sábado, 2 de março de 2013

As Humanidades perdidas

Camilo Lourenço, um jornalista-economista dos que não foram muito afectados pela vaga das pallas, escreveu no outro dia um artigo no Diário de Notícias em que defendia que os estudantes deviam escolher os cursos superiores de acordo com a empregabilidade ( a previsível, penso eu de que...).
Hoje o DN faz esta página para discutir o assunto que aliás é muito interessante: para que valem as Humanidades, no ensino? A História, a Psicologia, a Filosofia e outras disciplinas de ciências humanas valem ,alguma coisa para quem tem ambições a ser médico ou engenheiro ou mesmo gestor?
O equívoco de Camilo Lourenço pode não ser um equívoco quando vemos um Rui Tavares, formado em História da Arte, a debitar palpites televisivos e jornalísticos sobre assuntos económicos tout court e habitual par de botas marxista contra o capitalismo. Politicamente o pensamento desses e doutros já vem enviesado pela ideia de Esquerda.
Porém, para discutir essa ideia de Esquerda é essencial perceber História e Filosofia e mesmo Psicologia, para além de um pouco de Economia (as regras da oferta e da procura e as do capitalismo de Estado chegam, se bem apreendidas).
A questão das Humanidades coloca-se assim num ponto charneira: que Humanidades e ensinadas por quem? Em Portugal são ensinadas pelos marxistas ou marxizantes ou simpatizantes e como não há alternativas tempos um ensino coxo e uma visão zarolha e canhota para usarmos expressões semióticas. Em Portugal, salvo raras excepções, a doutrina oficializada sobre as Humanidades é a do ISCTE.
O problema das Humanidades em Portugal está em quem ensina e em quem tem a chave do discurso que as editoras publicam e os manuais aprovados ensinam.
E quem a tem é a Esquerda. A portuguesa, a dos grandoleiros e companhia.
Aprender História em português é como aprender a História da Segunda Grande Guerra escrita apenas por um judeu que perdeu a família num campo de concentração:  por muito que queira ( Hanna Arendt) não consegue ser objectivo e imparcial.


15 comentários:

Vivendi disse...

Excelente José!

O marxismo cultural domina as universidades e os resultados são a porcaria que se vê.

JMCL disse...

Em certas universidades ensina-se o "marximo cultural" , segundo o qual as pessoas não têm privilégios, têm direitos.

Noutras universidades ensina-se o "(ultra)liberalismo cultural", também social e económico, e segundo os seus cultores os direitos dos indivíduos são afinal privilégios.

A discussão está pois inquinada pela ideologia e a falta de senso comum nunca foi boa conselheira. É por isso que não saímos do pântano.

Rui disse...

josé,
eu vejo esses camilos lourenços e quejandos a porem em causa o ensino das humanidades e fazendo a apologias das profissões utilitarias (economia, gestão, engenharias, medicina, e pouco mais).

Agora a meu ver o problema que nós temos é um problema essencialmente economico e de gestão. Não faria mais sentido por em causa a qualidade de formação de gestores e economistas? andamos há décadas a lançar para o mercado de trabalho numerosos gestores e economistas supostamente com formação completa na área. Até há pouco tempo do que via pela TV e pelo que via na televisão a sua formação era quase limitada a uma escola de pensamento único baseada na privatização, desregulamentação completa e desmantelamento do estado social como solução para todos os problemas economicos...

Em suma, será que a formação dada nas universidades desses cursos supostamente utéis à sociedade de gestão e economia, é minimamente relevante? por quem é dada? valerá a pena realmente andar a formar gestores ou economistas ou dado a situação geral do país será que mais vale é desinvestir nessa éra visto que parece que eles "não percebem nada do assunto"?





mais do que quem ensina as humanidades eu ponho em causa quem ensina gestão e economia. E nestas faculdades domina uma ultraliberalismo parolo em que a desregulação e

josé disse...

Rui:

Quando vejo um director de uma escola superior de Economia a mestrar cursos totalmente em inglês eventualmente por causa dos professores estrangeiros que não sabem falar português e é atribuída a essa escola de pós graduação em MBA uma notação máxiam em termos europeus, fico perplexo.

Com a parolice, claro.

Rui disse...

Acho que faltou um bocadinho de edição no meu comentario acima...

Pois mas a questão está mesmo aí, é que esses tipos é que é suposto perceberem de economia, não são os de humanidades, que obviamente poderão ter as suas ideias e opiniões relativamente ao tema, mas não são credibilizados por um título académico na área.

E infelizmente josé a maioria dos académicos nessa área é de direita, o louçã é uma ave rara...

josé disse...

Mas quem é que disse que o neoliberalismo é de direita se nasceu do trotskismo e do radicalismo?

josé disse...

Aliás, é esse o problema: os neoliberais não se distinguem muito dos radicais da esquerda, nos métodos.

