Páginas

domingo, 25 de junho de 2017

Afinal a Protecção Civil, no Sábado passado, mandou pessoas para a morte na EN236-1?

No tempo do fassismo, às vezes, era preciso ler coisas na imprensa estrangeira para saber novas de Portugal e do mundo em geral, mormente sobre o Leste comunista. A razão prática era a Censura em duplicado. A do regime que era Prévia e a do sistema mediático da imprensa da época quase toda enfeudada à esquerda, alguma dela comunista, como se viu logo nos dias a seguir ao 25 de Abril de 1974. Essas duas censuras cortaram muita informação que devia estar disponível. Uma acabou em 25 de Abril de 1974. A outra continua viva e actuante como se confirma por uma notícia de hoje e que abaixo se dá conta.

Dou um exemplo que vivi de perto:  em Novembro de 1973 vi esta capa nos quiosques e como ansiava em arranjar um pretexto para comprar a Time que me parecia um luxo gráfico comparado com o que havia por cá ( Observador e Vida Mundial, eram as únicas que se lhe comparavam esportulei 17$50 na Bertrand do Porto ( rua de Santo António, quem sobe para a Batalha) e trouxe o exemplar que ainda guardo. Este:


O pretexto foi a capa com Nixon e as suas desventuras no caso Watergate que terminariam no Verão do ano seguinte com o "impeachment", antecipado por uma demissão oportuna mas já em Novembro de 73 se falava nisso.
O arranjo gráfico, o papel lustroso e os temas davam gozo folhear. A páginas tantas aparece isto que não era anunciado:


A surpresa foi grande mas não evitou que pensasse que alguém nos queria mal e neste caso os americanos da Time e alguns patriotas lusos estavam apostados em denegrir o nosso país.
Os factos relatados e mais importantes ( sublinhados no texto) acompanhavam comentários do fundador do Expresso ( nesse ano, em Janeiro) e eram conhecidos e divulgados pela Oposição Democrática, nomeadamente no Congresso que efectuaram livremente em Aveiro.

A guerra no Ultramar consumia 35 a 40% do Orçamento de Estado, a emigração era elevada e "estávamos no fundo de qualquer indicador económico conhecido". Até países do Leste Europeu nos teriam ultrapassado, dizia Balsemão, o tal grande patriota do bolso fundo, não se dando conta do logro que o comunismo lhe impingira e ele engolira de bom grado, como muitos.

Não obstante estes factos conhecidos e divulgados em modo restrito ( não se fazia muito alarde nos jornais da nossa condição de pobres na Europa) eram do domínio público e quem queria saber, sabia. A oposição Democrática sabia e dizia-o, embora os jornais onde se exprimia ( quase todos, incluindo o tal Expresso) fossem submetidos a Censura que podava certas veleidades propagandísticas dos Regos do República ou dos Ruella Ramos do Diário de Lisboa.
A revista Observador, por seu turno mostrava um panorama diferente e mais consentâneo com a nossa realidade vivida no dia a dia. Em 1973 havia sinais de evolução económica muito positiva e que asseguradamente nos teria conduzido a um nível económico melhor e muito diferente da bancarrota de 1976, dali a meros três anos e já em Democracia ( et pour cause).

Em 25 de Fevereiro de 1974 voltei a comprar a Time por causa de uma capa: Soljenitsine foi o pretexto e já tinha ouvido falar por cá do escritor  russo, perseguido pelos soviéticos comunistas. Porém, o que aqui se escrevia sobre a dissidência do mesmo e a propósito dos seus livros era muito suave e filtrado pelos censores da imprensa esquerdizante nacional, na época.

A Time contava a história a que por cá nem se dava assim tanta atenção ( o Expresso passou sobre o assunto como gata em telhado de zinco quente)  e em 1975 o livro O Arquipélado Gulag teve divulgação quase nula e pelo contrário houve uma apreensão da edição do segundo volume, saído na Bertrand em 1977, às portas da tipografia, feita pelos trabalhadores comunistas da empresa e afins. O facto diz tudo dessa gente e da democracia que apregoam...


Tudo isto para introduzir o seguinte que é motivo de preocupação.

O jornal espanhol El Mundo publicou agora esta história sobre os incêndios do fim de semana passado, particularmente o ocorrido no Sábado à tardinha:

La mesa estaba puesta y así se quedó. El humo era lejanía. El sábado 17 de junio por la tarde los Lopes da Costa hablaban de lo cotidiano... De lo precoz que era el pequeño Antonio, de seis años, jugador de rugby en el equipo sub-8 de los Belenenses en Lisboa. Era el orgullo del abuelo, el ingeniero Fausto. Como lo había sido antes su hijo Miguel, hoy reputado abogado. Al pater familias le perdía también cada jugueteo del chiquitín Joaquín, cuatro años, su otro nieto. Se llevaba bien con Mafalda, la madre, una pujante arquitecta. Fausto estaba pletórico tras reunir a buena parte de sus familias.
De rato en rato, el septuagenario salía al jardín de rosas e invitaba a todo el pueblo a venir a casa. Era día de fiesta. En la velada también estaba su segunda esposa Lucília da Costa Simões. Con ella habían promovido la integración de dos ramas familiares. Acudió también Fernando Rui, hijo de Lucília, fruto de una unión previa, con su mujer y Luis Fernando, su primogénito de cinco años. Los chiquitines corrían frenéticos, imparables, en plenitud. Se preparaban para una opípara velada en el palacete, ubicado en la calle que tiene el nombre del abuelo, el profesor Antonio Lopes da Costa. Sonó el teléfono. Respondió Miguel. Y decidieron huir de Várzeas con lo puesto.
Era una llamada de Protección Civil. Le recomendaban que cogieran sus coches y desalojaran el área. Cogieron los tres vehículos que tenían en el garaje y se fueron raudos. Los abuelos en uno. En otro, Miguel, Mafalda, Antonio y Joaquín. En el tercero, Fernando con los suyos. Fueron en dirección a la carretera EN236. El punto de encuentro adonde huyeron los pobladores de Pobrais, Várzeas y Nodeirinho, equidistantes en ese orden. Como la residencia de los Lopes da Costa quedaba cerca de la carretera, llegaron prestos al infierno. Quedaron encerrados en una trampa de troncos quemados, de hojas que caían como luciérnagas mortales..
Eduardo, su vecino, conoce a Fausto desde el colegio. Tiene la punta de la nariz quemada, la camiseta manchada de tierra, está encorvado de cansancio. Le enseñamos la foto familiar del hijo de Miguel, de unos amigos que le buscaban por Facebook. Comprueba que es él, que estaba en la reunión. "No sé qué más decir". Y desde su porche dirige la vista en dirección a la casa de su ex compañero de clases. "Era mi amigo de toda la vida. Siempre le gustó vivir aquí", dice. Don Fausto era querido en el pueblo. Su familia había sido influyente desde que tienen memoria en la zona de Pedrógão Grande, la villa matriz donde todo aconteció.

