1) Honorários.

Dura lex, sed latex