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sexta-feira, 4 de agosto de 2017

A Visão dos hippies na mistela habitual



 A revista Visão destaca na capa desta semana um artigo sobre “O Verão do Amor que mudou as nossas vidas”. 
Será caso para perguntar desde logo a que vidas se refere a autora ( Rosa Ruela) e se a palhaçada hippie que se exprimiu com maior intensidade na cidade americana de São Francisco, no Verão de 1967 foi de algum modo catalisador de alguma mudança importante na sociedade, americana e não só, apenas por isso.   
O artigo começa por enunciar o cronograma do fenómeno como se a autora o tivesse vivido e soubesse de cor o que aconteceu. Nem uma referência a fontes, nem um sinal da sua razão de ciência que pode muito bem jazer num qualquer artigo de internet. Citam-se profusamente declarações vindas de algures de contemporâneos dos acontecimentos, como se a autora os tivesse ouvido ela própria, para a reportagem. Dá-se conta de música da época que se duvida que a mesma a tenha ouvido como deve ser. Enfim, um artigo escrito de cor e naturalmente copiado nas suas fontes de informação não reveladas mas facilmente detectáveis: escritos alheios.  Uma vergonha, como é habitual.
Há muitos anos que o historial do “movimento hippie” foi apresentado ao público leitor, muito antes do aparecimento da internet e até em Portugal se traduziu, em 1973,  uma boa história do fenómeno, no livro O Mundo da música pop, do escritor e publicista alemão Rolf-Ulrich Kaiser, escrito originalmente em Dusseldórfia, em 1969 ( esta informação fui buscar à Wiki…)
A cereja no topo deste bolo fora de prazo assenta porém num outro assunto relacionado: “os hippies portugueses”. Apanharam-se dois protagonistas contemporâneos que assentaram arraiais em Londres, no verão de 1967 e em Luanda, em ano incerto. Ambos testemunham  os efeitos do fenómeno hippie tipicamente americano da segunda metade dos anos sessenta. O primeiro por ter ouvido falar em Londres, no mantra “peace and love”; o segundo por ter ouvido vagamente de uns americanos aterrados em Luanda, novas sobre as flores de São Francisco. Em 1971, este mesmo “colono” veio   à Metrópole e “apercebeu-se de que o movimento hippie já se fazia sentir, embora tímido”. Enfim, quatro anos depois da sua eclosão será caso para pensar que a Metrópole ( que não a colónia) era mesmo um atraso de vida…
O pequeno apontamento mistura depois tudo o que veio a seguir, amalgamando o  “hippismo”  com a corrida às lojas Porfírios, apresentadas como símbolo destes hippies de imitação que se manifestam, no entender da autora no festival de Vilar de Mouros, em Agosto de 1971.

Tudo isto tem importância diminuta ou até mesmo tributária da palermice estival, mas ainda assim uma capa destas com o destaque nos quiosques deveria ferir a inteligência média do leitor nacional. E daí o comentário a seguir.
Quem quiser escrever bem sobre estes fenómenos com 50 anos em cima, ou deve saber do que fala por os ter vivido ou então, após ter lido vários livros, artigos e reflectido no que dizer. Por outro lado, como tudo isto recende a cultura anglo-saxónica que importámos a quilo de papel e vinilo, na época,  o melhor será ler a imprensa indígena, mesmo agora em época de efeméride.
De resto, em 50 anos pouco ou nada se modificou em Portugal relativamente ao modo como se faz este jornalismo: copiar pura e simplesmente o que se escreve lá fora, misturando uns depoimentos avulsos de indígenas para disfarçar o plágio. Era o que sucedia em 1967 e é o que sucede hoje em dia, agravado pela praga de artigos copiados via internet.

A britânica Uncut publicou um número especial sobre o assunto em Junho passado e os temas musicais que elencou, na sua esmagadora maioria não eram conhecidos em Portugal na época, nem sequer nos anos vindouros.




Estes artigos do género que a Visão publica são por isso um pastiche mal feito de ideias alheias e factos recolhidos algures, sem fonte conhecida. Um exercício lastimável porque se nota o efeito da nostalgia inventada e da memória falsificada porque inexistente. 





