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segunda-feira, 29 de maio de 2017

O fascismo verdadeiro não rima com Salazar ou Caetano

Em 23 de Outubro de 1970 a revista Vida Mundial dedicou um artigo extenso ao fenómeno do aparecimento do fascismo, por ocasião da "marcha sobre Roma" em 28 de Outubro de 1922 e que teria sido o inicio do fascismo na Itália.

O fascismo italiano dos anos vinte, único e verdadeiro, não foi copiado por cá, em Portugal, sendo por isso absurdo e fruto da conveniência politica dos comunistas e socialistas marxistas a aproximação artificial do salazarismo a tal doutrina que se esgotou na Itália.

Não obstante, a palavra "fascismo" é o passepartout de todos os democratas que querem vilipendiar o regime do Estado Novo e o que se lhe seguiu, de Marcello Caetano.

Vale a pena, por isso, saber o que foi o verdadeiro fascismo, mesmo em análise perfunctória e necessariamente sumária como é o artigo de uma revista:



Os mesmos apaniguados do comunismo que pegaram na palavra "fascismo" e a generalizaram em Portugal como sendo sinónimo de salazarismo foram os que proibiram um escritor que nessa altura ganhou o prémio Nobel, A. Soljenitsine e que foi denunciado pela União dos Escritores Soviéticos e expulso do convívio das figuras gradas ao regime comunista na então URSS.

No mesmo número da Vida Mundial dá-se conta do assunto em artigo de página assinado por António José Saraiva e no qual se denuncia a atitude censória do regime soviético como característica de um totalitarismo. António José Saraiva fora comunista...

Esta denúncia não impediu de forma alguma os vitais moreiras da época e outros comunistas que se arrependeram depois, nos anos oitenta, de reflectirem nas patranhas do comunismo soviético.

Portanto, não foi por falta de informação que não quiseram saber: foi porque não quiseram mesmo...e preferiram continuar a apodar o regime de Salazar como fascista. Ate hoje.

 
Portugal era tão fascista que logo em 1962 Salazar e o seu governo pensaram em aderir ao Mercado Comum, tendo pedido a abertura de negociações para tal. A história vem contada no mesmo número da revista em várias páginas. Na primeira aparece logo Rogério Martins, um dos "tecnocratas" do tempo de Marcello Caetano e que passou depois, em democracia, para governos do tempo do socialismo.



Carlos César, o sem-vergonha

Observador, Alexandre Homem Cristo:

