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sábado, 24 de setembro de 2016

O livro dos mortos-vivos

 Há dias li uma croniqueta que me impressionou pela virulência sarcástica algo estranha e pelo relativo despropósito de tamanha desmesura na ofensa pessoal.
Um jornalista que insulta outro jornalista deve ser escrutinado acerca dos motivos por que o faz. Desconfio que neste caso será assunto nebuloso.


A croniqueta, de Ferreira Fernandes, vinda de uma loca infecta:

O Eu e os Políticos, o novo livro de José António Saraiva (JAS), é um capítulo da obra mais vasta Eu e o Mundo que o homem anda a escrever há décadas. Por falar em políticos, Jérôme Cahuzac, ex-ministro francês, está a ser julgado por trapaças com o fisco. Há dias, no tribunal, pediram-lhe explicações por um depósito na Suíça, há 25 anos, e que ele ainda mantém. "Ah, era para apoiar o Michel Rocard", desculpou-se. Rocard é um político francês que morreu há dois meses... Nada como os mortos para depositarmos culpas. Canalhices de políticos lembradas, passemos então, sem sair do género, ao magnífico "Eu...", o JAS e as coisas picantes que ele sabe sobre os nossos políticos. Olha, o irmão que já morreu, a contar ao "Eu" a sexualidade do irmão; olha, o escritor que já morreu, a contar ao "Eu" as brejeirices dum ministro; olha, um ministro que já morreu e que, moribundo, invocou ao "Eu" a sua doença para sacar umas massas... Na capa do livro desenha-se um buraco de fechadura, erro gráfico: o JAS espreitou menos do que cavou em campas. E é pena, porque o "Eu", só, é mesmo fascinante. Falava ele com o político Arnaut, um dos responsáveis do Euro 2004 em Portugal, e disse-lhe: "Já pensou que se mandam um avião contra um estádio matam 40 mil?" Um mês depois, tungas!, havia F-16 a vigiar o espaço aéreo... "Espantosa coincidência!", ironiza no livro o nosso JAS, inventor, além do saco de plástico, dos primeiros drones antiterroristas.

Comprei o livro e pelo que li das 260 páginas soltas não encontro motivos suficientes para a desmesura do ataque.
A principal veia argumentativa, também secundada pelos papagaios amestrados  que peroram nas tv´s , do género dos daniéis oliveiras e outros que tais, segue a tese do livro dos mortos que não devem ser incomodados no eterno descanso.
Porém, este não é o livro dos mortos, nem sequer dos mortos-vivos e quem falou nisso enterrou-se.

As historietas pessoais que o autor conta no livro tem pouco interesse global para nos ajudar a compreender o regime que temos, a não ser o que já sabíamos: as personagens desta comédia são cromos repetidos ao longo dos anos. Sobre o argumento dos mortos-vivos torna-se interessante a revelação de Freitas do Amaral que terá dito em 1984 ao autor que poderia ter sido ele o candidato precidencial e que só o revelou então porque só de tal sabiam três pessoas, incluindo-se a ele próprio e duas delas tinham morrido ( Sá Carneiro e Adelino Amaro da Costa). Se isto é fazer falar os mortos, bem vinda a mediação.  Freitas do Amaral contou o caso num ambiente de almoço em 1984...

 A Visão desta semana dedicou algumas páginas a criticar a atitude do autor, José António Saraiva, citando o tal argumento dos mortos-vivos que falam por interposto medium...




O típico relato de José António Saraiva neste livro é deste género: Freitas ( que já fez duas operações...citadas) denuncia um comportamento suspeito do antigo PGR Pinto Monteiro, que em 2010 se encontraria habitualmente com o advogado de Sócrates, Proença de Carvalho e pede para nada dizer enquanto não lhe der luz verde. Que nunca chegaria...



 De resto, o episódio sobre Portas é irrelevante. Saber que será homossexual porque o irmão já morto lhe teria dito tal coisa é  motivo de indignação para hipócritas que já ouviram falar há uns anos numa tal Catherine Deneuve, relatada por um tal Rui Araújo, muito celebrado pelos mesmos que agora vituperam J.A.S. o que diz tudo sobre isso.

Este livro já vai em mais de meia dúzia de edições e não vale um chavo, para além daqueles relatos pitorescos sem rumo definido e desgarrados de contexto do nosso sistema político.  Ponto final.