Em Portugal, no ano de 1967, a imprensa de maior circulação dava importância aos fenómenos culturais do estrangeiro ocidental e por isso os "hippies" ( termo cunhado pelo jornalismo, segundo aquele autor alemão) eram notícia que a Censura não cortava. 

Em  7 de Outubro de 1967 a revista Século Ilustrado publicou um desenho tirado do jornal inglês New Musical Express que mostrava a iconografia hippie no mundo da música pop, à volta do artista do momento, com um êxito que por cá também deu que falar e ouvir: "San Francisco ( be sure to wear flowers in your hair") . E merecido porque a melodia é intemporal.


Porém, em Portugal, nesse ano de 1967, o principal programa de rádio onde seria possível ouvir músicas dos "hippies" ou seja, enraizadas num pretenso psicadelismo inspirador, era o Em Órbita que passava música pop/rock desde 1965 e acompanhava todas as novidades vindas de Londres e outras paragens.
Como já aqui se escreveu,  o Em Órbita ligou muito pouco ao movimento hippie e música relacionada.

O  melhor disco do ano de 1967 foi naturalmente o dos Beatles, Sgt Peppers, com alguns temas "psicadélicos" mas nem por isso escolhido como tal, porque os concorrentes imediatos vinham da terra dos hippies mas a música era outra, mesmo recendendo psicadelismo avulso: o disco de Simon & Garfunkel, Parsley Sage Rosemary and Thyme, seguidos dos discos de Peter Paul and Mary, Jefferson Airplane ou dos Byrds, com Younger than Yesterday.
Nos singles, discos pequenos que eram o alimento mais comum dos famintos de música popular, a que ficou em primeiro lugar, para os votantes do programa e com 217 pontos, foi Hazy Shade of Winter dos  Simon & Garfunkel, seguida de Penny Lane com 213 pontos e Nights in white satin dos Moody Blues, com 208.   Os Procol Harum, com o sucesso desse ano, Whiter shade of pale ficaram num pálido e recuado 15º lugar, recolhendo uns meros 111 pontos.
A piorzinha desse ano, para o Em Órbita, seria a canção vencedora do festival da Eurovisão, Puppet on a string, cantada descalça por Sandie Shaw. Critérios do snobismo da época...que se nota demasiado nas escolhas idiossincráticas que deixaram de lado o fenómeno do Verão hippie, o summer of love, sintetizado na canção de Scott MacKenzie, San Francisco, saída em Maio desse ano ou os discos dos Pink Floyd ( The piper at the gates of dawn) ou dos Beach Boys ( Smiley Smile) ou mesmo dos Love ( Forever changes).

Portanto, em 1967, em Portugal, no meio dos connoisseurs o fenómeno hippie foi um epifenómeno, apenas. E não admira, com estes engravatadinhos jovens a orientarem o programa que foi seguramente um dos melhores de sempre, senão o melhor,  do rádio, em Portugal.


Porém, em 9 de Março de 1968, surgiu em Lisboa uma manifestação do fenómeno de imitação dos hippies, em época de Carnaval. o que denota que o assunto não era estranho aos portugueses urbanos da escola de artes António Arroio, ouvintes certamente o Em Órbita:


Portanto, o fenómeno até nem chegou demasiado tarde a Portugal. O que nunca chegou, aliás, foi o "pathos" necessário e suficiente a tal eclosão socialmente visível, mesmo macaqueada.
Em Agosto de 1968 a mesma revista publicava uma série de artigos sobre a música pop em Inglaterra e falava da "invasão hippie" através da influência musical do "San Francisco sound".


Passados três anos do San Francisco de Scott McKenzie, a melhor expressão dessa época, a revista que lhe consagrou a capa na edição de 17.10.1970, dava conta já de outros fenómenos na música popular, particularmente os festivais como o da ilha de Wight, em 1970,  o mítico festival começado em 1968 e que naquele ano congregou bandas e  músicos como os The Who, The Doors, Chicago, Ten Years After, Moody Blues ( que eram os preferidos dos engravatadinhos do Em Órbita), Jethro Tull ( considerados como "espantosos"), Jimi Hendrix, para além de dois brasileiros exilados em Londres: Caetano Veloso e Gilberto Gil. 
A revista ( reportagem de José Carlos Oliveira)  nem menciona os grupos The Who cuja actuação mereceu um filme, nem os ELP e outros o que denota bem a relativa importância que se dava essa música na altura. 