E parece-me histórico tal fenómeno, como já foi apontado por muitos.

Rui disse...


bom, aí pôs uma boa questão. Sabe mais de história do que eu:)

Mas pelo menos no entendimento do dia a dia as posições neoliberais são defendidas por partidos que são tidos como mais de direita...

josé disse...

Mas...o que defendem realmente os partidos ditos de esquerda ( PS, BE e PCP)? Sim, o que é que defendem para além das proclamações grandoleiras à anarquia?

Como é que estruturam a produção de bens e serviços em Portugal? Qual o papel do Estado?

Porque é que ninguém lhes pergunta tal coisa?

josé disse...

O Paul Krugman é de esquerda?

josé disse...

Ou é apenas anti-neoliberal?
E apoiou ou não o big bail que a Administração americana fez aos bancos em 2008?

Floribundus disse...

aqui entra um anarca que concluiu que a social-democracia nem é social, muito menos democrática.
de facto do trotskismo caiusse no oposto.

os contribuintes não podem sustentar sectores improdutivos
num século de falência do estado social europeu.

a europa já não explora o 3º Mundo. se quizer bem estar tem que o conquistar.

nos últimos 5 anos desapareceu um milhar de profs das facs
e ninguém deu por tal.

Rui disse...

"Mas...o que defendem realmente os partidos ditos de esquerda ( PS, BE e PCP)? Sim, o que é que defendem para além das proclamações grandoleiras à anarquia?

Como é que estruturam a produção de bens e serviços em Portugal? Qual o papel do Estado?

Porque é que ninguém lhes pergunta tal coisa?"

José penso que o único partido que tem um posição coerente e constante sobre esses temas será o PCP, que advoga a colectivização e centralização da produção segundo a doutrina comunista, quanto a todos os outros partidos penso que não vale muito a pena perguntar-lhes isso pois se calhar amanhã já defendem outra coisa.

Aqui pelo rectângulo olha-se mais para a política como quem vai à bola...

A meu ver penso que Krugman seria de esquerda moderada pois advoga a despesa pública em períodos de contracilo económico, mas digo isto apenas pelos artigos dele que encontro pela net pois não conheço o pensamento economico de Krugmane em profundidade....

Kaiser Soze disse...

Infelizmente não consegui encontrar o artigo do Camilo Lourenço, apenas excertos.
Se o Camilo Lourenço afirmou que não precisamos de historiadores, é um idiota.
Se o Camilo Lourenço afirmou que há historiadores a mais, não possuo conhecimentos estatísticos para responder.

Pelo que ouço do Camilo aqui e ali, na televisão, parece-me que ele tem um horizonte limitado no que concerne à análise social; é importantíssimo conhecer mais do que números para uma correcta leitura do que nos rodeia e, inclusive, para, posteriormente, converter esse conhecimento em números.

Quanto ao ensino das humanidade pender para a esquerda até me parece correcto mas, como qualquer interessado em história saberá, é inevitável que uma vitória de uma força política - neste caso a esquerda - impregne o que daí por diante se ensinará e, até, praticará.
Por exemplo, não são permitidos partidos de extrema direita, constitucionalmente, mas, por omissão, os de extrema esquerda são.

A história é escrita pelos vencedores, sem excepção (mais uma coisa que se aprende quando não se tratam apenas equações e algoritmos).

mujahedin مجاهدين disse...

Meus caros,

eu não li o texto de Camilo Lourenço, mas assim de repente, inclinar-me-ia para lhe dar razão, por dois motivos principais:

a) Ensinar "humanidades" a quem não sabe ler nem escrever, é tempo perdido.

b) Seja para que negócio for, alguém contrata um (alegado) especialista em Shakespeare, à frente de alguém que saiba fazer aritmética básica (contas de dividir)? Tenho dúvidas.

Eu não tenho nada contra as humanidades (eu prefiro chamar-lhes "Letras"). Antes pelo contrário: acho que a minha formação foi deficiente nesse sentido e gostava de ter tido mais. sobretudo em Filosofia.

Agora, porquê escolher? Eu poderia ter tido muito mais formação em Letras durante o secundário sem prejuízo da minha formação científica. E acho que o reverso também se aplica às pessoas que preferem Letras.

Mas o essencial é isto: a esmagadora maioria das pessoas vai para Letras porque não quer dar-se ao trabalho de aprender matemática (e física, e química, etc), e ninguém as obriga.
Donde sucede necessariamente que nem serão bons em Letras, nem em coisa nenhuma. Que é o que se verifica na prática.

Mais, descontando o evidente enviesamento político nas Faculdades de Letras, há um muito mais pernicioso: como se pode esperar que alguém tenha aquilo que se chama "consciência política", ou lá o que é, se nem é capaz, por si próprio, de calcular uma simples percentagem para determinar se lhe diminuem o salário, ou quanto deve à conta das pessoas em quem vota??

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