sábado, 24 de novembro de 2012

A década prodigiosa do cavaquismo e sus muchachos

Em 19 de Julho de 1987 "o regime mudou", assinalou por escrito, na altura,  Adriano Moreira. Mudou para um "presidencialismo do primeiro-ministro", no caso Cavaco Silva.

Dois anos depois, Vasco Pulido Valente escrevia uma crónica no Independente em que lembrava essa observação de Adriano Moreira, acrescentado que o regime se transformava aos poucos numa "ditadura plebiscitária".  As pessoas não elegiam deputados, mas apenas o chefe que escolhia os candidatos e VPV escrevia isso porque os deputados de então não tinham direito a opinião própria e se discordassem do chefe, traíam o mandato...
Quanto ao presidente da República, a sua força política fora esvaziada e ficara apenas com " a magistratura de influência", para além do exercício do lançamento da bomba atómica política, com a dissolução do parlamento.

Vale a pena recordar esses anos em que começou a década prodigiosa do cavaquismo até 1995-96 e o que sucedeu depois disso.

As primeiras imagens são do Expresso que em 10 de Janeiro de 1998 publicou uma separata comemorativa dos 25 anos do jornal e referem-se aos acontecimentos de 1987 e 1988. Os principais de natureza política foram a primeira maioria absoluta de Cavaco e a eleição de Soares para PR por...150 mil votos, muitos deles deitados de olhos tapados, pelos comunistas ( Soares garantia que era o presidente dos pobres...e o outro candidato " da direita" era o temível fassista Freitas do Amaral, que comia comunistas ao almoço como quem devorava croissants na Versailles, com um sombrio "loden" proveniente da ainda mais sombria Caríntia ou coisa que o valha). 


















Em 1988 o Expresso publicou no suplemento a Revista, de 31 de Dezembro desse ano, um artigo extenso sobre "o novo clube dos ricos" e começava assim a prosa, assinada por Sofia Pinto Coelho, mais tarde jornalista da SIC: " Subitamente, a ideia de lucro tornou-se mágica em Portugal. (...) até os filhos dos operários de Setúbal respondem, nos inquéritos das escolas, que, quando crescerem, querem ser "empresáros". O tempore! O mores! E a Constituição ainda a jurar que íamos a caminho do socialismo...




















No mesmo artigo retratava-se o panorama empresarial português da época, depois das nacionalizações de 1975 e antes das privatizações.

Alguns meses depois, o mesmo Expresso na mesma a Revista de 8.7.1989 publicava um extenso artigo sobre "os grupos económicos em Portugal" e começava assim a escrever, Virgílio Azevedo: " Catorze anos depois das nacionalizações, os grupos económicos estão de volta. " O jornal seleccionou os "dez mais": Sonae, Jerónimo Martins, Amorim da cortiça, Vicaima, "grupo discreto" de Álvaro Costa Leite, Espírito Santo ( o único que se reorganizou integralmente depois das nacionalizações)ainda com Ricardo Espírito Santo, outra loiça que já não há , Entreposto de Dias da Cunha, RAR, de Macedo Silva, Interfina de um tal Ferro Ribeiro, testa de ferro de interesses orientais, Colep de Ilídio Pinho. E apresentava depois "outros grupos", quase todos do Norte, a saber, Salvador Caetano, Manuel Violas, Nelson Quintas, José da Costa Oliveira ( Riopele), Eduardo Pinto ( Soja de Portugal) e Fernando Guedes ( Sogrape) e ainda Vista Alegre e Mendes Godinho.
Eram esses os criadores de riqueza de então, em Portugal, para além, claro do IPE que agregava as empresas públicas.
É ler o artigo sobre o Espírito Santo e reflectir nas comparações.


Por outro lado, o Expresso de fim de ano de 1989, ( a Revista de 23.12.89) evidenciava o acontecimento do ano em Portugal como o início do processo das privatizações, ocorrido em 26 de Abril desse ano. E escrevia assim Luís Marques: " Ao contrário do 11 de Março de 1975, o 26 de Abril de 1989 não será recordado no futuro como uma data de referência na história portuguesa. No entanto, ambas balizam dois momentos de mudança na economia portuguesa: o primeiro com as nacionalizações e o segundo com o início do processo das privatizações."
E apresentava o panorama:


Ainda no final de 1988, o Expresso na sua a Revista de 24.12.1988, publicou este artigo de recensão dos acontecimentos do ano que passava e anunciava o silêncio das rádios pirata nesse dia de véspera do Natal, porque a legalização chegaria depois. À TSF e às demais que "passavam tudo o que se passava".

