sexta-feira, 26 de janeiro de 2018

Holo...quê? Dúvidas sobre o desiderato alemão de extermínio massificado dos judeus.

Uma das questões mais interessantes que surgiu após o final da II Guerra Mundial foi a do conhecimento rigoroso e preciso acerca do que se passou nos campos de concentração alemães, espalhados pela Europa Central durante a II Guerra e o papel dos alemães nesse assunto.
Uma primeira questão é a de saber se esses campos se destinaram primordialmente a arrebanhar judeus e outras raças malditas a fim de os acondicionar num processo sistemático de extermínio, por este método ou aquele.
A resposta a esta questão está dada em centenas ou milhares de livros e artigos dispersos. A quase unanimidade da opinião agora publicada sustenta que sim, que foi para tal desiderato. Porém, uma primeira dúvida é saber desde quando tal aconteceu.
É costume dizer-se agora que para os alemães a decisão final para solucionar o problema dos judeus, e que consistia em livrarem-se deles no solo da região que queriam como pátria alargada, a futura Germânia, começou numa reunião na pacata villa, na rua Grosser 56/58, junto ao lago de Wannsee nos arredores de Berlim, em 20 de Janeiro de 1941. Nesse local agora transformado num museu que se pode visitar, explica-se que altos dignitários do regime nazi, sob a égide de Reynhard Heydrich ( assassinado pela resistência checa em Maio de 1942) e na presença de Adolf Eichmann decidiram o método de extermínio julgado mais eficaz. Até se mostram documentos, actas, em que tal se resolve. A eliminação física de judeus já tinha começado no Leste há muito tempo e antes de Wannsee os planos eram no sentido de deportar os judeus par ao Leste.

Portanto a questão fundamental é esta: os alemães, mormente os nazis, queriam eliminar fisicamente todos os judeus que apanhassem e que segundo as contas que apresentaram em Wannsee seriam à roda de 11 milhões, como "solução final", expressão que lhes é atribuída e consta das minutas apócrifas mostradas em Wannsee?
Quem responde a esta questão com credibilidade suficiente para não deixar qualquer dúvida razoável? Não sei, até hoje.
Este artigo de Irene Flunser Pimentel, no Público do passado dia 14 de Janeiro, suscita mais dúvidas do que respostas, mesmo para quem como a autora,  não duvide um segundo sequer, do propósito maléfico dos nazis.

Aproximamo-nos de 27 de Janeiro, Dia Internacional da Memória do Holocausto ou da Shoah. Foi escolhido, em 2014, por ter sido nesse dia, em 1945, que o campo de extermínio de Auschwitz-Birkenau (Polónia) foi libertado pelo Exército Vermelho soviético. Como se sabe, a historiografia sobre a Shoah tem sido muito abundante, sendo abordadas, para explicar esse terrível acontecimento, questões como a do anti-semitismo e da eugenia, das etapas que levaram ao Holocausto, da resistência — ou falta dela — ao nacional-socialismo, bem como da singularidade desse terrível evento relativamente a outras atrocidades ou o facto de ser comparável com estas.