Assim, a menção ao festival de Vilar de Mouros em 1971 como sendo uma manifestação serôdia dos hippies é manifestamente exagerada. 

Vilar de Mouros não é produto dos hippies mas da cultura pop de que aqueles fizeram parte efémera num Verão, em 1967. Nada mais.

Século Ilustrado de 14 de Agosto de 1971, reportagem sobre o festival de Vilar de Mouros. 


Os fenómenos sociais que surgiram entre a juventude portuguesa dos anos setenta em diante, vindos naturalmente de trás, incluindo Vilar de Mouros ou os Porfírios fazem parte de um movimento mais vasto e mais extensivo do que os pobre hippies de S. Francisco que carregam com a culpa de tudo, na visão distorcida da revista Visão. 
Esta maneira de apresentar fenómenos sociais reduzindo-os a expressões minimalistas tem assento também na apreciação do regime da época e se a autora do artigo, desta vez, conseguiu fugir ao síndroma do fassismo ( apesar da referência fugidia e inevitável à "guerra colonial" ) como pedra de toque explicativa de todo o nosso atraso, por outro lado não apresenta o panorama estereoscópico necessário a uma boa compreensão do que foi a realidade portuguesa em 1967 e nos anos a seguir. 
Mau jornalismo, por isso.

Quanto à "droga, loucura e morte" que se apresenta como resquício dos " hippies em Portugal" é  igualmente inexacto. O assunto foi apresentado já nos anos setenta, e até a capa do Século Ilustrado de 4.3.1972 lhe fazia referência.


34 comentários:

lusitânea disse...

Os hippies ainda andam por aí.Agora querem até fundir a GNR numa polícia civil única.Acham mais fácil "derrubar" esquadras inteiras sendo da polícia civil...
O alegado aquecimento global anda a queimar muitos circuitos cerebrais.Que ninguém interna em hospital psiquiátrico...

josé disse...

Esses não são hippies. São "provos".

zazie disse...

Como sempre o José para fazer o jornalismo que os "profissionais" não sabem.

joserui disse...

Alegado… eu acho sempre piada como se misturam assunto hippies = aquecimento. E no entanto, a natureza segue o seu rumo. Tenho dúvidas que o nível de destruição seja recuperável.
Aliás ainda hoje vi um filme com um comboio de camiões chineses carregados com aquilo que era floresta moçambicana… qualquer coisa de perturbador. Mais uma conquista de Abril. Andamos nós mais de 500 anos nesses países para serem saqueados pelos chineses… enfim. Mas é tudo alegado, por isso não importa.

joserui disse...

Sobre o post, não diga isso José… eu próprio sou um produto desse Verão de '67… foi uma coisa só vista de paz e amor.

antónio disse...

Classificar de "engravatadinhos" os realizadores do "Em Órbita" é profundamente injusto e denota desconhecimento da forma como as pessoas, tivessem elas 7 ou 77 anos, se vestiam nos anos 60. Será que os Beatles também eram "engravatadinhos" só porque nos princípios daquela década se vestiam de fato e gravata? E que dizer de muita gente do jazz que, ainda nos dias de hoje, se apresenta vestida dessa maneira nas suas actuações?
Mas, se essa adjectivação pretende insinuar que eles eram conservadores e retrógrados então isso isso é profundamente injusto, porquanto eles foram as pessoas mais inovadoras, esclarecidas, rigorosas e a pensar pela sua própria cabeça de forma consistente que apareceram na rádio. O que entristece é ver persistir o eterno defeito do nosso país - neste caso, da rádio - ignora-se aquilo que tem valor e louva-se a mediocridade dando-lhe o incentivo da continuidade.

josé disse...

antónio:

Estão engravatadinhos ou não? Era ou não era essa a moda, ou o modo de vestir nas faculdades, nessa altura, de 1967? Por isso não é injusto porque é mesmo à justa.