Este pormenor da notícia carece de explicação dos que mandam na Protecção Civil e que o Ministério Público pode e deve indagar:

Sonó el teléfono. Respondió Miguel. Y decidieron huir de Várzeas con lo puesto.
Era una llamada de Protección Civil. Le recomendaban que cogieran sus coches y desalojaran el área. Cogieron los tres vehículos que tenían en el garaje y se fueron raudos. Los abuelos en uno. En otro, Miguel, Mafalda, Antonio y Joaquín. En el tercero, Fernando con los suyos. Fueron en dirección a la carretera EN236. El punto de encuentro adonde huyeron los pobladores de Pobrais, Várzeas y Nodeirinho, equidistantes en ese orden. Como la residencia de los Lopes da Costa quedaba cerca de la carretera, llegaron prestos al infierno. Quedaron encerrados en una trampa de troncos quemados, de hojas que caían como luciérnagas mortales.

Até agora e que se saiba ninguém mencionou este facto que a ser verdadeiro é mesmo grave: foi a Protecção Civil quem enviou aquelas pessoas para a morte. Não foi a GNR na IC8 que cortou, ainda não se sabe a mando de quem e exactamente quando e porquê.

Tal como no passado distante, estas notícias e factos são conhecidos mas não de todos e têm que ser os jornais estrangeiros a contá-los...se não ficamos sem os conhecer.

O El Mundo vai ser o coveiro político do Costa? Assim seja, se for caso disso.

Tanto falaram no diabo que ele apareceu...e a ministra é "resiliente".

Observador:

Em entrevista ao Diário de Notícias/TSF, gravada na última sexta-feira (horas antes de ser conhecido o relatório da Proteção Civil que dava conta de uma falência grave do SIRESP que se prolongou por quatro dias) e publicada este domingo, a ministra da Administração Interna admite retirar consequências das investigações à operação em Pedrógão Grande que estão em curso. “Tiraremos as devidas ilações e eu tirarei naturalmente as devidas ilações”, diz Constança Urbano de Sousa.
A ministra fala de uma “grande tragédia” mas recusa retirar “conclusões precipitadas” sobre as investigações em curso. E ressalva: “Neste momento, eu acho que é muito prematuro estar aqui a seguir pelo caminho que é fácil, era o caminho mais fácil a seguir, ia satisfazer uma certa apetência que alguns têm pelo sangue, se quisermos. Mas ia resolver algum problema pergunto-lhe a si eu agora?

Esta senhora percebe zero sobre princípios políticos democráticos tal como são amplamente proclamados...para os outros e sempre que lhes interessa. Responsabilidade política, responsabilidade objectiva, pudor, senso é tudo arrasado em argumentos patéticos e "resilientes".

Só por isso devia sair. Nem precisa de saber mais nada de relatório algum. Um cargo político exerce-se para servir um país mas não deve ser "resiliente" a vicissitudes que o colocam objectivamente em causa. 
O país não precisa de gente desta, na política.

Entretanto no CM de hoje, "ridendo castigat mores":



sábado, 24 de junho de 2017

As catástrofes "fassistas" que matam mais branco

Perante a dimensão da catástrofe do fim- de-semana passado certa inteligentsia de esquerda que protege a geringonça governativa procura comparações com outras catástrofes mais antigas e lá vai ter ao passado do "fassismo" que é sempre o de maior conforto nessa avareza cognitiva.

Na revista Visão desta semana lá aparece o antifassista de serviço ( são muitos nessa revista) Luís Almeida Martins a dar conta em relato pessoal de uma catástrofe natural ocorrida em 25 de Novembro de 1967 na área de Lisboa.


O articulista antifassista  socorre-se da memória pessoal e apresenta capas do Diário de Lisboa ( disponíveis na hemeroteca da fundação Mário Soares) e titula "surdina para 500 mortos", informando que "a ditadura teve que reconhecer que centenas de pessoas perderam a vida nas cheias de 1967", deixando suposto que as vítimas eram por si mesmas avessas ao regime que no entender antifassista pretendia submergi-las nas ondas da Censura.

A estupidez do raciocínio explana-se por si mesma no artigo em que o antifassista acusa o antigo regime de pretender esconder estas catástrofes: no dia seguinte de manhã, ou seja 26 de Novembro os jornais ( Diário de Notícas e Século)  "contavam, mas de forma tanto quanto possível contida. Falava-se de muitos mortos. Dezenas. Centenas. A Censura não podia, de qualquer modo negar a evidência. À tarde. o Diário de Lisboa era mais objectivo do que o Diário de Notícias e o Século."
Os jornais da manhã fizeram-se durante a noite da catástrofe mas o antifassista já queria informação a rodos logo pelas sete horas da matina e que só não foi possível por causa da Censura...mas à tarde já era possível saber mais. Enfim!

Se este Martins antifassista lesse e consultasse outros meios de informação teria talvez mais senso nos comentários mas não lhe seria possível vituperar o regime e a Censura o que seria uma uma frustração.

Assim, haverá que recorrer a outras fontes para saber o que aconteceu na informação a propósito da catastrofe.