Aproveito a proximidade da data para referir uma abordagem que tem sido central ultimamente quando se trata do tema e que pode servir de exemplo à análise sobre qualquer ditadura, incluindo a portuguesa. Trata-se dos estudos sobre os carrascos e os seus motivos, que constituem já um subtema de estudo com o nome em alemão de Täterforschung (investigação sobre os perpetradores), não só na historiografia, mas também na antropologia, psicologia, ciências políticas, direito e até na ficção. É que torturadores e criminosos de massa não nasceram assim, tornaram-se perpetradores, como diz Françoise Sironi, repegando uma expressão de Simone de Beauvoir sobre as mulheres. O criminoso Reinhard Heydrich, braço direito SS de Heinrich Himmler, aderiu tarde ao partido nacional-socialista, e para arranjar um emprego, pois não foi aceite na Marinha de Guerra.
De um modo geral, os estudos sobre o Holocausto e os perpetradores caracterizaram-se, entre os anos 1940 a 60, pela demonização e psicopatologização dos envolvidos. Os julgamentos do pós-II Guerra, a partir do de Nuremberga, nomeadamente o dos Einsatzgruppen, em 1958, e sobretudo o de Adolf Eichmann em Jerusalém, em 1961, bem como, depois, o de Auschwitz, em Frankfurt, deram a conhecer os principais criminosos, proporcionando a publicação de sólidas análises sobre os motivos, estruturas e métodos dos líderes do regime nacional-socialista. A sua forma comum de defesa assumida foi em geral a de que “apenas” eram executantes que teriam obedecido a ordens superiores.
A partir de 1961, na senda de Hannah Arendt (1906-1975) e Raul Hilberg (1926-2007), estabeleceu-se uma segunda fase na investigação, que interpretou o grupo de perpetradores enquanto burocratas e assassinos de secretária. Para Hannah Arendt, “o mal radical” (depois qualificado de “banal”) é “obra da liberdade dos homens vulgares”, assinalando a filósofa que “os autores do mal não têm uma alteridade absolutamente diferente” da generalidade dos seres humanos. Arendt foi muito criticada, e também por Hilberg. Em The Destruction of the European Jews (1961), interpretou a Shoah como um processo que funcionou em etapas sucessivas, levadas a cabo por uma multitude de decisores no seio de uma vasta aparelhagem burocrática, através de um processo desumanizante que não foi travado por qualquer ética, moral ou religião.

 O historiador Raul Hilberg tinha sido influenciado, por seu turno, por Franz Neumann (1900-1954) que, em Behemoth, de 1942, atribuiu ao regime nazi a dupla característica de surgir como um poder monolítico submetido a um chefe absoluto, mas que, nos bastidores, resultava da lei da selva partilhada por quatro poderes rivais e universos semiautónomos: a burocracia estatal; o Exército; a grande indústria; o partido nazi. O poder de Hitler residia na sanção que dava aos compromissos passados entre as forças que se digladiavam entre si, fora do círculo dos projectores.

 Na abordagem historiográfica da Shoah, uma preocupação central passou a ser a de descobrir os motivos dos carrascos, desenvolvendo-se, até aos anos 90 do século XX, três principais teorias que contribuem para a explicação do comportamento dos perpetradores: as narrativas intencionalistas, as estruturalistas e as situacionistas. Os chamados “intencionalistas” viram no extermínio a aplicação de um programa predeterminado e metodicamente planeado imposto de cima para baixo, derivando da vontade anti-semita de Hitler e da sua iniciativa individual, mas, muitos historiadores, apresentaram opiniões mais matizadas. Já os “funcionalistas”, retomando a tese de Neumann, nos anos 70, tenderam a analisar o Holocausto enquanto crime em massa “mecanizado” por um “aparelho industrializado de genocídio”.
Para Martin Broszat (1926-1989), o Estado nazi foi uma “policracia” pluridimensional, na qual a autoridade de Hitler constituía a garantia suprema da coesão do sistema. Por seu turno, Hans Mommsen (1930-2015), autor do conceito de “radicalização cumulativa” para descrever os diversos estádios que levaram ao Holocausto, reconheceu sobretudo o papel crucial de cumplicidade das elites alemãs com o regime. Ambos puseram em causa a ideia de que a evolução do Terceiro Reich resultaria da aplicação de um plano pré-estabelecido, há muito anunciado no Mein Kampf, dando centralidade à análise do sistema caótico nazi.

