domingo, 11 de dezembro de 2011

Pois…isto está tudo ligado.

Na Antena Um, à hora de almoço tardio, uma entrevista com José Niza recordou um passado distante e o reflexo do que somos socialmente por força da influência de alguns notáveis que marcaram as últimas décadas.

José Niza veio da Covilhã, nos anos cinquenta, para Coimbra. Estudar. Aí conheceu o meio artístico e musical, designadamente o fado coimbrão, feito de serenatas na Sé Velha e com os velhinhos fadistas da academia, os Bettencourt e os Machados Soares. Ao mesmo tempo conheceu um novato nas lides, José Afonso que em pouco tempo passou do fado mais coimbrão para a balada socialmente esquerdizante, acompanhado de Adriano Correia de Oliveira e outros que se lhes seguiram.

No meio estudantil e musical destacavam-se outros artistas diletantes, entre os quais um certo Rui Ressurreição e um tal Proença de Carvalho conhecido então pela incipiente habilidade em baixar notas instrumentais.

José Niza conhece-os a todos porque com todos conviveu, incluindo “o Daniel”. Desse leque de conhecimentos que passou depois para Lisboa e o meio artístico-musical, nasceu o movimento dos baladeiros e os discos que precederam o acontecimento do 25 de Abril de 74, a par dos festivais de cançonetismo com touradas e até depois do adeus. “Isto está tudo ligado” disse José Niza no programa.

É notório e publicamente reconhecido que esses artistas eram todos de Esquerda, incluindo comunistas, extremistas da esquerda e eventualmente socialistas democráticos, antes do socialismo ser metido na gaveta. José Niza, também médico estava entre estes. Manuel Alegre também, esse expoente tonitruante da vacuidade intelectual. E conta Niza que conheceu o Cenoura quando foi para Lisboa e entrou nas lutas estudantis dos anos sessenta. O Cenoura era Jorge Sampaio.

Eram todos de oposição ao regime de Salazar/Caetano que combateram nas canções, nas letras, nos espectáculos, nos discos.

Para além deste panorama artístico-musical que se reflectia em programas de rádio especializados e já orientados por afectos à mesma luta “antifascista”, havia toda a caravana que passava tranquila, na televisão da noite e no rádio das horas quase todas, dedicadas às “donas de casa” ou aos “serões para trabalhadores”. O triste fado, o cançonetismo que aqueles prosélitos da luta antifassista classificaram depreciativamente como nacional ( João Paulo Guerra) e os ídolos da bola, do ciclismo e de outras modalidades, não foram suficientes para relegar os jovens turcos da oposição ao regime para as franjas da irrelevância social.

Nos jornais, quase todos de oposição, tirando os oficiosos do regime, os baladeiros e os vários cenouras da luta política escreviam em parábolas mas sem grandes enigmas nas entrelinhas. E conspiravam politicamente, sendo presos alguns deles por actividades subversivas contra a legalidade vigente.

Ainda assim, uma cantiga como “Venham mais cinco” tornou-se um êxito em 1973 e as canções de Sérgio Godinho, fugido à tropa, em França, eram sucessos de audiência radiofónica nos programas certos.

Com o advento do 25 de Abril e a liberdade de reunião, associação e a democracia ocidental constitucionalmente conquistadas, quem tomou conta do discurso oficial e, como agora se diz, da narrativa histórica e social?

Aquele grupo de jovens turcos que saíram de Coimbra e se juntaram aos de Lisboa, formaram partidos, entraram em governos, redigiram leis e fizeram a Constituição de 1976. Denominador comum: a ideia de Esquerda, de igualdade e o antagonismo ideológico-político ao capitalismo nacional da CUF, dos Melos e Champallimauds, à famigerada “Direita” e ao “condicionalismo industrial”; às famílias ligadas ao antigo regime e a tudo o que religasse o “obscurantismo” de 48 anos de “repressão fassista”. Este discurso perdura há décadas no nosso meio social e mediático.