Um livro antifassista também, editado em 2006 pela Bertrand ( Portugal século XX, de Joaquim Vieira)  mostrava imagens da catástrofe tal como publicadas na época e a imagem da capa da revista Século Ilustrado.
As imagens são eloquentes e mostram por si o que estes antifassistas primitivos pretendem esconder: que em 1967 a Censura tinha outro recorte e função que não o que lhe querem atribuir à outrance. E que as imagens então publicadas hoje em dia, neste antifassismo militante, seriam impossíveis. Vá lá explicarem isso...!


Para além da catástrofe de Novembro de 1967 outras são citadas pelo antifassista. Uma de 1966, num incêndio em Sintra, em que morreram 25 militares ( na altura combatiam incêndios, sem problemas burocráticos de maior...) e ainda o terramoto de 1969.


Esqueceu-se o antifassista destes caso singulares, também mostrados na imprensa da época:


Até quando teremos estes relatos tendenciosos, maliciosos e falsos? Até quando continuarão o livre curso na imprensa portuguesa actual? Os media portugueses actuais estão inundados de "fake news", de "demagogia cognitiva"  em que aparentemente alimentam uma imagem auto-construída e falsa em si mesma: a de o regime de Salazar e Caetano ser fascista, em primeiro lugar. E em segundo, de ser aquilo que nunca foi: uma opressão constante e permanente, totalitária, a usos, costumes e modos de viver populares. O regime anterior, nesse aspecto era mais liberal e livre do que o actual, por muito que lhes custe a aceitar.
A permanente guerrilha cultural e gramsciana a que se entregaram de alma e coração de há 43 anos a esta parte não encontra grande resistência, é certo. Mas a verdade acabará por se impor, uma vez que não é possível enganar toda a gente durante o tempo todo.

Esta atitude recorrente não se distingue muito da falsificação fotográfica praticada pelos soviéticos quando apagavam literalmente figuras que deixavam de ser benquistas do regime. E sabemos como isso acabou.

O incêndio da Informação

Vale a pena ler os jornais de hoje sobre os incêndios do fim-de-semana passado. Os artigos são interessantes, as opiniões quase unânimes ( quem manda falhou por incompetência e desleixo) e há histórias de quem viveu o horror da tarde e noite de Sábado passado.

Para além disso há relato de alguns factos necessariamente conexos a uma explicação para o que se passou na realidade.

Porém, a qualidade dos escritos não é toda igual nem a qualidade é geral. O Sol é uma decepção, nesse aspecto e nada tem de especialmente relevante para  informar leitores que procurem explicações para além do que se vai sabendo. O destaque vai, aliás, para a opinião escrita em duas páginas de reportagem com "bombeiros e populares" que acreditam ter o incêndio uma origem criminosa, particularmente nos reacendimentos.
Sobre o ponto fulcral- as mortes na EN236-1 pouco de novidade ou relevância.

O Correio da Manhã continua o registo de maior atenção aos dramas humanos das vítimas e tem o testemunho de mais uma sobrevivente do inferno naquela estrada nacional. É pena que não tenha sido perguntado o circunstancialismo típico do jornalismo: quem, o quê, como, quando e onde. Faltou o quando, relativamente à hora e o onde relativamente ao ponto de entrada na EN236-1. A testemunha diz que aguentou 4 horas dentro de uma carrinha de peixe, refrigerada, juntamente com outras pessoas que conseguiu resgatar no caminho e que quando passou, "vi um enorme túnel de fogo mas já não conseguia recuar. Avancei e, quase em visibilidade, embati nas valetas, nos raisl e nos carros que ardiam no meio da estrada. Não vi ninguém mas imagino que estivessem pessoas lá dento e o que atormenta é que se calhar atropelei pessoas sem querer." 

Obviamente terão sido estes os minutos fulcrais dos factos ocorridos na EN236-1 e era preciso saber a que horas tal ocorreu. O jornal não perguntou...

O Público, esse, anda aos papéis, literalmente. O seu director diz que ninguém ainda sabe de nada sobre o que aconteceu na EN236-1. A testemunha do CM sabe alguma coisa...mas o Público não perguntou a ninguém que lá passou para tentar saber mais. É pena e o artigo de David Dinis é um retrato de impotência informativa e incompetência profissional.


Por outro lado olhando já para o rescaldo do incêndio foi pedir opinião em "folha A4" a um antigo governante do PSD que elencou algumas medidas que julga essenciais a tomar, chorando agora sobre o leite derramado.


A surpresa do fim-de-semana é o Expresso. Uma edição magnífica, para guardar e com relatos e opiniões de grande proveito. Tem a melhor análise, de conjunto, sobre o que se passou e traz informação nova e relevante para se entender o ocorrido na EN236-1. O pequeno artigo de Amadeu Araújo ( vou estar atento ao que escreverá a seguir...) dá um retrato de uma situação caótica e porventura próxima da realidade imaginável e comprovável. O testemunho de um bombeiro local , Augusto Arnaut, comandante dos bombeiros de Pedrógão, desmente factos relatados por "quem manda", nomeadamente os relativos ao número de bombeiros disponíveis desde o primeiro momento e os meios utilizados.  Os factos são esmagadores e denotam a suprema incompetência e negligência associada de quem manda.

Aqui está um bom guia para o Ministério Público no terreno, seguir:


A opinião de Henrique Raposo merece destaque porque a de Miguel Sousa Tavares é sectária demais: quase toda a responsabilidade é alijada  para o governo anterior. Sobre o inefável Lacerda, nem uma palavra...


Em tudo isto aparece um fait-divers que diz mais do que muitos sinais: a ministra Constança apareceu no local em sapatos de ténis ou de correr...
Não poderia haver melhor metáfora para a incompetência: um dress code errado por erro de percepção.

No final, o retrato de quem manda e dos responsáveis por esta tragédia. Já todos lavaram  as mãos...porque se agarram aos lugares como lapas.