Prendendo-se com uma crítica do historicismo, desencadeou-se, nos anos 1980, no meio intelectual da RFA, a chamada historikerstreit (“querela dos historiadores”). Originada por uma ideia controversa do historiador alemão Ernst Nolte (1923-2016), segundo o qual o extermínio dos judeus deveria ser visto como uma forma de reacção aos crimes estalinistas, a contestação surgiu através o filósofo Jürgen Habermas, que, num artigo do jornal Zeit (11 de Julho, 1986), discutiu o estatuto do nazismo na memória colectiva alemã e a centralidade e singularidade do genocídio dos judeus, transformando a reavaliação do nazismo numa questão política e nacional. Os “funcionalistas” foram também criticados de historicismo e de relativizarem o quadro político, ideológico e moral específico, bem como substituírem a condenação moral do nazismo pela empatia com o objecto de estudo (Saul Friedländer).
As abordagens intencionalistas e funcionalistas foram depois matizadas através de sínteses com os aspectos positivos de ambos os lados. O historiador alemão Norbert Frei assinalou a importância do Führer como suporte carismático do poder e de arbitragem de conflitos, assente numa multiplicidade de centros de decisão e de conflitos. A coerência do “estado do Führer” (Der Führerstaat. Nationalsozialistische Herrschaft 1933-1945, editado em 1987) residiria na preeminência de um chefe supremo, que, ao mesmo tempo, soube responder à necessidade de integração social dos alemães, cconseguindo obter a colaboração de pessoas vulgares que cooperaram no reforço do anti-semitismo e das medidas raciais.
Ian Kershaw, autor na segunda metade dos anos 1980 de obras sobre a opinião pública no III Reich e sobre Hitler, escreveria uma biografia monumental deste último em dois tomos: Hitler, 1889-1936: Hubris, publicado em 1998; e Hitler, 1936-1945: Nemesis, publicado em 2000. Ao apresentar o paradoxo de este não estar na origem de tudo mas ter sido indispensável, explicou o poder de Hitler pelo seu carisma político, concluindo que este resultou na colaboração de todos aqueles que, na Alemanha, ocuparam uma posição de influência, cujo objectivo foi servir o Führer, esforçando-se por adivinhar e pôr em prática os seus desejos.

É certo que, entre os sobreviventes do Holocausto, Primo Levi (1919-1987) — que só conseguiu publicar o seu primeiro livro em 1958, depois de ter visto recusada a edição em 1947, e só mais tarde descoberto, com Se Isto é Um Homem, A Trégua, Os Que Sucumbem e os Que se Salvam —, caracterizou Auschwitz como uma fábrica invertida da morte, onde não cabiam unicamente as vítimas (“zona branca”) e os carrascos (“zona negra”), mas uma enorme “zona cinzenta” composta por uma “classe híbrida de prisioneiros-funcionários”. Um terceiro estádio da análise historiográfica, na senda de Christopher Browning, influenciado pelo conceito de “zona cinzenta” de Levi, passou a originar novas representações dos perpetradores, vistos como “homens vulgares”. ­
No seu livro de 1992, Ordinary Men, Reserve police battalion 101 and the final solution in Poland, Browning revelou criminosos nazis, feitos do mesmo tecido (humano) dos outros, cujos actos resultaram, em parte, de circunstâncias em que se operou uma passagem do normal para o patológico no seio de um sistema em que os fins justificam os meios. Browning mostrou que a maioria dos elementos do Batalhão 101, que mataram judeus na Polónia, eram técnicos amorais, cujas iniciativas “de baixo” tornaram desnecessárias a explicitação precisa das ordens “de cima”. O autor concluiu que, no seio de qualquer colectivo social, o grupo dominante exerce uma tremenda pressão e impõe as normas morais.
 Por outro lado, as noções de lealdade, dever e disciplina baniram quaisquer considerações humanas e morais do seio dos “perpetradores”.
Certo é que a investigação sobre os perpetradores passou a examinar as “circunstâncias” situacionais, paralelamente às motivações ideológicas, abordagem a partir da qual se baliza o início dos estudos sobre perpetradores numa perspectiva “situacionista”.
Contrariamente à abordagem multicausal de Browning, ao estudar o mesmo grupo (Hitler’s Willing Executioners, de 1996), Daniel Goldhagem afirmou através de uma postura essencialista que a história cultural da Alemanha foi marcada por um anti-semitismo “eliminacionista”, principal motivo de os alemães levarem a cabo a Shoah. Na controvérsia à volta do livro de Goldhagen, com base nas mesmas fontes de Browning, este concluiu que uma combinação de factores situacionais e ideológicos concorreram para desumanizar as vítimas, transformando-os de “homens vulgares” em “executantes voluntários”.
 
