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domingo, 21 de maio de 2017

Populismo é isto...

 VPV, no Observador:

Só sexta-feira à noite percebi o que se estava a passar. O Presidente Marcelo, o primeiro-ministro, o presidente da Assembleia da República e a própria Assembleia enlouqueceram com Salvador Sobral. Não há a menor dúvida. E, para quem ainda duvide, basta ligar a televisão. Não me lembro de ver um espectáculo remotamente parecido (a Câmara dos Comuns, por exemplo, a aplaudir de pé Gardiner, Simon Rattle ou os Beatles). O populismo da classe dirigente portuguesa, toda ela, nunca desceu tão baixo. A pressa em roçar-se pela fama de um pobre cantor indefeso e desarmado mostra bem quem é esta gentinha da política, que Portugal inteiro despreza. Por um voto e um pouco de presuntiva simpatia, roubada ao próximo, vende unanimemente a sua dignidade e a dignidade das suas funções. O carácter, para ela, não passa de uma ficção. Agora sabemos quem nos governa.

A ideia que perpassa no aproveitamento político destes fenómenos parece simples: juntando-se ao sucesso alheio e sublimando-o para um plano nacional, também poderão usufruir da vantagem em popularidade e notoriedade positiva.
Tudo o resto virá por acréscimo e os media não esperam outra coisa senão vender mais uns exemplares ou conquistar mais uns pontos de "share".
Ainda por cima a cançoneta é bem boa.

Para contrariar este populismo apenas resta a iconoclastia, parece. Seja bem vinda.

15 comentários:

zazie disse...

ehehehe

O facto de não ter televisão faz-me estar a leste desta palhaçada.

Mas não temos Eças para gozarem com isto.

muja disse...

Agora sabemos quem nos governa.

O VPV deve ser de compreensão lenta; demorou quarenta anos a chegar lá...

Mas isto também há crónicas difíceis e outras mais fáceis.

Eu gostava era de saber a que heróis portugueses se refere ele a parágrafos tantos. Só por curiosidade...

muja disse...

Eu também tenho estado a leste.

Não gosto particularmente da voz, acho que canta meio pelo nariz em certos momentos, parece-me propositado e não gosto. De resto está, como se já disse, muito melhor do que qualquer competição.

Mas fiquei satisfeito que tivesse vencido, porque cantou em português. Nos tempos de vacas magras por que passamos essas coisinhas têm um valor desmedido.

zazie disse...

Engraçado porque gostei particularmente da voz e das variações vocais sem nunca desafinar. E as variações são difíceis, apesar de eu ser uma surda musical ehehehe

E também gostei de não precisar de cantar a plenos pulmões que é outra coisa que só aprecio na Ópera.

muja disse...

O problema, que me parece nem VPV alcança - daqui a quarenta anos talvez lá chegue - é que isto deviam ser lições cá para dentro, e não são.

Que o pessoal transborde de alegria e até se fanfarrone por causa do futebol ou da Eurovisão, parece-me natural e não me agrada o snobismo contra essas coisas. Não ganhamos muitas vezes, e é bom ganhar.

Mais grave é que as lições de quem ganha não se aproveitam.

Temos um indivíduo que é reconhecido como melhor jogador do mundo e que terá ascendido a essa posição através de esforço e dedicação, mas isso depois já não interessa nada. A lição do empenho pessoal e correspondente trabalho é a lição que devia ter-se tirado do Cristiano Ronaldo e valia bem um nome de aeroporto, se fosse aproveitada.

E com este passa-se o mesmo.

A grande lição a tirar aqui é que o português é uma língua na qual se pode cantar, bem, e ganhar concursos de música. E que nós podemos cantar em inglês, mas, em português, os outros não cantam.

muja disse...

VPV diz que "Portugal está na moda" é um símbolo do nosso fracasso.

Para mim, o único sítio onde Portugal precisa de estar na moda é Portugal.

O grande fracasso é esse.

Floribundus disse...

vejo a Odisseia, o Nat geo, 24h kitchen, bbc, cnn, CM, fox crime, ....

rato tp, sic, tvi
só por engano

adoro música, mas não nunca aprendi a tocar viola e bandolim

aproveito o pc para ler e ouvir

esta manhã estive a passear no Jaedim Tropical
e vi as traseiras do palácio de Belém
na ausência do locatário
felizmente!