Entretanto, torna-se necessário ouvir em investigação, este indivíduo que terá sido uma das primeiras testemunhas do início do incêndio: diz que não viu ou ouviu qualquer trovoada seca e que tal não seria possível e que por isso mesmo ficou chocado com o anúncio da descoberta da origem do incêndio.
Espera-se por isso da investigação a humildade suficiente para reconhecer eventuais erros e precipitações de análise ( a atribuição da origem do incêndio a um raio de trovoada seca). Cuidado é preciso e humildade ainda mais...
As nódoas caem no melhor pano e a melhor política não é tentar apagá-las com silêncio.

sexta-feira, 23 de junho de 2017

Subir as paradas...à custa de noticias falsas.

 O jornal espanhol El Mundo publicou notícias sobre os incêndios que queimaram a reputação política de alguns, com queimaduras ainda escondidas sob a gaze dos media nacionais, escrevendo isto:

A desastrosa gestão da tragédia pode pôr fim à carreira política de António Costa”. Assim começa um artigo do jornal madrileno sobre os incêndios em Portugal e o de Pedrógão Grande em particular, onde combatem 80 bombeiros espanhóis, apoiados por dois aviões Canadair enviados pelo país vizinho. O “El Mundo” fala ainda num “aluvião” de criticas ao primeiro-ministro e à ministra da Administração Interna, pela descoordenação no combate às chamas

Como o El Mundo não é um blog qualquer, a quem poucos ligam ou dão importância, o atrevimento em colocar em causa a actuação política do geringonço nº 1, no caso concreto, provocou logo tremideira cujas ondas de choque ainda se farão sentir nos próximos dias.

E por isso já saíram à liça os mastins de protecção que se encarregam agora de ladrar ao jornal madrileno. Assim, subindo a parada das apostas na manutenção dos geringonços, sem demissões à vista:

 Sapo24:
O Sindicato dos Jornalistas divulgou hoje um comunicado acerca da polémica nascida nas redes sociais e blogues e noticiada em alguns meios de comunicação social acerca da cobertura pelo jornal espanhol dos incêndios em Portugal, nomeadamente sobre as implicações políticas, e a existência do jornalista Sebastião Pereira, que assinava as reportagens do El Mundo.
O Sindicato diz que contactou em Portugal a Comissão da Carteira Profissional de Jornalista, que confirmou não haver registo do nome Sebastião Pereira, e também a publicação espanhola, que informou de que se trata de um profissional que já conhece e que assinou as peças noticiosas com pseudónimo.
"Nada fizemos de errado, recorremos a um jornalista que utiliza pseudónimo e que já conhecemos bem”, disse Silvia Román, responsável pela secção de Internacional, citada pelo Sindicato de Jornalistas.
Segundo a estrutura representativa dos jornalistas portugueses sindicalizados, a editora de Internacional rejeitou “dizer há quanto tempo conhecem o referido jornalista” e acrescentou que já recebeu imensos contactos de Portugal por causa da cobertura dos incêndios, o que não lhe aconteceu em mais de 20 anos de trabalho naquela secção.
"Parem de me atacar no Twitter! Parem de me enviar emails! Parem de tentar telefonar-me! Em 22 anos nesta secção nunca me aconteceu algo assim, nem nos casos da Venezuela ou da Turquia!", afirmou, ainda segundo o Sindicato dos Jornalistas.
O Sindicato dos Jornalistas termina o comunicado a informar que contactou também os sindicatos espanhóis a pedir cooperação para esclarecer este assunto.

Sobre o papel dos jornalistas no relato destes factos e acontecimentos, o jornalista Miguel Pinheiro, no Observador, pensa o seguinte:

  A obrigação de um jornalista (e não uso a palavra “obrigação” de forma leve) é mostrar aquilo que vê — mesmo aquilo que às vezes outros preferiam que não víssemos ou aquilo que nós próprios, em certas alturas, preferíamos não ver.

Com que então a obrigação do jornalista é mostrar aquilo que vê?! Tomara que fosse, porque sempre me pareceu ser mostrar aquilo que outros podem estar interessados em ver. Tal como refere o sociólogo citado num postal anterior. E é aí que ocorre a demagogia cognitiva, como o mesmo também refere: a vontade em dar a informação que coincida com a representação que se faz daquilo que seja a  procura de informação.
Quando o jornalista se deixa levar por esse conceito está próximo do "facto alternativo" referido pelos apoiantes de Trump: na cerimónia de investidura de presidente, estariam mais pessoas do que aquelas que foram mostradas pelas imagens de tv.
Tal como no funeral de Mário Soares, o contrário também sucedeu...ou seja, os jornalistas não mostraram o que viam mas o que julgavam que o povo espectador de tv gostaria de ver: um mundo de gente que não existiu. El Mundo...

O jornalismo em Portugal é essencialmente o da "verdade a que temos direito"; não é necessariamente aquilo que o jornalista vê, sente e pressente. A "verdade a que temos direito" é definida por estruturas oligárquicas, políticas, empresariais e mediáticas. São poucas pessoas e sempre as mesmas de há uns anos a esta parte. Quem manda pode.  E o jornalismo obedece fazendo de conta que relata aquilo que se vê...

Em Portugal, dizia ontem Nuno Garoupa numa tv, não há sociedade civil. Há o Estado e os partidos. Porque raio o jornalismo nacional deveria ser uma excepção neste panorama?

O Correio da Manhã e o Observador e sei lá que mais que é quase nada mais? Pois sim. Nem chegm a ser andorinhas para nova primavera. São apenas cucos que procuram chocar os ovos em ninhos que outros já fizeram. Nem podem arriscar muito porque o capital é volátil e os "ventos da História" não estão para modas. 

O verdadeiro, o falso e o quase-verdadeiro

Nem de propósito, à hora de almoço, pouco tempo antes de colocar o postal que antecede, enebriado pela convicção de que se tratava de um scoop, comprei uma revista francesa no quiosque,  com o título Papiers. E um dos temas: O verdadeiro, o falso e o quase-verdadeiro.

Se tivesse lido o artigo talvez pensasse duas vezes antes de publicar o postal. Assim, inês é morta.