A qualidade de uma democracia republicana mede-se, entre outras vias, pelo comportamento dos seus representantes, tanto governantes como parlamentares. Isto porque os nossos regimes liberais não são apenas compostos de regras, leis, instituições, freios e contrapesos. O cumprimento da lei não chega – de nada servem as regras e as instituições se umas não forem cumpridas e outras não forem respeitadas, mesmo quando assim a lei o permite. Os regimes liberais distinguem-se, para além da forma de governo, pela sua dimensão moral. Estão suportados em pilares éticos e são mantidos por quem acredita nos valores da liberdade, igualdade, justiça, dignidade humana, diversidade, tolerância. E, como tal, a credibilidade de um sistema político perante os cidadãos assenta, também, no reconhecimento do respeito por esses valores por parte dos seus representantes – e não, somente, do cumprimento da lei e das regras, pois algo ser legal não significa que seja ético.
É por isso que, em várias democracias maduras, os políticos abandonam as suas funções quando se vêem envolvidos em casos que põem em causa a sua idoneidade enquanto servidores públicos. Só no último ano, exemplos não faltam. Bruno Le Roux, ex-ministro do Interior em França, demitiu-se devido à contratação das suas filhas para assistentes parlamentares. Aida Hadzialic, ex-ministra da Educação na Suécia, demitiu-se por ter sido apanhada a conduzir sob efeito de álcool (0,2 g/l). Keith Vaz, ex-deputado inglês do Partido Trabalhista, demitiu-se por se ver envolvido num caso de prostituição masculina. Ard van der Steur, ex-ministro da Justiça da Holanda, renunciou ao cargo face à acusação de que, em 2001, teria ocultado informações ao parlamento sobre um caso de corrupção de justiça. José Manuel Soria, ex-ministro espanhol da Indústria, demitiu-se após ter sido conhecida a sua relação com empresas em paraísos fiscais. Sigmundur Gunnlaugsson, ex-primeiro-ministro da Islândia, renunciou ao cargo quando se viu envolvido no escândalo dos Panama Papers. E por aí fora.
Em Portugal, resiste uma certa dificuldade em compreender esta lição elementar: o regime tem de manter uma dignidade moral e quem ocupa cargos públicos tem de estar acima de qualquer suspeita. Aliás, um dos debates deste tempo ilustra bem o problema: não se precisa dos tribunais para afirmar que Sócrates, enquanto agente político, é culpado – basta saber que, enquanto primeiro-ministro, viveu às custas de transferências ocultas de um amigo com quem o Estado mantinha negócios. Mas se Sócrates é um óbvio caso de polícia, a cena política portuguesa está repleta de situações cuja inconsequência envergonha.
Carlos César (PS) tem toda a sua família empregada em cargos públicos, incluindo posições de nomeação. Ricardo Rodrigues (PS), célebre por ter sido condenado em tribunal pelo roubo de gravadores a jornalistas durante uma entrevista, foi escolhido pelo PS e há semanas eleito pelo parlamento para o Conselho Superior dos Tribunais Administrativos e Fiscais. António Gameiro (PS), conhecido por ter sido condenado em tribunal pela apropriação indevida de 45 mil euros de uma cliente (e com pena agravada pelo Tribunal da Relação), foi (novamente) eleito para o Conselho de Fiscalização do Sistema Integrado de Informação Criminal. E, menos recente mas interessante de comparar com o que sucedeu na Suécia, Glória Araújo (PS), à época deputada (2013), foi apanhada pela polícia a conduzir sob efeito de álcool (2,41 g/l) – e recusou renunciar.
Todos os exemplos recentes são do PS? Sim, como seriam do PSD se estivesse no governo – o poder permite aos partidos agir à sua conta e vontade. Eis a arrasadora indiferença dos partidos aos critérios éticos, sobretudo quando integram a maioria parlamentar. Ora, é fácil (e justo) apontar o dedo aos partidos. Mas tudo isto apenas acontece porque se entrega aos políticos a decisão em benefício próprio, sem ter contrapeso na sociedade civil – isto é quem proteja o sistema político, denuncie e pressione os partidos a alterar comportamentos que, sendo legais, não são éticos. Só que, no fim de contas, ninguém se importa realmente. O facto de as recentes eleições em plenário da Assembleia da República (Ricardo Rodrigues e António Gameiro) mal terem sido notícia é prova suficiente. Depois não há surpresas: quem não se dá ao respeito não é respeitado.

domingo, 28 de maio de 2017

O país das parcerias

O CM de hoje, na revista em suplemento, faz uma súmula em três páginas, com ilustrações, de um assunto ainda por explicar ao público português em geral: como foi possível, em menos de dez anos, arruinar a banca portuguesa. Tal como escreve o jornal ( Diana Ramos) de "nove bancos, quatro acabaram, três estão em mãos estrangeiras e dois vivem dificuldades".



Tudo terá começado algures no início da governação José Sócrates e terá sido pensada uma estratégia de actuação por alguém que suportava este primeiro-ministro cuja idoneidade pessoal está agora exposta e bem à vista desarmada, para quem queira ver.

Quem terá sido esse alguém que é mais alguém que uma pessoa só?

Talvez haja duas pessoas capazes de responder a esta pergunta. Uma delas sabe a história toda, mas não a quer contar "sobre este assunto e neste momento". É Fernando Ulrich, provavelmente o principal pato nesta história. Talvez um dia se predisponha a explicar como foi possível o assalto ao BCP, através do Joe "fuck you" Berardo, com a complacência de muitos actores da banca nacional de então, incluindo o referido pato que deixou passar em branco o golpe Santos Ferreira/Vara; talvez até explique a razão de se ter nacionalizado o BPN até chegar ao "caso de polícia" do "Banco Insular" e a uma alegada "maior burla da história da Justiça portuguesa julgada até ao momento" e permita que o juiz que tal disse perceba melhor o que disse e até se voltaria a dizê-lo...

O outro anda a contas com a justiça, não contará nada de momento.  Não, não é o homem de mão, o pindérico Sócrates. É o outro, o dono daquilo tudo.  É muito católico e portanto um dia arrepender-se-á para conseguir passar pelo fio de uma agulha. Esperemos, confiantes que um dia falará e pedirá perdão a todos nós que sofremos as consequência dos seus erros graves.

Quanto ao resto e ao pano de fundo temos isto há anos e anos: parcerias de sucesso...




