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quinta-feira, 7 de julho de 2016

O horror às regiscontas e o analfabetismo matemático

Estamos melhor ou pior do que há um ano atrás? Provavelmente, pior...

Porque é que isto acontece ciclicamente e com o PS como protagonista de sempre? Provavelmente por causa de um fenómeno que em 1988, num livro então publicado pela Europa-América se chamou Inumerismo, ou " o analfabetismo matemático e as suas consequências".


As três primeiras páginas explicavam o livro:


Em resumo, o horror às regiscontas provém daqueles que sempre tiveram dificuldade em fazer contas. É um reflexo de defesa patético e perigoso que espelha um complexo de inferioridade, ultrapassado pela sobrevalorização de uma certa "cultura" livresca e dispensável na maior parte dos casos.

 E...no tempo de Salazar/Caetano estávamos melhor, relativamente? Tendo e pensar que sim, perante as perspectivas que então tínhamos, mesmo sem Ultramar e apenas com as nossas empresas que na época eram prósperas e geridas com "alta qualidade".
O país de então era muito mais pobre do que hoje, mas a  riqueza de hoje é supérflua em muitos casos e tipicamente de "novo-rico" o que provoca a inquietação da instabilidade e insegurança do status quo. Muita da prosperidade actual parece oca e sem base de sustentação, como o excesso de auto-estradas, por exemplo.

Antes de 25 de Abril de 1974 a construção de auto-estradas era um projecto ambicioso que se iria fatalmente desenvolver, mesmo sem o assistencialismo da CEE ou de fundos estruturais europeus.

Assim o relata o Observador ( the real thing) de29.5.1971, em pleno marcelismo:


De notar o modo coerente, lógico e compreensível para o senso comum, como se planeavam estas coisas de se pensava executar.



Na época Observador, 9 de Novembro de 1973) Portugal tinha mais engenheiros do que a Espanha...


E a evolução mostrava-se em anúncios, assim, a carros populares, neste caso franceses e italianos:




 Ou os carros japoneses, num anúncio de globalização avant la lettre ( Século Ilustrado 9.5.1973).



  E também a um fenómeno de costumes importados: o uso do chiclete ( Século Ilustrado, 26.12.1970)...




Começava a dar-se atenção à formação profissional nas empresas de um modo que hoje duvido que aconteça com a mesma coerência e qualidade, como mostram estas imagens do Observador de 5.11.1971.



No entanto, o discurso do Humanismo versus tecnocracia colocava-se num registo parecido ao actual...como mostra este artigo de 9.11.1973



Quanto à tal cultura livresca, também não ficou para trás, com um fenómeno inesperado, advindo do lançamento em 1970 de uma série de 100 livros, a um ritmo semanal...e cuja história já foi contada aqui:
Em 1970, em colaboração com a RTP, a Editorial Verbo lança a Biblioteca Básica Verbo – Livros RTP , uma colecção de livros de bolso. A ideia surge de uma experiência idêntica que se havia realizado, com grande sucesso, em Espanha, com a televisão espanhola e uma editora madrilena.
 O então Presidente da Direcção da RTP, depois de uma viagem a Espanha, vem muito entusiasmado com a ideia e é dirigido um convite à Verbo para ser a editora portuguesa a participar neste projecto. 
Tratava-se de uma acção completamente inovadora no mercado português, da qual jamais, na altura, se teve noção da dimensão que o empreendimento iria tomar e na qual todos os detalhes foram cuidadosamente trabalhados. Foram estudados incansavelmente cada um dos 100 títulos a incluir; a periodicidade, acabando por se optar pela semanal; o papel a utilizar nos livros; a cartolina das capas; o tipo de letra; o formato do livro; o grafismo das capas (da autoria de Sebastião Rodrigues, o pai do design gráfico português) e a distribuição. 
Também na distribuição este projecto se revelou extremamente inovador. Montou-se uma rede de distribuição inédita, com 3500 pontos de venda (note-se que então o número de livrarias registadas não ultrapassava o 600), para o abastecimento dos quais a Editorial Verbo teve que reforçar a sua frota de transporte com oito novos furgões.