Mas vale a pena reflectir sobre os perigos da precipitação de raciocínio, o erro e a falsidade inerente a conjecturas falsas. É isso aliás que nos ensina melhor o livro de Umberto Eco, O Nome da Rosa. É preciso muito cuidado com a aparência da verdade porque por vezes anda ao lado da mentira, ou até tende a sobrepor-se-lhe.
Nestes casos de investigação de factos e realidades é preciso atender aos pormenores e conjugar todos os factores plausíveis e possíveis e mesmo assim propícios ao erro. Só um grande exercício de  humildade pode ultrapassar essa tentação.

A internet ao mesmo tempo que nos dá uma quantidade fabulosa de informação traz-nos também uma carrada de desinformação e erro. E é preciso mesmo bastante atenção para não cairmos na ilusão do real, afinal decepcionante e desvirtuado.

No artigo aparece um dos intervenientes- Gérald Bonner a dizer, citando dois psicólogos que somos "avaros cognitivos" ou seja tendemos a procurar uma forma de conforto relativamente à verdade que procuramos transmitir  de modo a coincidir com a representação que fazemos daquilo que será a procura de informação. E pela conquista da atenção de quem lê.
Aqui não procuro tal coisa, mas não estou alheio a tentar comunicar o que me impressiona, como um modo de conforto relativamente à verdade.

Há por isso um perigo em quem leia o que aqui se escreve. Estejam atentos! Não acreditem em tudo e questionem tudo. Procurarei fazer o mesmo porque sou o principal interessado nesse "conforto".


Um escândalo inominável? Nao...foi no Domingo

Estas imagens do YouTube mostram aparentemente os carros da comitiva  em que seguiria o Primeiro-Ministro António Costa a passarem no IC8 no último Sábado ( errado, foi no Domingo), ainda a horas de se ver bem o dia.
Como se vê, o trânsito estava cortado à plebe..e nesse momento,( no dia anterior)  morriam pessoas na EN236 por causa destes cortes de estrada para deixar passar quem manda...
 Ainda se soubesse mandar bem!...



Perante o erro de indicação da data não faz sentido indicar demissão alguma, neste caso, mas apenas pedir desculpa a eventuais leitores desprevenidos, pela precipitação da publicação.

Como dizia o povo, "as cadelas apressadas parem crias cegas"...e é bem verdade.

ADITAMENTO:

Pessoas que prezo  alvitraram em conselho amigo a conveniência em retirar este postal. Não o farei para que se veja que o erro na internet deve ser corrigido, imediatamente, o que só é possível aqui.  Nos jornais ou mesmo redacções de notícias de televisão e rádio é mais difícil e moroso.  O caso do avião auto-tanque que caiu e afinal não caiu é um exemplo.
Por outro lado depois de cometido um erro destes não se apaga tal coisa assim, safando os vestígios da publicação. Quem fez isso e lamentavelmente foi um certo Vital Moreira, logo que leu um certo acórdão sobre um arguido excelentíssimo no caso Casa Pia, há uns bons dez anos, para cima. Leu à pressa ou leram-lhe à pressa os considerandos vertidos no proémio do acórdão da Relação que libertou Paulo Pedroso e o lente Vital colocou na sua loca infecta da Causa o veneno contra as autoridades judiciárias que tinham cometido o erro de prender o correlegionário que afinal estava inocente como uma pomba branca.
Fatal! O proémio era a transcrição da motivação de recurso do visado e não o teor da decisão que não dizia o que o lente dizia que dizia.

Quando deu conta do erro apagou à pressa e foi pior a emenda que o soneto porque tinham ficado registos atrás e o rabo felpudo do gato não ficou escondido de todo. Não quero fazer a mesma figura.


Sinais interiores de pobreza

A antiga directora do Público ( entre 2009 e 2016) Bárbara Reis está "reformada" na escrita opinativa no mesmo jornal.

Hoje estende este artigo sobre sinais exteriores de riqueza que estão associados a corrupção e "ninguém faz nada".



O caso singular retratado diz respeito a um antigo ajudante de Santana Lopes ( claro) , também presidente da Câmara de Oliveira de Azeméis precisamente durante o tempo em que aquela foi directora do jornal diário da Sonae.
Toda a crónica gira à volta de um carro de luxo emprestado ao agora arguido Loureiro por empresário amigo e que a cronista critica por ser dádiva superior ao limite da  "mera cortesia".

Subjacente, no artigo, está a corrupção e a ausência de luta adequada mormente através da sindicância de certos sinais exteriores de riqueza.

Ao ler a crónica lembrei-me logo disto, que a TVI reportou em  2010:


Em qualquer país civilizado esta notícia que dava conta da preferência de um primeiro-ministro em funções por uma loja de "apparel" de luxo no estrangeiro e com o nome próprio na montra, seguido do cargo público exercido, daria pano para mangas de reportagem e inquérito no Parlamento se os media lhe "pegassem". O Público nunca "pegou".

Em 30.3.2013 o Correio da Manhã que a antiga directora do Público deve julgar um "pasquim" , divulgou esta notícia:
 

Um mês e meio depois de ter saído da liderança do Governo, José Sócrates comprou um Mercedes-Benz classe S 250 CDI em primeira mão, no valor de 95 mil euros, que continua em seu nome, apurou o CM. Anteontem à noite, porém, o ex-primeiro-ministro deixou o carro de luxo com o motorista e apresentou-se na RTP, para a sua primeira entrevista desde que regressou de Paris, ao volante de um Volskwagen Golf alugado. Sócrates adquiriu o Mercedes, novo, em Agosto de 2011 - pouco depois de ter sido derrotado nas eleições de 5 de Junho e de ter saído do Governo no dia 21 do mesmo mês. Mas na RTP, quarta--feira, afirmou: "A primeira coisa que fiz quando saí de primeiro-ministro foi pedir ao meu banco um empréstimo para ir viver um ano para Paris, sem nenhuma responsabilidade ao nível profissional." O ex-líder do PS não referiu, porém, ter contraído qualquer empréstimo para comprar um classe S por 95 mil euros.

