domingo, 3 de abril de 2011

Assim assado no jornalismo

A banalização do recurso a fontes anónimas é inimiga da credibilidade. A queixa é repetida, a justificação é repetida e eu vou também repetir-me, esperando que a repetição possa contribuir para uma melhor reflexão, por parte de redactores e responsáveis editoriais do Público, sobre os prejuízos que a banalização do recurso a fontes anónimas pode causar à credibilidade do jornal.

Este naco de prosa, tirado daqui, é da autoria do Provedor do Leitor do Público e de um artigo que o mesmo hoje publica.
Chama-se José Queirós, o Provedor e não é a primeira vez que "se mete" com a jornalista do Público Mariana Oliveira, verdadeira visada do seu requisitório aparentemente profissionalizado.

Como não conheço os pergaminhos jornalísticos do Provedor fui ver à Rede. E vi isto:

Nascido no Porto em 1951, José Queirós trabalhava actualmente na livraria Figuerinhas, no Porto. Tendo dado os primeiros passos no jornalismo n'O Primeiro de Janeiro, passou pelo Expresso antes de fundar o Público, donde saiu em 2002, para o Jornal de Notícias, que abandonou em 2009.

Portanto, fico a saber que José Queirós foi jornalista em vários jornais. Aprendeu a tarimba nos jornais e agora dá lições de ética jornalística a jovens jornalistas que no seu entender dela carecem. É um mestre, pelos vistos.
Digo já que os seus artigos não me interessam muito. São cinzentos, desinteressantes e até mesmo anódinos e irrelevantes. O Público teve outros provedores e este parece-me o mais fraquinho deles todos. Adiante.

O caso concreto que o Provedor cita para se encanitar com a jornalista tem a ver com as fontes e o uso do anonimato para justificar notícias. Fazendo um "close up", o assunto é delicado e revela pelo menos uma coisa algo idiossincrática: José Queirós, Provedor do Público acha mal que o jornal publique uma notícia, deste modo que explica assim:

No passado dia 11 de Março, o procurador-geral da República, Pinto Monteiro, foi chamado ao Parlamento para esclarecer declarações públicas que fizera sobre a existência de escutas telefónicas ilegais. Em notícia de antecipação a essa audição, publicada na mesma data, a jornalista Mariana Oliveira dava conta de que “vários elementos do Conselho Superior do Ministério Público” tinham uma opinião diferente a esse respeito e consideravam “anómalas” as declarações do procurador-geral, classificadas por um deles como uma “infantilidade”.

José Queirós, antigo jornalista do Expresso, do Público e do Primeiro de Janeiro acha que as notícias não se devem dar assim. Mas assado. E bem passado, de preferência.
A jornalista poderia ter escrito o que pensam alguns conselheiros do CSMP mas se lhes citasse o nome e a fronha. Assim, não. Assado, talvez. Deixemo-nos de ironias, então.

José Queirós encanita-se com a jornalista que não respeitou as regras jornalísticos que o mesmo certamente sempre praticou, ou com os elementos do CSMP que pensam de modo diferente do PGR?

Quanto a mim, é com estes últimos. Preferia que os nomes fossem expostos ou então não deveria ser dada a notícia. O PGR pensa a mesma coisa, certamente.

Então vejamos o argumento que usa para a crítica:

O que tornava esta notícia “anómala”, para usar o termo atribuído aos conselheiros, era o facto de uma das partes dizer o que pensava em declarações públicas, enquanto a outra comentava essas declarações, e o tema a que aludiam, sob a capa do anonimato. Não é uma forma responsável de fazer passar mensagens, e menos ainda apreciações desprimorosas, como foi o caso. Se o método não incomoda magistrados a desempenhar funções públicas relevantes, deveria incomodar os responsáveis editoriais do PÚBLICO.

Portanto, estamos aqui num processe de partes. De um lado, o PGR e quem o apoia. Viva! Do outro, os que o criticam, mesmo veladamente. Morra! Pim!

Ora então o que é criticável é o facto de haver conselheiros do CSMP que consideram as declarações do PGR " infantis". Porque tal é desprimoroso, segundo o Provedor e uma figura tão importante como um PGR não merece um tratamento tão rasteiro de conselheiros que com ele privam em reuniões.
Mas haverá outros que não pensam desse modo, certamente. Portanto, o que a jornalista deveria fazer, seguindo a lógica do Provedor era averiguar quem, dos conselheiros, achava as declarações infantis e quem achava que não. E publicar os nomes porque senão, nada feito.

Isto poderá reconduzir-nos a uma questão básica do jornalismo: o que é notícia? Os conselheiros que aplaudem o PGR ou aqueles que o contestam? Que diria José Queirós se um principiante do jornalismo lho perguntasse?

E se o jornalista souber que há conselheiros que o contestam, particularmente e no caso concreto, deverá mesmo assim colocar-lhes os nomes no jornal, mesmo que estes lhe tenham pedido o anonimato das fontes?

Que responderia José Queirós a esta pergunta de um principiante do jornalismo? Que sim, deveria?
E se for não, porque se incomoda tanto com este tema?

O jornalismo não tem o dever de contar a verdade? E a verdade neste caso qual é? A de que há conselheiros que batem palmas ao PGR? Isso já saberíamos de antemão...mas o contrário provavelmente não é tão evidente.

Perante tudo isto, o que me parece a mim, que não tenho fontes anónimas que me digam o que pensam de José Queirós, é que defende um jornalismo "suave". Ou seja, sem interesse para o jornalismo que se pretende.

Isso para não escrever outra coisa bem mais indelicada mas que justifico: José Queirós tem partido? Costuma votar em quem?

Será que não tenho o direito de saber, mesmo sem fontes anónimas?



1 comentário:

Monchique disse...

Ora aqui está uma boa pergunta. Quando ouço nas TV's e nas rádios os jornalistas perorarem como se não tivessem partido, procurando aparecer como independentes, pergunto-me sempre: em quem vota este comentador? Não deveria ser éticamente (sublinho éticamente) obrigatório o registo de interesses dos jornalistas comentadores? Quando ouço comentadores partidários, sei que não estou a comprar gato por lebre.; mas quando ouço comentadores jornalistas estou sempre a comprar gato por lebre.Em quem vota o Costa da SIC, ou o Delgado ou o Ant. José Teixeira, ou esse "fenómeno" que dá pelo nome de Peres Metelo? É uma verdadeira falcatrua, uma completa corrupção intelectual. Já era tempo de os senhores jornalistas se apresentarem como gente séria ou de o poder legislativo obrigar ao registo obrigatório de interesses partidários dos jornalistas comentadores.