Curiosamente, passados tantos anos, foram repescar a mesma ideia...pelo que já agora poderiam fazer o mesmo à colecção foi lançada logo em 1971 pela Europa-América e que durou muitos mais anos.


10 comentários:

zazie disse...

Muito engraçado esses recortes que foi buscar.

É verdade que o dito humanismo esconde a deficiência aritmética.

Mas depois existe outra coisa mais perigosa- aqueles que até sabem fazer contas e as martelam sob o manto humanista.

Os Louçãs é que são a nossa catástrofe matemática.

josé disse...

Parece um paradoxo mas sai-se dele como se sai de todos os paradoxos: abandonando a lógica que os engendra.

Louçã sabe fazer contas como também sabia o João Martins Pereira. Mas essas contas não contam como argumentos para quem contesta o método de as produzir.

A discussão escrita entre Champallimaud e João Martins Pereira, no Inverno de 1974 e que aqui já dei conta em tempos mostra isso mesmo.

aqui

josé disse...

A resposta de JMP, do tipo das que Louçã hoje em dia debita quase todos os dias na SICN, falha na explicação de uma coisa prosaica e simples de entender e que Champallimaud dizia claramente:

"Tivesse tido a Siderurgia Nacional o Estado como proprietário e ela não passaria hoje de um lamentável empreendimento a custar ao erário público, isto é, a todos nós, fortunas sobre fortunas, contribuindo, como tantos outros negócios para que alguns políticos impelem o Estado, para o agravamento sucessivo dos impostos e o retardamento da elevação do nível de vida da população".

Foi exactamente isto que se produziu dali a meia dúzia de anos, já com uma bancarrota em cima.

A esquerda, essa, nada aprendeu, nada esqueceu e está na mesma, passados estes 40 anos.

Por isso estamos como estamos.

josé disse...

As contas são matemática, mas quem as faz são os regiscontas ou os seus inimigos, em nome de outras contas.

Viu-se e continua a ver-se quem tem razão, mas não chega porque para todos verem é preciso querer.

josé disse...

A esmagadora maioria das pessoas não quer ver. Prefere apenas acreditar e é isso o problema maior.

zazie disse...

É isso- não querem ver por uma questão de fé.

A fézada tem o ingrediente da luta de classes e, contra isso, dá-me ideia que não há nada a fazer.

josé disse...

Daí o problema se situar na origem que foi o dealbar do 25 de Abril de 1974 e da doutrinação sem contraditório que então se verificou.

Ainda estamos sob influência disso, a meu ver. E daí a minha luta...ahahaha.

zazie disse...

E tem razão.

Todos os dias confirmo isso.

Só me custa mais entender o efeito dessa doutrinação em gente toda bem, toda queque, que nada tem a ver com inveja mas vai atrás desses pergaminhos escardalhos "anti-fassistas".

Agora o povo que vem do nada é mesmo assim e não há nada a fazer.

Os que foram doutrinados com essa ideia da exploração e de tudo ser vítima do capitalismo, não largam a treta do dogma.

É estranho mas chego a detectar isso em pessoas conhecidas. Sem se estar à espera lá vem a queixa e o "atirar à cara" de que até a falta de rugas numa família não é genética mas privilégio de classe

eehhehehe

A sério. Dizem logo que foi é por falta de preocupações e até a longevidade é classista- nunca pode ser de quem venha do "campo".

zazie disse...

Quando lhes pergunto se a Stéphanie do Mónaco, ficou assim enrugada por ter tido uma vida dura de enxada na mão ou de ter apanhado demasiado sol na praia, entopem.

":OP

Floribundus disse...

o auto-nomeado monhé disse que lutava contra as sanções

não contras as politicas que conduziram a elas

o rectângulo está cada vez mais falido

ninguém quer trabalhar
em Alpiarça a apanha de morangos´faz-se com nepaleses

no Alto Douro as vinhas , olivais eamendoaus estão a cargo de búlgaros

os ucranianos tiram cortiça no Alentejo

arrepia-me ver certos teóricos que por aqui passam e nunca criaram um posto de trabalho

tirei dezenas da merda,
mas fizeram tudo para regressarem à casa mãe

'andor'
'estão presos pelo osso da rabadilha',
como nos Retalhos