O livro que deveria estar a concitar as atenções é outro, da autoria de Gustavo Sampaio- Porque falha Portugal?- editado pela Manuscrito.  Gustavo Sampaio tinha já publicado Os Privilegiados e ainda Os Facilitadores, em 2013 e 2014, sobre a mesma temática: o retrato do nosso sistema político-económico, feito através de notícias avulsas e sua interpretação.

Gustavo Sampaio, como jornalista, faz o que os demais jornalistas não conseguem fazer: apresentar factos, interpretá-los sem grande facciosismo e revelar o sistema no seu esplendor.

É um pouco o que tento fazer aqui neste blog, só para mim e para me orientar no labirinto dos acontecimentos quotidianos.
Muitos dos temas abordados neste livro já o foram aqui. Por exemplo este que serve de mote para o
 preâmbulo ao livro.





Vale a pena ler esta dúzia e meia de páginas ( para tal basta clicar com o botão direito do rato e abrir outra página. Nessa página pode ampliar-se a imagem até se tornar perfeitamente legível, melhor que se fosse o livro) e perceber o regime que temos, porque é disso que se trata, em resumo.

Nestes relatos não aparece a corrupção escarrapachada porque afinal a mesma não existe assim, como aparentemente se poderia concluir pela mistura e promiscuidade existente entre os actores de poder político, as decisões dos mesmos que afectam os portugueses em geral e a actividade pessoal e privada de muitos deles que trocam de posição ou aceitam colaborar nessas decisões, com grandes rendimentos provindos de adjudicações vultuosas, participando eventualmente nos resultados, indirectamente.

Ninguém se atreveria, ao ler isto, dizer que Paulo Rangel ou António Lobo Xavier são indivíduos corruptos porque aceitam participar nesses esquemas em que o Estado está sempre presente a entregar dinheiro aos milhões a empresas que representam ou escritórios de advogados que integram.

O problema é outro e muito mais subtil:  haverá nesta promiscuidade ruína para os interesses legítimos de todos nós que somos o Estado, incluindo eles próprios?  Haverá necessidade estrita de o sistema político-económico funcionar assim em Portugal de há décadas a esta parte?

As rendas que certas empresas privadas obtiveram do Estado justificam-se racionalmente?
Como aceitar que indivíduos que nada tinham de seu e de relevante, sendo relativamente miseráveis economicamente, depois de passarem por esses centros de poder obtivessem rendimentos de milhões, aparentemente sem sombra de pecado? Estou a lembrar-me particularmente de casos notórios e públicos como Dias Loureiro ou Proença de Carvalho, este, um advogado vindo do mesmo sítio daquele e que vicejou sempre à sombra deste regime.

Percebe-se que haja quem diga que em Portugal não há corrupção endémica e preocupante. De facto, em modo criminal e susceptível de ser comprovada em tribunais, pode não haver.

O que há é um sistema que em si mesmo é completamente corrupto. Isto não tem que ser assim e nem sempre foi.

No tempo de Marcello Caetano isto não era assim. Ponto e desafio quem quiser para verificar, pelo que aqui tenho escrito.

Portugal poderia ser outra coisa que não o que se pode ver agora pelo que se passou na Caixa Geral de Depósitos.

Nas notícias de hoje aparece a revelação que o DCIAP está a investigar crimes de administração danosa no banco público de há uns anos para cá, particularmente no tempo de Sócrates e Vara.

Este já veio dizer que é o primeiro a querer que tudo se esclareça e percebe-se muito bem ao ler a página do livro supra em que elenca os ex-políticos nomeados para a CGD.

Vara nem percebe o alcance do crime em causa porque sempre entendeu o sistema como funcionando do modo exposto.
Será caso de falta de consciência da ilicitude? Veremos...

Este livro de Gustavo Sampaio é que é o verdadeiro livro dos mortos-vivos, dos vampiros que nos sugam os recursos económicos e tudo fazem para manter o sistema que os mantém vivos...


9 comentários:

zazie disse...

Ora bem.

Tenho andado a dizer o mesmo- muito barulho para nada. Não li, nem estou a pensar fazê-lo mas esta berraria por uma tradição à Gervásio Lobato é atávica e só aconteceu por causa do Passos Coelho.

Quanto ao resto, só o José se lembra de mostrar.

Floribundus disse...

diz-se que o livro

enquanto escrevo vamos já vai na 7ª edição

a desinformação por vezes compensa

a acção provoca reacção

enquanto escrevo aumenta alegremente a divida dos contribuintes

josé disse...

Pois mas vem mais, a seguir.

A São José de Almeida escreveu há pouco sobre homosexuais fassistas...


