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terça-feira, 13 de junho de 2017

A lendária estupidez da Censura e a chico-espertice nacional

Ainda a propósito do livro sobre "o Pide que morreu duas vezes" há duas histórias que denotam bem a suprema estupidez da Censura no regime anterior e que porventura suscitava reacções de índole reviralhista em quem sofria os respectivos efeitos directos.

Na primeira o autor conta o episódio ocorrido em 15 de Novembro de 1965 com uma capa do Diário Popular. O paginador ocasional do jornal, Jacinto Baptista, encadeou uma pequena notícia sobre Salazar e uma recepção a um embaixador com outra ilustrada de um cabeludo em pose de "ié-ié", moda musical em vias de aparecimento no panorama nacional, importada do estrangeiro anglo-saxónico dos Beatles e Rolling Stones mais os Kinks e outros Byrds.

Tanto bastou para que toda a administração do jornal tivesse que dar explicações detalhadas sobre o assunto que diminuía objectivamente a respeitabilidade do presidente do Conselho, ao associá-lo a uma moda de "chinfrim", sabendo que havia instruções precisas para que os jornais não cometessem tal delito de imprensa.



O segundo episódio narrado ainda é mais caricato: um pequeno anúncio de algumas linhas, no interior do jornal,  suscita reparos à Censura devido a um putativo despropósito com o nome do presidente do Conselho que não devia ser beliscado em tom de achincalhamento.



Isto que agora parece ridículo, na época tinha um contexto que é preciso referir e não omitir para desvirtuar a interpretação: não era permitido diminuir o prestígio das instituições de forma aleivosa ou cretina e a Censura velava por isso, principalmente no que ao representante máximo do Governo, Salazar, dizia respeito.
Os dois exemplos mostrados mostram isso mesmo: o modo iconoclasta, de achincalhamento implícito, no tratamento de ambas as notícias é evidente e os autores sabiam tal conduta proibida, mas arriscavam a rebeldia armando-se em espertos. A forma como a Censura actuava remete para o policiamento da chico-espertice que ambas as notícias representam e o modo estúpido no respectivo controlo acaba por dar razão aos que faziam o mal e depois a caramunha- e ainda continuam a fazer.

Em vez de assumirem a frontalidade da oposição sofrendo eventuais consequências, estes pequenos tartufos preferiam jogar ao gato e ao rato, armando sempre pequenas chico-espertices para amesquinhar  quem politicamente não apreciavam. E ainda se gabam disso, passados estes anos todos.

Por outro lado o Regime de algum modo contemporizava com estas pequenas canalhices porque as consequências eram suportáveis- e por isso os mesmos as repetiam sempre que podiam. O que é que o próprio Salazar pensaria disto? Contemporizava também com a estupidez Censória, o que não deixa de ser uma tristeza.

Hoje em dia, por exemplo no Expresso alguém se atreve a estas pequenas canalhices? Atreve, mas só há um exemplo para contar: um jornalista do semanário que agora é presidente da República uma vez chamou "lélé da cuca" ao patrão que é o tal que aparece nestas histórias, o Francisquinho. Parece que este não gostou mas não se sabe o que fez para se vingar. Como não havia censura ficou tudo no ambiente reinadio das redacções...

Tenho pena é que o autor do livro aparentemente nem se tenha dado conta destas coisas e tenha escrito a obrinha, aliás muito bem escrita, para colocar na lapela a badana do antifassismo primitivo e assim assegure um lugar no gotha do politicamente correcto na actual corte de Lisboa .


A propósito da iconoclastia, de liberdade de expressão conjugada com o "respeitinho" a figuras institucionais e da censura,  um dos melhores exemplos ocorreu quase na mesma altura em França.

Aí supostamente havia democracia, com liberdade para o partido Comunista propagandear livremente as ideias que peregrinavam desde quase o início do século XX e o herói da Resistência ao nazi-fascismo, De Gaulle,  era o chefe dos franceses.

Pois bem. Quando morreu, em 9 de Novembro de 1970, um semanário satírico, L´Hebdo Hara-Kiri ( "mau e estúpido") fez assim uma capa, tendo ao lado a que se lhe seguiu...:


O Hara-Kiri  foi censurado, proibindo-se a publicação, o que originou  o aparecimento do semanário Charlie Hebdo, alvo de atentados terroristas mais de 40 anos depois.
A Censura operou através de uma lei...

La plus scélérate est sans doute la Loi de 1949 pour la protection de la jeunesse, conçue sous Vichy, et qui permit à Raymond Marcellin d’interdire, le 15 novembre 1970, L’Hebdo Hara Kiri, qui avait salué la mort du général De Gaulle par un titre aujourd’hui un peu cryptique : « Bal tragique à Colombey – 1 mort ». Il fut retiré de la vente pour… pornographie ! Hara Kiri répliqua en lançant un nouvel hebdomadaire en supplément de son autre mensuel, Charlie, éditrice des Peanuts, dont le titre devint… Charlie Hebdo - celui-là même que l’on défend dans les prétoires aujourd’hui ! Devant le tollé des médias, choqués par cette interdiction, le ministre de l’Intérieur, Raymond Marcellin, intervint au journal de 13 heures pour annoncer que « ... l’objectif [de l’interdiction] a été dépassé » et qu’il n’avait pas l’intention d’interdire Charlie Hebdo dont le N°1 titrait alors ironiquement : « Il n’y a pas de censure en France » 

Portanto, censuras há muitas.  

