terça-feira, 22 de março de 2011

Morreu Artur Agostinho, antigo preso político

Sapo:

O radialista, actor e jornalista desportivo Artur Agostinho morreu hoje aos 90 anos no Hospital de Santa Maria, em Lisboa, onde estava internado há uma semana, confirmou à Lusa fonte da administração do jornal Record, de que era colunista.

Segundo a mesma fonte, a causa da morte não está determinada e pondera-se fazer uma autópsia. Artur Agostinho morreu no Serviço de Urgência do Hospital de Santa Maria.


Artur Agostinho, antes de 25 de Abril de 1974 fazia relatos de futebol e apresentava programas de tv. Um deles, O tempo em que você nasceu, era muito melhor do que os actuais programas das vedetas que ganham milhões. Mais culto, informado, interessante. E em pleno "fassismo", veja-se lá o desaforo!

Talvez por isso, Artur Agostinho, na primeira intentona contra inventonas, protagonizada pela Esquerda extremada do PCP ao PCP ( M-L) com gritos do povo à mistura, em 28 de Setembro de 1974 foi preso. Sem qualquer culpa formada ou facto que lhe imputassem a não ser o de ser um perfeito "fassista" e obviamente "reaccionário" da pior espécie.

Os advogados antifassistas que ainda por cá abundam, tipo José Augusto Rocha, provavelmente não estiveram presos pela PIDE tanto tempo nem sequer por factos que efectivamente cometeram, de subversão e de acordo com a legalidade da época. Mas são vítimas do fassismo eterno e por isso, heróis nacionais.

Passados meses, como a legalidade revolucionária não tinha ainda chegado para rasgar os códigos existentes, os tribunais tiveram que o libertar. Sem qualquer indemnização pelo "erro grosseiro", como hoje alguns pedem ( e recebem) hipocritamente.


Artur Agostinho escreveu há muito pouco tempo um livrito sobre esses acontecimentos onde se nota a memória dos factos e pouca ou nenhuma amargura. Foi para o Brasil, deu a volta à vida, voltou com as tv´s privadas, porque a pública barrava-lhe sempre a entrada por causa dos "camaradas" e ultrapassou frustrações.


Artur Agostinho pode ser um exemplo dos homens antigos que tínhamos. E já temos muito poucos, alguns deles completamente desmemoriados ou de casaca revirada, como é de bom tom a quem tem falta de carácter.

Fica aqui a imagem de um jornal da época ( 30.9.1974) , onde aparecia Artur Agostinho como "conspirador". O jornal era o Diário de Lisboa, dirigido por um tal Ruella Ramos ( e também José Cardoso Pires, é bom lembrar), um antifassista encartado e que escrevia assim:

Havia outro jornal, o Sempre Fixe que então escrevia assim:
"Sexta-feira ás 22h e 30m o COPCON desencadeia uma operação para a prisão de 150 pessoas contra as quais são passados mandatos de captura. Segue-se uma busca a residências de pessoas que se admitem estar implicadas na conspiração."


A lista dos civis, é a que fica exposta. Presumivelmente, serão os representantes da Direita decapitada em Portugal. 70 pessoas, incluindo militares...
PS. Escrevi que os tribunais acabaram por libertar Artur Agostinho. Ora, segundo um comentário de Manuel não foram tribunais nenhuns. Enganei-me porque ainda pensei que os tribunais, mesmo os militares tivessem intervindo. Nada de nada segundo parece.
Lendo uma entrevista daquele ao Sol, percebe-se melhor o arbítrio, a ilegalidade e o abuso de poder dos novos senhores que apareceram em 25 de Abril de 74, respaldados pelos democracas de sempre.


Sol-Como foi preso?

Artur Agostinho- A 28 de Setembro, na cama. Tinha vindo do Campeonato do Mundo na Alemanha e estava de férias. Estava tranquilamente a dormir com a família e foram lá buscar-me. Foi o COPCON.

Foram violentos?

Não, mas foram estúpidos e idiotas. Levaram-me para o Ralis de uma maneira rocambolesca, dentro de um jipe, com um alferes muito nervoso a apontar-me a pistola à cabeça e outro a conduzir. Esse nem sabia o caminho, fui eu que lhe fui dizendo. Depois estive preso três meses, em Caxias.

Esses três meses de prisão foram.

. Bastante difíceis. É muito difícil estar ali sabendo que não estava metido em nada. Não me deixaram ter um advogado, não me deixaram receber visitas, não me deixaram ler jornais, não me deixaram ouvir rádio. Eles que acusavam tanto os outros gajos de serem uns malandros fizeram pior do que isso.

Guarda rancor de alguém?

Não. Já perdoei a uma data de gajos, mesmo aos que inventaram que fui preso vestido de padre, dentro de um carro funerário e que o caixão, em vez de um morto, levava metralhadoras. Mesmo a esses, que eu sei quem são, perdoei. Mas disse-lhes, a alguns, que perdoava, mas que não esquecia.

O exílio, depois da prisão, era inevitável?

Era. Fui preso a 28 de Setembro e, generosamente, porque era véspera de Natal, saí a 24 de Dezembro. Convenci-me, ingenuamente, que iria voltar a trabalhar, uma vez que nada estava provado contra mim, mas mais ninguém me deu trabalho. Estive desde Dezembro de 1974 até Agosto de 1975 à espera de qualquer coisa. Foi então que a minha mulher me disse: «O que é que estás aqui a fazer?». Não é fácil emigrar aos 54 anos. Primeiro dei um pulo até Paris depois fui para o Rio de Janeiro, que era uma cidade que eu conhecia.

Já ia com alguma coisa pensada?

Nada. Andei a ver os anúncios de emprego. Arranjei um lugar num banco brasileiro, como relações públicas para os clientes portugueses, e depois acabei por ser convidado pelo grupo Espírito Santo para trabalhar num banco. E também fiquei a fazer dois programas desportivos sobre o futebol português para a Globo. Foi assim que reconstruí a minha vida

3 comentários:

Joaquim disse...

Concordando inteiramente com o sentido e o tom do post, apenas duas notas:
- O tal Ruella Ramos, não era um qualquer embora esteja muito esquecido. Era de uma família da esquerda republica, com elevadas posses (o que não constitui vergonha, ao contrário do que alguns dos seus compagnons de route argumentavam quanto a outros), que nunca foi do regime pré-abrilista o que não impediu a família de manter a sua actividade económica, em particular na imprensa (em que o título mais conhecido foi o "Diário de Lisboa").
Não consegui aceder à imagem do jornal com a lista, falta link?

josé disse...

Sei bem quem era o Ruella Ramos. Para mim, no entanto, era um tal.

Manuel disse...

Artur Agostinho foi preso a 28 de Setembro de 1974 nas razias então efectuadas, segundo umas listas feitas não se sabe bem por quem.
Ficou na cela 13 do Reduto Norte de Caxias.
Parece-me que não será correcto dizer que foi libertado por algum tribunal, visto que essas prisões não passavam por tribunal nenhum, foram feitas pelas entidades militares e políticas suas associadas, e as libertações também. Creio que nunca houve processo nenhum.
Artur Agostinho escreveu sobre isso, mas não tenho presentes os livros para conferir o conteúdo (lembro-me de um pormenor curioso, que deixa bastante mal um advogado de nome Jorge Sampaio):
http://viriatos.
blogspot.com/2011/03/na-hora-de-artur-agostinho.html

O verdadeiro super-juiz