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sexta-feira, setembro 03, 2010

Dr.Inocente, Mr.Arguido

O primeiro texto que escrevi sobre o caso da Casa Pia é este que segue e foi publicado em 3 de Fevereiro de 2003. Na altura, um comentador deixou um simples comentário com uma interjeição: "Ena!". Nunca mais a esqueci...

"Perante acontecimentos extraordinários de fim de semana, descobri um texto antigo que me obriguei a passar, como treino na Remington e motivo de reflexão pessoal perante as perplexidades desses acontecimentos. A minha pena na solitária obriga-me a cuidado no juizo alheio mas também a muita prudência na presunção de culpa seja de quem for.

Por isso, o texto não é labéu para ninguém. Para além do mais, o Pinkerton não mo permitiria . Contudo, esta hipótese de explicação dos acontecimentos, não me parece despropositada, no caso dessa presunção não se confirmar.

O texto é de Robert Louis Balfour Stevenson, nascido na Escócia em 1850 e que escreveu, em 1886, a obra “The Strange Case of Dr. Jekyll and Mr. Hyde”, uma récita, na primeira pessoa, sobre uma estranha forma de vida...dupla e uma reflexão metafísica sobre o mal. Este mal, a ser real, seria insuportável, pois estaríamos confrontados com um mr. Hyde que se ocultou de todos nós durante anos e a quem nos habituámos a admirar.

Aqui fica o excerpto:

Devo agora falar, apenas teoricamente, dizendo não o que sei, mas o que suponho ser mais provável. O lado mau da minha natureza, integrado numa nova forma corpórea, era menos robusto e menos desenvolvido que o lado bom que eu acabara de depor. Durante a maior parte da minha vida que, apesar de tudo, fora uma existência de canseiras, virtudes e recalcamentos, esse lado exercitara-se em escala bastante menor e despendera muito menos energias. Por essa razão, segundo penso, aconteceu que Edward Hyde era muito mais pequeno, mais débil e jovem que Henry Jekyll. Enquanto o rosto dum resplandecia de bondade, o do outro trazia o cunho da ignomínia. Além disso, o mal ( que eu acredito agora ser o lado fatídico do homem) imprimira já naquele corpo o estigma da deformidade e decadência.

(...)Observei que, quando exibia a forma de Hyde, ninguém podia aproximar-se de mim sem um bem visível estremecimento. Eu atribuo isso ao facto de todos os entes humanos, tal como os vemos, serem uma mistura do bem e do mal, e Hyde, único na espécie, era pura essência maligna. Demorei-me apenas um momento diante do espelho. Tornava-se necessário tentar a segunda e conclusiva experiência; certificar-me se havia perdido, para sempre, a minha identidade e, se assim fosse, nada mais me restaria senão fugir, antes de alvorecer, daquela casa que já não me pertencia.

(...) A droga não tinha um caracter específico, não era diabólica nem divina. Apenas moveu as portas do cárcere que sepultava a minha índole. E tudo quanto aí se amontoava, coagido e represado, trasbordou em liberdade. Nessa altura a minha virtude dormitava, mas a maldade, acordada pela ambição estava alerta e pronta a aproveitar uma oportunidade. E assim nasceu Edward Hyde. Por isso, ainda que eu tivesse agora dois caracteres, bem como duas aparências, um era intrinsecamente mau, e o outro, ainda o do velho Henry Jekyll, essa absurda mistura cuja reforma e aperfeiçoamento eu já desesperava de conseguir. A evolução processava-se, pois, no sentido do pior.

(...) As alegrias e prazeres que eu me apressava a procurar sob disfarce eram, como já disse, pouco edificantes e dificilmente lhes poderia aplicar um termo mais rigoroso. Mas sob a forma de Edward Hyde em breve se tornaram monstruosos. Muitas vezes, no regresso dessas excursões, mergulhava numa espécie de torpor e assombro ao meditar na minha falsidade e depravação. Este ser que eu tinha extraído da minha própria alma e libertado para a satisfação dos seus instintos, era intrinsecamente pérfido e asqueroso. Cada gesto ou pensamento o denunciava. A tortura inflingida a outrém constituía uma fonte de prazer de que ele se servia com bestial avidez, insensível como um homem de pedra! Henry Jekyll, por vezes, ficava horrorizado com as façanhas de Edward Hyde; mas a situação estava à margem das leis comuns , e a consciência, perfidamente relaxada, cobria os seus desmandos. Era Hyde afinal, e Hyde somente, o único culpado. Jekyll continuava o mesmo. Quando surgia de novo, continuava adornado das suas boas qualidades e apressava-se, onde fosse possível, a reparar o mal que Edward Hyde houvesse praticado. E assim adormecia a consciência.

Nos pormenores das infâmias em que , deste modo, eu era conivente ( pois nem mesmo agora posso admitir que tivesse sido eu a perpetrá-las), não tenho intenção de me alargar.”

Fico pensativo, triste e ciente que um abusador não costuma confessar os crimes de certa natureza, nem que as evidências sejam esmagadoras..."

7 comentários:

  1. Foi excelente esta lembrança do Dalton. E o título de agora, absolutamente genial.

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  2. Percebo a alusão ao «Dr. Jekyll and Mr. Hyde»...ainda hoje me custa aceitar estes factos em relação ao Carlos Cruz.

    Também não aceito que se distinga entre juízes bons e juízes maus consoante as decisões nos agradem...ou não.

    Por isso, e apesar de o grau de certeza ter sido aumentado com a decisão de hoje,aguardo a decisão dos tribunais superiores.

    E só espero que os que agora pedem respeito pelas decisões judiciais (como eu)...respeitem da mesma forma as próximas decisões (sem embargo do direito de critica).

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  3. " Fico pensativo, triste e ciente que um abusador não costuma confessar os crimes de certa natureza, nem que as evidências sejam esmagadoras..."



    Sabe mais o que me lembrou , José , recorrendo também à literatura ? Um certo Rodion Romanovitch na esquadra da polícia a confessar o inconfessável .

    Da sentença ainda não vimos um recurso , saem os palhaços é só um instante , aí estão os trapezistas .

    Suspeito que só mesmo nos livros , José , a Justiça prevalece e o maior pulha tem Nobreza .

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  4. Que eu saiba, depois de provada a matéria de facto, não é nenhum recurso que nega factos.

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  5. caro josé pedia-lhe um esclarecimento do que representam as duas alterações ao código penal publicadas em diário da republica ontem e hoje.
    uma complemtent a outra?
    a 2a corrige a primeira?
    oq mudou ao fim e ao cabo?
    e o q mudou a 2 de setembro?
    e a 3 de setembro?
    obrigado pelo grande blog.
    alex molinari

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  6. lex:

    Ainda não vi as alterações. Estou noutra onda: dos impostos...

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  7. Como é óbvio....os Tribunais superiores (nomeadamente a Relação) podem alterar a matéria de facto.

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