A filha da puta que não tem outro nome teve a lata de ir buscar aos livros dos mortos as revelações...

zazie disse...

Completamente. Lembrei-me logo disso!

joserui disse...

Então quer-se dizer… a montanha de indignação que por aí vai pariu um rato como o Ferreira Fernandes e outras ratazanas indignadas? O Costa é que tem sorte… os ratos indignam-se e a caravana passa. -- JRF

Maria disse...

Olhe José, primeiro parabéns pela sua crítica desapaixonada sobre o livro de J.A.S. Depois, parabéns pelo que escreve sobre a jornalista São José Almeida. Por fim, mas não menos importante, duplos parabéns sobre as páginas que reproduziu sobre o livro de Gustavo Sampaio de que não tinha conhecimento nem do que ele continha. Vou lê-las como muita atenção.

Comprei excepcionalmente a Sábado desta semana para ler exclusivamente a entrevista feita a J.A.S. e só pelo sururu que para aí anda em relação ao escândalo que ao escândalo que parece andar a suscitar sobretudo no meio 'muito impoluto' da esquerda que temos que suportar. Não tenciono comprar o livro. As revelações que o José aqui vai deixando, àparte o que o escritor/jornalista diz na entrevista, para mim chegam e sobejam. Se o José reproduzir mais alguma coisa sobre o mesmo, lerei com todo o gosto, até para saber se a escandaleira de que a esquerda está a levantar sobre o que o dito livro contém e desvenda, é pura hipocrisia e cinismo e mais do que tudo um oportunismo descarado ao máximo, só para denegrir a direita, alguma direita, acrescente-se. Críticas que tecem diàriamente, fazendo-o desde que existe esquerda/direita (sem falar nas sucessivas de ininterruptas difamações durante quatro décadas ao 'fachismo', sem as quais, como se sabe, não teriam adquirido a força política que obtiveram) e que lhes dá azo a viverem e a sobrevivem felizes e contentes e todas as mordomias a que se julgam com direito... nesta espécie de regime/sistema desde há quarenta e dois anos. Que este Regime está podre, sabêmo-lo desde há muito. Que os partidos do Sistema estão todos conluiados na política praticada pela feitura das leis constituintes por eles justamente elaboradas com o fim pretendido, também se sabe e desde a primeira hora ou nunca teriam feito parte do regime mafioso que nos asfixia (verbo adequado e proferido a determinada altura sobre o sistema por Manuela F. Leite e muito bem achado), ainda que esta revelação tenha chegado demasiadamente tarde para os portugueses poderem hipotèticamente fazer algo para o alterar. O que evidentemente - e aqui sejamos realistas - jamais teria sido exequível de se levar a efeito perante a força poderosíssima que está por detrás desta seita mafiosa que tomou as rédeas do Poder em Portugal apoderando-se de todas as áreas que compõem o Estado para nunca mais as largar, excepto à força.

Se existam homossexuais neste Regime e havê-los-á em muito maior número do que no Anterior, mais que não fosse até porque esse era um defeito de personalidade socialmente muito criticado e extremamente penalizador para quem o possuísse. Contràriamente a este Regime que, até pela liberdade e protecção de que beneficia da parte do Estado, o que, convenhamos, não é nada de espantar. Isto tendo em conta que os há na actividade política e em muitos organismos do Estado e da sociedade sem discriminações ou a mínima censura, antes apluaso e incentivo. Mas isto ainda seria o menos, embora natural e altamente criticável face à moral vigente. O que é de nos deixar escandalizados e colocar este Regime ao nível da maior podridão possível de conceber-se e indesculpável num Estado de Direito, é o facto de estarmos a ser governados por uma seita perigosíssima, a qual não só tem destruído o próprio Estado e com ela a Nação Independente e digna que sempre fomos, mas pior do que tudo que nos podia ter acontecido como Povo foi os mesmos políticos que compõem a seita mafiosa que dele se apoderou, serem os responsáveis directos da maior corrupção e traficância ao nível do próprio Estado que jamais se verificou neste País, estando grande parte desses mesmos políticos inacreditàvelmente ainda no activo, assim como muitos dos que já se retiraram pela idade, mas não da actividade criminosa, estarem metidos até à medula no processo corrupto e corruptor de que os portugueses são os únicos gravemente lesados tanto na carne como no espírito por esta criminosa classe política.
(cont.)

Maria disse...

(cont.)

