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domingo, 19 de março de 2017

Morreu Chuck Berry e a imprensa esqueceu o obituário...



 Chuck Berry morreu ontem à hora do almoço na sua casa em St. Louis, no Missouri americano. Hoje os jornais impressos nada trazem de notícia e muito menos de primeira página, o que é estranho para quem publicou fotos inteiras de página dedicada aquando da morte de Bowie ou Lou Reed.
Porém, sem Chuck Berry, a música daqueles não seria a mesma coisa porque muito lhe ficaram a dever.
Não tenho nenhum disco original de Chuck Berry mas tenho muita música com sequências de acordes inventados por Chuck Berry, ouvida ainda sem saber tal facto.
Quando comecei a ouvir música rock, nos finais dos anos sessenta já Chuck Berry tinha produzido tudo por que se tornou celebrizado e copiado e já outros músicos e conjuntos tinham aprendido a tocar as suas músicas, sendo os casos mais  notórios os Beatles e os Rolling Stones.
Chuck Berry tinha ficado para trás,  nos anos cinquenta em transição para a década seguinte em que o rock n´ rol se trasmudou em rock, muito por influência daqueles grupos britânicos e das editoras Sun ( que gravava os discos de Elvis Presley, Carls Perkins e Jerry lee Lewis)  e Chess ( que gravava Chuck Berry e Muddy Waters, antes dele) e Atlantic que gravava Ray Charles e outros cantores pretos, americanos.
Chuck Berry foi provavelmente a maior influência singular na música rock que então surgiu. Maybellene, em Junho de 1955, foi uma das primeiras composições do músico. A canção cujo nome fora escolhido num frasco de brilhantina, foi passado por Alan Freed, a pedido dos irmãos Chess, polacos emigrados que convenceram esse  animador de rádio em Nova Iorque a transmitir a música e foi logo um êxito, segundo se conta. Mesmo sem o nome do artista no disco ( informação tirada do livro Rock & Indústria de Steve Chapeple e Reebee Garofalo, de 1977-Caminho da Música 1989). 


O Beatles ligaram logo a canção de Berry, Roll over Beethoven,  a um sucesso de vendas, em finais de 1963 no Lp With the Beatles. Os Rolling Stones já o tinham feito em meados desse ano, com a canção Come on, aliás o seu primeiro disco single. E continuaram a fazê-lo durante toda a carreira, copiando e adaptando mais de uma dúzia de canções de Berry.
Mas não foram apenas os Beatles e os Stones a tocarem músicas de Chuck Berry. Os Beach Boys, no início de 1963 compuseram Surfin´in the USA depois de terem escutado muito bem Sweet little sixteen, daquele músico. A melodia era tão semelhante que foi preciso dar-lhe o crédito respectivo após litígio judicial. A história é contada por Mike Love na sua autobiografia Good Vibrations, my life as a beach boy, de 2016, um magnífico livro, por sinal.

A primeira vez que ouvi Roll over Beethoven e me chamou a atenção  foi em 1973 numa versão da Electric Light Orchestra do seu segundo disco (II) que tenho e guardo como magnífico, muito por causa dessa canção e respectivo tratamento sonoro)
Por causa desse fenómeno as canções originais de Chuck Berry surgiram como recriações de outros grupos e artistas fazendo esquecer muitas vezes o artista original que as criou e agora faleceu aos noventa anos. Além da ode a Beethoven, Maybellene, Sweet Little sixteen, Johnny B. Goode, Memphis Tennessee, You never can tell e muitas outras foram entretanto ouvidas em versões originais ou adaptadas.
É por isso que a ausência de Berry dos obituários de hoje se torna estranha e revela uma incompreensível desatenção mediática a um fenómeno de cultura popular com um relevo superior a muitos outros.
Ao mesmo tempo revela bem a natureza dos critérios jornalísticos e o efeito rebanho que suscita.
Com a notícia de ontem não se gerou a onda mediática que noutros casos assumiu proporções de tsunami e neste morreu logo numa praia longínqua, da América distante. Por outro lado, os directores de jornais não estão sensibilizados para a importância do agora desaparecido Berry. Pouco ou nada lhes diz, mediaticamente. Musicalmente será igual, provavelmente.
A melhor representação da importância de Chuck Berry na música surgiu em 1986 no primeiro filme da trilogia Regresso ao Futuro.
Numa cena antológica, o artista Michael Fox, num palco e com uma guitarra idêntica à que Berry utilizava nos anos de fama de 1958 ( uma Gibson ES 345, encarnada). O tema é o magnífico Johnny B. Good com a introdução fantástica na guitarra, inventada por Chuck Berry:



A parte final do tema apresenta um resumo da evolução do som da guitarra até ao tempo dos Van Halen...o que o torna ainda mais interessante.

