terça-feira, 15 de julho de 2014

Qual foi a ética de Ricardo Salgado?



Há cerca de quatro anos escrevi aqui o seguinte, comentando uma entrevista de Ricardo Salgado ao DN e mencionando valores éticos:

O Diário de Notícias de hoje, entrevista Ricardo Espírito Santo,o neto do fundador do BES. Entre as afirmações mais importantes do banqueiro, contam-se a de não desejar eleições e de considerar o actual primeiro-ministro, "um bom primeiro-ministro" que tem sido "muito atacado pelos media".Sobre o novo líder do PSD, já se apresta a desejar-lhe prosperidades. E diz assim, no final da entrevista:
D.N.O BES é visto como um banco do regime, emprega políticos. Foi buscar Durão Barroso à última fase do Governo de Cavaco Silva, depois cedeu Manuel Pinho para o primeiro Executivo de José Sócrates. Investe nas pessoas com uma perspectiva de poder?Ricardo Salgado- Gostava de lhe dizer que não somos um banco do regime. Esta instituição tem raízes há mais de 140 anos. Começámos na monarquia, passámos a implantação da república, depois as nacionalizações, novamente a república. O BES é um banco de todos os regimes. E se sobreviveu 140 anos foi porque foi capaz de ter sempre um comportamento absolutamente impecável. O nosso objectivo fundamental é contribuir para o desenvolvimento do País, e foi isso sempre que fizemos. Em relação a políticos na nossa organização, não posso também estar de acordo. Durão Barroso nunca foi do BES. Foi conselheiro do Grupo Espírito Santo, principalmente na altura em que estava em Washington a leccionar, e depois esteve muito pouco tempo como conselheiro do grupo a nível internacional, porque voltou ao PSD. E Manuel Pinho foi, de facto, um elemento que esteve connosco bastante tempo, saiu para o Governo. Mas eu gostava de recordar que, desde as privatizações, houve múltiplos governos. E, dos talvez dez ministros das Finanças que o País teve, cinco entraram ou saíram de outros bancos em Portugal e nenhum para o BES. Falo de ministros das Finanças, que é a área fundamental relativa ao sector bancário.
D.N.-Que importância dá à relação com os políticos e com o Estado?
R.S.-As relações são fundamentais. Todos os grupos e bancos, principalmente os bancos com dimensão relevante, têm de ter um contacto com o Governo. Nós temos de falar com o Governo, quer na área das finanças, da economia, quer nas diferentes áreas onde o banco ou os seus clientes podem ter intervenções. Os banqueiros são obrigados a ter contactos com o Governo e também, naturalmente, com o primeiro-ministro.
No livro muito interessante, Salazar e os milionários, (do jornalista Pedro Jorge Castro, para a editora Quetzal, 2009), a dado passo ( pág. 31) escreve-se, citando depois Irene Pimentel, que "Não se crê que os empresários tenham ficado mais ricos por terem subornado Salazar ou os seus ministros- é convicção geral que nem uns nem outros se prestariam a isso. Mas houve uma cumplicidade evidente, com benefício para todos: os empresários prosperaram nos negócios e ajudaram Salazar a manter o seu poder absoluto." (...) Salazar não era venal mas gostava de exercer o poder, de ver os empresários dependentes, a informarem-no de tudo e a fazerem-lhe pedidos."
Numa carta de Marcelo Caetano a Salazar, de 1944 ( ainda em plena guerra mundial), citada no livro mas com publicação original num outro livro, de Freire Antunes, aquele dizia a este: " Confrange-me ( repito) a desagregação moral progressiva do País, não contrariada, não evitada, pela acção do Governo. Deixa-se por exemplo criar a convicção de quem põe e dispõe nos bastidores são os homens de negócios, os homens do dinheiro."
As relações pessoais entre Salazar e Ricardo do Espírito Santo Silva, filho do fundador do banco BES, são analisadas no livro de modo interessante, através de cartas trocadas entre ambos e que podem e devem ser lidas como um modo de entender o que significa uma ética nos negócios e no poder político, no contexto do regime de Salazar. A estreita relação de amizade entre ambos nunca se traduziu numa vantagem que fosse indevida do ponto de vista ético, ao que é dado ler. De parte a parte.
Comparadas com o conteúdo das escutas telefónicas que se conhecem do processo Face Oculta e que mostram a elevação moral e ética do primeiro-ministro que temos e que o filho do antigo amigo de Salazar, considera um "bom primeiro-ministro", servem ao mesmo tempo para perceber o fosso incomensurável que separa essa ética de governo com a actual farrusquice indigna que se mostra em evidência permanente no discurso privado do actual primeiro-ministro e que pelos vistos não incomoda minimamente o actual líder do BES. Sinal dos tempos? Talvez e principalmente sinal da degenerescência dos valores, princípios e referências.
É evidente que este é o principal problema que temos em Portugal actualmente: a corrupção de valores e princípios.

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