A chamada “Täterforschung” desenvolveu-se de forma exponencial, a partir dos anos 90, entrando numa nova fase. Da análise da máquina do extermínio, levada a cabo sobretudo pelos “funcionalistas”, houve um regresso ao estudo dos “actores”, através de perspectivas diversificadoras, segundo as quais “os criminosos entre nós não são só assassinos, mas parecem-se connosco”, o que aliás “lhes permite viver em anonimato”. Seguindo alguns dos seus antecessores, os estudos actuais não colocam a agência do Holocausto nos comandos centrais da estrutura (Hitler e Himmler), mas entre os perpetradores directos da periferia. Não os visiona, porém, como marionetas ou robôs, encarando-os, ao invés, enquanto agentes históricos que levaram a cabo o seu “trabalho letal” de forma “voluntária, espontânea e entusiástica”.


No final do século XX e no início do XXI, a historiografia alemã dedicou-se abundamentemente ao estudo dos perpetradores, mas de novo centrado sobre a ideologia racial anti-semita. Um dos críticos dos “funcionalistas”, Saul Friedländer, em The Years of Extermination (2007), daria especial relevo ao “anti-semitismo redentor” que desde o início teria contido as sementes do genocídio. Por seu lado, Gerhard Paul mostrou que o paradigma do crime “mecanizado” cometido por burocratas banais, enquanto explicação da Shoah, teria descambado num “automatismo sem pessoas”. Este historiador alemão, que colaborou frequentemente com Klaus-Michael Mallmann em estudos sobre a Gestapo, dirigiu uma obra antológica acerca dos perpetradores, Die Täter der Shoah. Fanatische Nationalsozialisten oder ganz normale Deutsche? (“Os perpetradores da Shoah. Nazis fanáticos ou alemães completamente normais?”), de 2002, onde é assinalado o regresso da ideologia, na forma de sistema de valores nazis, crenças e de mentalidade, com um papel central na preparação de indivíduos para o massacre de inocentes, com pouca angústia mental.
Muito devido à abertura dos arquivos na Europa de Leste e da Rússia, além da ideologia, regressou também a questão da relação entre o centro e a periferia, a relação entre as ordens de cima e as iniciativas de baixo, bem como o papel das instituições regionais da administração de ocupação, com um enfoque sobre os actores e actrizes. Foram colocadas em causa ideias feitas, por exemplo sobre a “obediência a ordens”, a brutalização provocada pela guerra e o impacto da propaganda nos elementos que se dispuseram a fuzilar civis. Muitos historiadores abandonaram as tentativas para encontrar generalizações sobre tipos de perpetradores, em favor de abordagens acerca vários grupos com papéis diversos. Foram também levados a cabo estudos prosopográficos das principais instituições nazis, entre as quais se contaram o Ministério dos Negócios Estrangeiros nazi, o SD — Sicherheitsdienst (serviço de segurança nazi de espionagem e contra-espionagem no estrangeiro) ou a RSHA — Reichssicherheitshauptamt (Gabinete Central de Segurança do Reich, órgão que centralizava e controlava as polícias de segurança nazis Gestapo-SD, Kriminal Polizei e Ordnund Polizei).
O conceito de “geração” tem sido muito proveitoso, na análise da emergência, na hierarquia nazi, de uma “elite ideológica”, formada na universidade, incluindo defensores de um “racismo científico”, que estiveram no centro do aparelho policial SS de Himmler e Heydrich. Götz Aly e Susanne Heim caracterizaram esses “planificadores étnicos” como especialistas e profissionais defensores de uma “economia política da Solução Final”. Da mesma forma, continuaram os estudos sobre os níveis médio e baixo, incluindo os “atiradores” dos Einsatzkommandos, das Waffen-SS e também da Wehrmacht.
Uma questão também levantada pelos estudos locais é a dos actores não alemães do Holocausto: estónios, romenos, ucranianos, letões, lituanos ou croatas. Os estudos regionais ilustram o que Kershaw quis dizer com “working towards the Führer” (“trabalhando para o Führer”), através da criação pelos nazis de uma “comunidade de violência” nas quais os perpetradores de todas as origens e posições ideológicas cometeram terríveis crimes. Wendy Lower (Nazi Empire Building and the Holocaust in Ukraine, 2005) criou o conceito de “obediência por antecipação” para mostrar de que forma os líderes nazis modelaram os acontecimentos a nível local. Tanto ela, como Jürgen Matthäus (Naziverbrechen. Täter, Taten, Bewältigungsversuche, 2013), com o conceito de “escalada controlada”, concluem que oficiais subordinados se revelaram desejosos em quererem mostrar a adopção de medidas cada vez mais radicais.
Sabe-se hoje que centenas de milhares de alemães e austríacos planearam, organizaram, levaram a cabo e ajudaram às perseguições e assassinatos de judeus. Colaboraram com eles milhares de alemães étnicos (Volksdeutsche) e centenas de milhares de auxiliares estrangeiros. No grupo central de homens que organizaram o genocídio estiveram ideólogos comprometidos e voluntários, embora não seja possível estabelecer uma relação causal entre o fanatismo anti-semita e o assassinato de judeus. E mesmo os ideólogos racistas necessitaram de um processo de “radicalização cumulativa” (expressão de Mommsen) para passarem das ideias extremas aos actos mais criminosos, como o foi a Shoah.
Não proporcionar situações e circunstâncias idênticas como aconteceu, por exemplo, com a guerra total à URSS em Junho de 1941 é uma das tarefas dos actuais cidadãos globais. Mas para isso é necessário conhecer o passado e os motivos dos assassinos e torturadores das várias ditaduras, incluindo da portuguesa.