 Também memorável é a canção You Never can tell tal como apresentada no filme Pulp Fiction, disponível no You Tube

13 comentários:

zazie disse...

Era genial

Floribundus disse...

há muito que não o ouvia
pensei que já tinha desaparecido

antónio disse...

Penso que o esquecimento dos média não se deve a desatenção mas antes a incompetência que é fruto directo da falta de conhecimentos. Uma grande maioria dessa classe fala e escreve por aquilo que ouve dizer e, então, se isso for dito por alguém que eles têm por gurus, nessa altura qualquer um, mesmo que pouco mais seja que um vulgar de Lineu, passa a ser génio.
Foi isso que se passou no caso do David Bowie e do Lou Reed. Alguém lhes soprou que eram geniais e aí passou a ser "bem" incensá-los É muito provável que grande daqueles que falaram e escreveram sobre eles não tenham nenhum disco da sua autoria e, por isso, não conheçam a sua obra.
O "must" disto coube a David Fonseca que lhe pareceu que seria chic fazer um disco com versões do D. Bowie. Resultado, uma patetice.
ACandido

joserui disse...

José, já não bastava o resto, ainda tem de substituir as páginas de cultura dos pasquins… :)

joserui disse...

E para que não se diga que não contribuo com nada útil:
Chuck Berry Takes Keith Richards to School, Shows Him How to Rock (1987).
Hehehe, inacreditavelmente bom.

josé disse...

Bem, o Público de hoje lá traz o obituário, numa página recolhida no interior, com o costume: coisas na net. E num estilo artificial resultante de más traduções. Uma miséria.

Quanto ao You tube é simplesmente fabuloso. A passagem mostrada é do filme Hail. Hail, rock n´roll que ando há muito para arranjar. Mas com estas coisas no YouTube já nem sei.

No outro dia pus-me a procurar músicas de um top 30 do Melody Maker de 1973 que vinha na revista Rock & Folk.
Tinha tudo, absolutamente tudo, mesmo o mais obscuro.

Outra vez procurei o top 10 de singles, de John Peel de final de 1975 que tinha ouvido em tempo real no programa Top Gear, no dia 19.12.1975 ( tenho tudo anotado, com o nome dos artistas e músicas e por isso sei).
Havia músicas que não conhecia na altura, por exemplo Roy Harper que anotei "live deed ou...ou...parecido". Claro que agora sei tratar-se do album HQ, mas a pronúncia pouco cockney de John Peel não me permitiu perceber. Foi o ano de Bob Marley com No woman no cry que aparece na 8º posição.

Pois está tudo no YouTube exactamente como isso: top gear, 10 top singles de 1975!

Fantástico. E tem de outros anos...

josé disse...

Queria referir top 15 e não 10.

Quando anotei, o programa ia no 9º lugar ( Peter Frampton, Show me the way, mas não anotei a canção, embora agora saiba que era porque depois vi no youtube) mas havia 6 canções anteriores que não sabia quais eram. O You Tube mostou-me depois...

contra-baixo disse...

https://www.youtube.com/watch?v=L-Ds-FXGGQg

Floribundus disse...