Durante mais de uma dúzia de anos este pathos e este ambiente intelectual foram as pedras angulares do novo regime saído do 25 de Abril de 74. Nessa dúzia de anos fomos ajudados pelo FMI duas vezes, porque quase entramos em bancarrota, mas a ideologia que lhe subjaz e a intelectualidade antifascista dos vários cenouras da nossa política que são quem a suporta, nunca assumiu os encargos das dívidas ideológicas. Têm sempre razão, continuam convencidos da superioridade moral da aparência que ostentam e continuam a senda baladeira da vida para além dos défices.

Depois dessa dúzia de anos de experiência de um cripto-comunismo cientificamente frustrado lá entramos no concerto das nações europeias e começou outro regime.

Ora, quem são as novas figuras do novo regime democrático? Quase as mesmas de sempre, noutras circunstâncias, mas com preponderância daqueles que surgiram das lutas estudantis dos anos sessenta.

As circunstâncias foram alterando ao longo dos anos e as empresas que produzem já não são todas do Estado que aqueles tinham garantido para si e para os seus, mas ainda assim permanecem com acções suficientemente douradas para os cenouras lá porem os filhos.

A alta-finança dos bpns voltou ao que era dantes e com novos arrivistas, incluindo alguns baixistas da Covilhã e sem a vigilância e controlo éticos do antigamente. São eles, os novos senhores que ocupam as poltronas altas da administração em assembleias gerais. E que acumulam às dezenas num exercício periclitante de tempo indisponível.

Como o ensino era a pedra de toque do obscurantismo fassista, a nova ideologia tratou de o democratizar à sua maneira: universidades em barda, privatizadas por alguns próceres do ensino público, vindos do antigamente e aproveitando a boleia da democracia para formarem cooperativas em que os lucros eram só para alguns e os prejuízos para todos. A qualidade do produto? Parece que um certo Marques Mendes foi professor universitário. E no ISCTE há vários Mendes. E noutro estabelecimento até um João Soares deu aulas. É preciso mais exemplos ou a meia-palavra de Rui Verde basta para o entendimento do panorama geral? No jornalismo caseiro já há escolas próprias e com os professores formados na Columbia da RTP...

A geração dos baladeiros, já integrados depois do apocalipse da queda de alguns muros, deixaram de se fazer ouvir como antigamente mas não marcaram nenhuma posição de relevo ideologicamente marcante. Foram absorvidos pelo vórtice da sua própria inconsequência e nem sabem como aconteceu.

Convertida aos novos valores do dinheiro fácil de propinas em turbo aceleração na profusão de escolas disseminadas por todos os cantos e esquinas da democracia participativa, alguns deles e seus rebentos prosperaram nesse meio.

O resultado de tal mistela apressada o que poderia ser, afinal? Uma geração medíocre, sem grande visão política é o que temos à vista e o vice-reitor da Universidade Independente denunciou: “a maior parte da geração actual da política veio de universidades privadas.”

Quem é que as formou? Quem ensina nelas? Com que programas? E com que resultados?

Isto anda tudo ligado, de facto.

27 comentários:

Unknown disse...

Há bom e mau em todo o lado.

Uma coisa é certa: mais tarde ou mais cedo, o facilitismo paga-se.

O que tenho visto por aí (não é depreciativo) referido tem a ver com realidades que não conheço e a que conheço, não funciona assim.

Tenho, por isso, o cuidado de não generalizar - a generalização é perigosa e, sobretudo, injusta.

A Mim Me Parece disse...

Há que acertar o passo. Pois...

zazie disse...

Excelente, José.

é literalmente isto.

josé disse...

Não pretendo generalizar a mediocridade. Apenas verificar que a média em geral assim é porque os resultados assim são.

E pelos frutos se conhecem as árvores.

A nossa meritocracia é um logro porque os melhores confundem-se com os apresentados como mais oportunos, pela política e pelos interesses dos medíocres.