E acompanhou com foto do local e do modelo:


Um mês e meio depois de ter saído da liderança do Governo, José Sócrates comprou um Mercedes-Benz classe S 250 CDI em primeira mão, no valor de 95 mil euros, que continua em seu nome, apurou o CM. Anteontem à noite, porém, o ex-primeiro-ministro deixou o carro de luxo com o motorista e apresentou-se na RTP, para a sua primeira entrevista desde que regressou de Paris, ao volante de um Volskwagen Golf alugado. Sócrates adquiriu o Mercedes, novo, em agosto de 2011 - pouco depois de ter sido derrotado nas eleições de 5 de junho e de ter saído do Governo no dia 21 do mesmo mês. Mas na RTP, quarta--feira, afirmou: "A primeira coisa que fiz quando saí de primeiro-ministro foi pedir ao meu banco um empréstimo para ir viver um ano para Paris, sem nenhuma responsabilidade ao nível profissional." O ex-líder do PS não referiu, porém, ter contraído qualquer empréstimo para comprar um classe S por 95 mil euros.

Ler mais em: http://www.cmjornal.pt/politica/detalhe/saiba-tudo-sobre-o-carro-de-luxo-que-socrates-comprou
Em qualquer país civilizado estas notícias seriam replicadas por jornais como o Público, que lhe "pegariam" para questionar os visados sobre os factos. O Público de Bárbara Reis nunca "pegou".

Teriam evitado o que se passou tempos depois, com o espalhafato mediático da prisão de um antigo primeiro ministro à saída de um aeroporto e que este tipo de jornalismo asséptico tanto criticou depois? Provavelmente. De qualquer modo seria assim que o jornalismo serviria a democracia e não a oligarquia, como o Público sempre fez, tendencial e partidariamente, o que se torna ainda mais vergonhoso.  Uma prova disso está precisamente no artigo de hoje: o visado não é do partido afecto.

Bastaria que o jornal dirigido então por esta Bárbara Reis, "pegasse" no assunto.

O Público não pegou. E Bárbara Reis era a directora. E não foi por falta de informação e comentários, na época.  Pode por isso ir dar banho ao cão se é  que o tem.
O que revela com isto são os seus  sinais interiores de pobreza, afinal.

quinta-feira, 22 de junho de 2017

Num chega...o SIRESP tem Costas largas.

 Observador:

Depois de tudo o que se passou, há equipas que ainda estão no terreno e não estão a utilizar o SIRESP — Sistema Integrado de Redes de Emergência e Segurança de Portugal. O presidente da Associação Nacional de Bombeiros Profissionais (ANBP), Fernando Curto, afirma ao Observador que é “assustador e anormal, mas neste momento há bombeiros, como algumas equipas de sapadores de Lisboa, que estão no terreno e que estão sem SIRESP, porque ele não funciona.”
Fernando Curto considera “preocupante” esta situação porque é esta rede que garante que “todos os agentes estão em comunicação“. E volta a apontar para a influência que a falha do SIRESP pode ter tido na morte de 47 pessoas na EN-236, a chamada “estrada da morte“. Para o presidente da ANBP, o comando teria informação de que a estrada “estava no perímetro do incêndio” e não terá conseguido comunicar com quem estava no terreno (GNR e bombeiros) para tentarem evitar que as pessoas fossem para ali encaminhadas.
O comandante, no posto de comando, tinha de ter a informação que aquela estrada estava no perímetro do incêndio, que ela não tenha chegado em tempo útil só pode ter-se dado devido a uma falha de comunicação“, explica Fernando Curto.
O presidente da ANBP diz que o SIRESP “sempre falhou” e garante, por exemplo, que “em Vila Nova de Gaia não funciona o SIRESP”. Fernando Curto não quer fazer previsões. “Não vou dizer que se não houvesse falhas no SIRESP, não havia mortes naquela estrada. Mas se pessoas foram encaminhadas para uma estrada supostamente segura, que era perigosa, é porque houve falhas de comunicação“, acrescentou.
Quanto às redes redundantes, Fernando Curto diz que não substituem o SIRESP, que considera “imprescindível para a comunicação entre as várias entidades”.


                                                                 ***

Comentário: o SIRESP pode não ter funcionado, mas havia outros meios de comunicação imediata. A brigada de trânsito da GNR que estava no IC8 não precisava do SIRESP para saber do perigo que era a EN236. 

O Ministério Público e a investigação do incêndio em que morreram 64 pessoas

Observador:
 
A procuradora-geral da República (PGR), Joana Marques Vidal, afirmou, esta quinta-feira, que o Ministério Público está, desde o início, “no teatro de operações” para investigar as causas do incêndio que começou em Pedrógão Grande no sábado, no distrito de Leiria.
“O Ministério Público (MP) esteve presente, no teatro das operações, desde o início na perspectiva de exercer com rapidez as suas competências. Todos os elementos da Polícia Judiciária, Instituto de Medicina Legal e demais instituições presentes tinham contacto, directo, com os magistrados do MP que estiveram, aliás, desde domingo e segunda-feira, não só contactáveis como mesmo presentes em alguns desses sítios”, disse Joana Marques Vidal à margem VII Congresso dos Solicitadores e dos Agentes de Execução que decorre até sábado, em Viana do Castelo.
A PGR adiantou que o inquérito crime, em segredo de justiça, “foi levantado nos primeiros momentos em que o fogo deflagrou e que houve conhecimento de que havia vítimas mortais e danos” e que “irá investigar tudo aquilo que for necessário ser investigado”.
Nunca se pode arredar a necessidade de investigação em toda a sua vertente, designadamente a possibilidade de existir indício criminal, ou não”, sustentou.
Joana Marques Vidal adiantou que “o inquérito está a correr os seus termos no Ministério Público do Departamento de Investigação e Acção Penal (DIAP) da Comarca de Leiria”.
“O inquérito foi avocado pela magistrada do Ministério Público, coordenadora do DIAP da Comarca de Leiria e que, claramente, como, aliás, decorre da lei, tem como órgãos de polícia criminal que coadjuva, a Polícia Judiciária, sem prejuízo da colaboração de todas as outras instituições que têm competências nessa matéria. Tudo aquilo que diz respeito ao incêndio, às suas causas, às suas consequências irá, naturalmente, ser objecto desse inquérito”, destacou.
Lusa


