Páginas

domingo, 23 de abril de 2017

O "fascismo" que pegou de estaca em Portugal

A palavra "fascismo" era virtualmente inexistente no léxico português corrente antes de 25 de Abril de 1974. Não era utilizada nos media e a população em geral não usava tal palavra.
A excepção era o PCP e seus compagnons de route, incluindo um PS ainda marxista que nunca abandonou tal linguagem. Nos escritos clandestinos circulados por alguns, muito poucos, milhares de destinatários, usavam tal palavra e outras, como "reaccionário", "imperialista", "guerra colonial", etc.

Porém, tal expressão, como as demais, pegaram  de estaca e nos dias que se seguiram ao 25 de Abril de 1974 os jornais estava inundados com tais palavras novas para a população em geral.

Em 29 de Abril de 1974, escassos quatro dias após o golpe,  o jornal Diário de Lisboa que uma semana antes nem sequer conhecia tal palavra escrita publicava-a em repetidas notícias e alusões.
Na primeira página aparecia duas vezes, para a "normalização da vida portuguesa". 

Na 2ª, 3ª 5ª, 9ª e 11ª era repetida.



O crítico de tv, Mário Castrim, comunista encartado e que escrevia geralmente nas entrelinhas dava largas ao contentamento de poder escrever claramente em linguagem comunista, convocando comunistas para o convívio da "normalização da vida política".  Um happening!

 

O PCP tinha honras de página em comunicado:


A Juventude Comunista, da UEC,  idem:


Evidentemente que o assunto da guerra no Ultramar era questão prioritária e a voz era dada aos que uma semana antes eram apenas "terroristas"...



Os demais jornais não ficavam atrás na adopção dessa novilíngua que perdura até hoje. A Capital de 21 de Junho de 1974:



E o Expresso, na edição de 9 de Novembro de 1974 já tinha devidamente assimilado tal novilíngua comunista como se fosse a genuína, de sempre, do falar português.

Na segunda página lá estavam duas referências ao "fascismo"...


Na página de opinião já aparecia um certo Vicente Jorge Silva, depois primeiro director do Público, também a usar o jargão da novilíngua para designar como "fascista" o regime deposto...



Perante isto quem se atrevia a remar contra a maré e contestar a validade da designação ou a corrupção linguística corrente?

Ninguém...até hoje. Ninguém se interessa com isto porque acham que não tem importância alguma...tal como desvalorizam qualquer tentativa de contar a História do Estado Novo de modo diferente da que os antifassistas a contam.

sábado, 22 de abril de 2017

As eleições resolvem-se na essência desta análise

No Sol de hoje, o conselheiro editorial escreve assim:






Esta análise opinativa de um jornalista apanha o essencial da política portuguesa dos últimos anos. Se a maioria dos portugueses que vota compreendesse isto que aqui fica escrito, a demagogia não teria campo aberto e colheita farta.

Assim, o disco vira e toca o mesmo: a música dos pobrezinhos e dos trabalhadores. Os patrões e a austeridade e os cortes são os maus da fita e quem os defende perde sempre.

JMT no Público de hoje: uma pergunta corajosa mas insuficiente...



Crónica de JMT no Público de hoje, de facto corajosa qb e a merecer encómios, neste caso. Porém, a pergunta final é tímida: " que negócio, afinal, foi este?". A pergunta deveria ser outra que coloco no fim do postal.
Compreende-se e suspeita-se que JMT tem desde agora a cabeça a prémio. Está no Público e ganha dinheiro com isso? Também está no programa de palhaçada da TVI, com o palhacito sonso que é Ricardo Araújo Pereira que nunca se mete nestas alhadas. E quem manda na TVI é um grupo que aceitou ter um Sérgio Figueiredo a dirigir a informação.
Portanto JMT está quilhado! E vai ver se não está...é só esperar umas semanitas ou mesitos para não dar nas vistas.

Há meses, quando se soube da falência técnica da Global Media, apareceu de repente um grupo misterioso a ajudar, vindo dos lados do Oriente. Um fundo, ho!
Então, escrevi e ilustrei com foto em retrato de família política, um Camões, um Proença e um Presidente que pedia, sem se rir que os jornalistas do retrato fossem "implacáveis no escrutínio de todos". O agora presidente quando foi jornalista do Expresso e Semanário foi o exemplo dessa implacabilidade...na intriga. Quanto ao resto, moita carrasco que os Salgados tinham herdade na Comporta e férias noutros lados. Mas com a ajuda deste novo amigos dos pobrezinhos estou certo que disponibilizarão meios ocultos para resolver os problemas dos sem-abrigo, coisa que agora muito o preocupa, a este presidente de afectos e coisas que tal.
Para  chefiar os bravos jornalistas do DN nessa tarefa apareceu um Paulo Baldaia que considera o komentador JMT um jornalista justiceiro e fica tudo dito sobre tal personagem de redacção para ficção ver ou vice-versa:



DN:

O Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, esteve hoje na inauguração das novas instalações da Global Media, em Lisboa, e pediu aos jornalistas do grupo para serem "implacáveis no escrutínio de todos", a bem de Portugal. 


Os bravos jornalistas do DN, aqui a ouvir o presidente, mais o senhor Camões que está no Norte a velar pelas Notícias globais e aqui todo sorridente e ainda o magnífico presidente da coisa, o advogado Proença de Carvalho, encolhido como de costume, podem já começar o trabalho a "bem de Portugal": esclarecer quem são os verdadeiros titulares do fundo que os comprou...

A pergunta certa que JMT não fez, é esta: quem são os detentores do fundo que comprou parte importante das acções da GlobalMedia? E outra: o que tem Proença de Carvalho a ver com tais pessoas?

Paulo Baldaia pode começar a escrutinar...porque a resposta a tais perguntas dar-nos-á a medida da saúde da nossa democracia actual e passada.

É importante? Da maior importância, de facto e por isso ninguém vai dar importância alguma, nos media.

sexta-feira, 21 de abril de 2017

Vinte e sete vezes o "fascismo" num único número de Jornal de 1975!

Este texto de Miguel Esteves Cardoso, no O Jornal de 5.9.1975 será talvez o primeiro que o então jovem estudante com vinte anos publicou em jornal.

No texto, a propósito de um filme português de Seixas Santos, Brandos Costumes, MEC usa a palavra "fascismo" cinco vezes. É obra! Comunista, claro está. E na mesma página, o comunista Correia da Fonseca acrescente só da sua lavra, mais sete.

É só um exemplo do fenómeno que atingiu em cheio a cultura portuguesa pós-74.


No mesmo número de O Jornal esta página sobre o então arcebispo de Braga, d. Francisco Maria da Silva juntava mais três "fascismo", incluindo do título da notícia.



Por curiosidade dei-me ao trabalho de catar em cada página desse número de O Jornal as vezes que tal palavra aparece escrita.