Isto não significa generalizar mas apenas mostrar o paradigma.

zazie disse...

Como é que aquele jericó desconhecido quer um retrato de uma época "sem generalizações"?

Mais outro fruto de lavagem cerebral que quer História pessoa a pessoa.

É o mundo que começou no dia em que nasceram e que se pauta pelo telejornal.

zazie disse...

A realidade é esta e o resto é que é para empastelar.

Wegie disse...

"Quem ensina nelas?"

Será necessário elaborar uma lista de ex-ministros de Salazar e Caetano para demonstrar que o inverso também se aplica?

josé disse...

Sobre o assunto e a talhe de foice uma constatação em francesismo:

Será que alguém conhece algum aluno que tenha entrado em Medicina, nos últimos seis anos, por aí, que não tenha acompanhado o ensino secundário com explicações privadas e bem pagas?

Isto de Norte a Sul do país, parece-me uma realidade incontestável. E apenas me guio pelo que conheço que é parcial, fragmentado e evidentemente absolutamente empírico.

Isto é ou não é assim? E quem diz Medicina diz Engenharias mais difíceis.

Matemática, Físico-Químicas são os exemplos mais flagrantes.

Isto significa o quê, exactamente? A falência de um sistema de ensino, simplesmente, porque dantes há 40 anos não era assim. Só tinha explicações quem era incapaz de estudar o que se ensinava nas aulas comuns.

josé disse...

Wegie:

Isso é verdade, mas apenas nas direcções porque foram essas abencerragens quem se aproveitou do sistema democrático e das facilidades. É ver no entanto quem são exactamente esses intelectuais do ensino e o que fizeram antes de 25 de Abril.

Um tal Júlio Gonçalves o que era antes de 25 de Abril? E o da Independente?

josé disse...

Aliás, o descalabro do ensino público superior, a meu ver começou em Fafe, com a gente de Marques Mendes: uma escola que formou professores e que se licenciaram ainda de modo pior do que aqueles do curso ao Domingo.

Foi nos anos noventa e há por aí exemplos em barda de alunos que então tinham o antigo 5º ano de escola Industrial e de lá sairam com licenciaturas passadas a preceito de diploma incontestável. Tudo legal e sem aldrabice formal.

António Bettencourt disse...

Só se esqueceu deste baladeiro:

http://guedelhudos.blogspot.com/2009/07/jose-lello-outra-vez.html

que também foi roqueiro:

http://guedelhudos.blogspot.com/search?q=lello

Wegie disse...

José,

Tem paciência mas estás com défice de informação relativamente ao assunto.

1 - Consulta ao corpo docente da Universidade Livre mãe de quase todas as universidades privadas. Verás lá nomes como Franco Nogueira e outros muitos que foram alguém no ancien regime e não só na direcção.

2 - O descalabro da formação de professores começou antes de Fafe (de facto esta era uma escola diminuta) cf. Institutos Piaget e ISCE.

josé disse...

A escola de Fafe não era de formação de professores. Era uma escola de fornecer licenciaturas a professores, o que é um pouco diferente.
Uma espécie de percursora das actuais ESE embora com outros propósitos, porque estas ESE dão licenciaturas a professores que dantes não as tinham ( ensino primário) ao mesmo tempo que fornecem o alibi para tanto: precisamente a formação de professores que é nada de nada. As teses de licenciatura que por lá se fazem são de fugir a vinte pés. Quem as faz não sabe o que significa o que escreveram.

É o espírito ISCTE no seu melhor.

Quanto aos francos nogueiras, claro que os antigos fassistas aproveitaram essa brecha democrática. E ainda bem que o fizeram mas apenas isso: aproveitaram. Não foram eles quem fez o sistema. Que, suspeito, desprezavam e desprezam. E bem.

Wegie disse...