Com estas parcerias, o Berardo teve largos tempos de antena para preparar o golpe no BCP, com entrevistas sistemáticas da Lourença da SIC, por exemplo. E o Expresso sobre estes assuntos é sempre muito parco em informação. Até os panama papers se molharam logo que as notícias não eram propícias. 
Os jornalistas do semanário que destas coisas deviam saber melhor não podem contar: o emprego ficaria em risco e portanto a censura actual é mais eficaz que a do tempo antigo em que era prévia e de comissão feita de coronéis reformados.

Ah! E já me esquecia: há ainda outro que sabe, mas não lhe assiste memória alguma, a não ser para selfies com apoiantes.

sábado, 27 de maio de 2017

O assalto à agência do Banco de Portugal na Figueira da Foz, há 50 anos

No passado dia 17 deste mês passaram 50 anos sobre o assalto à agência do banco de Portugal na Figueira da Foz. Ninguém se lembrou da efeméride que ainda tem algo para contar.O assunto, tal como outros, contende com a Geringonça esquerdista, envolvendo nomes que dela fazem parte. As manas Mortágua são filhas de um dos mentores do assalto, o velho pirata Camilo Mortágua.  Eventualmente por isso e porque o PCP nada teve a ver com tal façanha, a censura tácita impôs-se e ninguém mencionou o feito de há 50 anos.

Na altura foi um golpe audacioso que deu brado no país. O Século Ilustrado mostrava assim, em duas páginas, 10 dias depois, como terá acontecido:


A espectacularidade dos meios empregues, com maestria qb esbarrou no entanto num erro de amadores. Dos quase 30 mil contos roubados, só lhes aproveitaram quase 5 mil. O restante era em notas marcadas, novinhas em folha e os piratas não contaram com esse pormenor.

O caso foi depois contado em 1969 na altura em que foram julgados os autores do assalto:






Entre os advogados de defesa dos criminosos que quiseram sempre apresentar-se como activistas políticos que roubaram em nome de um ideal ( tal como as FP25, cerca de uma dúzia de anos depois) estava um Mário Soares e um Salgado Zenha e mesmo um Vasco da Gama Fernandes a caucionar o apoio socialista-maçónico a um dos que depois se tornou dos seus: Palma Inácio, o aventureiro da pirataria de antanho.
Como agente do Ministério Público aparecia um Antero Alves Monteiro Dinis que em democracia chegou a representante do governo da República numa da ilhas autónomas.

O assalto, no julgamento de 1969 não foi atribuído a quem pelos vistos depois passou a ser: a uma organização esquerdista e comunista radical, a Luar.

O mesmo Mário Soares que escreveu Portugal Amordaçado há 45 anos ( portanto cinco anos depois dos factos terem ocorrido, tempo suficiente para saber como aconteceram ) contava que o feito tinha sido da LUAR. A referência aparece no sexto tominho do livro agora republicado pelo Expresso:


Ora a Luar ainda não existia quando aconteceu o assalto. E tal é explicado por Pacheco Pereira num opúsculo ilustrado que esquece outras imagens como as acima mostradas de imprensa da época. Coitado, não deve ter a colecção da Vida Mundial...apesar de a ter visto algures numa fotografia recente do arquivo da Marmeleira).





Conforme se lê, o espanto dos piratas que assaltaram o banco foi geral...e o então ainda jovem Mortágua ( segunda foto a contar de cima, na imagem da capa da Vida Mundial) nem queria acreditar!

Nada disso impediu, no entanto, os mesmíssimos personagens desta ópera bufa de se embandeirarem novamente sob o pavilhão dos recreios políticos, no início de 1975, congregando milhares de apoiantes da causa que ainda por aí andam a geringonçar. Portugal é o que é também por causa disto que foi fenómeno único na Europa da segunda metade do sec. XX. Esta gente pirata ainda hoje são heróis dos media e desconfio porquê: quem lá trabalha ou esteve comprometido com esta loucura ou descende dos piratas todos que nisto embarcaram.