Na pág. 2 aparece num artigo de Cáceres Monteiro ( "Uma Revolução para perder ao jogo?"), inserida na expressão " pesadas grilhetas do fascismo".
Na pág. 3 aparece duas vezes.
Na pág. 10 nada menos que três vezes num pequeno artigo de Urbano Tavares Rodrigues.
na pág 14 em editorial nada menos que duas vezes e na página seguinte, das cartas do director, uma vez.
Na pág. 29 na redacção da Guidinha, de Stau Monteiro, uma vez.
Na pág. 30, numa notícia sobre os jornalistas despedidos do DN ( pelo avant nóbél Saramago) uma vez.
Na pág. 32, em notícia sobre Angola, num comunicado do CEME do general Fabião, uma vez.

No total a palavra "fascismo" aparece 27 vezes, neste único número de O Jornal!

Fátima para totós: a teopsia

  D. Carlos Azevedo, bispo-delegado do Conselho Pontifício da Cultura no Vaticano, ao Público:

D. Carlos Azevedo  defende que a leitura de Fátima não pode ser literal, mas teológica, “há uma interpretação a fazer” porque os fenómenos místicos “são naturais”.

Chegou o momento para falarmos com linguagem exacta. Joseph Ratzinger no ano 2000, quando fez o comentário teológico à última parte do segredo de Fátima, usou sempre a palavra visões e esse é o rigor teológico. O grande teólogo Karl Rahner também escreveu um livro sobre visões e profecias, usando a palavra visões. Esse é o termo exacto.

As visões, de vários tipos, são fenómenos místicos, espirituais, não físicos. Claro que uma pessoa ao descrever uma visão projecta os seus arquétipos, o que tem na sua mente, a sua memória, e na mensagem que recebe já entra a fé. Há uma mensagem que a transcende e que tem de ser interpretada. É a revelação particular que depois tem de ser interpretada à luz do evangelho e da doutrina, segundo as regras que a Congregação da Doutrina da Fé publicou em 2011, mas já conhecidas desde 1998.

Há muitos fenómenos de visões. Nós, párocos, conhecemos sempre alguém que nos vem dizer que tem visões. Estes fenómenos são naturais, sobretudo em períodos de crise, de dificuldade, ou da própria pessoa ou do mundo, em período de guerra, como foi o caso de 1917. É impressionante a densidade de factos do ano de 1917 em Portugal e no mundo.

Há uma interpretação a fazer e essa interpretação é a da presença maternal de Maria na vida dos cristãos, como disse João Paulo II quando foi a primeira vez a Fátima. Todos os cristãos sentem essa presença mas alguns podem-na sentir de modo mais intenso. Isso então é uma visão, uma experiência mística. A presença de Maria não vem do céu por aí abaixo. Essas descrições são mais simples, mais imediatas, para entender o que é uma visão mística, mas precisamos de usar a linguagem exacta para não cair no ridículo. Gostava que este livro servisse para quem não crê ter respeito para com o episódio, ainda que não acredite
.

Tal como dizia o outro padre Anselmo Borges, "é evidente que Nossa Senhora não apareceu em Fátima", agora o bispo Azevedo também tem a sua interpretação sobre o fenómeno: tudo experiências místicas, visões particulares dos pastorinhos, pobres coitados, incultos e que não sabiam teologia e ainda as de dezenas de milhar de pessoas que viram fenómenos que não se compadecem com experiências místicas e mesmo assim passaram a sê-lo.

Esta explicação "racional" para os fenómenos de Fátima já tinha sido apresentada em livro, - a Senhora de Maio, da autoria de António Marujo e Rui Paulo da Cruz, edição Círculo dos Leitores, 2017- em modo um pouco mais elaborado:

 

Dá a impressão que a Igreja Católica tem vergonha de Fátima, por ser tão contemporâneo, ter sido testemunhado por crianças simples e sem instrução e não ter explicação racional aceitável.
Só me interrogo se não terá vergonha de alguns  fenómenos que são apresentados como verdade de Fé, alguns até no Credo...

Após a Paixão e Morte de Cristo na Cruz, a subsequente Ressurrreição, verdade de Fé, ocorreu, para o bispo Azevedo e outros padres Anselmos? E as sucessivas aparições de Jesus Cristo ressuscitado,  tê-lo-ão sido mesmo ou apenas "visões"?

Desconfio saber a resposta e não me agrada nada.

quinta-feira, 20 de abril de 2017

O jornalismo nacional é uma casa comum, diz JMT

O jornalista e komentador João Miguel Tavares, na passada terça publicou uma crónica de costumes sobre o caso Dias Loureiro e o seu advogado de estimação, Proença de Carvalho, também administrador de certas empresas, incluindo a GlobalMedia que possuía o DN, onde pontifica actualmente na direcção o jornalista Paulo Baldaia.

Tal crónica foi comentada por aqui e ontem no DN o referido Paulo Baldaia, cheio de dores alheias, komentou em editorial o assunto que o condoeu: um ataque ao seu jornal por ter criticado o MºPº que arquivou o caso de Dias Loureiro/BPN, em que o referido advogado de estimação comparticipa numa tríplice qualidade: advogado, administrador e amigo.

Aqui o editorial condoído de Paulo Baldaia:


Como se pode ler, o referido Baldaia diz que é coerente de há uns anos para cá e ataca sempre a corrupção do Estado de Direito levada a cabo pelo MºPº e "políticos". Esta última referência é para distrair o leitor que não se lembra de algo substancial, escrito por Baldaia, sobre Pinto Monteiro, escutas de Face Oculta, Noronha Nascimento, José Sócrates e a sua responsabilidade na prática de crime de atentado ao mesmo Estado de Direito, etc etc. Baldou-se, nesses casos.

Não explica há quantos anos é coerente mas será fácil de perceber que o será desde que trabalha por conta de alguém que mandava nos media em que o Estado de Direito poderá ter sido posto em causa, através de fusões e aquisições para controlar melhor a informação oficiosa que o povo merece ler. A verdade a que temos direito, sem mais.
Paulo Baldaia tem todo o direito a ser a "voz do dono", como de facto agora é, no DN. Quem o lê, porém, tem o direito de saber quem será verdadeiramente tal dono, incluindo a sua consciência profissional. Até lá vai-se adivinhando e neste editorial não ficamos esclarecidos.
Porém, ficamos cientes de uma coisa: de direito penal sabe pouco e escreve asneiras. Como director de jornal é lamentável. Ao escrever que o artº 277º nº 2 do C.P.P. não diz que quando se arquiva um inquérito pode ser também por existirem suspeitas fundadas, não sabe ler mais que isso, nesse segmento.
Devia ler também o artº 283º do mesmo Código que refere a expressão "suspeitas suficientes" e ainda, principalmente, o artº 262º sobre as finalidades dos inquéritos criminais e ainda o artº 272º do mesmo diploma que diz assim no nº 1:
1 - Correndo inquérito contra pessoa determinada em relação à qual haja suspeita fundada da prática de crime é obrigatório interrogá-la como arguido, salvo se não for possível notificá-la.

Saberemos nós e o jornalista Baldaia deveria saber sob pena de indecente e má figura que Dias Loureiro já tinha sido ouvido como arguido?  Sabemos e o DN também já sabia desde Julho  de 2009.
Portanto, o jornalista Paulo Baldaia deveria perguntar, por exemplo ao seu colega Carlos Lima, mais competente nestas matérias, antes de escrever a baboseira que escreveu. Tem uma desculpa de tomo: o "Daniel" também não sabe. Dá a entender que sim, proferindo grandiloquências sobre os direitos, liberdades e garantias, mas não sabe. Se soubesse seria mais comedido e inteligente. 

