terça-feira, 2 de janeiro de 2018

Os gloriosos saudosistas da máquina da utopia



Maio de 1968 já cá está outra vez. No Diário de Notícias de hoje, o agora articulista Ferreira Fernandes, já com umas décadas de profissão Tal&Qual, escreve duas lacrimosas páginas de saudade daqueles tempos em que tudo parecia possível. Até em Portugal,  meia dúzia de anos depois.
Ao menos este tem a vantagem relativamente aos demais escribas de ocasião em não pedantear demasiado naquilo que escreve. Lê-se sempre com agrado porque é um original na escrita e não tecla como um bot da inteligência artificial do jornalismo corrente.
Nas páginas que seguem é óbvio que consultou umas "fontes primárias" em papel, mesmo virtual, para se lembrar das datas, pelo menos. A remissão para recortes virtuais é fatal para dar a entender a história do que se passou.
Espera-se agora o artigo do Loff para contextualizar a hostilidade ao comunismo dos partidos tradicionais e porque é que já em 1968 a intelectualidade francesa desse Maio já não acreditava nas burrices em que o Loff ainda acredita.

Porém, não esqueceu o essencial no articulado: deitar foguetes nesta festa ao Maio de 68.
Sempre achei curioso que se escreva sobre tais acontecimentos como se fossem data nostálgica de uma frustração e de celebração de algo que não se chegou a cumprir mas ainda se espera ver um dia realizado. Uma espécie de prec dos franceses, abortado de outro modo.
Afinal que foi e significou mesmo o tal Maio de 68?  No fim do artigo temos uma espécie de resposta: hoje, a polícia já não mata 300 estudantes impunemente no México, antes de uns jogos olímpicos. Se o fizesse cairia o carmo e a trindade, e tudo por causa do Maio de 68 que nos modificou a vida colectiva.

A sério que sim? E foi o Maio de 68 que teve esse condão? Não creio tal, caro F. Fernandes. O Maio amadureceu por causas diversas ( algumas apresentadas no artigo, principalmente as que têm eco esquerdista) mas hoje já não são os estudantes que se manifestam em magotes. Nem sequer são eles os agitadores de antanho, como por cá ainda foram e por isso levaram porrada da polícia.
No Maio de 68 os estudantes, em maioria universitários das escolas junto à rua das Écoles, vieram para a rua proclamar slogans proto-comunistas e anarquistas e queriam mais liberdade e menos costumes antiquados, na França de De Gaulle.
Porém, quanto a revoluções faltava-lhes o "plano", como cantava John Lennon  no álbum branco dos Beatles que também faz 50 anos este ano, lá para Novembro ( "you say you want a revolution, well, you know, we all wanna to change the world...).
Apesar disso escreviam nas paredes frases como esta: "os que deixam as revoluções a meio apenas cavam a sua própria cova" ( ceux qui font les revolutions a moitié ne font que se creuser un tombeau".

Não há revoluções que se façam assim, apenas com slogans poetica e pateticamente, de um surrealismo dada, como de algum modo se explicava na revista Magazine Littéraire de Julho de 1968. A praia não está mesmo sob as pedras das calçadas. Está onde a natureza a colocou: junto ao mar:







 Ao ler estes propósitos dos protagonistas do Maio de 68 em França, percebia-se que não pretendiam reeditar os sovietes, como em Portugal quiseram, em 1974 e julgo que com Ferreira Fernandes e muitos outros a aplaudirem nas redacções com artigos encomiásticos e esperançosos nesse tempo em que "tudo era possível". Em Portugal as modas chegaram sempre tarde...

Os estudantes de Maio de 68 não acreditavam nos partidos comunistas da época, depois do que tinham feito na Hungria e se preparavam para fazer na Checoslováquia, também nesse ano, ( lá vem mais outra efeméride de 50 anos que os louvaminheiros do Maio de 68 vão evitar falar por causa de certas coisas, lá para Agosto deste ano).
Não acreditavam também no trotskismo para desgraça do Bloco de Esquerda que ainda temos e aí bebe ensinamentos.
Como dizia um dos estudantes, " o PC era o espelho da burguesia"....imagine-se!  "Não representa os interesses da burguesia  mas os interesses de uma casta: a burocracia!"
Tomem e embrulhem, todos os comunistas! Se tivessem aprendido essa lição em 1968 hoje não teríamos qualquer geringonça no poder.
 Por isso, o que se torna estranho, nestas evocações saudosas é precisamente isso: como é que se pode louvar o que então não se compreendia?  É só por ter sido contra o "sistema"?
Parca ração, como diria a outra, Natália de seu nome.
Qual será a verdadeira razão para louvaminhar o Maio de 68? A apologia da anarquia? A luta contra os "poderosos", contra a "burguesia´'?   Em nome de quê? Na época de 68 em França e 74 por cá, ainda se compreendia algum propósito: virar o sistema e apear a burguesia do poder, substituindo-a por outra classe dominante: a dos burocratas e dos funcionários comunistas. Era isso que acontecia no Leste europeu que muitos dos que agora louvam o Maio de 68 em França queriam para Portugal. E ainda querem, com saudades muito mal escondidas.