Floribundus disse...

Sapo

Depois de oito anos em que Portugal esteve no PDE, por ter um défice superior a 3% do Produto Interno Bruto (PIB), tudo indica que Bruxelas encerre procedimento na segunda-feira: depois de o défice de 2016 ter sido de 2% do PIB e de a Comissão Europeia antecipar que o défice se mantém abaixo daquele valor de referência até 2018.

No entanto, esta decisão não significa necessariamente um alívio para Portugal uma vez que, saindo do PDE, passa do braço corretivo para o braço preventivo do Pacto de Estabilidade e Crescimento (PEC), ficando do mesmo modo obrigado a apresentar ajustamentos estruturais todos os anos e a baixar a dívida pública a um ritmo mais acelerado.

Uma dessas regras é alcançar o Objetivo de Médio Prazo (OMP) que é fixado para cada país e em termos estruturais – ou seja, sem considerar a variação do ciclo económico e o impacto das medidas temporárias – e é atualizado normalmente a cada três anos.

joserui disse...

Eu sou o que ando mais a leste porque nem a musica ouvi… não é o meu género. Esta sexta fui até aos Maus Hábitos ver Keep Razors Sharp e isso sim… mas cantam em inglês. Foi uma óptima coincidência porque na sexta passada tinha comprado o vinil na Tubitek.
"O VPV deve ser de compreensão lenta" Hehehe… o VPV semana sim semana não chega a esta conclusão pelos mais variados motivos.
E Muja eu entendo, mas o inglês está no limiar de ser língua franca, não é um problema exclusivo nosso. E pelo que tenho visto e li algures, cá os discos mais vendidos são os portugueses ao que parece.
E prefiro a nossa atitude à dos espanhóis que nem inglês sabem falar sem aquela pronúncia irritante. Dobrar tudo é doentio — eu só tenho pena de não ter passado a vida a aprender outros idiomas (cof, cof, alemão) para ver e ler certas coisas no original.

joserui disse...

"Engraçado porque gostei particularmente da voz" Hehehe, terá um je ne sais quoi de Bob Dylan? pode ser que chegue ao nóbel! :)

zazie disse...

eheheh

Tenho um gosto particular por timbres- os masculinos, por exemplo- falados. Cheguei a fazer concurso no Cocanha acerca disso- no cinema um James Mason ou o Vincent Price ( aqui ) Mas também um W.S. Burroughs o que pode parecer uma contradição- esse e o Ezra Pound e o Lou Reed, são dos poucos em que consigo ouvir poesia.

Já a cantar a coisa é mais complicada- não gosto da perfeição nem de timbres nem de dicções.

zazie disse...

Uma pequena confissão- em tempos, um homem sem esse pequeno je ne sais quoi de timbre sensual (ou estiloso) nunca me seduziria.

Uma voz masculina ou feminina que me desagrade é algo que se tiver mesmo que suportar só à distância
":OP

zazie disse...

Detesto o Pavarotti, por exemplo. Nem consigo entender como se pode aguentar. E, se há coisa que sempre gostei, é de ópera.

ehehehe

joserui disse...

O W.S. Burroughs colabora em diversas músicas que tenho por aqui e gosto — e a voz dele é o máximo. Aliás aconselho o documentário que saiu julgo que o ano passado.
Eu também posso fazer a mesma confissão…digamos que gosto que a voz se adeque à mulher :) .

muja disse...

Sim, a questão da língua não é problema exclusivamente nosso. Mas é problema e também é nosso.

Há um tipo que faz recolha de músicas, lengalengas e coisas assim em Portugal. Chama à página dele "Música Portuguesa a Gostar Dela Própria".

E tanto recolhe velho como novo.

Eu acompanho mais ou menos o trabalho dele porque ele encontra coisas muito engraçadas. Recomendo a quem goste disso.

Mas é sintomático que praticamente tudo o que ele recolhe e que é novo - todo o conjunto, projecto, "banda", cantor, artista, etc - se baptize em inglês. É os Black Mamba, os Flying não-sei-quantos, etc.

Já não é o cantar em inglês, é o ser em inglês.