Agora o artigo no Público de hoje, de JMT, komentador de "direita", ápodo nada gratuito e destinado a circunscrever, limitar e aniquilar a eficácia dos escritos e que os baldaias agora colam ao dito.


Diz que continua no Sábado e se Deus quiser cá estaremos...à espera da coragem que deveria ter. Veremos se a tem e os tem no sítio. 

As "amplas liberdades" que aproveitam ao comunismo...


Observador, José Milhazes:

A revolução comunista de 1917 na Rússia continua, hoje, rodeada de muitos mitos. Um deles é que foi ela que acabou com a repressão e o regime burguês saído da Revolução Democrática de Fevereiro/Março, quando a verdade é que os bolcheviques tomaram o poder aproveitando-se exactamente das liberdades democráticas abertas por esse regime.
“A originalidade do momento presente na Rússia consiste na transição da primeira etapa da revolução, que deu o poder à burguesia devido à insuficiente consciencialização e organização do proletariado, para a sua segunda etapa, que deve passar o poder para as mãos do proletariado e das camadas mais pobres do campesinato”, escreveu Lénine no seu artigo “Sobre as tarefas do proletariado neste revolução”, pouco tempo depois de ter chegado do exílio a São Petersburgo — viajando com a ajuda da Alemanha, país interessado em que a Rússia saísse da Primeira Guerra Mundial.
Esse artigo de Lenine entrou na história como as “Teses de Abril” e foi publicado no jornal “Pravda” no dia 20 de Abril (7 de Abril no calendário russo) no meio de uma discussão feroz não só entre os socialistas russos em geral, como entre os próprios bolcheviques. Alguns consideraram mesmo essas teses um “delírio” (Gueorgui Plekhanov)
Mas, neste artigo, é da mais primordial importância reparar em qual foi a táctica defendida por Lénine para impor a “ditadura do proletariado”, em concreto aproveitar-se da existência de grandes liberdades e da ausência de repressão na Rússia saída da Revolução de Fevereiro.
“Este período caracteriza-se, por um lado, pelo máximo de legalidade (a Rússia é, agora, o país mais livre do mundo de todos os países combatentes) e, por outro lado, pela ausência de repressão sobre as massas e, por fim, pela sua atitude de confiança e inconsciência face ao governo dos capitalistas, dos piores inimigos da paz e do socialismo”, escreveu o dirigente bolchevique.
Porém, após o assalto ao poder a 25 de Outubro/7 de Novembro de 1917, os bolcheviques viram que a continuação dessa liberdade era um obstáculo ao seu poder absoluto, mascarado sob a forma de Sovietes de Operários, Camponeses e Soldados. O exemplo da dissolução da Assembleia Constituinte é disso o mais flagrante.
Receando o descontentamento da opinião pública se não se realizassem eleições para esse órgão legislativo, ideia muito popular no país, Lenine acabou por aceder e o escrutínio realizou-se a 12 de Janeiro de 1918. Nele a situação caótica em que o país vivia e a guerra contribuíram para uma baixa afluência às urnas (menos de 50% dos eleitores), o que não impediu que os bolcheviques tenham sofrido uma pesada derrota: dos 750 deputados eleitos, apenas cerca de 180 eram bolcheviques, que ficaram muito atrás dos socialistas revolucionários e centristas, que conquistaram 370 lugares na Assembleia Constituinte. Os restantes deputados estavam repartidos por forças políticas que também não apoiavam os bolcheviques.
Após uma longa primeira sessão, às 5 horas da manhã um marinheiro subiu à tribuna e anunciou: “A guarda está cansada. Peço que terminem a sessão e regressem a vossas casas”.
Segundo recorda Nikolai Bukharine, um dos muitos dirigentes comunistas fuzilados pela ditadura criada com as próprias mãos, a reacção de Lenine à notícia dessa acção foi sintomática: “Ele riu-se durante muito tempo, repetiu para si as palavras que ouvira e riu-se, riu-se. Alegria contagiante, até às lágrimas. Riu-se às gargalhadas”.
A Assembleia Constituinte ainda teve tempo de tomar algumas medidas importantes: a lei da terra, que considerava-a propriedade nacional; um apelo às potências beligerantes para que fosse dado início às conversações de paz e a proclamação da República Federativa Democrática da Rússia.
E assim foi enterrada uma grande possibilidade de a Rússia se transformar num Estado europeu e democrático e dado início a uma experiência social que durou 74 anos e custou milhões de vida.
Aliás a obra “Rumo à vitória”, escrita pelo antigo dirigente comunista português Álvaro Cunhal, não passa de uma adaptação à realidade portuguesa das “Teses de Abril” e de “O Estado e a Revolução”. Nesse livro, Cunhal fundamenta igualmente a transição da revolução burguesa para a socialista, antecipando o que o Partido Comunista Português tentaria concretizar entre 25 de Abril de 1974 e 25 de Novembro de 1975, mas o conseguir para o bem da nossa democracia.
Numa época atribulada como a que vivemos, as democracias têm de reforçar os seus meios de defesa contra os extremismos de direita e de esquerda, apresentar alternativas e novos caminhos perante a ameaça de repetição de ideologias manchadas pelo sangue e pelo ódio
Parafraseando uma declaração de Lenine, que dizia que uma revolução só vale alguma coisa quando se sabe defender, eu diria que a democracia só vale alguma coisa se se souber defender. Foi assim há 100 anos, é assim hoje.

quarta-feira, 19 de abril de 2017

A nostalgia do PCP: guerra civil e luta de classes

"O PCP reafirma a solidariedade com a Revolução Bolivariana e o povo venezuelano" e mostra-se contra os ataques à "soberania e independência da República Bolivariana da Venezuela", lê-se em comunicado.

Os comunistas portugueses condenam as "ameaças de intervenção militar do comando sul norte-americano, a manutenção pela Administração dos Estados Unidos da inaceitável ordem executiva de 2015 que considera a Venezuela uma 'ameaça incomum e extraordinária' e a "ingerência da OEA e do seu secretário-geral, Luis Almagro, procurando promover a ingerência externa".

A Organização de Estados Americanos (OEA) condenou esta quarta-feira a decisão do Governo venezuelano de entregar armas aos civis e pediu a Caracas que proteja o direito dos venezuelanos a defender a democracia e liberdade.
 
A oposição venezuelana anunciou para hoje uma grande manifestação de protesto, no mesmo dia em que o governo prometeu uma "marcha histórica", para assinalar o 207.º aniversário da 'revolução' de 1810, que levou à independência do país.

A intenção dos opositores do Presidente Nicolas Maduro é realizar a "mãe de todas as marchas", em todos os 24 estados do país.

Os protestos são contra a alegada ruptura constitucional e contra duas sentenças em que o Supremo Tribunal de Justiça limita a imunidade parlamentar e assume as funções do parlamento, onde a oposição detém a maioria.

