Páginas

quarta-feira, fevereiro 17, 2016

O jornalismo de investigação é coisa do coração, boca ou estômago?



O jornalista Jacinto Godinho acusou um toque na seu brio profissional a propósito do postal que antecede e mostrou a sua qualidade de boa gente, sentindo-se diminuído na apreciação que fiz do seu artigo.
Como efectivamente não conhecia nem a pessoa nem a sua obra jornalística, nem me dei ao trabalho de digitar as palavras certas no Google e fi-lo agora para reparar eventual erro.

Assim para quem não saiba, o mencionado jornalista é assim apresentado numsítio sindical, mas o mais interessante retrato é este, feito pelos colegas do Público:

O Grande Prémio Gazeta 2006 foi atribuído há dias a Jacinto Godinho, jornalista da RTP, pelos três trabalhos da série Ei-los que partem - História da Emigração Portuguesa. Recebeu 20 mil euros. Fomos à aldeia onde nasceu.

  Costumava gastar em jornais o dinheiro que tinha para o lanche e a mochila andava sempre cheia.

 Quando ia para o campo trabalhar tinha como companheiro um rádio que levava para ouvir as notícias. A paixão pelo jornalismo é algo que o acompanha desde miúdo. Lembra-se de nas aulas do 6º ou 7º ano a professora perguntar o que queriam ser. Muitos queriam ser médicos, outros bombeiros. Ele sempre quis ser jornalista.
Jacinto Godinho é hoje um dos poucos jornalistas que se dedica à grande reportagem em televisão. Em 1988 terminou a licenciatura em Comunicação Social na Universidade Nova de Lisboa. Desde então, o seu percurso esteve sempre ligado à RTP. Diz que está melhor no serviço público. "Para trabalhar como eu quero é preciso uma certa liberdade."
Começou como tarefeiro, depois teve um contrato em que era pago à peça. "Nos meus tempos livres fazia reportagens por minha conta e depois propunha-as aos telejornais", diz. "Sempre tentei forçar um pouco na minha vida a possibilidade de que isso acontecesse, nem que me custasse um pouco mais, me obrigasse a passar muito mais tempo em televisão e a prescindir da vida privada. Nunca me acomodei."
São Manços, a aldeia alentejana onde nasceu, é uma das suas principais referências. "Num dos lados da minha cabeça, da minha geografia interior, está sempre São Manços porque eu tive o privilégio de viver num outro tempo dentro do tempo presente, porque a vida numa aldeia é outra forma de cultura, é outra forma de comunicação, é outra forma de relação entre as pessoas", conta. Em criança passou por dificuldades. "A vida não era nada fácil nesses tempos. O Alentejo enfrentava a pobreza. O Jacinto andou descalço até muito tarde", conta Odete Meireles, que vive em São Manços e foi sua senhoria em Lisboa.

Por aqui e por ali ( basta ver no Google)  se pode ler que JG foi galardoado por duas vezes (em 1995 e 2006) com o prémio Gazeta, relativo a "jornalismo de investigação".  Ou seja dois óscares do  nossos   jornalismo que conta com um Óscar,  Mascarenhas que até definiu o que se deve entender por "jornalismo de investigação" numa investigação de mestrado.  

Essencialmente, nesse estudo académico dá-se logo uma definição do que se deve entender por tal género: um jornalismo que obtém informações que alguém não quer ver divulgadas e que pressupõe uma ética e responsabilidade na sua recolha.
Em resumo e citando autores estrangeiros o Óscar,  Mascarenhas,  define esse jornalismo, à partida, como o que descobre notícias importantes que alguém não quer que o público conheça.

Será esse o caso particular do jornalismo de investigação daquele Jacinto Godinho na peça televisiva que ganhou o galardão em 2006 e que versava uma certa história da emigração portuguesa?
Duvido, por uma razão: nem todo o jornalismo que investiga algo se deve acantonar no "jornalismo de investigação" porque todo o jornalismo pressupõe alguma investigação. Falta o quê, afinal? A segunda parte: a de haver alguém que não queira que se conheça publicamente essa informação. 