O facto de os historiadores do século XX, do pós-guerra terem apresentado a resposta àquela questão de vários modos e nem todos esclarecedores, permite a dúvida que não se confunde com negação sistemática. Esta aliás, confunde-se é com a afirmação sistemática do "dogma", como por exemplo o artigo de Francisco Teixeira da Mota no Público e hoje. É mais um dos que não tem dúvidas e parece que também achará que raramente se enganou...

O título então, é um paradigma de uma estultícia que ronda a  mais rematada palermice: somos todos assassinos?, ou seja, seremos todos capazes de matar como os alemães fizeram? Enfim...




quinta-feira, 25 de janeiro de 2018

Quem ( não) investiga António Costa?

Daqui que já vai com quase três anos...

O Público e o Diário de Notícias, mais o i, mais a Sábado ou a Visão,  querem maior transparência retroactiva no caso dos políticos que temos?  Embora não me parecendo que seja exactamente isso que os move ( e no caso do DN não é mesmo isso) agora já podem aparentar tal desiderato.

  Então já têm aqui matéria suficiente  ( sobre um suposto kibbutz de António Costa) para se entreterem e aprenderem a fazer jornalismo de investigação.
Já o disse mais que uma vez: o António Caldeira, Do Portugal Profundo,  dava um excelente investigador, fosse onde fosse. É persistente, rigoroso e meticuloso sempre que entende o assunto que trata e o Público ficou a dever-lhe o "arrincanço" da licenciatura do recluso 44 in illo tempore.

Pode ir lá outra vez beber informação que só ganham com isso...mas ao menos desta vez que citem a fonte.Em vez de persistirem sempre na história inacabada da Tecnoforma, terão aí matéria bem fresca para analisar e estou certo que o actual primeiro-ministro darás as respostas que se impõem perante as dúvidas que se supõem.

Mais: em vez de se andar a investigar o dinheiro angolano que anda por aí à solta e vai para outros lados se se andar a fazer boca fina e principalmente a fingir que se investiga, este caso já deveria ter sido investigado pelo MºPº.  Precisamente porque envolve o primeiro-ministro.

Não se diga depois que não se sabia...

Angola e o MºPº português

Artigo de Eduardo Dâmaso na Sábado de hoje que sustenta o que por aqui tenho também escrito: o MºPº português andou mal nos casos que envolvem responsáveis políticos angolanos.