Antecipando o protesto dos opositores, o Presidente ordenou às (FAB) que se dispersem por todo o país e anunciou que aprovou um plano para aumentar para 500.000 os membros da Milícia Bolivariana que, armados, serão enviados "em defesa da moral, da honra, do compromisso com a pátria"
.

terça-feira, 18 de abril de 2017

Crónica de mais costumes

No Brasil, a braços com um gigantesco processo de corrupção que envolve praticamente todas as forças políticas do país, já com alguns políticos condenados em penas de prisão e após a delação-mãe do empreiteiro da Odebrecht, as coisas foram agora assim apresentadas:

Na delação de Emilio Odebrecht, o empresário comentou que a corrupção vem de longa data. Algo como “há 30 anos”. Isso todos nós já sabíamos, mas também sabemos que a corrupção foi amplificada na era do PT.
Odebrecht comentou que os acertos entre autoridades e grandes empreiteiras não só eram um “negócio institucionalizado”, mas vistos como “uma coisa normal”. Aqui novamente devemos lembrar o óbvio: tudo isso só iria aumentar quando surgisse um partido bolivariano, que depende do saqueamento estatal para criar totalitarismo.
Eis que ele fala da imprensa: “o que me entristece é que a imprensa toda sabia”. Em seguida, questiona: “por que só agora?”. E conclui que “a imprensa sabia disso e agora fica com essa demagogia”.
Como se vê, ele questiona para saber onde estava a mídia esses anos todos. A resposta é simples: estava tirando selfie com a Dilma, recebendo polpudas verbas estatais de anúncios e, com isso, ignorando toda a corrupção.

Em Portugal costumamos sempre chegar atrasados às tendências do estrangeiro, mesmo do Brasil. Mas talvez lá cheguemos mais cedo ou mais tarde.

O antigo presidente do Brasil, FHC falou assim, hoje, em Portugal:

 “Eu penso que era necessário (a Lava Jato). Chegou a um ponto tal que era preciso uma virada e está ocorrendo. Isso é sempre doloroso, há sofrimento, há injustiças, há justiça, mas no conjunto é um processo importante, que mostrou que o Brasil tem forças para sacudir a poeira”, declarou o ex-Presidente brasileiro (1995-2002).
Fernando Henrique Cardoso (FHC) fez estas declarações aos jornalistas à margem do V Seminário Luso-Brasileiro de Direito, que se realiza em Lisboa entre hoje e quinta-feira.
A operação Lava Jato, tida como a maior operação de combate à corrupção da história do Brasil, investigava inicialmente a actuação de 'doleiros' (pessoas que vendem dólares no mercado paralelo), mas, posteriormente passou a investigar também a corrupção na petrolífera estatal Petrobras, envolvendo políticos e outras empresas.
“Mesmo que percam (a fé) em alguns (políticos), os eleitores vão ter fé em outros. Depende do que as pessoas façam e digam. Temos que esperar pelos resultados da justiça. No momento, temos algumas acusações, umas parecem ser bem fundamentadas outras menos”, acrescentou.
Na semana passada, com base nos depoimentos dos executivos da Odebrecht, o juiz do STF Edson Fachin mandou abrir inquéritos para investigar 98 pessoas.
Entre elas, estão 39 deputados federais, 24 senadores, oito ministros, um ministro do Tribunal de Contas da União e três governadores.
Os acusados, que são possíveis candidatos presidenciais de 2018, como o senador Aécio Neves (PSDB – mesmo partido de FHC), serão investigados sobretudo por corrupção, branqueamento de capitais e falsidade ideológica (fraude) eleitoral.
“Tudo vai depender de que a justiça avance. O importante é chegar até ao final e haja uma decisão da justiça. O eleitorado vai acompanhar isso, com aflição, obviamente. Quem estiver comprometido tem de pagar algum preço, deve pagar”, sublinhou Cardoso.
Para FHC, a crise da democracia é geral, a crise dos partidos, a falta de confiança neles, "não sendo só no Brasil".

Crónica de costumes

O cronista de "direita" João Miguel Tavares descobriu, finalmente, o advogado e gestor Daniel Proença de Carvalho. Já não era sem tempo...


Nesta pequena crónica falta dizer algumas coisas que me parecem importantes e já foram ditas. Aqui, por exemplo diz-se que a partir do ano passado quem manda na GlobalMedia são os chineses da Macau KNJ Investment Limited. Ho! 

 Em 2013, o jogo das sombras já tinha decorrido noutros bastidores e sempre com o mesmo advogado como pivot.

Para se entender as dores emprestadas dos avençados dessa empresa mediática torna-se necessário perceber também como foram tais figuras recomendadas para os lugares que ocupam.

Ou seja, como é que Paulo Baldaia foi designado como director do DN, logo após o inefável André Macedo que agora saltita noutros lugares televisivos. Anselmo Crespo, idem. E, claro, cerise sur le gateau, o palerma Lopes, amestrado pela mesma entidade Global e que perora na SIC e na GlobalMedia. Um verdadeiro transgénero da komentadoria!

Julgar que o advogado Proença esteve sempre à margem destas contratações parece-me não só pueril como irreal e sem que algo ilegal seja de apontar, note-se como disclaimer.

O portfolio do advogado-gestor é amplo e bem recheado e saber mais fica à distância de um clic:

Proença de Carvalho ganha 486 mil euros, só em part-time!!
Em 2013, só a cimenteira portuguesa Cimpor pagou a Daniel Proença de Carvalho 283 mil euros brutos.
Daniel Proença de Carvalho, advogado pessoal de José Sócrates desde há vários anos, ganhou mais de 486 mil euros em apenas quatro empresas. O rendimento diz respeito ao exercício de cargos sociais em 2013, ano para o qual existem os últimos dados disponíveis, na Cimpor, na Zon, no BES e na Galp, sociedades cotadas em bolsa e obrigadas a divulgar as remunerações dos órgãos sociais. De fora dessa remuneração total, ficaram os eventuais vencimentos recebidos de inúmeras empresas onde era presidente da mesa da assembleia geral. Para já, e apenas dessas quatro empresas, a Cimpor, cimenteira portuguesa adquirida pela brasileira Camargo Corrêa em 2013, foi a que pagou a remuneração mais elevada a Proença de Carvalho: em 2013, o advogado recebeu 283 mil euros brutos.
Como presidente do conselho de administração, Proença de Carvalho ganhou em média 20 214 euros por mês. O advogado terminou o mandato no ano passado, depois de ter iniciado funções na Cimpor em julho de 2012.
A Zon pagou também uma remuneração fixa apreciável: em 2013, como administrador não executivo, o advogado recebeu 184 198 euros brutos.
BES e Galp pagaram remunerações muito inferiores a Proença de Carvalho. Como membro da comissão de vencimentos do BES, em 2013, o advogado recebeu 18 mil euros. Já o cargo de presidente da mesa da assembleia geral da Galp deu direito a uma remuneração anual de 1500 euros. O CM contactou Daniel Proença de Carvalho, tendo enviado várias perguntas por correio electrónico, mas, até à hora de fecho desta edição, o advogado não enviou qualquer resposta.


