domingo, 6 de janeiro de 2019

Salazar no seu tempo

Do livro de Joaquim Vieira, já aqui mencionado e publicado pela Círculo de Leitores, em 2001, respigo mais algumas fotos, as que me parecem representativas de Salazar integrado no seu tempo e costumes de aldeia e não só.
Dificilmente um americano ou um francês, ou mesmo um alemão, conseguirão entender e apreender todo o significado inerente aos costumes e dimensão que esta representação da realidade mostra a quem souber ver.

A primeira foto é esta:


A foto é de 1953 e mostra algumas pessoas a descerem as escadas da igreja supostamente do Vimieiro no fim da Missa. Seria de um Domingo ou de alguma celebração especial como de sufrágio pela alma de algum familiar ou amigo? Não se sabe, mas as hipóteses são plausíveis. A foto não é de pose e foi tirada por alguém num plano superior, à frente da igreja. As figuras preocupam-se com os degraus das escadas que aparentam muito uso de décadas ou séculos.

Há pessoas de várias condições sociais, jovens e crianças. Mulheres com peles e com "mantilhas", a maior parte. A "governanta" D. Maria vem um pouco atrás, quase a sair do portal. As mulheres têm um lenço na cabeça porque era assim que assistiam à Missa.
Era Inverno pela certa, tempo frio e tal permite supor que seria...no Natal?

O semblante dos circunstantes permite concluir que a saída da Missa ainda era tempo de reflexão sobre o que se ouvira antes, dito pelo padre, em avisos finais, do altar e este ainda era virado para o sacrário e não para  o público, sendo a missa dita em latim.

Quem eram as pessoas que saíam? Os miúdos, com ar de bem comportados, eram também "reguilas", tudo indica. O indivíduo que se encontra em segundo plano, à esquerda, a segurar a grade e com boina na cabeça, seria o quê? Trabalhador do campo? Ajudante na igreja?
Há pessoas do campo e da cidade. Não há o mínimo sinal de artificialidade nos comportamentos e é legítimo dizer que a Igreja Católica era uma força social importante a que as pessoas davam efectivo valor e relevo. Havia esses respeito natural e isso nota-se no semblante de quem sai da igreja. Ninguém se ri ou aparenta ar divertido, antes sério. Ninguém fala com ninguém.  Não seria por causa de Salazar, certamente, que aparenta sintonizar com os demais circunstantes. Todo o cenário é de harmonia, inefável mas segura. todos sabem e têm consciência do lugar que ocupam socialmente e ninguém aparenta constrangimento, antes dignidade indesmentível. Até as crianças. Há ali um entendimento comum do que acabaram de fazer e presenciar e Salazar comunga desse entendimento, sem reservas ou artificialismos.
Entender isto deste modo é algo que não será fácil a muitos. E no entanto parece-me que será assim e tal explica um ambiente, um tempo e um modo de ser e estar. Não é obscurantista ou retrógado. É apenas idiossincrático e que com o tempo se dissolveu de algum modo. Sem recuperação possível, mas não é disso que se trata.

O importante é situar Salazar nesse tempo, nessa circunstância e nesse meio. Nessa harmonia que ali é manifesta. E perceber que harmonia é essa. Alguém percebe? Os jornalistas que escrevem baboseiras sobre Salazar percebem isto?

A igreja, no entanto não é do Vimieiro mas de Santa Comba Dão. A igreja paroquial do Vimieiro é esta ( foto minha, com cerca de 4 anos), próxima do cemitério onde se encontra sepultado Salazar ( um pouco acima, ainda se vê na imagem a entrada) :


Esta igreja paroquial da aldeia era uma capela o que denota a pequenez do lugar. A igreja mostrada na imagem parece ser esta, a Matriz, de Santa Comba Dão e o respectivo interior ( imagens tiradas daqui):


Em primeiro lugar pode querer saber-se porque razão Salazar ia à Missa ao Domingo, à igreja Matriz de Santa Comba Dão. A resposta pode dar-nos uma ideia do que seria a sociedade desse tempo.

Em primeiro lugar deve dizer-se que Salazar era católico praticante, de ir à Missa ao Domingo, como então era a maioria esmagadora do povo português. Isto parece-me indesmentível. Permite também perceber muitas outras coisas relacionadas com o povo que éramos.
Uma pessoa  que numa aldeia não fosse à Missa ao Domingo era notada como não inserida plenamente na comunidade. Não era marginalizada por isso, mas era notada por isso. Pouca gente deixava de ir à Missa, também por esse motivo. Salazar cumpria plenamente tal preceito e requisito porque vivia numa aldeia e estava ligado à terra.

Mas não só. Esta imagem tirada da casa onde Salazar passava alguns dias, no Vimieiro, particularmente nas vindimas, é prova de que havia mais em Salazar do que a mera aparência de catolicismo de missa ao Domingo.



A imagem em azulejo, na parede da casa, no exterior e interior, mostram o que havia em milhentas casas por esse país fora, nessa altura: a devoção à Imaculada Conceição, Mãe de Jesus.

Quem é que coloca imagens destas, agora, nas casas? Quem?! Nem os padres...

Portanto e retomando: quem é que ia à Missa ao Domingo à Matriz? A igreja é relativamente pequena. Salazar teria que se deslocar para lá e naturalmente seria de automóvel. Do Estado? Não parece que assim fosse, segundo consta. No interior da casa que foi dele ainda se encontra estacionado e neste estado que se mostra ( com foto de há cerca de quatro anos) um automóvel de marca americana que era de um cunhado e servia para o transportar enquanto se encontrava em férias ou coisa que o valia:


Era um bom carro, talvez equivalente hoje a um Mercedes série E. O que denota outra coisa: Salazar era pobre, sim, porque não tinha muitos bens materiais. Mas não era indigente. Era remediado e fazia pela vida, com a honestidade reconhecida.

De quantos políticos actuais  de topo, se poderá dizer o mesmo?



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Dura lex, sed latex