quinta-feira, 28 de fevereiro de 2019

A loja de revistas de Lisboa, nos Restauradores



imagem tirada daqui( João Porfírio/Observador)


Hoje, quinta-feira, fechou uma loja de revistas que havia ali nos Restauradores, mesmo perto do eléctrico que serve de elevador para o largo de Alcântara.

A loja era um local de visita obrigatória sempre que ia a Lisboa, de há uns bons trinta anos a esta parte. A passar. Na verdade já nem me lembra se em Junho de 1974, altura em que fui pela primeira vez a Lisboa, a loja já existia. Se existia lá terei ido porque fui ao cinema que ainda havia ali perto. Nunca soube bem o nome da dita cuja, que em tempos se chamava Tema e agora tinha o nome de  cocktail. Sunrise não sei quê. Fechou. Sunset.

Miguel Esteves Cardoso fez-lhe um obituário, ontem no Público:


A loja para mim era um oásis, um nicho de novidades do exterior em papel de revista. E como tal  sítio de visita para refrescar ideias em papel couché.

Alguns exemplares que por lá merquei:

Uma bela italiana que saiu por altura dos anos noventa, quando a Face se esgotava em irrelevâncias.


Um cromo raro que só lá se encontrava e que já acabou:


Outro do mesmo género e com um grafismo espectacular.



Um número desta revista que em 1987 se renovou e era lá que havia:


Outra que ultimamente lá comprava por ser a edição americana. Este número é de 1995, terceiro ano da revista, mas julgo que o primeiro número, algum tempo antes, foi lá que o comprei:


E finalmente o número que encomendei nessa loja e que aguardei com ansiedade, em Novembro de 1987. Trazia um suplemento com todas as capas a cores da revista, desde o número um até essa data. Ainda o guardo como um tesouro porque a revista era um fetiche gráfico, para mim, desde 1975 até aos anos noventa.


Até sair o livro de recolha de todas as capas, dez anos depois, em 1997, era esta a única publicação, antes de aparecer o ebay, para se ver e consultar os números antigos da revista:


É isto que me lembra da Tema. Era também um dos sítios onde se podia comprar revistas italianas. Havia outro, há trinta e tal anos, num quiosque na avenida que sobe para as Amoreiras.
Ultimamente a Tema já não era imprescindível porque a FNAC do Chiado também tem uma boa secção de revistas. Tal como a Bertrand, no mesmo Chiado.
Porém, durante muitos anos, esta loja e um pequeno quiosque no Rossio foi o único sítio de abastecimento cultural deste género, para mim que afanosamente esquadrinhava os recantos onde se anichavam estas preciosidades periódicas e  regulares.
Em Setembro de 1975 esquadrinhei tudo o que era quiosque para encontrar um número da Rolling Stone. Em vão. Não se vendia por cá, nessa altura, a revista. Acabei por encontrar um número esfarrapado e apenas com a capa e contra-capa, abandonado nos papéis e lixo deixados por conta num acampamento de retornados ( estávamos em pleno final de Verão Quente de PREC) , nas traseiras do Estádio Universitário. Essa história já a contei, aqui.E voltei a contar aqui, porque é uma história,   para mim, com magníficas memórias agradáveis.

Foi lá que encontrei um sítio para acampar, depois de ter passado por Monsanto e saber que estava tudo cheio. Um dia ao sair do acampamento, onde tinha uma tenda emprestada pela DGD ( Direcção Geral de Desportos) sem mais, deparei com a capa que guardei, passei a ferro, literalmente e emoldurei.
Passados anos descobri que era a edição inglesa da revista e comprei-a, integralmente, novinha. Devo dizer que a magia daquela primeira descoberta só da capa e contra-capa tinha entretanto desaparecido. Coisa estranha, esta mania... ahahah. De resto só voltei a encontrar a revista nos quiosques, agora em Coimbra, um mês depois, já em Outubro de 1975 e nunca mais larguei o vício, até aos anos noventa, quando já estava farto de comprar e não ler. Mas coleccionei. Os anos setenta e os dois primeiros dos oitenta, são o período áureo da revista que era uma pequena maravilha de textos, reportagens, críticas de discos, desenhos, ilustrações e até publicidades. Todos os quinze dias esperava um novo número que nunca me desiludia. Alguns são mesmo ícones dessa época. Bons tempos de fascínio por estas coisas simples que a Tema então passou a representar, simbolicamente.

No estrangeiro também não há muitos sítios destes porque os quiosques são mais locais e genéricos. Em Paris, para se ter acesso a imprensa anglófona só na loja VHM Smith, essa sim, uma catedral gótica dos títulos mais variados que jamais vi. Americanos, franceses, ingleses.

Em Londres também há uns sítios numas livrarias do centro. Na Alemanha, menos. Em Amsterdão há a fabulosa livraria americana bem no centro. E noutras paragens é igual: poucos sítios e que carecem de procura atenta.

Enfim, nós, nunca estivemos mal servidos neste sector.

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