Isso quer dizer que nessa altura as calças de ganga ou o modo de vistir mais casual ainda não era moda porque não tinha chegado cá.

E não denota desconhecimento algum porque me lembro desse tempo. Não preciso de memórias inventadas.

Nos EUA já era moda vestirem-se de outro modo e na Inglaterra também já lá tinha chegado...

josé disse...

Não sei bem quando foram introduzidas as calças Levi´s de ganga, em Portugal. Sei que em 1970 havia Lois que era uma marca espanhola que se vendia como pão quente porque eram relativamente baratas ( 150$00, contra 275 das Levi´s em corduroy. As Levi´s de ganga eram melhores e tinham o appeal de serem americanas.

josé disse...

Em 1970 as calças de ganga Levi´s eram um luxo, em Portugal, porque ainda não tínhamos entrado na era do consumo de massas desse tipo de produtos, com preços mais acessíveis a todos.

Agora penso que ainda não houve ninguém a escrever sobre estas coisas, em Portugal.

zazie disse...

Eu tenho fotografia com umas em 65. Em Vila Nova de Mil-Fontes, sem luz eléctrica e a fazer burricada.
Mas tive outras mais cedo, enviadas da América.

zazie disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
josé disse...

Mas essas eram coisas que gostava de saber e não basta lembrar-me porque não tenho dados suficientes.

Sei por exemplo que havia uma marca de camisolas de lã shetland-Almagre- que eram uma maravilha de qualidade. Melhor que agora.

Em 1970 tive uma em azul bebé que combinava com umas calças "à boca de sino" em tom cor de vinho. Parecia o Tintin, mas foi talvez a roupa que me lembro melhor de vestir. Nessa altura a escolha da roupa pelos rapazes ( ou pelo menos alguns) era mais sofisticada do que hoje e as marcas contavam. Tal como o calçado. Em 1970 apareceram uns botas de pele clara, macia e sola de borracha virgem que eram imitação das Clark´s do exércio inglês na campanha de África.

Sempre quis ter umas genuínas mas eram caras e o que havia era uma imitação da Campeão Português, com sola sintética e couro mais banal. Mas tive e ainda me lembro.

Hoje em dia comprei umas, de uma marca italiana que são exactamente o que então queria. Ainda ando com elas...de vez em quando.

josé disse...

Acho que esta conversa já é repetida de alguns anos a esta parte...ahahaha.

Mas para mim é sempre agradável falar nisto. Estou a acabar de ler um livro de um inglês sobre o ano de 1971 na música rock. Diz que foi o melhor ano para essa música e tendo a concordar em parte.

O tema anda à volta disto, da moda dos jovens e do modo como apareceram alguns artistas e gravações musicais que ainda hoje perduram na memória colectiva.

Hoje li a parte do disco de Don McLean, American Pie que foi gravado em Dezembro desse ano de 1971 e cuja canção- tema é das mais memoráveis de sempre.

josé disse...

Por outro lado acho que falta uma história das modas, em Portugal.Particularmente da moda jovem dos anos sessenta para cá.

É um assunto interessante tanto mais que muitos jovens de então são agora sexagenários ou mais e não tem lembranças vivas desse tempo que foi interessante, até por isso mesmo.

As modas vinham para cá, nesses anos sessenta, através dos emigrantes, à falta de outros meios mais expedidos, que agora existem.

E as fábricas de confecções com os seus estilistas também por cá não deviam ajudar muito. Mas havia algumas, como a tal Almagre ou a as de calçado de São João da Madeira que eram modelares a nível mundial. E hoje não me parece que assim seja.

zazie disse...

Em Lisboa, nos anos 60 existiam meia dúzia de boutiques no Bairro Azul. Em Cascais e no Estoril também havia e coisas bem bonitas e de boa qualidade.

Depois apareceram os Profírios. Na altura foi a Ana Salazar com a Maçã, na Av. de Roma e que ia buscar roupa a Londres.