8 comentários:

muja disse...

Se Salazar não contemporizasse com o que lhe desagradava teria de despedir 90% do Estado.

Evidentemente, houve exageros; e estes serão, porventura, alguns.

Mas isto não prova nem desprova coisa nenhuma; pois há aqui uma falácia e que é pensar-se que, caso o Estado permitisse estas coisas, não se tentariam coisas piores. E só não vê quem não quer que a técnica é sempre a mesma, ainda hoje, para tudo: em tendo a mão, querem o braço.


Para a agitação, o importante não são as reivindicações em si: é que as haja, quaisquer que forem. E tanto melhores quanto mais ousadas ou escandalosas.

De maneira que o problema também é sempre o mesmo: como definir o critério?

É pura ingenuidade pensar-se que um critério mais liberal - porque, ao fim e ao cabo, é disso que falamos - teria quaisquer vantagens para o Estado.



Floribundus disse...

a missão da actual censura é a omissão
quando saem as notícias falta a vergonha

está algures um boneco
que menciona a diferença entre:
transparente
trás parente

muja disse...

Floribundus,

conhece este tipo?


Stéphane Blet est un pianiste et compositeur français, né à Paris en 1969, auteur de trois cents œuvres éditées et d’une trentaine de CD. Il est également un spécialiste du symbolisme, des mouvements ésotériques et de la franc-maçonnerie, donc il fut l’un des « Maîtres ».


http://www.kontrekulture.com/produit/franc-maconnerie-l-effroyable-verite

Floribundus disse...

deveria ser traz

obrigado Muja
mas acontece que nunca segui o rito francês criado depois da queda da Comuna de Paris
e em 1998 rifei o gol

conheço Eric Satie, mas não gosto

prefiro os grandes compositores russos e italianos do séc XIX, entre outros

adoro as pinturas que me mostram a evolução do ser humano

detesto politicos extremistas
embora tenha raízes anarquistas e trotsquistas
preferia uma democracia directa

a geringonça está sempre a defecar no meu prato

'em movimento ... lento'
'em marcha ... atrás'

o monhé pertence aos adiantados mentais

em Belém preferia o Tino de Rãs ou o Quim Barreiros


lusitânea disse...

Agora o moderno é todo o mundo ficar lelé da cuca...

Ricciardi disse...

Bote-se olhinhos ao MP Espanhol nos casos Messi e Ronaldo.

Nao ficam a afiambrar vaidadezinhas nem a tocar violinos pelos jornais.

Os movimentos offshores de várias dezenas de milhões de euros foram investigados na calada e deduzida acusação em prazo decente. O do Messi até já foi julgado.

Por cá continuamos a novela com o caso socrates. Se não fossem vaidosos e precipitados não estavam na situação desesperada de ter de encontrar um crime a toda a força para ver se salvam a pele do erro inicial.

Agora mesmo estão parados. Esperam respostas de angola às cartas rogatórias. O mesmo é dizer que vão continuar parados na esperança que mais ano menos ano os crimes eventuais prescrevam e possam finalmente desembaracar-se do problema.

Em todo caso o Ronaldo é obviamente inocente e não merece ser preso preventivamente, embora o crime seja passível de preventiva... se os espanhóis tivessem um juiz como deve ser. No mínimo equivalente ao nosso superjuiz.

Se a tendência continuar, eu vou tentar fazer lobbing no sentido de podermos ter prisões privadas em Portugal.

Explorar o negócio do cativeiro parece ser rentável se se mantiver superjuizes a ajuizar. De preferência aqueles que não pediram dinheiro emprestado a amigos indiciados de corrupção.

Até se podia estabelecer um protocolo com o MP e alguns juízes por forma a encaminharem mais preventivos para a choldra.

Um protocolo sem dinheiros por baixo da mesa, claro, que somos pessoas de bem. Mas não sei se já não terão encontrado outras fontes de rendimentos alternativas.

.
Rb

josé disse...

O crime de fraude fiscal em Portugal até um certo montante e até há algum tempo permitia a suspensão provisória do processo. Foi assim que o Furacão foi resolvido.

Quem não sabe mais, escreve asneiras e a menor das quais não é a de comparar uma fraude fiscal com crimes de corrupção enquanto se foi primeiro-ministro de um país...

josé disse...

E as asneiras não ficam por aí:

"Os crimes fiscais terão sido cometidos entre 2011 e 2014 e terão prejudicado o Estado espanhol em quase 15 milhões de euros, segundo um denúncia apresentada em tribunal. Em causa estão quatro crimes, segundo a denúncia apresentada em tribunal pela secção de delitos económicos da autoridade tributária de Madrid."

Ainda se está numa fase de inquérito e nem se sabe se o MºPº espanhol acusará formalmente.

Ainda assim, uma fraude fiscal com este contorno não tem comparação alguma com esquemas de corrupção que passam por barrigas de aluguer e pouca vergonha a rodos.

Defender este género de pessoas, à outrance, parece-me estúpido.

E estou farto de ler coisas estúpidas escritas por si.

Não quer desandar daqui, para sempre?