Haverá alguém que não queira conhecer o que se passou com os portugueses que emigraram para as sete partidas da diáspora nacional nos anos sessenta do século que passou? Duvido também, mas admito que os "fassistas" não gostem de ver o nome pela lama atirada pelos do costume que assim procedem por atavismo ideológico.
Será esse o caso de JG? Não sei, não vi a reportagem.
Assim, até melhor esclarecimento parece-me que o jornalista Jacinto Godinho não deve ofender-se com o que escrevi.
Por outro lado e sobre o jornalismo haveria muito para dizer mas digo apenas o básico: o que é o jornalismo?
O mesmo estudo académico que mereceu a atenção daquele Óscar diz, citando estrangeiros que é "uma escrita não ficcionada que se baseia em fontes identificáveis". Portanto, coisas objectivas com factos e fontes a escorrer da tinta impressa.
Há uma outra noção de jornalismo, mais romântica e também algo trôpega e confusa. É esta, lamentável: 
"O jornalismo não é mais do que contar o que  se passa no coração dos homens.” Passados quase 25 anos, Armando Batista Bastos ainda se emociona quando recorda Maria Ercília e José Adelino. Recua a um tempo e a um cenário em que “a fome estava instalada” – o ambiente que cerceava os dias de um casal de desempregados da margem sul.

Nunca mais há-de esquecer o pormenor das janelas,tradução máxima do desespero. “Maria Ercília e José Adelino viviam em frente de uma pastelaria”, Batista Bastos vai desfiando as lembranças com pausas pelo caminho. “E por isso a Maria Ercília entaipou as janelas. Para as crianças não verem a pastelaria que estava em frente.”

Foi com “Um dia na vida de Maria Ercília e José Adelino”, publicado no Diário Popular, que Batista Bastos ganhou o´Prémio Gazeta de Reportagem de Imprensa 1985. “Sempre  achei e continuo a achar que a obrigação dos jornalistas é fala  destas coisas. E tomar partido se for preciso. Como é que eu posso falar da fome se me distanciar? Não abdico de me emocionar porque senão não consigo transmitir  emoção. E não deixei de transmitir o rigor”, defende o jornalista. Foi o primeiro Gazeta que recebeu, o segundo foi o Gazeta de Mérito 2004, a premiar os seus 50 anos de carreira.

Portanto já não sei bem que jornalismo é este que se distingue com os prémios Gazeta.  Será o objectivo dos factos e das fontes ou o que vem do coração, como parece ser apanágio dos BB´s que por aí pululam a escrevinhar ( e  com um estilo que se lê bem, diga-se) em pasquins patrocinados por odiosos liberalóides subjugados aos malditos mercados, como é o Jornal de Negócios?

Por outro lado e tendo em atenção que Jacinto Godinho é de S. Manços e afeiçoa a terrinha poderia um dia, se se lembrar de fazer jus àquela noção específica de jornalismo de investigação a sério e não simples reportagem jornalística, elaborar uma peça sobre...as FP25 e o que aconteceu àquele bebé de S. Manços cujos pais ficaram a chorar como muito bem se pode imaginar e não teve oportunidade de calçar uns sapatos porque nem tempo de vida teve, suficiente para tal. 

Isso é que seria uma reportagem digna de prémio Gazeta e aí o meu aplauso seria de bravos sucessivos.  Mas suspeito que nunca virá a lume e muito menos na televisão.

5 comentários:

  1. Já respondeu à sua própria pergunta José… Investigação jornalística nos pasquins de cá é só com o coração — e parece que o dito por incrível azar, fica do lado esquerdo. Ao que acrescento as causas, as boas, claro. -- JRF

    ResponderEliminar
  2. Ah, chapéu!

    Mas engraçado que sabem que o estaminé existe.

    ResponderEliminar
  3. em alentejano dizia-se que nesta aldeia toiros e cornos, todos são mansos

    para esta escumalha 'jornalixo humano' é descrição de estórietas anti-fascistas tipo Sta Catarina

    são investigados com o olho sáurio
    ou com outro situado mais abaixo
    mas igualmente cego

    la solita cagata

    ResponderEliminar
  4. não me lembrava do título exacto

    Coração, cabeça e estômago, de Camilo Castelo Branco

    gostei muito de ambos os 2

    ResponderEliminar

Nota: só um membro deste blogue pode publicar um comentário.