segunda-feira, 6 de junho de 2011

A Esquerda da idade do ferro

Em 1975, em pleno PREC, apareceu O Jornal, um semanário de jornalistas dirigido na época por Joaquim Letria e sob a visão barbuda de outros jornalistas como Cáceres Monteiro, Afonso Praça e José Carlos Vasconcelos ( actualmente na revista Visão).

As razões confessadas para o aparecimento do periódico eram elencadas no primeiro número saído em 2.5.1975: em primeiro lugar a censura "brutal" em que o 25 veio encontrar os jornalistas, coitados, amordaçados até não poderem mais.
Por causa disso sentiram logo, logo necessidade de se imiscuirem activamente "no processo democrático e revolucionário, para o qual pretendem contribuir eficazmente através de um exercício livre, esclarecido e criador da sua actividade profissional."

Outro redactor, José Silva Pinto dizia na página de apresentação que se tinham inspirado no modelo de organização do Le Monde e "queremos participar activamente na vida do jornal, para garantirmos a sua independência face às doutrinas e modelos políticos, económicos, culturais, sociais e religiosos que se deparam ao povo português, no caminho que o país está a trilhar na construção de uma sociedade socialista portuguesa."

Não havia qualquer dúvida sobre o carácter de Esquerda da publicação, dos seus redactores e da sua orientação ideológica. Não havia dúvidas e tinham-se portanto como independentes "face ás doutrinas e modelos políticos, económicos" etc...
No primeiro número convidaram um jornalista então com 41 anos, Baptista Bastos e que tinha passado a vida em jornais. Escreveu assim um artigo que se publica em fac-simile e se lê clicando na imagem que mostra a direcção do Jornal:

Na parte final não há margem para dúvidas: " Qualquer que tenha sido a sua absurda sinceridade, quando disse: "O Partido Socialista é o maior partido português", você, Mário Soares, ficou amarrado à decisão inabalável de defender em termos revolucionários, marxistas, as classes oprimidas. Revolucionários, insisto. Destronando, da classe de origem, os conservadores, os sociais-democratas, os direitistas, os aventureiros, os oportunistas que se inscreveram, apressadamente no PS. Os quais não possuem nenhum laço real que os ligue ao proletariado."

Pode dizer-se que esta linguagem de luxo que o tal Batista ( agora sem o p de permeio) Bastos hoje não reconhecerá , ainda ecoa naquelas cabecinhas pensadoras. E é por isso mesmo que o fantasma da esquerda ainda habita o largo do Rato e surge sempre que é preciso. Entretanto, os tais oportunistas conseguiram casas da câmara, a renda de luxo...

Nesse mesmo O Jornal passou a colaborar regularmente um desenhador de excepcional qualidade: João Abel Manta, cujo álbum original de recolha das caricaturas do tempo de Salazar, editado pelas edições O Jornal está esgotadíssimo e não se encontra nem sequer em alfarrabistas.
Aqui fica um dos cartoons desse tempo em que a Esquerda em Portugal era o regime político-ideológico über alles. Não mudou muito, a ideologia subjacente a uma boa parte da intelligentsia pátria. O que mudou foram as oportunidades que os mesmos souberam muito bem aproveitar.
Democratas, logo se vê...


6 comentários:

zazie disse...

Estas coisas são impressionantes de recordar. Mas sem isso, o José tem razão, não se percebe o que perdura.

manuel.m disse...

Acho ser merecida uma referencia ao "Jornal Novo" de Artur Portela Filho por ter sido durante largo tempo o único periódico não dominado pelo PC .

josé disse...

Acho justo. Amanhã trato disso.

Lura do Grilo disse...

Catita a caricatura: já estavam a afiar os dentes.

josé disse...

Não sei se repararam mas as figuras são todas reconhecíveis como históricas.

Em baixo, à direita está Kissinger com orelhas de burro...

hajapachorra disse...

O que impressiona no literato Bastos é o facto indesmentível de que sempre foi adversário figadal da gramática e do estudo. Como um beócio deste calibre se pode achar escritor é prodígio maior que mula prenhe.