José,

Lamentavelmente formar professores e vender licenciaturas a professores (ou desempregados) são hoje em dia a mesma coisa. É triste mas é assim. Teses de licenciatura? Isso já não existe há muito tempo e as escolas em questão nunca as conheceram. O meu ponto é que o descalabro da fabricação de pseudo-docentes remonta aos anos 80 e no sector privado os principais protagonistas foram os Piagets, ISCES e em muito menor grau essa obscura escola de Fafe. No sector público, os politécnicos.

Quanto ás origens das universidades privadas: Tudo começou com umas reuniões em Fátima nos anos 70 lideradas pelo ex-ministro das corporações Gonçalves de Proença, e outros próceres. A oportunidade foi gerada pelos próprios e tornou-se um negócio de milhões. Claro que tanto dinheiro levou a que as criaturas entrassem em conflito e foi tudo para tribunal. Daí nasceram as diversas universidades privadas.

josé disse...

A lei de bases do ensino particular e cooperativo é de 1979- Lei 9/79, de 19 Março.

Nela se garante que o nível pedagógico e científico dos programas e métodos é atribuição do Estado, " de acordo com as orientações gerais da política educativa."

Portanto, não foram os Proenças que abandalharam o ensino: foi o Estado, na altura com o governo de Mota Pinto. E todos sabemos que a AD não era propriamente de esquerda mas o ambiente geral era-o e continuou a ser durante muitos anos.

josé disse...

Afinal, O Rui Grácio que acabou com a separação Liceu- Escolas comerciais e industriais tinha tomado a decisão dois ou tres anos antes.

Floribundus disse...

Marcelo mostrou hoje o aumento considerável de licenciados de 'papel e lápis' (1.200.000)
face a 50% da população com 4 ou menos anos de escolaridade

25% de pessoas sós
25% com mais de 65 anos
baixa considerável de nascimentos

Unknown disse...

pa josé, esclarece-me só uma coisa: quando dizes

"Quem é que as formou? Quem ensina nelas? Com que programas? E com que resultados?"

a primeira coisa que me vem a cabeça é que o que se ensina em certos cursos é o mesmo independentemente da universidade (cursos de engenharia, economia, arquitectura, direito whatever), o que muda é a qualidade dos professores, a qualidade das aulas, dos alunos, mas o conteúdo não variará assim tanto. Estou errado? Se não, qual o sentido da pergunta "com que programas"?

Cumps

(PS Se o meu nick aqui for "Unknown", é o que me aparece em baixo definido automaticamente, não estou com pachorra para tentar mudar isto, e não sou o "Unknown" de comentarios anteriores)

josé disse...

As perguntinhas colocadas têm a ver com as universidades privadas e a sua qualidade de ensino.

Nos cursos de Humanidades ( Direito, Sociologia, Letras, até Economia até certo ponto) os programas e curricula estão definidos por, digamos cissiparidade. Serão os mesmos das universidades públicas com anos e anos de experiência. Estão solidificados.

Porém, socorrendo-me da minha experiência, por exemplo em Direito, o curso de Coimbra não era o mesmo que em Lisboa. Em Coimbra ensinava-se, ainda nos anos setenta que foi quando estudei, um pouco à maneira mais antiga: sebentas de mestres, poucos livros, quase nenhuma bibliografia obrigatória e aulas com exigência académica no decoranço e debitanço ipsis verbis.
E o que se aprendia era profundo e conferia bases sólidas ao saber.

O método seria medieval ou rococó, mas afinal permitia uma forma de encasquetar conceitos que com vinte anos ninguém mais esquecia. Dera provas durante séculos pelo que o que vem de trás toca-se para a frente. Método escolástico, portanto.

E nas privadas que surgiram nos oitenta? Era assim ou o facilitismo começou logo no berço?

Por mim, parece-me que foi assim que as coisas se deterioraram. A tal ponto que no outro dia a Sábado fez umas tantas perguntas de algibeira a universitários cujas respostas demonstram que nada sabem de coisas básicas e consensuais. São analfabetos à maneira antiga.
Isso terá importância? Para um mundo que nós frequentamos pode ter, porque as referências deixam de ser as mesmas e se forem essas pessoas a mandar no futuro, o futuro não terá passado. E esse passado é importante.

lusitânea disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
lusitânea disse...