Com a Esquerda em Bloco, a Justiça é do povo que mais ordena...

jornal i, crónica de Joana Mortágua, a filha do pirata:

Com este processo, ficou provado que o sistema judicial entrou em força na disputa eleitoral de 2018, o que só nos pode levar a repetir a pergunta de Liana Lins numa crónica na Media Ninja: “Peraí. Mas se Sérgio Moro é o grande antagonista de Lula, quem é o juiz?” Só pode ser o povo, e é por isso que Lula deve ser candidato.

Portanto, em assuntos de justiça, um certo povo é quem mais ordena, no caso quem eleger o Lula. Portanto, povo como sinónimo de populismo. Separação de poderes? Montesquieu? O que é isso?

Em 1975, um tribunal popular organizado pela UDP, descendente dos piratas, absolveu um acusado de homicídio. A vítima, um latifundiário vilipendiado,  foi condenada a título póstumo...

Estas ideias nunca desapareceram da mente destas filhas do pirata e de outros semelhantes. Lula foi condenado na Justiça brasileira em última instância decisória. Mesmo assim não interessa para nada porque o que valerá é o voto em eleições. Se for eleito, a condenação vale nada, para aquelas filhas de pirata.

No Brasil, o ambiente parece ser outro, pelo menos a julgar pelo que vai (ia) no instagram até algumas horas atrás. Como por encanto muitas das melhores alusões à condenação de Lula desapareceram no instagram. Consegui repescar esta, entre muitas outras que vi de manhã cedo:


sábado, 20 de janeiro de 2018

Os recortes são outra coisa...

Artigo de Pacheco Pereira no Público, sobre o valor dos recortes de jornal:

De facto os recortes de papel de jornal são outra coisa...como provam estes que apresento a seguir e que Pacheco Pereira provavelmente nunca viu, ou já esqueceu, do Século Ilustrado de 20 6 1970, com capa sobre o Porto. O assunto é o 10 de Junho, o desfile das tropas e a condecoração dos familiares de militares mortos ou feridos no Ultramar.  Os que foram heróis e andam muito esquecidos por mor da perda de memória dos pachecos e companhia...

Numa coisa tem razão, o Pacheco: isto não se encontra na Internete. Nem se ensina nas madrassas do jornalismo nacional.


sexta-feira, 19 de janeiro de 2018

As cooperativas no tempo do fassismo

Durante o PREC de 1975 ficou gravado em filme a tomada de posse de uma herdade- Torrebela- com um episódio cómico sobre a "ferramenta" que devia ficar para a "cooperativa".

O comunista de serviço perguntava insistentemente ao trabalhador que lhe fazia orelhas moucas: "qual é o valor da tua ferramenta? Qual é o valor da tua ferramenta?" para lhe significar que se estivesse ao serviço da cooperativa teria maior valor...o que o indivíduo não compreendia. O episódio é um emblema do novo modo de produção na então "reforma agrária": cooperativas.

Pois bem, em 6.4.1970 o Século Ilustrado publicou esta reportagem sobre as cooperativas em Portugal, muito tempo antes do PREC:


Moral da história: não foi preciso chegar o 25 de Abril de 1974 e o comunismo para as pessoas em Portugal perceberem o valor da sua ferramenta...

Look: Life is over!

Século Ilustrado de 9.5.1970:


A notícia dava conta que as revistas Life e Look, duas das maiores revistas americanas da época estavam em dificuldades financeiras por não venderem o suficiente para não terem prejuízos que eram já da ordem dos milhões de dólares. 

A Life tentou renovar-se com um novo director, cujo nome nem sequer é indicado (Hedley Donovan em Dezembro de 1969) , o qual mesmo cortando a eito nas despesas com pessoal, não conseguiu estancar a sangria financeira.
A Look tinha o mesmo problema. E ainda não havia internet ou publicações online, pelo que a razão da quebra de vens tinha a ver com algo completamente diferente: o produto não agradava a leitores suficientes. Parece-me que o problema é o mesmo de agora com certas publicações como a Visão ou a Sábado: os seus editores não percebem suficientemente o gosto ou interesses dos leitores e acabarão igualmente por desaparecer...