Na venda da PT descapitalizada e desmantelada, a Altice chegou-se à frente. Quem representou os interesses da Altice? Pois nem é preciso dizer...mas apenas perguntar se tudo isto será apenas um feliz coincidência e termos um génio da advocacia de negócios, por aí, à solta e sem o sabermos.  

segunda-feira, 17 de abril de 2017

Premência mediática sensacional

Cerca do meio dia e poucos minutos de hoje ocorreu um desastre de aviação, perto do aeródromo de Tires. Menos de duas horas depois, quase todos os canais televisivos reportam do local o acontecimento, com explicações das autoridades em directo. Já se sabe que pereceram cinco pessoas e que serão estrangeiros que se dirigiam para Marselha, para além de quatro feridos que foram atingidos no solo, perto de instalações de um supermercado ( Lidl). O presidente da República já foi ao local. Deve ter interrompido o almoço ou a sesta...
As imagens de colunas de fumo, ainda com fogo visível e do local do acidente passam em directo nas televisões.

É esta a realidade mediática em 2017: qualquer acontecimento extraordinário tem logo imagens em directo, algumas fornecidas por espectadores que filmam com telemóveis os acontecimentos e toda a gente em todo o país fica a saber tudo o que é visível sobre o acontecimento.

A estação de tv líder deste tipo de notícias é a CMTV, sem dúvida. Tem duas- equipas de reportagem- duas, no local que acompanham o caso "em permanência". Divide o écran em três imagens ( tal como faz nos relatos televisivos dos jogos de futebol) e o comentador de serviço alimenta a curiosidade voyeurística durante o tempo da sensação garantida. Às 14:30 chegam as "equipas da polícia judiciária" ao local. Estão atrasado! A CMTV já lá está há muito mais tempo. Os seus jornalistas nem devem ter almoçado devidamente. Umas sandes...se calhar.

As demais estações de tv, paulatinamente, têm imitado este estilo jornalístico em televisão porque sabem que se o não fizerem ficam para trás nas audiências. Assim se modifica o modo de noticiar em televisão.
O presidente da República já percebeu isto e alinha com esta nova forma de comunicar, ampliando o efeito.

Notícia do Observador:
  Habitantes em Tires que testemunharam o acidente de avioneta dizem ter visto "um avião aos ziguezagues" e elogiam a presença de Marcelo Rebelo de Sousa no local. A queda do avião provocou 5 mortos.

Pormenor importante que o/a jornalista/o destaca: "elogiam a presença de Marcelo Rebelo de Sousa". O presidente não precisa de assessor de imprensa...
E continua assim, com o destaque para a "imprensa internacional" e a presença de Marcelo:


 Uma avioneta despenhou-se esta segunda-feira em Tires, provocando a morte a cinco pessoas. O acidente está a fazer manchetes na imprensa internacional, que não ignoraram sequer a presença de Marcelo.


Será isto bom? Não me parece.

O estranho caso de uma sociedade que desapareceu, em Portugal.

Portugal, Julho de 1973, manifestação de apoio ao Governo de Marcello Caetano, após o regresso de uma visita a Londres, onde foi recebido por manifestações hostis de portugueses, liderados pelos socialistas do sítio e ainda de Mário Soares. Todos contra a guerra no Ultramar que queriam ver acabada o mais rápido possível, para entregar os territórios aos autóctones dos movimentos de libertação que então para nós eram apenas terroristas.  Tal como aconteceu depois, a correr e sem cuidar dos interesses das centenas de milhar de portugueses que lá estavam e dos autóctones que queriam outra coisa que não o que tiveram depois: guerra civil e mortos sem conta.

A imagem é da revista Observador de 27.7.1973.


Este Portugal que aqui se manifestava aos milhares e milhares, livremente, desapareceu como por encanto, na semana a seguir ao 25 de Abril de 1974, menos de um ano depois.

Para onde foram politicamente as pessoas que ali estiveram e as demais que não estando davam o apoio ao governo na sua política em relação ao Ultramar, por exemplo?

Como por um passe de mágica desapareceram do espectro político e mediático da época, substituídas precisamente por aquelas pessoas que se manifestaram em Londres, em 1973, contra Marcello Caetano, particularmente os adeptos de Mário Soares.

Como foi isto possível, em tão pouco tempo?

Apenas devido a um fenómeno simples de explicar: propaganda política demasiado eficaz, sem oposição alguma de tomo. Toda a ideologia política, nem sequer organizada e corporizada antes naqueles milhares e milhares de pessoas que se manifestaram em apoio de Marcello Caetano, desapareceu desse espaço, praticamente até hoje, com excepção de pequenos nichos de expressão que nunca se tornaram relevantes politicamente.

Aconteceu a Portugal uma verdadeira Revolução no pensamento político mais básico e muitos dos que apoiavam aquele Marcello Caetano, passaram a apoiar aquele Mário Soares, como o demonstra o resultado das primeiras eleições para a Constituinte, em 1975.

Para entender como é que isto aconteceu, tão de repente, ando aqui há anos a desenterrar memórias registadas em jornais, livros e revistas.

Hoje vão mais dois exemplos.

O primeiro é de O Jornal de 11.4.1986, há cerca de trinta anos. O jornalista Fernando Dacosta, de esquerda e autor dos primeiros livros de divulgação da figura de Salazar e da sua obra, há uns anos, escreveu este artigo de página versando o mesmo tema, mas encostando à direita uma iniciativa chamada de Portugal Século XXI que mais não era do que uma afloração de uma social-democracia que em Portugal se confundia com o "socialismo democrático", ou seja, à margem da direita que a sociedade salazarista representara.

O segundo é uma entrevista de 2004 com José Hermano Saraiva, à revista Focus que dava conta da mesma perplexidade, sem a explicar devidamente, a não ser em comentários sarcásticos inúteis e estéreis.


Apesar de a sociedade portuguesa de 1973 pouco ter a ver, em termos de desenvolvimento económico e até cultural, com a de 1940, os cultores do antifassismo primaríssimo, continuam a olhar para quem defende Salazar e alguns valores do salazarismo, assim, amalgamando o tempo dos anos sessenta e setenta com o dos quarenta e cinquenta, num continuum espaço-temporal que em si mesmo é falso e irreal .






Porque é que tal fenómeno acontece?

Uma explicação possível: o PCP e a esquerda portuguesa conseguiram o feito notável de modificarem a linguagem e os conceitos que os portugueses em geral têm do passado. Este passado foi reescrito por esses esquerdistas e continua a sê-lo, todos os dias nos media.

É só por isso que a sociedade portuguesa deixou de ser o que foi para passar a ser o que nunca poderia ter sido. Curioso...um pequeno grupo de adeptos de uma seita política, ainda por cima, fossilizada num cadáver simbolizado na figura de Lenine, conseguiu modificar toda uma geração de portugueses sem memória a não ser as que inventaram para substituir as antigas, as reais e verdadeiras, por uma parte que foi apenas a dessa seita.
Deve ser fenómeno único e a estudar sociologicamente, com proveito para quem o faça.



domingo, 16 de abril de 2017

Orlando Raimundo e as "divisas de Almirante" de Américo Tomás.

