domingo, abril 23, 2023

Michel Onfray, o filósofo em modo cassandra

 Michel Onfray é um filósofo francês que se define como sendo de esquerda, mas de uma que ainda não existe e que alguns afirmam recheada de relativismo moral...e numa entrevista ao Le Figaro de 1 de Abril deste ano concedeu uma entrevista a propósito do lançamento do seu novo livro Anima, em que denuncia o transhumanismo e a morte da alma humana, através de novas experiências científicas em curso na California.








A revista Valeurs Actuelles de Abril de 2023 também dá um destaque inusitado ao autor, enquadrando-o num debate com Éric Zemour que a revista desenvolve numa entrevista conjunta. 

Sobre Onfray, escrevem:








A revista afirma que Onfray é um amigo da direita e que tal permite que se possam formar frentes populares...apesar dos desacordos.

A entrevista tem 32 páginas pelo que é um pouco extensa para aqui. No entanto, aborda um assunto interessante: a questão do "povo" e nomeadamente se existe um "povo" e uma "multidão" num conceito que se explica mais à frente, assim:









quinta-feira, abril 20, 2023

João Abel Manta, o comunista talentoso

 João Abel Manta é figura artística que por aqui foi já glosada e amparada em elogios sem reservas, algumas vezes. Antes de figura artística foi artista engagé no comunismo soviético, estalinista e monolítico. 

Sem remédio e apenas remediado no aproveitamento de um imenso talento artístico aplicado a zurzir o inimigo feito figura de gente no salazarismo e com ódio de estimação centrado na sua figura principal, ligeiramente transformado depois em associações livres ao "fassismo" e outras correntes que foram sempre inimigas do comunismo. 

Pouco ou nada há na obra artística dos cartoons de João Abel Manta, para além de tal temática, mostrando bem o grau de sectarismo ideológico que o animou durante décadas. 

Nos respectivos cartoons e desenhos avulsos perpassa todo o catálogo da ideologia marxista, da luta de classes e do ódio a uma burguesia estilizada, a par de uma sacralização mitificadora de uma classe trabalhadora imaginada e despojada da realidade mais comezinha. 

Ideologicamente a obra de João Abel Manta é uma fraude porque é o retrato do sectarismo e da intolerância totalitária. Artisticamente é  simplesmente genial porque representa um domínio do traço só comparável aos melhores cartoonistas mundiais, americanos em particular. 

 Vale a pena por isso mostrar uma reedição recentíssima de alguns desenhos e cartoons publicados originalmente numa obra editada pelo O Jornal, em finais de 1975 e que se intitulava simplesmente João Abel Manta Cartoons 1969- 1975

A obra agora publicada pela Tinta da China contém um arranjo diverso daquela obra original e acrescenta muitos outros desenhos e cartoons posteriores a tal data porque se estende até 1992. 

A obra original era esta:




Foi anunciada assim no O Jornal de 5 de Dezembro de 1975, preparando os eventuais compradores para a quadra de Natal. Lembro-me de o ver exposto no escaparate das livrarias e achar demasiado caro ( 250$00, cinco vezes o valor de uma Rock & Folk).


Tinha um prefácio do escritor José Cardoso Pires, um compagnon de route do comunismo, associado à oposição como "frente unida", aliás como eram os que editavam O Jornal, em 1975. 
No postal anterior em artigo da revista Observador de Abril de 1973 dava-se conta das contradições desta "frente unida" contra o regime anterior e que aliás nunca se entenderam entre si, desabando fragorosamente no PREC de 1975, mas continuando a ilusão mitificadora da luta contra o fassismo, a burguesia ou o raio que os parta e que acabou por nos partir a todos por causa da mesma desgraçada utopia de sempre, vinda do antepassado comum, Jean-Jacques Rousseau. 




A reedição actual tem esta capa, com uma cor ligeiramente desafinada e um "pano" um pouco maior, em altura ( mais 4 cm do que o original). O papel é idêntico, talvez com uma pequeníssima diferença de gramagem, para melhor na reedição:


O prefácio explica a mudança:


As diferenças fundamentais também se notam e na verdade, como uma boa reedição, para melhor, como é o caso deste cartoon, publicado primeiro na versão original e depois na reedição:



Em Maio de 1975 o autor aparece a desenhar na rua um dos símbolos da luta contra o capitalismo e a burguesia...figurando assim na capa do O Jornal, primeira edição de 2 de Maio desse ano:


Quanto a cartoons que mostram a mistificação, é fácil de evidenciar porque são tantos que até dói a ver...