Assim, no final dos anos sessenta essas revistas tinham o futuro ameaçado.  A Life publicava-se então semanalmente e tinha centenas de empregados, entre jornalistas ( repórteres) , editores, grafistas e fotógrafos.  Tinha mesmo edições internacionais.
A Século Ilustrado, ao lado da Life ou da Look diferenciava-se como um pequeno jornal regional de um semanário de grande circulação.

A Life aguentou-se nesse formato até ao ano de 1972. A partir daí saía de vez em quando. A Look caiu logo em 1971.


Em Outubro de 1996 ao perfazer 60 anos de existência a Life editou um número especial com a ilustração de todas as capas da revista até então publicadas. A composição de algumas centenas dava uma imagem de Marilyn Monroe, ilustrada em computador.




quinta-feira, 18 de janeiro de 2018

Uma "conversa em família" em Abril de 1970

Século Ilustrado de 25 de Abril de 1970:



O que se percebe do teor destas declarações que são uma fonte primária, contrasta com o discurso verborreico e costumeiro dos antifassistas.

Marcello Caetano referia-se a Mário Soares e ao papel anti-patriótico que o mesmo desempenhava no estrangeiro. Fala sobre a liberdade de expressão, sobre a guerra no Ultramar e sobre as eleições. Tudo matérias que actualmente são desvirtuadas, mesmo com os factos todos à mostra, nos relatos históricos.

Se isto acontece com factos de um passado nem por isso muito remoto e vivido por muitos, o que fará com os relatos acerca de um passado que nem sequer foi vivido e é apenas conhecido de cor...


segunda-feira, 15 de janeiro de 2018

Histórias da II Guerra Mundial

Em finais da década de sessenta, talvez motivado por filmes de guerra que se viam na tv, a preto e branco e livrinhos de cóbóis com historietas da II Guerra mundial em que os alemães apreciam sempre como os maus dessas fitas, comecei a interessar-me por saber um pouco mais sobre o que foi essa guerra.
As fontes de informação sobre o assunto não eram abundantes, em Portugal e nessa altura não se me colocava a questão de saber se a informação disponível era suficientemente isenta e imparcial. O que lia tinha quase sempre a chancela de editores que partilhavam a visão dos vencedores ou então consistiam em relatos de protagonistas que tinham sido vítimas, como os judeus.
Havia livros e foi por aí que comecei, a ver os catálogos das editoras.

A editorial Aster tinha uma colecção razoável, em 1969:


Foi por aí que comecei, em Junho de 1969, ao comprar a biografia de Rommel escrita por um alemão e depois, em 1971 com um relato da guerra vista por um soldado alemão:


O interesse por Rommel prendia-se à curiosidade pelas grandes batalhas e a campanha do Afrika Korps e duelo com Montgomery que o alemão perdeu, era contada pelo meu pai que chegou a viver os acontecimentos, na altura empolgantes,  pelos relatos da época.

Faltava-me uma história da Guerra e à míngua de melhor ( que custavam muito mais caro) comprei esta, em 1971, que aliás nunca li integralmente porque é um compêndios de mapas, diagramas e  narrativa tecnicista da guerra.


O que na altura queria mesmo eram estas edições em vários volumes, da Europa América e das Seleções do Reader´s Digest, a mais desejada e entrevista num catálogo que vinha com o almanaque de 1970:




Entre estas histórias da História da II Guerra fui lendo e descobrindo episódios de alemães que no fim da Guerra fugiram para países onde se tornaram virtualmente desconhecidos. Sempre acompanhei as notícias sobre esses indivíduos que escaparam a julgamento por crimes de guerra e se refugiaram na América doo Sul, onde havia dirigentes políticos como Perón na Argentina e Stroessener, no Paraguai que protegiam esses fugitivos, tal como os americanos protegeram outros que lhes interessavam porque eram cientistas com saber e conhecimentos úteis, como von Braun.