Orlando Raimundo, um jornalista formado em "Relações Internacionais", curso de grande prestígio por exemplo na antiga Independente ( até o Vara lá se licenciou) descobriu há algum tempo vocação para historiador do regime do Estado Novo e respectivas  figuras gradas. Segundo se depreende o objectivo é a descoberta de algum podre no carácter das vítimas, para as denegrir. Uma imundície, portanto.
Depois de uma indecência escrita sobre Marcello Caetano, prontamente desmentida, ataca de novo, agora Américo Tomás, em livro de 286 pgs. que não se afigura de melhor tom que aqueloutro, ignominioso qb.

Em entrevista ao DN de hoje que nestas coisas não perde tempo em publicitar estas inanidades ignominiosas, escritas por antifassistas, replica as habituais enormidades que aprendeu na antiga cartilha de oposição ao regime de Salazar e Caetano.
A biografia de Salazar, por Franco Nogueira? Uma obra prenhe de "relatos ideologicamente manipulados".  As obras de Raimundo, essas, são o primor da objectividade em retrato.
Vai ser ele, Raimundo, a descobrir a pólvora, investigando alcofas podres num esconderijo secreto no palácio do Sobralinho...


Voltando a Tomás, para Raimundo, era um "cobarde" e uma anedota e que disso deu várias demonstrações.  A chegada ao poder de Tomás, para Raimundo,  é um "improviso do salazarismo" porque Tomás era monárquico e tornou-se presidente republicano.
E o episódio imundo dos porcos vestidos de almirante, em 1972, para Raimundo é o cúmulo da inteligência política demonstrada pelas Brigadas Revolucionárias ( os piratas mortáguas e outros marginais da política extremista) que usaram o ridículo para expôr a imundície do regime.
Quanto a Humberto Delgado, foi obviamente assassinado pelo regime e por ter ousado enfrentar Tomás.
Portanto, este livro imundo do Raimundo merece tratamento pelo cheiro que exala, a falta de rigor, a facciosismo político, e a uma completa ausência de distância ideológica, etc.

Sobre Tomás, Marcello Caetano falou nas Confidências no Exílio, coligidas por Veríssimo Serrão:



Sobre Salazar e Tomás, Franco Nogueira também já escreveu:




Sobre a figura do antigo presidente da República que antes de 25 de Abril era conhecido por "corta-fitas" sem que alguém que o dissesse fosse preso, será preciso estudar melhor um pouco. Este livro imundo do Raimundo nada de novo acrescenta ao relato tradicional dos que denigrem sistematicamente o Estado Novo com pretensões históricas falsificadas e adulteradas, como antigamente se fazia na União Soviética, sítio, aliás, de onde provêm a ideologia-matriz destes pseudo-historiadores.

Logo após o 25 de Abril de 1974, Tomás foi retratado como um imbecil, pura e simplesmente, como o mostra o Sempre Fixe de Ruella-Ramos, em16.11.1974. Nem a entrada na Wikipedia o poupa a esse labéu, apesar de Tomás figurar como um dos mentores do salazarismo mais conservador, após a morte de Salazar.


Tomás tinha ido para o Brasil, logo após o golpe militar, depois de ter ficado uns dias na Madeira, juntamente com Marcello Caetano.

A nova classe política que se instalou e conduziu Portugal à bancarrota em dois tempos de dois anos, ou nem tanto, não queriam, porque pretendiam julgar Tomás pelos crimes cometidos no fassismo, como se lamentava  no Diário Popular de 21 de Maio de 1974.


Nunca tiveram coragem, no entanto. A chatice da não retroactividade da lei penal impedia tal efeito. E em 17 de Maio de 1978 foi um grande escândalo, celebrado com cartoon do comunista João Abel Manta, no O Jornal, assim e logo que se soube que o presidente Eanes autorizava o regresso do "corta-fitas" tomado sempre como um imbecil pelos revolucionários piratas e não só. Tomás regressou em 1980 e remeteu-se a um silêncio, apenas escrito em  Últimas Décadas de Portugal, l.º e 2.º vols., Lisboa, Fernando Pereira, 1980 e 1981.




Em 24 de Maio de 1974 na Capital anunciava-se que Tomás não iria escrever memórias.


É pena que Tomás não tenha escrito memórias aqueles que conheceu, nomeadamente os familiares ideológicos dos raimundos. Muito teria que contar, certamente. Sobre coragem e outros atributos.

sábado, 15 de abril de 2017

As Histórias que nos contam: o déja vu habitual da esquerda

O Público de hoje anuncia a publicação do último volume do Dicionário de História de Portugal, abrangendo agora o período temporal de 25 de Abril de 1974 a 28 de Junho de 1976 ( apesar desta data, tem "entradas" prematuras sobre o ELP, o MDLP e a "extrema-direita", assinadas por Riccardo Marchi).
Este Dicionário, originalmente de Joel Serrão foi publicado desde os anos sessenta, em seis volumes, pela editora Figueirinhas e nos anos noventa, o casal António Barreto-Filomena Mónica retomou a edição com a História do Estado Novo, contada da perspectiva de esquerda, apondo-lhe mais dois.
Agora temos outra vez a mesma perspectiva, sobre o que se passou nos dois anos que se seguiram ao 25 de Abril de 1976 e até à primeira bancarrota do país.
Não será preciso ler a obra para afirmar que se trata da repetição da versão da História que nos contam há 40 anos, em que não se dá voz aos que viveram o tempo contestando o que se passava e tentando mostrar a tragédia que nos estava a acontecer, todos os dias desses dois anos. Esta versão histórica será por isso falsa e parcial, faltando a visão de outras perspectivas mais consentâneas com a realidade completa.

Tudo fica por conta a Liberdade conquistada por aqueles que se sentiam privados dela pelo anterior regime. De modo que o que contam reflecte essa carência e a frustração que sentiam, podendo agora vituperar quem lha cerceou, fazendo-lhes o mesmo...sem qualquer pudor porque detêm autoridade democrática e não precisam por isso de contar a história "dessa gente fassista" a não ser para os vergastar ideologicamente.

A prova? A jornalista do Público que apresenta a obra e o escrito de hoje, no jornal:


Portanto, esta História já toda a gente a conhece porque é a versão oficial dos acontecimentos dessa época, contados por quem a viveu e não gostava do anterior regime que lhes limitava a liberdade de dizer coisas em público, eventualmente para defenderem totalitarismos e outros marxismos. Todos eles sofrem dessa pecha e por isso estão diminuídos na capacidade objectiva de contar seja o que for, para além disso.

Quem não os conhecer que os compre. Antes disso e para saberem o que podem contar leiam a ficha dos autores das "entradas" neste último volume. É suficientemente eloquente, por si, para evitar mais comentários.

No Expresso desta semana anuncia-se, aliás, outra obra do mesmo género histórico: o Portugal varrido pela ideologia esquerdista, neste caso de Mário Soares quando estava exilado, pelo regime que não queria que o mesmo defendesse publicamente o fim da guerra no Ultramar e o pluripartidarismo, incluindo comunistas e socialistas de geringonça que pretendiam entregar Portugal a Moscovo, como esteve quase para acontecer. O que aliás só prova o acerto do anterior regime, nesse aspecto.