E estes ex-lava pratos fugidos da tropa não se coibiram de importarem uma guerrilha cá para dentro talvez para colmatar algum vácuo psicológico...
E continuam a marrar com a "tropa", como se já fossem toiros na arena...

Zephyrus disse...

De facto devo dizer que ingressei em Medicina graças a explicações. E isso sucedeu porque na escola pública parte da matéria não foi leccionada. Antigamente tinham explicações os maus alunos, isto no tempo dos meus pais. Mas a escola pública está tão má que agora que até os bons alunos têm de gastar fortunas em explicadores.

Aproveito para dizer que há muito chico-espertismo no acesso a Medicina e a outros cursos de média elevada. Quem paga o colégio privado certo tem mais facilidade de acesso. Isto porquê? Nas últimas décadas começou-se a incluir na avaliação final a participação, a assiduidade, a pontualidade e o comportamento, além dos trabalhos e apresentações. Só os conhecimentos teóricos avaliados em exame teórico, oral ou prático não chegam. Cada professor escolhe a percentagem que atribui a cada item, e claro, avaliar de 1 a 20 a participação de um aluno é algo extremamente subjectivo. Há alunos mais tímidos, por exemplo, que têm notas excelentes no testes e exames, e que são prejudicados na nota final em 1 ou 2 valores por participarem pouco. E esse valor pode fazer a diferença entre entrar ou não no curso que se deseja.

Então alguns colégios privados resolveram inflaccionar notas internas. Enquanto que na escola pública, não raras vezes, um aluno com média de testes 18 pode ter um 16 porque não participou o suficiente ou porque a apresentação em Power Point não estava muito «cativante», nesses colégios sucede o contrário, e um 16 é facilmente inflacionado para... 20.

A matrafisga deixa às portas de Medicina centenas de alunos da escola pública, com média de exames superior, que não conseguem concorrer com as médias internas de 19 ou 20 de vários alunos de colégios privados. E não se pense que o Ensino neste colégios é muito melhor. O que sucede é simples, a maioria dos alunos têm pais com dinheiro para pagar explicadores: e preparar bem para os exames nacionais.

A Esquerda, sempre tão amiga dos pobres e desfavorecidos, defende há muito a abolição dos exames nacionais, e o acesso exclusivo ao Superior com médias de secundário.
É o caso do BE, do PCP, de uma qualquer associação de pais, malta do ISCTE e do PS.

Se fossem tão amigos do pobres, pelo contrário, defenderiam um acesso ao Superior feito apenas com exames, média calculada apenas com nota de exames de acesso, o fim do facilitismo na escola pública, e das avaliações com participações e comportamentos e trabalhos e tal que só beneficiam baldas e prejudicam os bons alunos.

Zephyrus disse...

O nosso Ensino Superior tem graves problemas, e não há coragem para mexer nas capelinhas e no chico-espertismo de muitos professores, direcções e «tradições» diletantes.

Portugal, refiro, não tem nenhuma universidade nas 100 melhores da Europa ou do mundo, e veja-se quantas tem Israel ou Espanha, a título de exemplo.

Um dos defeitos do nosso ensino é a formação de gente que o mercado de trabalho não precisa. Sou a favor de situações de ligeiro subemprego, mas não de desemprego maciço. Não faz sentido que se gaste tanto dinheiro em gente que depois não terá qualquer saída profissional. E o desemprego de licenciados, maciço, é típico do Sul da Europa, de países como Espanha, Grécia ou Portugal.