E se agora se calam e não festejam os 50 anos da façanha não é por vergonha, mas apenas táctica política: não lhes convém, de momento, lembrar isto e os novos não sabem nada. Os insurgentes e outros que por aí andam pouco querem saber disto apesar dos paizinhos lhes poderem contar, como histórias de proveito e exemplo. Porém, acham que nada disto interessa porque a tragédia foi evitada in extremis e a farsa que agora se vê será apenas isso e nada mais. Será mesmo?

quinta-feira, 25 de maio de 2017

Os varridos do glorioso MRPP

 Observador:


Garcia Pereira foi chamado de “canalha” e de “chulo” no jornal oficial do MRPP — o Luta Popular, controlado pelo fundador Arnaldo Matos. Acabou fora do PCTP/MRPP: primeiro suspenso a 6 de outubro de 2015, na sequência dos maus resultados nas legislativas; depois apresentando a demissão em mão a 18 de novembro do mesmo ano. Apesar disso, ficou em silêncio. Há dois dias, a 23 de maio, quebrou-o e diz-se traído por alguém que considerava um “pai” e confessa que o que mais o magoou foi ser chamado de “social-fascista” ou de “anticomunista primário“.
A oferta de um par de sapatos, os Mercedes supostamente alugados para Arnaldo Matos ir ao teatro, o nível burguês de duas lanchas de recreio ou um corte que o retirou de um vídeo do partido são algumas das histórias que esta resposta de Garcia Pereira torna públicas.

A “traição” do “pai”
Desde o último trimestre de 2015 que Garcia Pereira se recusou a dar entrevistas a falar sobre a sua saída do PCTP/MRPP. Agora, criou um site, com o endereço “Em Nome da Verdade” e o título “Só a verdade é revolucionária”, exclusivamente para responder ponto por ponto a Arnaldo Matos e aos membros do partido que o atacaram.
Garcia Pereira confessa que o silêncio decorreu da “completa estupefação e do autêntico estado de choque” em que ficou por ser “apodado de social-fascista, de anticomunista primário e de outros epítetos similares”. O advogado — que foi o rosto do MRPP em várias campanhas — admite que pode “ter cometido erros”, também na “última campanha eleitoral”, mas nunca foi nem será “social-fascista”.
O que “magoou” mesmo Garcia Pereira foi, explica no mesmo texto, “o facto de esses ataques terem vindo precisamente de alguém que considerava como um verdadeiro amigo e até como um Pai”, o que “constituiu um golpe e uma traição que senti profundamente.” Ficou ainda surpreendido por camaradas que o conhecem há décadas terem aceitado “assinar textos que eles nunca escreveram por si (mas sim Arnaldo Matos, com o seu estilo inconfundível) com coisas que eles sabiam que eram perfeitas falsidades”.
Garcia Pereira começou depois a questionar-se “sobre o que realmente estava a acontecer e onde estava o Arnaldo Matos que conhecera e com quem tanto aprendera.” E no texto enumerou alguns exemplos do que considera virtudes de Arnaldo Matos: “Onde estava, na verdade, o Arnaldo Matos que, em 1975, ordenou a Durão Barroso – que apareceu na sede nacional do Partido, na Avenida Álvares Cabral, com uma camionete cheia de mobiliário da Faculdade de Direito – que o fosse de imediato restituir pois no PCTP/MRPP não éramos ladrões e que aquela era uma atitude indigna de comunistas? Onde estava o Arnaldo Matos que, na noite da morte de Sá Carneiro em Dezembro de 1980, na mesma sede nacional, verberou com veemência alguns camaradas que se vangloriavam da morte daquele, afirmando que os comunistas desejam a derrota política dos seus adversários mas não se vangloriam com a sua morte física?”
O antigo rosto do MRPP afirma já não reconhecer o amigo como o mesmo, já que Arnaldo Matos sempre lhe disse que, por mais “desagradável ou negativa que a verdade pudesse ser, os marxistas-leninistas não a distorcem, não a falsificam, não a reescrevem”. No mesmo texto, Garcia Pereira lembra os elogios que Arnaldo Matos fizera a si, ao seu trabalho e à sua atividade ao longo de décadas, não só “em privado”, mas também “em reuniões, sessões, comícios” ou até “no discurso de padrinho de casamento.” Nesta longa exposição, Garcia Pereira divulga também um vídeo feito por Arnaldo Matos numa homenagem feita ao advogado quando fez 60 anos.


Continua aqui.

O MRPP não foi apenas isto que agora se mostra e representa um panorama de loucura política e quiçá, pessoal.
É preciso falar no MRPP para se entenderem alguns dos fenómenos que ocorreram durante o PREC, mormente as prisões  de alguns dos seus próceres mais notórios.

Uma dessas prisões foi a da então militante Maria José Morgado, hoje procuradora-geral distrital de Lisboa, um cargo imediatamente abaixo da PGR, na hierarquia do MºPº.
Maria José Morgado apresenta-se actualmente como uma candidata-sombra para suceder à actual PGR Joana Marques Vidal.  Deus nos livre!