A obra intitulada no original francês ( alguém a retroverteu para essa língua, claro, mas não é agora que se irá saber quem foi...) Le Portugal bailloné, ou seja, O Portugal impedido de se exprimir, traduzido como "amordaçado" para dar mais cor e vida impressionista, vai ser publicada em 7- fascículos-7, para que os leitores do semanário do militante nº 1 do PSD fiquem a saber o que Mário Soares pensava do regime de Marcello Caetano e Salazar.

A apresentação do livro, pelo sobrinho Alfredo Barroso começa logo por uma pequena falsidade: quando Mário Soares tomou conhecimento, em S. Tomé, onde se encontrava em férias forçadas pelo regime, de que Salazar dera um queda e fora operado a um "hematoma craniano" não pensou apenas "Um homem daquela idade! É o fim do salazarismo!"

Conforme já foi dito, foi outra coisa que o indivíduo agora também morto na altura pensou e terá dito, porque é assim que acontece quando alguém fica eufórico, com o mal de outrém...


De resto quando a cultura histórica o Expresso desta semana apresenta outras provas da sua actual pobreza e cretinismo.

Sobre a morte de Maria Helena da Rocha Pereira, o obituário é este: é mais importante o Spencer Hays do que a dita, o que fica tudo dito, sobre a cultura do director Pedro Santos Guerreiro e dos adjuntos.


sexta-feira, 14 de abril de 2017

É evidente que há padres sem Fé...

Expresso de hoje:



O fenómeno de Fátima tem sido ultimamente glosado por diversos autores. Já li dois e falta-me um terceiro.



O livro de Len Port, um estrangeiro radicado pelos Algarves, é o mais interessante, porque tem um contexto histórico que ajuda a compreender melhor o assunto e passa para o  nosso tempo a propósito da divulgação do "terceiro segredo de Fátima".

Ambos, porém, são cépticos na aceitação do maravilhoso que tal implicaria e procuram explicações avulsas para o "milagre do Sol", algumas tão abstruzas que  suscitam logo reservas de monta.

Lendo os livros e conhecendo os factos relatados na época,  a sensação que perdura é a de faltar explicação racional completa, para o que sucedeu durante o ano de 1917 naquele local da Cova da Iria e redondezas.

Por mais que tentem arranjar explicações racionais, lógicas ou naturais para os acontecimentos, permanecem as perguntas de sempre: aquelas crianças inventaram tudo? Estavam a mentir? Para estas duas perguntas não há resposta satisfatória e por isso mesmo, o mistério permanece porque os factos não fogem muito do essencial: algo aconteceu naquele ano, naquelas circunstâncias na Cova da Iria. E como tal foi referenciado a Nossa Senhora, a explicação racional falha nos pressupostos, porque é mesmo uma questão de Fé. Ou se acredita ou não.

O que dizem os relatos daqueles pastores que viram algo nesse local é desconcertante: uma imagem de mulher, muito bela, com idade de adolescente e cerca de metro e meio de altura, com reflexos de imenso brilho e a pairar por cima de uma árvore. Apareceu assim várias vezes e sugeriu naquelas crianças ser a mãe de Jesus. O que lhes disse foi entendido pelos mesmos em conformidade com o que acreditavam e tinha cariz religioso, católico e pedia orações, terços rezados. Era isto que os pequenos pastores entendiam e foi isso que disseram.
Uma das mensagens do Evangelho é simples: "pedi e recebereis". Rezar é algo importante para um católico ou cristão. A mensagem de Fátima é essa e é uma mensagem contra o ateismo por ser contrário à nossa essência, na medida em que se acredite que fomos criados por um Deus. Se Deus existe, quem não acredita Nele é necessariamente um ente mais pobre e desviado da realidade. Nunca será um inimigo de um crente porque nunca o poderia ser. Mas os ateus em boa parte são inimigos dos crentes e isso é uma questão que provoca perplexidade. Tudo o que decorre das guerra religiosas, como a que vivemos actualmente e vivemos ao longo dos séculos, provêm de algo que nunca poderia ser de Deus. De onde virá, então? A guerra aos "infiéis" ou a perseguição a outros "fiéis" decorre de um instinto de sobrevivência que usa a ideia de Deus para se legitimar? Não sei.

A Igreja Católica tomou para si, como facto em Fátima, o principal: a devoção à mãe de Jesus Cristo, como mãe de Deus, faz-se nesse local porque aquelas crianças testemunharam algo em 1917 que as transcende e a nossa capacidade de entendimento do que é transcendente socorre-se da Fé que alguns já não têm.
Não será muito mais que isto, o essencial e que as pessoas simples e humildes entendem e os teólogos não, apesar de proclamarem um apelo a uma Razão. "No princípio o logos, a razão e Deus é razão. Para mim se Deus é razão, devemos estar na Igreja com dimensão crítica", diz o padre missionário, "professor em Coimbra". Apetece remeter para o Evangelho e citar passagens em que se fala na humildade dos simples e na prosápia dos letrados. "Em verdade vos digo..."

Deus é Fé. Não é razão nem pode ser e quando muito a razão pode ajudar um entendimento com Fé.  Quem a perdeu, provavelmente não acredita em Deus e quem vive para espalhar a Fé, não a tendo, é um pobre diabo, a merecer alguma compaixão cristã, mesmo que se julgue em patamar muito superior.
Quem acha que Deus é razão, o que pode pensar quando diz o Credo, na parte em que se afirma acreditar que Jesus Cristo "ressuscitou ao terceiro dia e subiu ao Céu, onde está sentado à direita de Deus Pai"?

Há alguma razão que nos leve a aceitar tal coisa? Enfim, há padres que deviam meditar mais e não falar com propósitos que os desmereça, principalmente se são figuras da Igreja e teólogos.

Por outro lado, este padre fica muito triste com o comércio religioso à volta de Fátima. Não se percebe bem porquê. À volta do Vaticano, a escassos metros da entrada principal da basílica,  estão bem organizadas lojas de "vendilhões do templo".   A arte que está no interior foi paga no tempo em que foi realizada. Miguel Ângelo não fez a "Pietá" de borla e Bernini também não trabalhou de graça no baldaquino.
As pessoas que se arrrastam e sangram no recinto do Santuário não são muito diferentes daquelas que usam cilícios atados para se lembrarem do sofrimento físico. E se o fazem com o sentimento de Fé, mesmo que outros o não compreendam, não deveria merecer vitupério de ninguém e muito menos de um padre.

Um padre que acredita que os pastorinhos de Fátima tiveram visões, deve poder dizê-lo. Na verdade outros o disseram antes, como um padre da Lixa antes de 25 de Abril de 1974. E os ateus de sempre não dizem outra coisa, pensando e justificando que foi o cónego Formigão que inventou tudo.

