sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

O presidente como poeta



Este velhote, Manuel Francisco Nascimento,  de uma aldeia de Tondela foi uma das vítimas dos incêndios que aí lavraram o ano passado em Outubro, depois dos de Pedrógão, de Junho.

O presidente Marcelo, com o seu estilo de bombeiro de afectos lá foi acudir a mais uma desgraça e abraçou o velhote inconsolável porque tinha perdido todos os seus parcos haveres.
O presidente, na altura da foto, simbólica e tirada por Nuno Almeida Ferreira da Lusa, prometeu-lhe mundos e fundos, ou seja apoio financeiro e a reconstrução da casa ardida. Coisa que seria aí para "dois ou três meses". Parece que nesse período recebeu seis mil euros, um pouco mais do montante anual da pensão de sobrevivência.
A casa, essa, ficou por conta das burocracias da "câmara" e até hoje continua por erguer.

Manuel Francisco Nascimento morreu no outro dia, como a notícia do CM do passado dia 19, dá conta. Tinha 82 anos.

O afecto simbólico do presidente-bombeiro de afectos, esse,  morreu mesmo nesse dia. Aposto que nunca mais se lembrou do velhote...

Pode dizer-se: é melhor assim do que ser indiferente ou ausente de afectos deste género, e é verdade.  Mas...o símbolo, esse, lá fica.

Quando um presidente dá e promete e depois fica pelo lado simbólico das coisas, torna-se fake como dizem os americanos.

É um afecto que se equipara ao poema de Fernando Pessoa sobre a função do poeta: fingir. Fingir que é dor a dor que deveras sente.

Marcelo Rebelo de Sousa é isto e por isso deveria ter fingido a dor que deveras sente neste momento em que morreu o alvo do afecto simbólico da foto.

Um lapso imperdoável...

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