Eu primeiro mandava fazer por revista e usava o mais in que era possível ehehhe Ainda tenho umas fotografias.
Depois passei para as boutiques. Uma delas era na Guerra Junqueiro, ainda me lembro- a Carochinha. Tive uma saia linda de morrer e uma camisola de gola-alta, tom azul petóleo. Essas coisas devem ainda estar nos filmes super-8 do meu avô.

Coisas em ganga, sem ser as calças enviadas pelo americano, tive uma saia muito gira com "peitilho com bolso e alças com ilhoses de metal. Foi comprada no Lanalgo.
Dessa ainda tenho a fotografia porque foi aí e com o cabelo curtinho que passei a "Zazie".

zazie disse...

As camisolas de homem, lã Shetland Almagre, ainda me lembro.

zazie disse...

Porfírios, queria dizer.

zazie disse...

Os sapatos e botas eram de muito boa qualidade. Lembro-me de comprar umas botas lindas, que fecham atrás, e os tradicionais mocasins- na sapataria Mário da Baixa ou na Pim-Pam-Pum da Praça do Areeiro.
Ainda existem ambas.

zazie disse...

Mas também se mandava fazer calçado. Excelente, na zona de Aveiro.
Engraçado que a Rosa Pomar retomou a tradição desse calçado típico e vende-o na Retrosaria.

O problema são as solas de cabedal com esta calçada...

zazie disse...

A propósito: a jornalista é filha do Fernando Assis Pacheco.

josé disse...

É pena o pai não estar vivo para lhe poder dizer que o escrito está uma merda.

José Domingos disse...

Ia-se a Madrid, que era uma aventura, nas excursões de finalistas, e a malta caia no el corte inglês e nas galerias preciados, acho que era este o nome.
Lembro-me de comprar uma calças, parecidas com as da marinha,tipo pata de elefante em côr de rosa, em bombazine, custaram uma nota, acho que eram da Levi´s.
Por cá ouvia-se o tactac bagatelas, jogava-se ao loto e ouvia-se a BBC
Tempos giros.

antónio disse...

Uma vez que os comentários enveredaram pela roupa que era o "chic" do final dos anos 60, venho acrescentar o testemunho de quem já por cá anda desde o ano em que a Amália Rodrigues gravou um álbum nos estúdios de Abbey Road. Nessa altura a grande marca de camisolas, mais do que a Almagre referida pelo José, era as malhas Sidney. Nesses tempos, a loja Torres da cidade de Braga, que me parece ser bem conhecida do José, era o expoente desse vestuário, pois primava por ter todas os modelos, cores e tamanhos. Nos anos de 68/69 o máximo do requinte era a combinação do uso de calças Letvi's de bombazina fina de côr azul claro com uma Lacoste amarela. Os heróis que tivessem a
a possibilidade de usar essa roupa, tinham o mundo a seus pés.

Nuno disse...

E eram todos do Sporting

José Luís disse...

A Fred Perry também era muito usada.
E o perfume em voga era o Aramis.
Lojas da moda: Loja das Meias e a Camisa d'Ouro.
Sapatos na Lord ou na Hélio.

josé disse...

Sydney,aqui está outra marca que me esquecia. E a Lacoste era de facto um must para quem tinha dinheiro para a comprar porque sempre foi cara. Em Espanha eram mais baratas porque as faziam lá, mas eram de qualidade inferior às originais, francesas. Isso no tempo em que a globalização ainda não era a regra e a distinção se fazia pela análise do "piqué", da confecção do crocodilo e das etiqueras interiores que deveriam aparecer cosidas na lateral em baixo e trazes a menção a Lébaud ou coisa parecida.

Hoje um "polo" Lacoste custa cerca de 80 a 90 euros. Dantes era mais cara, relativamente.
E havia a Fred Perry que era igualmente de qualidade e preço semelhantes, mas tinha outro "style".

Esse tal requinte da combinação das Levi´s de bombazina fina com a Lacoste pode ver-se numa foto que apareceu na revista Paris Match, em 1975, com um militar à civil a acompanhar Otelo...

aqui

Maria disse...

O José tem muita razão no que diz sobre as modas, os engravatadinhos, etc., dos anos 60 e 70.

