quinta-feira, 22 de novembro de 2018

Oriana Fallaci, a italiana que entrevistou Álvaro Cunhal em 1975 e pouca gente soube


Na revista Visão de hoje, a jornalista Rosa Ruela ( filha de Fernando Assis Pacheco que trabalhou no O Jornal)  evoca a jornalista italiana Oriana Fallaci, para lhe traçar um retrato do que a mesma foi como entrevistadora e repórter.
É verdade que cita fontes, como o sítio oriana-fallaci e o livro Entrevistas com a História ou uma biografia em inglês, para mostrar onde se poderá ler mais. Porém, nas entrevistas que destaca como tendo sido marcantes na carreira da repórter, cita uma de Álvaro Cunhal como tendo sido concedida ao New York Times, ou por este jornal publicada em Julho de 1975.

por aqui citei mais que uma vez tal entrevista e até o Expresso no obituário que fez por ocasião da morte da repórter tinha referido a mesma.

A jornalista não acha estranho que tal entrevista tenha sido publicada no New York Times e nem traço dela se veja por cá, em Portugal.  Não se questiona.
O pai, Assis Pacheco, provavelmente também não o faria. Na altura em que tal entrevista foi publicada trabalhava no O Jornal e este não lhe deu  importância absolutamente nenhuma. Nem a noticiou e julgo que se entenderá porquê, a seguir: o jornal sabia de ginjeira o que Cunhal queria para Portugal e não se incomodava muito com isso, embora preferisse o grupo dos nove e o socialismo à sueca, sempre muito aperaltado.
Rosa Ruela não quererá saber, mas poderia ao menos contar outra história com um contexto mais interessante.
A entrevista foi originalmente  publicada nesta revista italiana, em 6 de Junho de 1975. Não foi no NYT.


A entrevista é das mais reveladoras do pensamento de Álvaro Cunhal e tinha um interesse indesmentível na altura e num contexto temporal de Revolução em curso. Não a publicar é uma tomada de posição política. De censura e dissimulação.

Qualquer pessoa na altura gostaria de saber o que Álvaro Cunha pensava da situação política no país que cada vez mais estava ao rubro, literalmente. Os comunistas preparavam-se para assumir um poder mais lato, nesse Verão e tiveram pela frente a resistência de todo o povo não comunista. Não foi só de Mário Soares e dos socialistas que temiam ficar de fora do comboio revolucionário, tal como acontecera noutros países onde a revolução comunista triunfou. Lendo e contextualizando tudo o que então ocorreu não será legítimo afirmar que Mário Soares é que foi então o "pai" da democracia que Cunhal não queria por cá. Há outros pais e mães.

Pois bem: ninguém, em Portugal publicou a entrevista na altura. Os jornalistas portugueses não lhe deram importância. Ou então deram importância demasiada para a publicarem...apenas o jornal A Luta, do partido Socialista em luta contra o comunismo  de então ( e que lhes tinha tirado o República)  lhe deu relevo.

O Expresso, em 28 de Junho desse ano, através de um seu colaborador em Paris, dava a conhecer que tinha lido a entrevista e que alguns jornais estrangeiros a tinham referido. Nenhum português o fizera, incluindo o Expresso...estranho não?


Um dos responsáveis pelo jornal era o actual PR, Marcelo Rebelo de Sousa. Em 5 de Julho, na semana seguinte, o mesmíssimo Marcelo Rebelo de Sousa deu a conhecer uma outra entrevista de Álvaro Cunhal.


Esta entrevista tinha uma particularidade: denegrir o regime anterior uma vez que a entrevista publicada tinha sido censurada por esse regime e era desse tempo...

O pobre Marcelo nem se dava conta que a censura continuava a existir porque afinal a entrevista de Álvaro Cunhal ao L´Europeo também fora censurada. Por ele mesmo evidentemente porque nenhuma outra conclusão é admissível.

A revista Paris Match que se vendia por cá, tinha publicado a entrevista, logo em 28 de Junho, como demonstra esta página da mesma:



Porquê?

Em Junho e Julho de 1975 começou o Verão Quente. Não seria por isso politicamente correcto afrontar o então líder do PCP imputando-lhe a intenção expressa nessa entrevista de que o mesmo não queria uma democracia em Portugal, à "europeia" e preferia uma outra, à "soviética".

Quem é que tinha medo de colocar isto assim, tal e qual, na primeira página? Marcelo Rebelo de Sousa entre outros.
Por estas e por outras está onde está.
Este Marcelo leu certamente estes artigos publicados no Século Ilustrado de então, de 27 de Junho de 1975 e que provam que Álvaro Cunhal era figura que merecia que lhe tivessem publicado a entrevista, para denunciar a sua evidente tentação totalitária. Tal não sucedeu e por censura, pura e simples.



O Século Ilustrado era redigido por progressistas, comunistas, socialistas e às vezes revezavam-se. O artigo que acompanhava o assunto de capa mostra bem por que razão a entrevista não foi publicada pela revista que tinha o exclusivo da publicação de reportagens e entrevistas de Oriana Fallaci.

Em 1974, um ano antes,  a revista até fizera capa com outro artigo da Fallaci sobre...a Grécia. Os coronéis fascistas até davam direito a menção na capa...


Agora o assunto da liberdade era outro...e chamava-se revolução. Cunhal era um dos arautos, como era outro maluco que ainda o é, Arnaldo Matos.

Na Alameda reunia-se uma multidão mas a revista não fazia ideia de quantos seriam...embora a imagem mostre bem o que se passava com a correlação de forças nas cidades mais importantes.



Além disso a revista desde há muitos anos que assegurava a reprodução, em Portugal das reportagens e entrevistas de Oriana Fallaci.

Em 2 de Novembro de 1968, há 50 anos,  até mostrava a reportagem que a jornalista de agora, filha de Assis Pacheco refere logo no início do artigo...


Assim só tenho duas perguntas para deixar aqui:

Porque razão a revista não publicou então a entrevista de Álvaro Cunha ao L´Europeo e outra ainda: porque razão a jornalista de agora não conta estas histórias que ajudam a compreender o país em que vivemos?  É que a Visão é a sucedânea do Século Ilustrado, no progressismo esquerdista de sempre...e até fez parte do grupo Impresa até há um tempo atrás. A mesma do Expresso. Actualmente parece que é um tal Delgado que manda naquilo, com dinheiro que não se sabe muito bem de quem é.

Tudo boa gente. A Esquerda gramsciana é sempre tudo boa gente, mas tem manipulado a informação em Portugal mais que qualquer agente de fakenews.

Sem comentários:

A História agora é outra...