O equívoco em França era ainda maior porque o desiderato político vinha com o nome trocado: anarquia em vez de democracia, mesmo popular. E os pc´s de fora...

Como explicava a revista Magazine Littéraire de Julho de 1968, em artigos que por cá nunca se escreveram ou traduziram e são "fontes primárias"...
Em Maio de 1968 apareceram outra vez as "bandeiras negras". Por cá, tinham desaparecido de vez em 1926... Salazar, pois. Por isso, celebrar agora o Maio de 1968 também é malhar outra vez em Salazar.



A Revolução verdadeira chegou mais tarde e ao contrário do que por cá esperavam os desiludidos do 25 de Novembro de 1975, ironicamente. Vinte anos depois:


Porém, nem sequer esta verdadeira revolução serviu para abrirem os olhos, aqueles que então sonhavam que "tudo era possível".

Continuam a sonhar.. e a lembrança do Maio de 68 será apenas um sonho húmido.
Faltou a Ferreira Fernandes evocar outro facto associado aos universitários de Nanterre: tudo começou junto dos cursos de "ciências humanas", sociologia, psicologia e etnologia. As ciências ficaram de fora...

Está tudo explicadinho aqui, neste recorte e "fonte primária":


Tal como por cá, com os utópicos do costume que agora assentam arraiais nos isctes e outras madrassas, incluindo as do jornalismo.

O mal do pensamento vem quase todo daí porque não conhecem outras ideias que não as do costume: luta de classes e alteração da sociedade por via artificial, por via de ideias que vêm, algumas delas, desse tempo de Maio de 68 e dos seus próceres intelectuais que não há meio de desaparecerem do mapa civilizacional.

Vão perder a batalha, tal como perderam em Maio de 1968, porque a Natureza é sóbria e será quem tem a última palavra.

Para terminar e porque isto está relacionado com jornalismo, um artigo de Guy Sitbon, que muitos conhecem como jornalista e repórter do Le Nouvel Observateur. O artigo é sobre a classe jornalística francesa, em 1968. Compare-se com a portuguesa da mesma época...e de agora.



9 comentários:

lusitânea disse...

Hoje os esquerdistas já não acreditam em nada nem sequer querem o comunismo porque primeiro tem que haver muito capitalismo...a coisa resume-se a uma logística muito útil:com o leme na mão vão ao orçamento como quiserem.E é preciso uma larga corte a manter a situação...comendo menos claro...

zazie disse...

Mais um para guardar.

Muito obrigada, José. Vou ler com mais tempo. Ainda ando com o do Sartre

joserui disse...

Bom Ano para todos (menos os comunas!).
Gostei de ver as fotos do arquivo… Como sugestão, um dia podia publicar fotos dos gadgets e gizmos de som que tem José. Eu gostava de ver e era um intervalo.
Estava aqui a tentar ver o governo sombra e deparo-me com um arnaldo matos… diz que não há ninguém verdadeiramente de esquerda no programa. Durei 10 minutos se tanto, uma coisa insuportável.
Relativamente ao articulista, deixei de lhe achar piada há muito… é mais um cheio de esquerda e de si mesmo. Não aprendeu nada, foi badalado pelo 44 para tomar conta de um jornal como um "dos nossos", refractário antes do 25A, expulso do exército depois do 25A. Só num país de invertebrados estes indivíduos se safam.

Adelino Ferreira disse...

Mais logo poderei dizer alguma coisa sobre o post, vou pensar..
Por agora com os olhos cobertos de "agua salgada" só para ti, zazie. Mais um que foi maior que o seu tempo
Bom ano para todos: fascistas,socialistas,comunistas...e até adoradores do demónio, desde que não mordam...

https://youtu.be/e9RS4biqyAc

Floribundus disse...


Trava-línguas

« O Tempo perguntou ao tempo quanto tempo o tempo tem, o Tempo respondeu ao tempo que o tempo tem tanto tempo quanto tempo, tempo tem. »

josé disse...

Se é assim como tu dizes e tu dizer como é, como tu dizes assim é.

Pedro disse...

Bem, do Maio de 68 ainda ficou muita coisa, como a revolução dos costumes etc.

Já do 28 de Maio não ficou nada.

Essa revolução é que foi completamente enterrada pela história.

Apesar das choraminguices de alguns saudosos do Hitler e do Salazar, não ficou nada da herança desses dois.

Anjo disse...

E eu a pensar que tinha ficado uma "pesada" herança...

Pedro disse...

Caro Anjo.

Eu referia-me aos objectivos dessas revoluções.

Nesse aspecto até a revolução comunista foi melhor sucedida que o salazarismo.

Por exemplo, os impostos progressivos, a educação gratuita e a proibição do trabalho infantil são reivindicações do manifesto comunista que estão profundamente imbuídas na nossa sociedade.

Quanto aos objectivos nacionalistas, conservadores e colonialistas do salazarismo são curiosidades de museu.