"Desde domingo, dia 18 de Junho, que uma equipa de três magistrados estava em Pedrógão Grande a acompanhar no terreno as operações de socorro e, acima de tudo, o trabalho que a Polícia Judiciária (PJ) e o Instituto de Medicina Legal realizaram de localização e sinalização dos 64 corpos das vítimas.
Essa equipa foi enviada por Euclides Dâmaso, líder do MP no distrito judicial de Coimbra que inclui a comarca de Figueiró dos Vinhos e que esteve em contacto com Almeida Rodrigues, director nacional da Polícia Judiciária (PJ), desde a noite de sábado.
Tendo em conta a trágica morte de 64 pessoas e os mais de 250 feridos, os crimes de negligência em causa podem ser os seguintes:
  • Homicídio por Neligência – art. 137.º do Código Penal com pena de prisão máxima até aos 3 anos ou 5 anos em caso de negligência grosseira
  • Ofensa à Integridade Física por Negligência – art. 148.º do Código Penal com pena de prisão até 1 ano ou 2 anos se resultar da negligência ofensa à integridade física grave 

Há três situações que têm sido noticiadas nos últimos dias que vão ser investigadas:
  • O não encerramento atempado da Estrada Nacional 236-1 (a chamada ‘Estrada da Morte’ onde morreram mais de 40 pessoas) por parte da GNR. Há mesmo testemunhos que têm sido publicados na comunicação social que indiciam que os militares da Guarda terão conduzido viaturas para EN 236-1, depois de terem encerrado o IC 8.
  • O sistema de comunicações SIRESP voltou a falhar no sábado dia 17, tendo afectado as comunicações de socorro. O semanário Expresso noticiou que o sistema de comunicações de emergência esteve ‘em baixo’ na zona de Pedrógão Grande entre o meio da tarde sábado e as 8 da manhã de domingo — altura em que a cobertura do SIRESP foi reactivada com uma antena móvel. Já não é a primeira vez que o SIRESP falha. Entre as diversas situações que já ocorreram, salienta-se outro fogo florestal em 2016 no Sardoal em que morreram dois bombeiros.
  • O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), responsável pela previsão das condições meteorológicas, terá alertado a Autoridade Nacional da Protecção Cívil sobre a possibilidade de ocorrência de trovoadas secas a norte do Distrito de Leiria e o risco de incêndio. Leiria estava catalogada pelo IPMA com o risco laranja (o segundo mais grave) em termos de risco de incêndio.

Tem de ser estabelecido um nexo de causalidade entre a negligência e as consequências da mesma.
Isto é, não basta provar a existência de uma situação de negligência. Tem de provar-se uma relação entre os erros cometidos por um agente de autoridade pública (ou privada) e as mortes que ocorreram, de forma a conseguir imputar a uma pessoa concreta a responsabilidade pela morte de alguém.
Peguemos no exemplo das 47 mortes que ocorreram na EN 236-1. Terão de ser recolhidas provas de que os militares da GNR tinham a informação de que aquela via rodoviária estaria em perigo ou ameaçada pelo fogo. Logo, teriam de que iriam colocar em perigo os cidadãos que seguiram as suas instruções.
O mesmo se diga sobre o não encerramento atempado daquela via rodoviária — quando o IC 8 foi encerrado às 18h50 de sábado. Teria de ser recolhida prova de que os elementos da cadeia de comando da hierarquia da GNR sabiam de que o fogo já estaria nas imediações da EN 236-1, o que acarretaria sempre perigo para as pessoas e bens.
O Comando Geral GNR, de acordo com o relatório preliminar que já enviou para o primeiro-ministro António Costa diz duas coisas:
  • Não havia, ao final da tarde/início da noite de sábado, “qualquer indicador ou informação que apontasse para a existência de risco potencial ou efectivo em seguir por esta estrada (EN 236-1) em qualquer dos sentidos”. Além disso, a GNR fala em “dificuldades operacionais na missão de cortar a EN 236-1”, pois são múltiplos os pontos de acesso.
  • “Foi num contexto de fenómeno invulgar que terão ocorrido os fatídicos acontecimentos da EN 236-1, uma vez que o fogo terá atingido esta estrada de forma totalmente inesperada, inusitada e assustadoramente repentina, surpreendendo todos”, lê-se no esclarecimento que foi enviado para o Governo a pedido do próprio primeiro-ministro."
                                                                 


                                                                       ***

Comentário:

Ora bem. É raro encontrar nos media este tipo de explicações assim tão detalhadas e com objectividade jornalística qb. Quem também faz isto muito bem e com a colaboração prestimosa de um especialista que não diz bacoradas jurídicas e sabe do que fala ( o professor de direito penal Rui Pereira) é a CMTV e tem prestado um serviço inestimável ao país que mais ninguém faz, esclarecendo coisas que devem sê-lo.

Obviamente que este novo meio de informação que é o Observador ( e outros, noutras plataformas editoriais, na internet) é um acrescento valioso para uma melhor compreensão dos fenómenos e acontecimentos.

É também raro e de acrescento valioso saber que o MºPº local se encontra empenhado a fundo e  com a intervenção profissional dos mais altos escalões ( procurador-geral distrital de Coimbra, Euclides Dâmaso) e empenho pessoal e com provas dadas dos mesmos ( em situações concretas há muitos anos atrás) .

No caso do incêndio que começou no Sábado e se estendeu para os dias seguintes é primordial entender o que o Observador indica, a propósito dos crimes em causa e das dificuldades de prova que os mesmos objectivamente apresentam, na respectiva recolha no terreno, literalmente.