Em Dezembro de 1974 Maria José Morgado foi presa pelo COPCON, coisa fantástica tendo em conta o panorama político da altura. MJM era mais papista do esquerdismo comunista do que o papa Cunhal. E por isso foi presa...e entrou em greve de fome, com uma carta aberta aos militantes publicada no órgão oficioso do MRPP, O Tempo e o Modo ( que fora um viveiro de esquerdismo moderado durante o marcelismo).


A revista Vida Mundial da época, um cóio comunista  próximo da extrema-esquerda e também do  PCP, mostrava:


Em 1975 o MRPP mostrava na mesma revista que "a luta continua".



Que não haja a mínima ilusão: para estas pessoas a "luta continua " sempre...e é uma luta de insensatez, de radicalismo, de irrazoabilidade que se manifesta sempre que as condições aparecem.

Deus nos livre de pessoas assim!

Os 50 anos da banda do sargento Pimenta



Há 50 anos atrás, mais ou menos por esta altura  saiu um disco Lp dos Beatles que deu brado: Sgt. Peppers Lonely Hearts Club Band.
O disco vinha precedido de um single saído em Fevereiro desse ano, com músicas que dele não fizeram parte ( mas podiam ter feito), Penny Lane e Strawberry Fields Forever e foi sucedido por outro single, em Julho, All you need is love. Clássicos da música pop.



A última edição da revista inglesa Mojo, em grande parte dedicada ao cinquentenário do disco ( a concorrente Uncut dedica o número ao "Summer of Love" de 1967, na ausência de exclusivo) , traz uma entrevista com Paul McCartney em que o mesmo afirma ter o grupo sentido a necessidade de compor coisas mais arrojadas porque tinham parado os concertos e por isso tinham mais tempo para compor.
Na época os Beatles eram  o maior grupo  do panorama pop/rock e Portugal não estava isolado nesse panorama, apesar do que possam dizer alguns fósseis do antifassismo primitivo.
Como era costume nessa época e durou ainda muitos anos, os discos que se publicavam “lá fora” ou eram importados, necessariamente em pequenas quantidades ou eram depois prensados por cá, longos meses depois. Sgt Peppers foi eventualmente um dos importados e depois prensados mas não há notícia da data em que tal sucedeu porque a Valentim de Carvalho ardeu para esses registos no incêndio do Chiado de 1988.
A revista Século Ilustrado de 5 de Agosto de 1967 já mostrava algumas letras do disco e fazia uma pequena recensão crítica ao mesmo. Contava até um pormenor curioso: uma das canções, A day in the life tinha sido censurada na BBC ( na verdade, outra, Lucy in the sky with diamonds também o foi, pelos mesmos motivos) por fazer apologia do consumo de drogas, o que juntou pontos de exclamação e interrogação ao escriba da revista...

Imagem tirada do livro de Abel Rosa,  Os Beatles na Imprensa portuguesa

 Tal curiosidade fica porém esclarecida na edição de agora da Mojo que publica em fac-simile a carta do director da BBC ao presidente da EMI, a confirmar o acto de censura, coisa vulgar nas terras de sua majestade mas por cá muito vituperada:


Na altura havia em Portugal um programa de rádio que tinha começado em 1965 e durante a semana passava as novidades da música popular de expressão anglo-saxónica. Em Órbita, a modernidade então existente , era único até no panorama europeu. 

O programa costumava no final do ano fazer um apanhado classificativo das melhores músicas e discos.
No final de 1966 tinha sido assim, como mostrava o Século Ilustrado de 14 Janeiro de 1967:


Nesse ano de 1967 aquelas três canções dos Beatles foram consideradas pelo Em órbita como algumas das melhores, como aqui se refere num regresso ao passado.
O  disco Lp  foi mesmo considerado o melhor do ano de 1967, tendo como concorrentes imediatos, o disco de Simon & Garfunkel, Parsley Sage Rosemary and Thyme, seguidos dos discos de Peter Paul and Mary, Jefferson Airplane ou dos Byrds, com Younger than Yesterday.
Para além de uma espécie de top dos Lp´s também se fazia uma classificação idêntica para as cançonetas no ano.
A que ficou em primeiro lugar, para os votantes do programa e com 217 pontos, foi Hazy Shade of Winter dos  Simon & Garfunkel, seguida de Penny Lane com 213 pontos e Nights in white satin dos Moody Blues, com 208.   Os Procol Harum, com o sucesso desse ano, Whiter shade of pale ficaram num pálido e recuado 15º lugar, recolhendo uns meros 111 pontos.