Porém, deixando de lado todos os homossexuais que pudessem ou podem co-exitir com esse defeito de personalidade e serem simultâneamente executores políticos honestos e íntegros, a meu ver ainda era o menos. O que brada aos Céus e é absolutamente inadmissível e intolerável pela gravidade a que o Povo está sujeito, não se podendo suportar mais tempo por muito que se continue a fazer vista grossa (que é o que políticos do regime mais desejam e rezam ao seu deus satânico todas as noites para que o Povo não se revolte), foi a introdução no País das redes criminosas mais violentas que existem ao cimo da Terra, incluíndo as de pedofila e a do tráfico e rapto de crianças e mulheres para a prática da prostituição no País e no estrangeiro e a demoníaca de trafico de orgãos. Isto sim, mais do que segredos de polichinelo sobre os ditos e desmentidos e outros defeitos dos políticos homossexuais mortos-vivos (como bem lhes chama o José) é que é de ter em conta como o pior pesadelo que como Povo nos coube em sorte num dia de tremendo d'azar. É bom não esquecer que estiveram e muitos ainda estão a exercer cargos na administração do Estado, políticos com práticas gravíssimas - de corrupção política, económica, social e moral - e até os houve/há criminosos de sangue (entre outros Dias Loureiro e pior do que este, Duarte Lima que assassinou ou mandou assassinar uma sua cliente para se locupletar com os seus cinco milhões de euros - cinco milhões!, imagine-se, assassina-se alguém que deposita em nós total confiança e faz-se isto por cinco milhões!, continuando esta criatura feliz e impune em Portugal, que não no Brasil onde o querem julgar pelo crime cometido e que fora brilhantemente investigado, sendo ele inequìvocamente o culpado, grande Brasil e grande a Justiça a que lá se pratica - sem esquecer os crimes praticados pelos participantes diários (investigados e completamente identificados pela Polícia) na rede pedofila de Estado, em que vários miúdos abusados enquanto crianças pelos mesmos políticos e perpetradores destes crimes infra-humanos cometidos durante dezenas de anos -- os mesmos que continuam inacreditàvelmente ocupando cargos governativos ao mais alto nível, alguns deles autores de decretos-lei que prejudicam gravemente a economia e as finanças do País e por inerência de todos os portugueses, fóra os que já morrerem sem terem respondido pelos crimes repugnantes cometidos contra centenas de inocentes -- se suicidaram.

Maria disse...

(Conclusão)

Resumindo. Os portugueses estão a ser governados por gente da pior espécie, que só atende aos ditames que lhes são ordenados por um super-poder exercido por um governo mundial não eleito e que põe e dispõe a seu bel-prazer sobre todas as democracias do Planeta. E ai dos respectivos governantes-fantoche que lhes desobedeçam. Têm os dias contados.

Se "isto", esta politicagem abjecta mais o triste destino a que ela nos tem vindo a sujeitar desde há quatro décadas, depois deste Povo ter vivido décadas com alegria, em paz e segurança, com trabalho para a vida e sem medo de andar na rua ou nos transportes e sem ter redes criminosas a actuar livremente no seu solo, se "isto", dizia, é o que o bom Povo português merecia ter como regime e governantes, então e que Deus me perdõe, mais valia já termos desaparecido como Povo e País. Não se pode aguentar muito mais tempo esta escravatura mascarada de regime libre e democrático. Citando o infeliz e digno Duque de Cádiz, a respeito das democracias que vão amarfanhando a carne e o espírito de qualquer ser humano mìnimamente sensível, frase proferida com toda a justeza e verdade nela implícita: "esto no es vida". Faleceu nos Estados Unidos, decepado por um cabo de aço estratègicamente colocado a meia altura numa pista de ski, quando a descia a uma velocidade relativa, não muito tempo depois de ter proferido esta frase. Pois. É com extrema facilidade e diabólica maquinação muito bem orquestrada nas catacumbas do Poder Mundial, que, vingando-se como diabos que são, eliminam quem rema contra a maré ou mesmo os que não tendo poder político ousem corajosa e patriòticamente intrometer-se no mesmo. Os que estão a favor, esses estão sempre safos, além de serem régia e vitalìciamente recompensados pela sua vergonhosa cobardia e total submissão a esse mesmo poder.

dutilleul disse...

O livro do JAS – de outro modo - também é fascinante. Ser-me-ia completamente indiferente não se desse o caso de topar com um tão grande número de canalhas a diaboliza-lo. Como escrevi aqui ( http://passaparedes.blogspot.pt/2016/09/do-arquiteto-e-das-hienas.html ). No dia seguinte comprei-o e desde então tenho vindo a escrever “notas de leitura”, quase página a página…