Há dois factos principais, com outros co-relacionados que importa reter como fundamentais. Retiro para já o relativo ao (não) funcionamento do SIRESP, durante a tarde de Sábado uma vez que haveria outros meios de comunicação disponíveis e portanto esse pormenor que é maior, fica à parte, neste caso. Restam estes dois:

 1. O Instituto Português do Mar e da Atmosfera (IPMA), responsável pela previsão das condições meteorológicas, terá alertado a Autoridade Nacional da Protecção Cívil sobre a possibilidade de ocorrência de trovoadas secas a norte do Distrito de Leiria e o risco de incêndio. Leiria estava catalogada pelo IPMA com o risco laranja (o segundo mais grave) em termos de risco de incêndio.

 2. O não encerramento atempado da Estrada Nacional 236-1 (a chamada ‘Estrada da Morte’ onde morreram mais de 40 pessoas) por parte da GNR. Há mesmo testemunhos que têm sido publicados na comunicação social que indiciam que os militares da Guarda terão conduzido viaturas para EN 236-1, depois de terem encerrado o IC 8.

 Então se houve a indicação do IPMA à Autoridade Nacional de Protecção Civil ( ANPC) acerca das condições meteorológicas que pelos vistos foram únicas, excepcionais e com risco de incêndio a seguir ao máximo ( alerta laranja) a pergunta a fazer à ANPC é sobre o que fez para proteger as pessoas da região e evitar a tragédia que aconteceu.

Nestes casos de incêndio as tragédias estão sempre à porta da ANPC e por isso a obrigação de acção perante circunstâncias concretas não deixa margem de manobra suficiente para lavagem de mãos sempre que acontecem mortos às dezenas e estragos de bens de grande valor para as pessoas como sejam as próprias habitações.

Para grandes males, grandes remédios.  As condições meteorológicas para a tarde de Sábado, dia 17 de Junho, na região de Pedrógão Grande eram de tal forma assustadoras que a ANPC não pode vir dizer que não teve medo. Se o disser incorre na prática do crime, parece-me.

Logo, se teve medo, o que fez para esconjurar esse demónio que se soltou, segundo todos os depoimentos das testemunhas que viveram essas horas naquele local?
Mandou cem bombeiros, 33 carros e um heli para combater o Demónio à solta nas primeiras horas? E acrescentou mais 50 bombeiros, uma dúzia de carros e dois helis, dali a duas horas? E depois de se consumarem as mortes de dezenas e dezenas de pessoas, acrescentou mais 100 bombeiros, mais 40 carros, tirando  um heli, ficando com dois?
Se foi assim, a negligência consciente é grosseira e aproxima-se do dolo eventual ou seja, da previsão de um efeito como provável e a  desconsideração como realizável.
Não pensaram que as poucas centenas de pessoas isoladas em algumas aldeias, velhos, sobretudo, não estavam preparados para enfrentar o Demónio? Deviam ter pensado e actuado em conformidade, como o fizeram agora, à outrance, como acontece sempre que algo corre mal. Teriam poupado algumas vidas para além das 47 que morreram na EN236-1.

O mesmíssimo raciocínio se deve aplicar ao controlo das vias terrestres durante a tarde de Sábado. Quando o Comando Geral da GNR, refere que 
  • Não havia, ao final da tarde/início da noite de sábado, “qualquer indicador ou informação que apontasse para a existência de risco potencial ou efectivo em seguir por esta estrada (EN 236-1) em qualquer dos sentidos”. Além disso, a GNR fala em “dificuldades operacionais na missão de cortar a EN 236-1”, pois são múltiplos os pontos de acesso.
  • “Foi num contexto de fenómeno invulgar que terão ocorrido os fatídicos acontecimentos da EN 236-1, uma vez que o fogo terá atingido esta estrada de forma totalmente inesperada, inusitada e assustadoramente repentina, surpreendendo todos”, lê-se no esclarecimento que foi enviado para o Governo a pedido do próprio primeiro-ministro."
É preciso também raciocinar e incluir aquela entidade- INPC - na equação. Competindo-lhe proteger as pessoas e bens era obrigatório avaliar no momento o risco de circulação naquelas estradas quase florestais, naquelas circunstâncias meteorológicas  e já com um incêndio a lavrar que não conseguiram controlar nas primeiras horas ( e seria importante saber porquê).  Se as condições meteorológicas eram excepcionais também deveriam sê-lo as medidas tomadas e a tomar. Ora não o foram de todo e o resultado está à vista.

Não há desculpa civil para erros deste tamanho. A Autoridade que devia proteger os cidadãos pouco ou nada fez para tal, uma vez que aquilo que fez se resumiu, segundo tudo indica, ao trivial e burocrático e a que eventualmente estão habituados em incêndios naquela zona.

No Sábado não foi apenas um incêndio que ocorreu: foi um incêndio demoníaco provocado por condições climatéricas infernais. Que fez a  ANPC para combater este Mal? Parece que confiou nos procedimentos de rotina...

Para avaliar correctamente o que aconteceu e estabelecer parâmetros de responsabilidade criminal ( a política já é absoluta e vergonhosa mas ninguém assume nada de nada) importa indagar factos e mais factos e recolher os mesmos no terreno, literalmente. Daí a importância daquela actuação do MºPº que desta vez não se senta apenas na burocracia do delegar nas polícias a incumbência da investigação.

A mim parece-me essencial perguntar a quem viu, na tarde de Sábado, o que se passou no terreno, entre as 14 horas e as 21horas, pelo menos e atendendo a esse período mais mortífero do incêndio.

Ora quem é que viu melhor o que se passou entre as 17:00 e as 20:00? Quem andava no ar, literalmente e quem observou de postos de vigia adequados a propagação do lume, das chamas e do vento que as acompanhava e a extensão que percorriam.

E quem viu reportou a alguém da ANPC ou do Comando Geral da GNR ou do cabo que estava na patrulha da BT?

E se reportou que fizeram essas pessoas?

Se ninguém viu, ninguém reportou e ninguém actuou a conclusão é lógica: para que servem?