A piorzinha desse ano, para o Em Órbita, seria a canção vencedora do festival da Eurovisão, Puppet on a string, cantada descalça por Sandie Shaw. Critérios do snobismo da época...que se nota demasiado nas escolhas idiossincráticas que deixaram de lado o fenómeno do Verão hippie, o summer of love, sintetizado na canção de Scott MacKenzie, San Francisco, saída em Maio desse ano ou os discos dos Pink Floyd ( The piper at the gates of dawn) ou dos Beach Boys ( Smiley Smile) ou mesmo dos Love ( Forever changes).
O destaque desproporcionado que é dado a Simon & Garfunkel confere uma datação implacável aos critérios de escolha . Percebe-se que o Em Órbita tenha estiolado e acabado em Maio de 1971, precisamente a altura em que comecei a dar importância à música rock e por isso tive que descobrir todo esse período fundamental,  em retrospectiva.
Nesse hit parade das cançonetas, não aparecia nenhuma  de Sgt Peppers  e percebe-se porquê: o disco não tem canções evidentes para sucesso imediato, como single. É um todo. O produtor musical Glyn Johns  que também trabalhava na época com os Rolling Stones diz à referida edição da Mojo que para ele, na altura, o disco Sgt Peppers se assemelhava a uma vista para uma obscura peça de arte moderna depois de passar horas a olhar para uma composição clássica de retrato.
Houve já quem considerasse Sgt. Peppers o melhor disco da música popular de sempre ( Rolling Stone, 27 de Agosto de 1987) , nesta expressão anglo-saxónica, apesar de não ser um disco de música rock, estritamente.



 Na época, o sucesso foi também imediato e global, possivelmente ajudado por aqueles singles fabulosos que saíram ao mesmo tempo, mas dele não faziam parte e pelo historial do grupo. O impacto do disco, no universo da música popular e não só, foi tremendo, neste e no outro lado do Atlântico.

Não obstante, as grandes obras dos Beatles ainda estavam para aparecer. Em 1968, o "disco branco" e nos anos seguintes Abbey Road, possivelmente o mais perfeito de todos e o derradeiro, Let it Be, obras-primas da música popular.

Ao longo dos anos o interesse público e mediático pelos Beatles e respectiva música nunca abrandou, como o denotam estas capas de publicações que se espaçam no tempo de 1970 a 2017:


Em vinte anos, só em revistas dedicadas ao tema "Beatles" foi possível reunir este acervo:



Passados 50 anos temos uma reedição desse disco, renovada em vários formatos e com novidades: a inclusão até do single fundamental lançado antes- Penny Lane e Strawberry Fieds Forever -como fazendo parte do que nunca fez mas poderia ter feito.

Antes desta novidade agora saída, o disco tinha sido publicado em cd em Junho de 1987 e depois, em 2009, rematrizado em stereo e mono, em cd e lp. A história toda do disco está aqui bem relatada.

Em Setembro de 2009, por ocasião das reedições rematrizadas em cd,  a revista Uncut tentou  apanhar os efeitos que a música dos Beatles provocou em diversos domínios, particularmente musicais e publicou uma imagem de figuras míticas a condizer que ficaram algo a dever aos Beatles:


Glyn Johns diz na entrevista à Mojo que nenhum disco , antes ou depois, soa como Sgt.Peppers e que nem deixou descendentes artísticos por causa disso. Por mim, não sei, gosto de ouvir os Electric Light Orchestra que ficaram a dever bastante a esse disco. Lucy in the Sky with Diamonds, por exemplo foi uma boa fonte de inspiração para esse e outros.
 Seja como for, a reedição actual de Sgt. Peppers, segundo Paul McCartney justifica-se pela recuperação da dimensão “mono” do registo sonoro original, através de uma remistura de instrumentos e vozes. A versão original sendo em mono, a verdade é que também foi publicada na altura em stereo, por obra e graça do produtor George Martin. Aquando da reedição em cd da obra dos Beatles, em 2009, rematrizada, também saiu em stereo e foi considerado então o nec plus ultra da obra em causa.
Porém, a versão mono é agora remisturada e modificada para aquilo que Paul McCartney se lembra de ouvir como foi e que julga que pode “soar melhor”, apesar de não ligar demasiado a esses aspectos “técnicos”. Uma versão 3d do registo em mono, como se refere na entrevista.
Então como se deve escutar Sgt. Peppers, em modo de recordação?
Por mim, tal como no caso dos Beach Boys ( Pet Sounds, saído no ano anterior) deve ser conforme me lembro de o ouvir inicialmente, em stereo. Mas não foi em 1967 e sim alguns anos depois, no rádio ( que então passava os discos inteiros, em certos programas, convidando ipso facto a gravações pirata) , já em stereo e depois em disco Lp. A experiência física com o lp, aconteceu no início dos anos oitenta, com a reedição que a Valentim de Carvalho fez por cá, com data incerta, dessa discografia, possivelmente durante o ano de 1982.