Entretanto já havia escândalos: Miguel Cadilhe, ministro das Finanças e que se propunha baixar a taxa de inflação para seis por cento ( ia quase no dobro) organizava os milhões que entretanto chegavam da CEE. E a par disso esqueceu-se de pagar uma sisa por uma permuta de um apartamento modesto por outro mais vistoso nas Amoreiras, usando carros da guarda fiscal para as mudanças...
Nada de especial e até Vasco Pulido Valente lhe consagrou uma crónica no Independente de 10.2.1989, intitulada "A caça a Cadilhe" onde lembrava "o caso da caleche oferecida a Costa Cabral por um certo Frescata em troca de uma comenda."...coisa mixuruca, dizia VPVporque pequena corrupção desta sempre houvera em Portugal e nem devia ser notícia. Além disso lembrava que " se Cadilhe fosse na realidade corrupto, não comprava andares nas Amoreiras, punha dólares na Suíça".
Enfim, o mote estava lançado para o devorismo que se seguiu. Depois de Cadilhe veio o caso Costa Freire.



4 comentários:

Floribundus disse...

face aos ps de guterres e sô zé fugitivo estes eram aprendizes de feiticeiro.
Freire dizia que não pertencia à 'seita da mão fria e luta por um croquete'.

a dívida pública era uma miséria comparada com a de hoje.

depois vimos rebolar o 'queijo limiano', as auto-estradas para lugar algum, aeroportos sem aviões, faces ocultas, freeports,

os 'vampiros' chegaram 'comeram tudo e deixaram dividas'

veio o FMI. Pum, catapum

quem ficar até ao fim 'que feche a porta e apague a luz' do fundo do tonel

Streetwarrior disse...

Caramba José...eu fico sempre de boca aberta com o acervo jornaleiro que "Bósmecê".
Hoje ao ver estas paginas lembrei-me de...
Bem pensado ...vou começar a guardar todos os meus doc de identificação e os jornais desta época, pois,actualemnte passamos por tempos fantásticos de "a história repete-se " e mais tarde, talvez possam ser uteis para explicar muita coisa, pois a história tem tendencia a ser sempre escrita pela pena dos victoriósos.

I´m flabagasted...
Abraço José

josé disse...

You ain´t seen nothing yet...é uma música de 1974 dos Bachman Turner Overdrive, grupo canadiano que passava na Página Um, nos primeiros meses de 1975.
O animador do programa era Luís Filipe Martins ou Luís Paixão Martins que tive o gosto de conhecer aqui há uns meses, em Lisboa. Onde aliás lhe manifestei a minha admiração pela apresentação do programa da minha adolescência.

Nessa altura, a Página Um era um covil ou se se quiser, um reduto da extrema-esquerda. Passavam os discos mais revolucionários que poderiam existir. Os da América do Sul que glorificavam Vítor Jara, o comunista assassinado por Pinochet e outros, como os da Expression Spontanée, da França, com músicas como Cadence, sobre as linhas de montagem de automóveis em França.

Sabe o que faz hoje LPM? É o principal responsável por essa agência de imagem e comunicação, precisamente LPM que ajudou alguns governos, incluindo o de Sócrates a mostrar uma imagem mentirosa para o país.

Mesmo assim, sempre que me lembro dos tempos da minha adolescência, condescendo logo em admirar essa época gloriosa culturalmente e economicamente desastrosa- por causa do comunismo precisamente.

lusitânea disse...

O futuro prometido era tão cheio de sol que até mesmo o SMO foi considerado um entrave na "carreira" dos jovens.Curiosamente agora ou são arrumadores de carros devidamente drogados, desempregados sem conhecimentos produtivos ou emigrantes.Claro que para alguns cheios de "empreendedorismos" a vida foi fácil, com licenciaturas na hora e empregos governativos garantidos.Por conta do resto a caminho da escravização por haver tanto planeta por nossa conta a salvar...