O primeiro de que ouvi falar foi Martin Borman, numa publicação que não recordo,  em relação ao qual havia dúvidas de que tivesse morrido e havia quem assegurasse que se encontrava num país da América do Sul. 
O que sucedeu no final dos anos cinquenta e início dos sessenta, com o rapto rocambolesco e sucessivo julgamento em Israel, de Adolf Eichman levado a cabo por um judeu, célebre caçador de nazis, Simon Wiesenthal, alimentava as histórias e mitos sobre o assunto.
As Seleções do Reader´s Digest eram uma fonte desse género de informações.

Borman não foi encontrado porque nessa altura estaria morto, mas outros foram procurados e conseguiram escapar, como Josef Mengle, cuja história foi já mencionada aqui, por causa de um livro recente acerca da sua saga de esconderijo em esconderijo, até à morte, por afogamento,  no Brasil em 1979.

Em 29 de Junho de  1985 a revista francesa Le Figaro Magazine publicou uma reportagem extensa, saída originalmente na revista alemã Bunte sobre Mengele, no Brasil, tal como contada pelo seu filho Rolf. Curiosamente, o livro de Olivier Guez, La disparition de Josef Mengele, não cita esta reportagem nem o filho do fugitivo...

 

 


Antes, em Dezembro de 1971 já tinha lido a entrevista que outro fugitivo, descoberto por Wiesenthal no Brasil, dera a um jornal inglês- The Daily Telegraph- quando se encontrava preso na Alemanha, Dusseldorf a cumprir pena de prisão perpétua.
Na altura nem li a entrevista toda porque já tinha ideia que o que tinha acontecido nos campos de concentração e era contado correspondia à verdade. Nunca lera nada em contrário, nunca ouvira nada em contrário e tudo o que lera e ouvira confirmavam a existência dos mortos em massa nos campos de concentração, o que vulgarmente se chama Holocausto. Seis milhões de judeus.

Mais tarde, já nos anos noventa comecei a ouvir falar em versões diferentes e ainda mais tarde em negação do que tinha lido que acontecera. Até hoje.

Sem elaborar muito,  a ideia que tenho é que as mortes em massa e programadas,  aconteceram e se não foram seis milhões foram muitas centenas de milhar, mais do que os que morreram de doença ou causas "naturais".

A entrevista confirma tal facto.




domingo, 14 de janeiro de 2018

António José Saraiva nasceu há cem anos

No passado dia 31 de Dezembro do ano transacto passaram cem anos sobre o nascimento do historiador e homem de cultura, António José Saraiva.

Tirando os seus familiares directos, filho e neto,  que escrevem no Sol sobre a efeméride, ninguém se ralou. Estes,  para comemorarem esse centenário entrevistaram-se e publicaram a entrevista em 30.12.2017.





 

Em 1969, ano da entrevista que José António Saraiva efectuou ao pai, para o Comércio do Funchal, também a Vida Mundial entrevistou e deu a capa à mesma figura. Fernando Dacosta segurava o microfone e fazia as perguntas, já aqui apresentadas em tempos:


António José Saraiva apesar de ter publicado vários livros sobre fenómenos culturais portugueses ( Para a história da cultura em Portugal, publicado em 1946 e republicado em 1996 pelo Público e Crepúsculo da Idade Média em Portugal, também publicado pelo Público nessa altura) para além de uma História da Literatura portuguesa ( junto com Óscar Lopes)  está esquecido e não é lembrado senão pelos seus familiares.

Tal omissão reflecte o actual estado da cultura em Portugal.

Provavelmente tal ostracismo deve-se a isto:

Em 15 de Dezembro de 1990, o Expresso entrevistou-o a propósito do lançamento de mais um ensaio, dessa vez sobre as figuras maiores da geração de 70.

O que o afasta da actual moda de dizer mal de Salazar é a frase do final: "Salazar era um homem respeitável" :



Logo após o 25 de Abril de 74, AJS cronicou algumas vezes na Vida Mundial, explicando noções básicas de política para quem na altura carecia de tais informações. Vida Mundial 31.10.74


"Isso é tudo comunas!"