Porém, nessa altura para conhecer os Beatles não era necessário ter ouvido religiosamente todos os seus lp´s.  A difusão mediática, nos rádios particularmente, das músicas dos Beatles, era suficiente. O impacto mediático dos discos anteriores tinha sido importante e apesar de o mercado nacional não ser tão alargado como noutros países, quem ouvia o Em Órbita ficava a conhecer tudo o que era importante na época.

Este desenho de Alan Aldridge, publicado originalmente em livro de 1969 dava uma ideia da diversidade temática e poética das canções porque nele se encontram alusões a uma dúzia de canções dos Beatles:


E como é agora publicitada esta nova versão do disco? O Expresso "viajou a convite da Universal"  a Londres, ao lançamento realizado no estúdio Abbey Road e de lá trouxe este apontamento, assinado por uma Lia Pereira. Quem não tem um Luís Pinheiro de Almeida ou um Abel Rosa  caça artigos deste género. Podia ser pior...


 O Diário de Notícias de hoje, pela pena semiótica de João Gobern, escreve isto que me provoca logo um desgaste penoso, pelas ideias confrangedoras. Passa o artigo todo a tentar demonstrar que hoje não seria possível gravar uma obra destas por causa do tempo de estúdio...esquecendo que os métodos actuais de gravação digital permitiriam isto e muito mais, em casa se preciso fosse e equipamento singelo houvera, caso houvesse talento para tal.



Quanto à tradução no Expresso dos pequenos trechos da Mojo, particularmente a entrevista de Paul McCartney torna-se interessante verter para português corrente a expressão "Well, in the Beatles we weren´t into stereo" por "nós não gostávamos do estéreo". Porém, não acrescenta que a versão em estéreo foi realizada por George Martin, porque o trabalho feito em mono tinha sido definitivo, para eles, Beatles.
 Estes artigos críticos na imprensa nacional de sempre são geralmente medíocres porque lhes falta o essencial: serem escritos por quem gosta da música  e a sabe apreciar e ao mesmo tempo tenha talento para relatar o que essas obras lhes dizem pessoalmente, onde as ouviram, como quando e porquê. À míngua disso tudo fazem redacções com ideias alheias que evidentemente copiam de qualquer lado disponível e são miríade nos tempos que correm na internet.

O que um Luís Pinheiro de Almeida, Abel Rosa ou Teresa Lage poderiam escrever sobre tal assunto não é compensado pelas informações factuais recolhidas algures e que todos podem verificar na internet. Os jornais ainda não perceberam isso e queixam-se depois da falta de leitores...
Somos ( quem lê jornais...) inundados de artigos impessoais, escritos sem estilo próprio, copiando ideias avulsas e alheias. Falta na crítica musical um indivíduo como o Rui Tovar filho que escreve sobre futebol como poucos ou ninguém. Mesmo o MEC dos velhos tempos dos anos oitenta deixou sempre algo a desejar. Enfim é o que temos e por isso vale a pena ler a Mojo, a Uncut, por vezes a Rolling Stone ou a Rock&Folk ou a  Guitar Player ou Musician dos velhos tempos que foram sempre as bíblias impressas destes boas novas e cuja leitura pelos vistos dispensou sempre o esforço pessoal da crítica subjectiva de quem escreve.
 
O disco original, inglês ( versão stereo) é este e aos meus ouvidos soa muito bem. Não sei se me tento pela audição da remistura em blu ray, o que nunca sucedeu com qualquer disco dos Beatles. Até agora quem quisesse ouvir Beatles, para além dos originais em lp, mesmo reimpressos, só tinha o som em cd vulgar ou quando muito, na versão adulterada ( por George e Giles Martin) de Love, saída em 2006, em dvd-audio...e cuja experiência auditiva é um tanto ou quanto estéril e não faz esquecer o original em vinil. O mesmo se passa, aliás, com as regravações de algumas canções, por Paul MacCartney em discos  com os Wings ( Over America, ao vivo, de 1976) ou a solo ( Give my regards to broad Street, de 1984-Yesterday e Eleanor Rigby).