A esquerda parva andou aqui há anos a dizer que nesses anos por cá não se usava a mini-saia, nem os biquinis porque o Regime os proibia. Rematada mentira! O José tem consigo umas fotos que lhe enviei há tempos da Revista Plateia (que conservo porque a minha Mãe guardou algumas por nelas virem entrevistas com pessoas nossas conhecidas) uma de 1961 e outra de 1962 cujas capas trazem duas actrizes, uma em fato de banho e na outra uma com um fato bem decotadinho e com uma perna toda à mostra. Nessas revistas, no interior, aparecem actrizes e outras raparigas em biquinis e também em baby-doll e outras vestes do estilo.

As calças de ganga de facto não se encontravam por cá à venda e só as tínhamos se adquiridas no estrageiro, mas também ninguém lhes ligava muito justamente por serem por cá desconhecidas. As que começaram a aparecer, como diz o José, eram Levi's e eram caras. Vinham dos Estados Unidos(*) onde eram usuais e corriqueiras, porque na Europa, que me lembre, nenhum jovem francês ou inglês as vestia ou porque não era moda ou porque elas não se vendiam na Europa. Os jovens ingleses, sobretudo os de classes baixas, vestiam calças de tecido normal muito justas (como por cá foi uso até há poucos meses) e sapatos com um bico que mais parecia uma falua, verdadeiramente horríveis. Isto em cinquenta e princípios de setenta.
(*) Só pelos anos oitenta tive conhecimento que as calças de ganga, que se vendiam aos milhões(?) nos Estados Unidos, eram confeccionadas numa Fábrica do Norte de Portugal. Inacreditável! Eram fabricadas cá e por cá não se vendiam...

As calças à boca-de-sino só começaram a usar-se por toda a Europa pelos fins dos anos sessenta e já em força pelos anos setenta. Cá também, embora mais lentamente.
A Zazie diz bem, a Maçã da Ana Zalazar, que foi das primeiras lojas a abrir com roupa moderna, tinha peças muito giras. Comprei lá duas calças com um corte giríssimo, mas nada de à-boca-de-sino, estreitinhas junto ao pé, isto lá para os fins dos anos sessenta.

Os Porfirios tinham roupa moderna e gira - comprei lá alguma roupa, pouca. Era uma loja carota e podia-se encontrar roupa igual ou tão moderna nas excelentes boutiques, que já as havia na Baixa por essa altura. E até na Loja das Meias, uma loja cara mas onde se encontrava roupa de senhora do melhor e mais moderno que se podia encontrar em Lisboa, muita dela vinda de fora. Mandei lá fazer duas saias, comprei blusas e uma mala/carteira toda em pele por dentro e por fora (como se faziam naqueles tempos, nada de materiais sintécticos nem forradas a pano como hoje se vendem por mais caras que elas sejam).

Havia a Paris em Lisboa/Rua Garrett, muito na moda mas não conheci bem, a minha Mãe e Tias é que lá compravam tecidos e mandavam fazer vestidos. A Sapataria Americana/Rua Garret tinha sapatos giros e nela cheguei a comprar vários pares de sapatos; em frente desta havia outra sapataria cujo nome não me ocorre, que tinha belíssimos sapatos, alguns modelos, poucos, vindos de França, comprei lá uns franceses, que ainda conservo, do mais bonito e elegante que pode haver.

Na Rua do Carmo havia várias sapatarias, uma delas era a Hélio. Boa sapataria onde comprei por diversas vezes sapatos. Em frente desta havia outra (talvez ainda exista) não me recordo do nome, de entrada estreita, com sapatos muito bonitos e de excelente qualidade, alguns também vindos de França e Itália, tenho uns lá comprados em pele de cobra que usei e uso de vez em quando e estão como novos, tal a qualidade que hoje já não se encontra.

Todas estas compras aconteceram pelos anos sessenta, setenta e esta última compra eram já entrados os oitenta.


joserui disse...