 Proclamar que "é evidente que não apareceu em Fátima", para quem a seguir fala no Papa e na devoção a Maria  é carente de razão, para quem acredita nela e provocador no mau sentido. O padre que isto diz não sabe, apenas julga que sim.

Há razões que a razão desconhece, já não sei quem disse.

quinta-feira, 13 de abril de 2017

Os atentados da "direita e extrema-direita" e quem os investigou...

A propósito do livro de Miguel Carvalho, Quando Portugal ardeu, muito interessante porque uma das poucas tentativas de perceber o que aconteceu na segunda metade dos anos setenta, com a "reacção" ao comunismo em Portugal, particularmente no Norte do país, vale a pena contextualizar acontecimentos dando uma imagem do tempo fixado na imprensa da época.

Começando pelo atentado terrorista de 21 de Maio de 1976, uma Sexta-Feira fatal para um dos antigos empregados do comendador Abílio de Oliveira, porque lhe destruiu a casa de habitação, matou a mulher e o feriu gravemente.

A notícia desse atentado foi assim dada no semanário O Jornal do dia 28 de Maio de 1976, uma semana depois ( o jornal saía à Sexta-Feira): uma pequena "local" sem nomes ou algo mais que "atentado bombista em S. Martinho do Campo, contra um militante do MDP".


O contexto político e social desse tempo pode ser mostrado em resumo, assim:

Otelo era a grande figura da esquerda como candidato presidencial e acreditavam que tinha hipóteses se fazer um bom resultado. 


Afinal, a direita nem tinha candidato...



 Em 23.12.1976 o histórico do PS, António Reis, de Mação e da maçonaria, dizia numa entrevista que o tempo da geringonça ainda não tinha chegado. Demorou 40 anos...

 Nem se sabia muito bem o que era a tal "direita", como António Reis, o mação de Mação dizia na entrevista de 23.12.1976, que era necessário definir essa direita, "no plano social,  no contexto concreto do Portugal de hoje, e a partir daí, identificar as diversas expressões políticas dessa direita. No plano social, a direita agente, actuante, é constituída por camadas de proprietários agrários abastados, de negociantes e intermediários especuladores, de profissões liberais com rendimentos próprios existente em largas zonas da província, de médios empresários que se sentem ameaçados  nos seus direitos e contestados pelos trabalhadores- para além, evidentemente de toda uma direita ligada à grande burguesia ausente do país, mas que não perde as esperanças de regressar. e que tem cá dentro dos seus agentes junto dessas camadas sociais que referi há pouco. É uma direita que ao mesmo tempo conta com agentes ideológicos eficazes, nomeadamente nas zonas mais atrasadas do P. País, nas zonas rurais. Politicamente consegue estender um pouco a sua influência a outras camadas sociais, nomeadamente pequenos e médios agricultores, pequenos industriais e comerciantes que se são ganháveis para a causa socialista são também influenciáveis facilmente por esta direita, sobretudo graças à situação de  crise actual.
Politicamente expressa-se através de determinados aparelhos partidários, legais e clandestinos. No plano clandestino tem o ELP e o MDLP. No plano legal, tem um aparelho partidário como o CDS dirigido por uma classe política moderada, democrática, inteligente, esclarecida, com um programa neocapitalista ambicioso. (...) Mas tem igualmente neste plano legal um PPD cuja classe política é pouco homogénea, nela coexistindo elementos de vocação de centro-esquerda e elementos de vocação mais direitista."



 Quanto a acções concretas contra essa direita da alta-burguesia, veja-se esta noticiada em 25.6.1976, relativa a um processo crime instaurado contra um banqueiro pela prática de crimes de "transacção ilícita de capitais para o estrangeiro"...



O "direita" foi assim definida por aquele mação de Mação que mostrava assim a suprema inteligência política feita de uma grande formação intelectual que era nada mais nada menos que a cartilha comunista da luta de classes. 



A esquerda estava assim  über alles...e até se discutia a oportunidade de uma geringonça avant la lettre, com um PS que ainda se opunha firmemente a tal desiderato. A Constituição aprovada cerca de um mês antes era a garantia do caminho para a "sociedade sem classes".


Em 23.12.1976 o histórico do PS, António Reis, de Mação, maçonaria, dizia numa entrevista que o tempo da geringonça ainda não tinha chegado. Demorou 40 anos...



Porém, quanto a candidatos presidenciais até o famigerado Arnaldo Matos, esse louco político ainda à solta, iria votar...Eanes.

Este ambiente político, aliás,  permaneceu deletério e em 23 de Julho de 1976 o mesmo O Jornal mostrava o que pensava certa populaça acerca dos acontecimentos de Novembro de 1975: um benefício para a "reacção".



Nessa altura já se sabia um pouco mais sobre "os atentados bombistas" e o Jornal publicou estas duas páginas sobre o assunto. Referia-se o nome de um marginal de Braga, o "Corrécio" e ainda o dos vários atentados à bomba, desde Janeiro desse ano, cerca de 90 e atribuídos à "direita e extrema-direita":


Em Julho de 1976 a investigação policial da PJ a estes factos andava já sobre rodas, no Porto. O director da PJ local, desde Junho de 1975 era Álvaro Guimarães Dias, um magistrado de esquerda,  naturalmente e que tomou conta da casa da polícia no Porto, numa altura em que se suspeitava que alguns dos seus elementos, com destaque para o inspector Regadas, andavam "feitos" com os bombistas, particularmente Ramiro Moreira.
A investigação terá começado aí  por altura de Fevereiro de 1976. O dito magistrado-director, pouco experiente de coisas de polícia, mas confiado nos seus inspectores ( um tal Lopes Duarte é considerado por ele como "de longe o melhor elemento da PJ dos últimos 50 anos") fez algo interessante: redigiu um memorando, secreto, nessa altura e que foi discutido em reunião na PGR, chefiada então por Manuel João da Palma Carlos, um antifassista militante vindo de antes do 25 de Abril  e eventual mação, como o irmão que foi primeiro-ministro, logo a seguir ao 25 de Abril de 1974.
Esse memorando em que se descreviam factos e nomes foi distribuído profusamente pelos presentes. Em 2 de Julho de 1976 foi elaborado outro memorando secreto sobre o assunto, discutido no Quartel-General da Região Militar do Norte, onde se mencionavam os atentados, em número e espécie, atribuídos à tal "direita e extrema-direita".
Em 27 de Julho O Jornal publicou a informação, muito contida mas muito precisa...coincidências, claro. O magistrado jubilado poderia ter desenvolvido um pouco mais, mas se calhar não lhe foi perguntado mais nada, pelo jornalista Miguel Carvalho. É pena...

O autor daquele livro entrevistou então o antigo magistrado, agora jubilado ( tem 81 anos)  do STJ,  onde foi juíz de uma secção criminal e o que diz merece ser lido.

Ficam estas seis páginas onde se mostra o que foi o início da investigação à "rede bombista".





Comunista, Guimarães Dias? Nem pensar. Simpatizante de esquerda...e ainda hoje será, o que nada tem de mal. A única coisa é que ser de direita, então, era anátema. Já o ser de esquerda era de bom tom. Simplesmente.
Quem não entende isto não perceberá o que se passou nessa altura.