Acabei de ler o que João Cândido da Silva escreve no Observador sobre este disco e a efeméride que concita.

Qualquer um poderia escrever o artigo após a consulta deste livro:


Não custava nada ter escrito no fim do artigo: para a maior parte dos factos citados foi usado material original  escrito por Ian Macdonald, já falecido. Era bem mais bonito e honesto porque estas coisas são aflitivas.

quarta-feira, 24 de maio de 2017

Os atrasos endémicos nos tribunais administrativos e fiscais

Notícia de hoje do DN:


Há cerca de meia dúzia de anos ( Julho de 2011) este mesmíssimo problema suscitou-me algumas reflexões. Assim:




Há alguns dias  o jornal Público escrevia sobre Justiça Fiscal: "há dois milhões de processos pendentes nos tribunais". E adiantava que os notários podem ser parte de uma solução para esse problema, nas execuções, nos despejos, nos inventários e partilhas e na arbitragem fiscal.
 "O desinvestimento em recursos humanos, nomeadamente no recrutamento de juizes, é uma das causas que podem explicar o actual caos tributário."- Domingos de Azevedo, bastonário da Ordem dos Técnicos oficiais de contas no  "Diário Económico" de há dias também.
Há quinze anos atrás, o governo de António Guterres,  apresentou um relatório sobre uma reforma fiscal que se impunha depois da nossa adesão à CEE, dez anos antes.
Um dos decanos dos economistas lusos, Silva Lopes tinha sido incumbido por Eduardo Catroga ( governo de Cavaco) de coordenar uma equipa de estudo do assunto e apresentar medidas.
Esse relatório tinha demorado dois anos a fazer e Silva Lopes disse então que "não fomos tão longe como se exigiria".
Uma das medidas mais significativas e que se pode ler no Público de 16 Maio de 1996 é sobre os tribunais tributários.
Escrevia-se nesse relatório, preto no branco, que era necessário "contingentar o número de processos por juiz, aumentar o número de juizos, já que a manter.se a média dos últimos três anos, seriam necessários 42 anos para eliminar o actual "stock" de processos."

Sabendo nós que actualmente está em curso a implementação prática da justiça arbitral tributária, com a designação de cerca de 91 árbitros ( incluindo alguns Conselheiros jubilados do STA), como resolver agora o problema dos processos pendentes, por exemplo no tribunal tributário de Lisboa, em concreto, quando se sabe que haverá cerca de 10 mil processos pendentes e a entrada processual é superior à dos que são findos?

Permito-me alvitrar algumas sugestões práticas:

1. A primeira coisa a fazer é tentar perceber através de estatísticas e mapas que são enviados regularmente pela Secretaria do Tribunal, quais são as verdadeiras pendências e tentar localizar os focos de maior paragem processual e motivos concretos e reais.

Para tal afigura-se-me necessário indagar através de métodos informais e que passam necessariamente pela averiguação pessoal e personalizada junto dos funcionários e dos magistrados ( juízes) acerca das razões “reais” dos atrasos.

Tal indagação, em meu entender só surtirá algum efeito útil se for realizada através de “conversa de café”, ou seja, por conversa despreocupada com os intervenientes nos gabinetes ou nas secretarias, o que se torna difícil porque será sempre uma tarefa ingrata averiguar a origem de problemas que podem residir em ausência de produtividade suficiente, mas que também dependem de outros factores cuja identificação será melhor realizada através desse método.
Uma indagação em modo de inspecção relevará sempre a desconfiança dos visados o que é compreensível e por isso mesmo se revelará pouco proficiente para o objectivo visado.

2. Por outro lado, é sabido que essa produtividade por parte dos juízes depende muito da celeridade na elaboração de peças processuais complexas como as sentenças que exigem esforço intelectual acrescido por causa do resultado técnico que é muitas vezes realizado a pensar nas inspecções.
Tal fenómeno justifica muitas vezes a extensão desnecessária dessas peças processuais que se estendem por páginas e páginas que exigem horas de trabalho e encurtam as possibilidades de maior produtividade.
Assim, a par da simplificação das leis processuais nesse aspecto, torna-se necessário também uma nova cultura de elaboração de sentenças.

A meu ver são estes os dois aspectos cruciais que impedem a melhoria da Justiça Fiscal nos tribunais administrativos e fiscais.