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quarta-feira, março 22, 2023

Jazz: a modalidade blue rondo à la bebop a lula

 A música de jazz nunca foi algo que me seduzisse do mesmo modo que a pop e o rock ou a música clássica. Sempre ouvi jazz como música de fundo ou de segundo plano, sem desprimor para algumas obras de vulto no estilo e género. 

Tenho poucos discos de jazz em formato vinil e os que tenho nem são grandes clássicos e apenas representativos de uma modalidade que surgiu já nos anos setenta: o jazz misturado ao rock ou ao pop como então se classificava. 

Já ouvi praticamente os mestres do jazz clássico, digamos assim, incluindo os Coltrane e Charlie Parker e até este disco, com o "blue rondo a la turk",  que no seu tempo foi um grande sucesso de vendas, em todo o lado. O seu autor até figurou na capa da Time, numa altura em que a revista tinha prestígio e não era o cóio de wokers que é hoje em dia:




Juntando tudo, não consigo ir além de umas poucas audições, esparsas e fatigantes depois de vários minutos de trompetadas ou saxofonadas mais ou menos estridentes. O único instrumento que suporto em longas audições de 40 minutos, o tempo de um lp, ainda é o vibrafone ou xilofone...porque o resto aborrece-me ao fim de poucos minutos de reptições improvisadas nas atonalidades ou mesmo melodias harmonizadas. Para dizer a verdade, ainda prefiro a atonalidade modal, surgida neste disco que vou falar a seguir e que aqui é apresentado numa versão em vinil de prensagem japonesa de 1983 que me soa muitíssimo bem. 
Apesar disso, tentei já gostar do jazz mais modernaço, surgido já no tempo das guitarradas e lá coleccionei discos dos Weather Report, Jaco Pastorius, Return to Forever, Chick Corea, Tony Williams e mais uns tantos que raramente ouço por dificuldade em gostar muito do género. 
Prefiro sempre ouvir um Egberto Gismonti a um desses. Ou a música dos Steely Dan que em certos temas rouba descarada e literalmente melodias ou passagens de discos de jazz ( por exemplo Rikki don´t loose that number, do disco Pretzel Logic, tira a introdução ritmada a sol e do, ao disco de Horace Silver, Song for my father). Neste último caso,  ao plágio segue-se um desenvolvimento rítmico, melódico e harmonioso que o jazz não consegue devolver-me, como os ladrões o fazem. 

O maior artista e o disco mais representativo deste novo género, surgido nos anos setenta, aliás talvez o primeiro, é este, aparecido em 1970 e que tenho praticamente em versão original, de vinil (é uma segunda repress), um duplo álbum, muito celebrado pela inovação e música contida:





Houve quem augurasse como sendo o toque de finados do jazz, mas tal como Frank Zappa proclamou num espectáculo ao vivo no final de 1973 ( incluído no álbum Roxy & Elsewhere, de final desse ano, no tema bebop tango) o "jazz não estava morto, apenas tinha um cheiro esquisito". 
Frank Zappa tinha em relação ao jazz uma atitude muito aberta, tal como em relação a qualquer tipo de música e habituei-me a gostar do que Zappa publicou ao longo dos anos, em incursões jazzísticas como em Hot Rats ou Uncle Meat ou ainda Chunga´s Revenge ou The Grand Wazoo, tudo obras com grande inflexões jazzísticas.  E é este jazz que prefiro. 
Em 1992 num suplemente da revista Guitar Player, Zappa dizia numa entrevista como era e que gostei de ler na altura porque me identifico com este entendimento da música:




Nos anos cinquenta do séc. XX, o jazz tornou-se popular se assim se pode dizer, na ausência da pop que surgiria na década seguinte. 
Em França, por exemplo havia duas revistas consagradas a tal tipo de música e numa delas, a Jazz Hot que vinha de décadas anteriores, inaugurou em 1966 a nova era do pop/rock, em formato de revista, dedicada a um estilo musical iniciado em meados da década anterior. 
Foi num suplemento de tal revista que foi lançado o primeiro número da Rock & Folk que passei a ler desde 1974.
Assim, conforme se conta num número comemorativo do aparecimento da revista, de 2016:


No número de Junho de 1970 ( no mesmo número em que é publicada a recensão de Let it be dos Beatles) vinha a recensão crítica ao disco de Miles Davies, Bitches Brew, então considerado inovador de um novo estilo: o jazz/pop que com o passar dos anos foi designado como jazz-rock.  No disco já apareciam alguns dos cultores do novo estilo, como Wayne Shorter, no sax soprano e aliás falecido há poucas semanas. Também o guitarrista John McLaughlin, autor de vários discos do género.




Na Jazz Hot de Outubro de 1966 o jazz ainda tinha este aspecto gráfico:


Instrumentos de sopros, trompetes, saxofones, contrabaixos, tudo acústico. Em 1970, algo de substancial mudou, com Miles Davies. Porém, antes disso o músico já tinha inovado na mesma área, em diversas ocasiões, como se pode ver na história que dele foi contada e que consta de um dvd- The Birth of the Cool, de 2019. 
No final dos anos cinquenta Miles Davies publicou um disco- Kind of Blue-  que me parece fantástico, particularmente o segundo lado (Sketches of Spain, muito etéreo e introspectivo), aliás muito diferente do mexido Bitches Brew e que surgiria uma década depois.

Este não é um disco pop e dizem que inovou, cortando o estilo anterior, do chamado bebop,  (estilo  aqui exemplificado magistralmente no tema Donna Lee de Charlie Parker) no tempo em que Gene Vincent já cantava, acrescentando ao ritmo nascente do rock n roll uma enigmática...lula

Kind of Blue é disco que se ouve vezes sem conta e soa como se fosse hoje, ao contrário do bebop a lula de Gene Vincent que define logo uma época, ironicamente a mesma do disco de Miles Davies.

Talvez por isso, as versões que já foram publicadas do disco original, saído em versão mono e estereo em 1959 sejam legião.

Há quem se dedique a coleccionar as versões fundamentais do disco, desde a original de 1959, passando por versões remisturadas e rematrizadas, com diferentes modificações sonoras consoante o gosto do dia. 

Como exemplo paradigmático do culto que o disco provoca em apreciadores, há um inglês- Dave Denyer- que tem tudo e que ouviu e comparou, incluindo uma recente versão em fita magnética editada por italianos e que o mesmo assegura ser a melhor versão de todas as que ouviu, incluindo as originais, de 1959. Pagou 850 euros, pelo menos...pela experiência. 

Impressionante ! ( amazing!):

Em Março de 1982 comecei a comprar esta revista por causa do assunto da capa: uma entrevista com Miles Davies. 



Dali a três anos comprei o disco You´re under arrest, do músico. Tem uma versão de Time after time, o êxito pop de Cindy Loper.

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