segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Informação falsificada, em Portugal

CM, 28.12.2018:



Costumo comprar, agora e regularmente, o Correio da Manhã. O que leio é notícias rápidas sobre o dia a dia do país, em ocorrências de fait-divers, acidentes vários, artigos de primeira página que resumem sempre assuntos por vezes com interesse, outras vezes nem tanto. Leio as croniquetas em coluna, mesmo as dos mações arregimentados, por vezes na judicatura ( Pedro Mourão) ou na sociedade civilizada ( Rui Pereira) e até gosto de ler a coluna infame de João Pereira Coutinho, na última página.  E adoro ver e ler o Bananal, porventura a melhor página humorística da imprensa portuguesa, actualmente. E nem sei quem seja o autor ( Será o Quintela?)
Aprecio as notícias sobre os media e até outras que aparecem sem contar. Sobre política em geral  ou governamental em particular, o jornal não arrisca grande coisa nem faz disso casus belli, como o fazem outros, geralmente para sufragar o governo que está.  O jornal é um repositório de factos da vida corrente do país: acidentes, desgraças, tragédias, não escapa uma, seja onde for. E contadas com o rigor jornalístico exigível, pela rede de correspondentes do jornal em todo o país. Melhor informação que esta,  sobre estes temas? Só o Jornal de Notícias do Porto que se reporta mais ao Norte do país.

Hoje a primeira página do jornal CM traz uma historieta sem interesse por aí além: o assunto de um prémio do Euromilhões disputado por três irmãos de Vila do Conde. O prémio tinha saído ao pai, este morreu menos de dez anos depois e a fortuna dos milhões está agora em discussão no tribunal e já no de recurso. Pertencerá o direito apenas a um dos filhos, como decidiu já a primeira instância,  ou dos três em conjunto? Who cares, para além dos próprios?
Que é que isto interessa a alguém? Vá-se lá adivinhar os critérios jornalísticos...mas suspeito que será a exploração pura e dura de um certo voyeurismo, tal como as notícias sobre uma tal Rosa Grilo que terá assassinado o marido em conjunto com um  suposto amante e tal deu assunto de notícia durante meses, incluindo a CMTV, onde o mestre Rui Pereira já gastou largos minutos a perorar sobre tal assunto que lhe deve interessar tanto como a última camisa que vestiu. Mas...pagam-lhe para se interessar e não deve ser pouco porque não se faz rogado. É este também o domínio da repórter Tânia Laranjo e outros e pelos vistos rende à Cofina lucros que lhe permitem este score, anunciado ali em cima: mais de oitenta mil exemplares por dia, do jornal e esta do dia 21 do corrente:



Lá em cima, o CM aparece em primeiro lugar, logo seguido pelo Expresso, mas aqui em baixo a diferença é muito maior, em audiência bruta.
Se o CM não me parece ser fonte de notícias falsas, o Expresso é uma das principais fontes de notícias falsificadas do país. O conformismo redactorial do semanário e  dos seus directores, empresta um teor de falsidade a uma realidade que o jornal encobre sistematicamente. E isso há décadas. Quem percorre os números do jornal desde o seu lançamento em Janeiro de 1973 não conseguirá compreender o país que somos a não ser em fatias diacronicamente separadas da realidade histórica e muitas vezes desligadas da realidade pura e simples. O tempo de PREC de 1975 é um bom exemplo disso. Nunca o Expresso fez uma coisa que a revista francesa homónima capeou assim em 10.2.1975, mostrando uma realidade que o país então experimentava. A revista tinha um subtítulo na legenda da imagem, da autoria de Antoine Loisel, um pensador do Direito francês- "quem pode e não impede, peca por isso". O Expresso podia impedir a progressão do comunismo e socialismo mas não queria impedir assim tanto. Tinha lá como redactor principal o actual presidente da República...:


Para conhecer melhor o que foi o país é preferível ler O Jornal, também publicado desde Maio de 1975 e que durou algumas, poucas décadas, pelo menos as que abrangeram as duas bancarrotas , de 1976 e 1984.
Percebe-se melhor a realidade do que foi o país nessa época, com O Jornal do que com o Expresso, apesar de aquele se situar numa esquerda socialista e este numa direita social-democrata.

Quanto à televisão, primeiro pública e depois as privadas também, não será possível ir muito além disto que escreve Eduardo Cintra Torres no CM de ontem: As tv´s generalistas perdem audiências e aldrabam nos números de espectadores. Falsificam estatísticas e números, portanto.



 Quanto ao Governo, particularmente o primeiro-ministro, a ideia básica pode muito bem ser esta que o cronista do Observador, Alberto Gonçalves escreveu há dias ( Sábado passado) : "Portugal é uma notícia falsa".

Embora o artigo seja um ajuste de contas algo torpe com o director da revista Sábado, Eduardo Dâmaso,  que o despediu de cronista há pouco mais de um ano atrás,  a verdade é que o denunciado conformismo da Sábado confunde-se com o do Expresso: situam-se sempre no contexto e sobrevivem no meio. E o que noticiam soa a falso porque a realidade paira algures mas não na redacção do que escrevem.

E não se vê quem seja capaz de sair desse círculo vicioso de conformismo. De facto,  o jornalismo em Portugal está naufragado nesse pântano. A Sábado, do grupo a que também pertence o Correio da Manhã é apenas mais um sintoma.

Um exemplo oportuno de informação, em Portugal:

O presidente brasileiro de extrema-direita Jair Bolsonaro prometeu esta segunda-feira que vai erradicar o que entende como "lixo marxista" em que se tornaram as instituições de ensino no Brasil.

"Uma das nossas metas para tirar o Brasil das piores posições nos 'rankings' internacionais sobre educação é lutar contra o lixo marxista que se instalou nas instituições de ensino", disse o capitão da reserva do Exército Brasileiro, numa mensagem publicada no Twitter, na véspera da tomada de posse como novo presidente do Brasil.

O líder de extrema-direita, polémico pelas suas declarações racistas e homofóbicas, acrescentou que o objetivo do Ministério da Educação "será avançar na formação de cidadãos e não na de ativistas políticos".

Para Bolsonaro, a presença do Brasil nos últimos lugares dos rankings desenvolvidos por organizações internacionais como a OCDE é o reflexo das políticas do Partido dos Trabalhadores (PT).


Este dislate informativo- o presidente brasileiro é  líder de extrema-direita, polémico pelas suas declarações racistas e homofóbicas, como toda a gente sabe. E quem não sabe fica a saber com  a opinião dest@ jornalista que nem assina o que escreve para que outros lhe possam dizer que não passa de uma idiotice desinformativa. Vem no Sapo24...

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Finito, Fernando Esteves