segunda-feira, 28 de março de 2011

A democracia inglesa e os privilégios reais

O príncipe Carlos de Inglaterra, herdeiro natural da coroa inglesa e a sua segunda mulher, Camilla estão por cá.

Em 1992 o príncipe estava casado com Diana, mas enganava a mulher. Um assunto íntimo e privado que nada nem ninguém, a não ser os directamente envolvidos, deveriam bisbilhotar. Assunto mais privado e íntimo não há. Assunto mais delicado e perigoso para o equilíbrio político do Reino Unido, na altura, também não haveria muitos mais.

Por isso ou por outras razões, alguém escutava as conversas privadíssimas de Charles, ao telefone. Incluindo as que mantinha em segredo estrito com Camilla e que eram deste teor:

—[Carlos] E quanto a mim? O problema é que eu preciso de ti várias vezes por semana.

—[Camila] Hummm, eu também. Eu preciso de ti toda semana. Toda hora.

Ah, Deus. Se eu vivesse dentro das tuas calças ou algo parecido, seria muito melhor!

Em que tu vais tornar-te, um par de knickers? Oh, tu vais resucitar como um par de knickers!

Ou, se Deus me permita, um Tampax! Seria minha sorte!

Tu és um completo idiota! Oh, que idéia maravilhosa!

Esta conversa foi publicada nos media da época, nacionais e internacionais. Foi um escândalo de proporções gigantes e de consequências imprevisíveis na época, tendo gerado rumores de dissolução do regime monárquico britânico. Assunto mais importante que este para a Coroa e até para os britânicos não podia haver. Pois bem. Ninguém, na Inglaterra ousou questionar a legitimidade dos media publicarem uma conversa daquele teor, com as consequências apontadas e pedirem providências cautelares para preservarem o bom nome, a reputação e o crédito da coroa britânica e daquela, bem pessoal e intransmissível do príncipe Carlos. Este, algum tempo depois, admitiu, numa entrevista na tv, a veracidade da gravação e do adultério. Nessa altura ou depois, citou uma frase que nunca esqueci: isto é uma tragédia grega. Dá para ver a magnitude do terramoto que sofreu na pele.

As gravações das conversas telefónicas, essas, nunca se soube quem as fez. Há quem diga que poderiam ter sido os próprios serviços secretos. Portanto gravações que em Portugal seriam não apenas nulas, mas criminosas e que seriam mandadas destruir "imediatamente" pelo presidente do STJ. Com ameaças abertas, posteriores, sobre a condenação do Estado por violação da privacidade...caso alguém se atrevesse a publicá-las. E com uma alusão fantástica a um exemplo italiano de condenação do Estado, na época, em 6 mil euros à família.

Por cá, com o escândalo Face Oculta em que figuras públicas são apanhadas a gizar planos que implicam dinheiros e empresas em que o Estado tem participação, com o conhecimento e participação activa de governantes e do próprio primeiro-ministro, houve um indivíduo que accionou cautelarmente um jornal que avisou estupidamente que iria publicar conversas gravadas legitimamente pelos poderes públicos. Espantosa e incrivelmente, obteve não só ganho de causa como uma indemnização de centenas de milhar de euros. E os tribunais superiores apelados a dizerem justiça, deram-lhe razão. Num tempo record que outros demandantes nem sonham, porque esperam anos e anos pela justiça que efectivamente pretendem.

Se isto não é o maior escândalo judicial das últimas décadas, em Portugal , não sei dizer mais nada sobre escândalos.

Esta vergonha maior da nossa democracia devia ser contada ao príncipe Carlos.



3 comentários:

zazie disse...

Pois devia ser contada e nos jornais, para todos.

Mas nenhum profissional se lembra de o fazer.

JC disse...

Muito, muito bem apanhado.

Assim se percebe a diferença entre uma verdadeira democracia e uma espécie de ditadurazeca encapotada.

E a diferença entre gente com vergonha na cara, que sabe reconhecer os seus erros, e uns desavergonhados do pior que tenho visto.

E assim se vê ao serviço de quem está a Justiça... ou, pelo menos, parte dela.

Xico disse...

É a diferença entre um regime monárquico que defende a república, e um regime republicano que receia que a monarquia defenda a república que esse regime não quer defender.