Não nos iluda!
por Corta-fitas, em 20.03.17
O Presidente da República adopta a política dos afectos. É legítimo? É. Não ocultou o facto antes das eleições, bem pelo contrário. Está carregado de legitimidade para isso.
Aparece a toda a hora e em toda a parte! É legítimo? É. Era expectável? Era.
Comenta tudo e mais alguma coisa! É legítimo? Humm, algumas doses de contenção seriam bem-vindas. É prudente? Não, longe disso.
Apoia o Governo de Portugal contrário à sua família política de origem e de onde obteve a maioria dos votos que o elegeu. É legítimo? É, e ainda bem que o faz. Exijo respeito pelo Governo da Portugal que, diga-se, tem tanta legitimidade política quanta fraqueza democrática e incompetência. Acima de tudo não espero, tão pouco quero, que o Presidente faça de oposição. Compete à oposição essa práctica. É o Presidente de todos os Portugueses.
Parece que por vezes se intromete no governo, chegando por vezes a parecer que faz parte dele. Deve fazê-lo? Não. Mas como está em sintonia com o Primeiro-Ministro só espero que haja mais cuidado para não abrir maus precedentes. É que Portugal continua.
Pessoalmente não concordo com este estilo de presidência, mas como democrata aceito, respeito e tolero tudo isto, embora com muito incómodo.
Agora vejo o Presidente da República regozijar-se perante as câmaras da TV que Portugal emitiu dívida a juros negativos. Perdão!?
Primeiro, e muito objectivamente, exijo que não me tome por parvo. Não existe legitimidade para tomar as pessoas por parvas. Sabe muito bem o significado de emissões de curto prazo e emissões a 10 anos, pelo que valerá a pena recordar que são estas últimas a referência para estados de espírito, que já agora adianto, convêm ser de discrição por parte da Presidência, ainda que a evolução das taxas no mercado secundário fossem favoráveis, o que está muito, muito longe de ser o caso.
Segundo, não existe legitimidade na ilusão com que se pretendeu encharcar o espaço público. Este aspecto, embora subjectivo por natureza, é na minha opinião crucial nesta fase da vida de Portugal. A ilusão, como muitas vezes tenho dito, é a maior doença que grassa em Portugal, e embora sabendo que não é legítimo esperar que venha da Presidência acção directa para a cura, considero ilegítimo que de lá surjam sinais para manter os Portugueses amarrados à maleita, senão mesmo em agravar a mesma.
Porque é este assunto tão importante? Porque este é o indicador que nos conduz, ou não, a pedir outro resgate. Aqui não se brinca, é o ringue dos crescidos. É onde deixou de haver espaço para ilusões, intrigas e outros esquemas (embora antes de 2008 não fosse assim). O escrutínio nos mercados secundários de dívida a 10 anos agora fia demasiado fino. É para peixe graúdo. Champions League.
Quando recentemente emitimos dívida a 10 anos a cerca de 4% vi o Presidente contente com a cotação dos juros a 3,8% no mercado secundário logo após essa emissão! Agora que cotam a 4,3% vejo regozijo sobre emissões de curto prazo! Não nos iluda.
Nota final: A espuma do dia-a-dia é o terreno da politiquice do político de segunda linha mais fracote. Os bons políticos de primeira linha falam de tendências. Do presidente espera-se que se esforce para que os últimos não sejam tentados a ir para o terreno dos primeiros. Muito menos que monte lá arraiais.

Pedro Bazaliza

Floribundus disse...

Insurgente

Depois do insuportável peso do estado e da interferência deste na vida de pessoas e empresas, agradeçamos ao governo da geringonça o *Processo de Venezuelização em Curso. Graças ao bizarro governo, a república portuguesa tem uma página na internet que marca o dia internacional da felicidade e que, imagine-se dá pelo nome de “FELICIDADE” – assim mesmo, a gritar.

Aos poucos mas de forma consistente, enganam-se todos aqueles que julgam que Portugal ainda possuí uma cultura democrática ligeiramente acima da Venezuela.

Adenda: Como bem assinala a leitora c3lia na caixa de comentários, o Presidente venezuelano criou o vice-ministério para a suprema felicidade do povo. com os resultados conhecidos.

Paulo Moreira disse...


I must've dreamed a thousand dreams
Been haunted by a million screams
But I can hear the marching feet
They're moving into the street.

Now did you read the news today
They say the danger's gone away
But I can see the fire's still alight
There burning into the night.

There's too many men
Too many people
Making too many problems
And not much love to go round
Can't you see
This is a land of confusion.

This is the world we live in
And these are the hands we're given
Use them and let's start trying
To make it a place worth living in.

Ooh Superman where are you now
When everything's gone wrong somehow
The men of steel, the men of power
Are losing control by the hour.

This is the time
This is the place
So we look for the future
But there's not much love to go round
Tell me why, this is a land of confusion.

This is the world we live in
And these are the hands we're given
Use them and let's start trying
To make it a place worth living in.

I remember long ago -
Ooh when the sun was shining
Yes and the stars were bright
All through the night
And the sound of your laughter
As I held you tight
So long ago -

I won't be coming home tonight
My generation will put it right
We're not just making promises
That we know, we'll never keep.

Too many men
There's too many people
Making too many problems
And not much love to go round
Can't you see
This is a land of confusion.

Now this is the world we live in
And these are the hands we're given
Use them and let's start trying
To make it a place worth fighting for.

This is the world we live in
And these are the names we're given
Stand up and let's start showing
Just where our lives are going to.

Paulo Moreira disse...

a boss is a boss. period.

joserui disse...

Mais um link interessante José: Antes e depois de Chuck Berry (New York Times).