Mas por cá continuam a cometer-se os erros do passado, e de sempre. Medicina caminha para o desemprego maciço, coisa que na área sucede apenas em Espanha, Grécia ou Itália. Há excesso de cursos e de vagas, tal como há também em Direito, Enfermagem, Medicina Dentária, entre outros. Mas isso não preocupa ninguém. Nem preocupa que haja 300 ou 400 vagas em cursos onde as instalações só têm condições para metade dos alunos. O que interessa é que as faculdades recebam dinheiro, e esse entra de acordo com número de alunos inscritos. Quantos mais houver, melhor.

Também não interessa que haja cursos com cadeiras com taxas de reprovação superiores a 50%, que acumulam perto de 1000 alunos ou mais. E que haja cursos onde o tempo médio para conclusão é de 6 anos, cursos de 3 anos, sublinhe-se. E tal sucede porque entra quem não está preparado, porque o Secundário é mau, os professores do Superior são incompetentes e os alunos, ao invés de estudarem, brincam nas praxes, festas académicas e afins.

Nos EUA, por exemplo, uma taxa de reprovação superior a 10% numa cadeira põe qualquer um com os cabelos em pé. E que chumba de ano no Superior arrisca... a expulsão. Isto num país onde a maior parte dos estudantes trabalha em part-time para pagar os estudos. Mas por lá não se brinca às praxes nem se perde tempo com outros diletantismos.

A qualidade dos noss professores deixa muito a desejar. Muitos nem fornecem uma bibliografia recomendada, e avaliam matérias que não foram abordadas nas aulas. Os alunos andam «às aranhas» sem saber por onde estudar, e como estudar. Bastaria fornecer algo tão simples como uma páginas ou duas com o nome dos livros, os capítulos a ver ou as páginas. Mas nada. E agora há outra praga, os diapositivos. Os alunos em Portugal memorizam frases de diapositivos! Há tempos um aluno italianos, de Erasmus, ficou surpreendido com a tradição, e referiu que em Itália tal seria impensável, pois por lá estuda-se... por livros. E cá há situações caricatas. Um aluno pode ter de esperar mais de um ano por uma equivalência a uma cadeira já concluída. Nesse ano poderia ocupar esse tempo a fazer uma cadeira do ano seguintes. Mas nós desconhecemos conceitos como produtividade e gestão do tempo. E estamos habituados a ter gente que se passeia uma década pelos corredores universitários. Veja-se o caso do actual Primeiro Ministro ou de tanta gente do Governo de José Sócrates.

Isto está tão desorganizado e medíocre que só uma Reforma ao estilo Marquês de Pombal para pôr a casa em ordem. E essa reforma implica um novo método de acesso ao Superior, com exames difíceis, encerramento de dezenas ou centenas de cursos, encerramento de faculdades, escolas superiores e até de uma ou duas universidades, novas regras para transição de ano, penalização dos «baldas» (alunos e professores), avaliação externa da qualidade de ensino, etc.

josé disse...

Zephyrus:

Obrigado, vou publicar o escrito como postal porque me parece pertinente e com dados de facto suficientes para reflexão de quem quiser ler.

zazie disse...

O texto do Zephyrus é muito pertinente.

Apenas corrijo que em Itália, depende do que se estuda.

No caso das artes é mil vezes pior do que cá e com grande facilitismo.

zazie disse...

Posso acrescentar Holanda, por exemplo. Os estudos artísticos estão degradados e quem o confirma também são os estrangeiros que vêm para cá (para privada).

zazie disse...

Quanto ao secundário, pelo que tenho observado o mal alastra-se e agora andam a mediatizar as escolas.

Inventaram gabinetes de comunicação e delegados para a comunicação, que têm horário reduzido para esse folclore.

O folclore consiste em fazer publicar em jornalecos da terra ou dos partidos (O PS domina tudo) qualquer redacção ou trabalho de casa de aluno, com direito a fotografia e entrevista.

É tudo à concurso televisivo- à americana, 15 minutos de fama por ovo largado, como se fossem vedetas.

Quem incentiva isto são os próprios professores e esta palhaçada é paga pelo ME.