Só não concordo com o José no que diz quanto a ser mais acessível… antigamente os meus pais ganhavam pouco e com o dinheiro conseguiam fazer mais, designadamente na roupa. A Lacoste pode ser mais barata relativamente, mas a qualidade já não será a mesma e deve vir da China ou Bangladesh.
E pior e se calhar está aqui o erro do José: é que hoje passa por acessível aquilo que é exorbitante. A maior parte das marcas conseguiu convencer as pessoas que comprar nos saldos ao preço que seria normal (e mesmo assim caro), é barato e acessível.

josé disse...

Julgo que é mais acessível porque o rendimento per capita aumentou e também a classe média subiu. Mas não sei. Só comparando os preços e fazendo o ajustamento para o preço real, com o factor respectivo da inflacção, etc.

Floribundus disse...

'isto é tudo um ......'

até bebiam a 'água suja do capitalismo gringo' ou coca-cola

Jorge Jesus disse...

Não esquecer as Wrangler e Lee,trazidas por embarcadiços e qu se compravam de contrabando.

josé disse...

As Wrangler e Lee já se vendiam por cá em 1972. Foi nessa altura que a Wrangler começou com as boca de sino e bolsos chapados à frente e atrás.

Daí para a frente as calças de ganga ganharam outras marcas e em Espanha eram várias e mais baratas que por cá, com qualidade muito boa.

Maria disse...

Até os Beatles andaram bastante tempo engravatadinhos... e quando deixaram a gravatinha começaram a usar uma camisa com colarinho branco arredondado e estreitinho junto ao pescoço, com a gola dos casacos também arredondada e estreita a acompanhar o colarinho. Até nas tournés pela Europa e E.U.

A nossa juventude e mesmo a rapaziada mais humilde, a partir dos 15/17 anos, sempre usou fato e gravata regularmente tanto durante o dia como vestia igual para ir à Boîte à noite e só trocava este género de indumentária por roupa mais leve e descontraída para ir à praia, por exemplo. Este hábito perdurou até aos anos setenta/oitenta e só foi alterado quando chegou a moda dos cabelos compridos e grandes patilhas. Mesmo os Beatles, que iniciaram esta moda, jamais usaram os cabelos sequer a bater nos ombros, só muito mais tarde o Lennon deixou crescer o cabelo após ter casado com a disparatada da Yoko e ter-se tornado comuna... Os hippies sim, esses é que começaram a deixá-los crescer até meio das costas, imitados pelos subsequentes (e só alguns) grupos rock e demais juventude transviada pràticamente só nos Estados Unidos e nada na Europa. Por cá os MFA's foram os grandes precursores dessa moda ultrajante apadrinhados pelos comunas e xuxas - que curiosamente na União Soviética e noutros países comunistas jamais se atreveriam a fazê-lo, por aqui fàcilmente se depreende até que ponto chegou a hipocrisia e o cinismo daqueles - dando um péssimo e vergonhoso exemplo ao País, que só serviu para denegrir umas Forças Armadas que deveriam ser o exemplo máximo da integridade pessoal e do aprumo militar nos quais todo um povo tinha tido até então e durante séculos e séculos um enorme e justificado orgulho em se rever.

Uma pequenina nota: o meu Avô e os meus Tios maternos, até para irem à caça usavam o fato e gravata de sempre. Blusões só muito mais tarde e nem todos os meus Tios os usavam, só os mais novos.

Maria disse...

O próprio Mick Jagger, numa foto lá mais acima, traja de camisa e gravata!, veja-se bem?! Isto já bem entrados os anos sessenta e numa Inglaterra vanguardista cuja juventude pretendia, mas só em alguns casos, adoptar/imitar as modas vindas dos Estados Unidos sobretudo no estilo musical e mais concretamente na actuação em palco dos grupos rock-and-roll... mas ainda assim mais moderados nos requebros. Com a excepção dos Rolling Stones que sempre exageraram em tudo tentando imitar os Beatles no género de música, mas na berraria o americano Jerry Lee Lewis (apesar de tudo sem a graça deste) e outros parecidos na estridência e a verdade é que por mais que tentassem nunca conseguiram chegar ao sucesso daqueles, talvez devido justamente ao comedimento e relativa sobriedade dos primeiros.