ADITAMENTO a tempo:

A reedição agora publicada pela Tinta da China é da autoria de Pedro Piedade Marques que em 2016 já tinha efectuado uma contribuição para o Público, numa pequena colecção de livrinhos dedicados aos designers portugueses, neste caso com uma pequena amostra em 95 páginas da vida e obra de J.A.Manta, incluindo algumas imagens que não constam do livro agora editado ( por exemplo grafismos para capas de livros):


 Por outro lado, em 1978 as mesmas edições do O Jornal tinham também publicado outro volume com dimensões e aspecto semelhante ao de 1975, um pouco mais luxuoso na apresentação "encadernada" numa embalagem de cartão grosso.


Alguns dos cartoons aí publicados merecem destaque pelas mesmas razões dos anteriores: são compêndios de sectarismo e intolerância que nem democrática pode chamar-se porque JAM nunca foi democrata ao modo ocidental. 
Ainda assim avulta em alguns casos, algo que transcende tal defeito, na edição de 1978:




Como desenhos preparatórios desta sequência a nova edição da Tinta da China publica isto que merece destaque:





A visão do mundo de JAM resume-se a isto, publicado em poster no primeiro número de O Jornal, de 2 de Maio de 1975. Está aqui toda a sua filosofia:


Quem quiser que a compre...pois adquirirá a miséria correspondente. 
Quanto ao livro reeditado e acrescentado vale a pena comprar, a mais não ser para se compreender isto e o mal que nos fez, a todos os portugueses durante estas décadas. Sempre em nome de um idealismo, uma ideia salvífica que vem dos temos de Jean-Jacques Rousseau e que se resume a uma coisa simples: a igualdade a todo o preço que redunda na maior desigualdade possível e nas maiores atrocidades sociais imagináveis. Um paradoxo que nunca entendem porque, dá-se de barato, julgam-se bem intencionados. 

quarta-feira, abril 19, 2023

O PS cor de rosa e a imagem da miséria de um país

 O Público de hoje, para comemorar a efeméride dos 50 anos de fundação do Partido Socialista encarregou a jornalista Ana Sá Lopes para fazer o perfil...e saiu um daqueles do género galinha sem penas, à imagem e semelhança da autora. 

Até erros palmares contém, ao indicar o dia 18 de Julho de 1974 como o dia d do PS, na Fonte Luminosa, em pleno Verão Quente do Prec.



A imagem que transmite de um PS formado na clandestinidade de 19 de Abril de 1973 é sintomática da lavagem cerebral sofrida ao longo de décadas que esqueceram aspectos fundamentais da vida política de tal partido que em determinada altura se confundia com o seu dirigente histórico, Mário Soares. 
Como a imagem é "fofinha" e desajustada à realidade, até factual, importa saber como foi para se conhecer como é.

Em 20 de Abril de 1973 a revista Observador publicou uma reportagem desenvolvida sobre as actividades da "oposição democrática", nessa altura em congresso realizado em Aveiro.


Apontava o nome de alguns ausentes em tal congresso, incluindo Mário Soares que agora se sabe estaria na Alemanha ou pronto para estar,  a preparar a fundação oficial do partido socialista, vindo da Acção Socialista.Porém, a mulher Maria Barroso esteve presente ( tal como esteve na Alemanha segundo agora se conta) e de acordo com o repórter que esteve presente, o referido Mário Soares nem sequer foi aplaudido por aí além, no Congresso. 
Conclusão da revista: " Oposição não tem quem a represente"! 


 

Na semana anterior, em 13 de Abril a mesma revista tinha dado o perfil da Oposição e dos seus objectivos:


O que era a "frente unida" de esquerda de oposição? Lá vinha: uma desunião acerca da "difusão ou colectivização da propriedade, o ensino livre ou a sua nacionalização; "e o uso ou não da violência como processo de actuação política ( tudo questões tendidas entre duas extremidades)".  Tudo com uma "agressividade em relação ao Governo e o amor à Liberdade"! 

Portanto, era este o caldo de cultura existente em 19 de Abril de 1973, data da fundação do PS. 

E o que era este partido,  ideologicamente? Uma amálgama de contradições entre as quais avultavam as que se referiam à política económica para um país como Portugal. 
O PS de Mário Soares e dos seus fundadores era um partido jacobino, fortemente influenciado pela Maçonaria e que era hostil ao desenvolvimento económico que a capa da revista de 13 de Abril mostrava claramente:


O PS que surgiu das catacumbas um ano depois, em Maio de 1974 ainda se orientava por um marxismo serôdio e fora do tempo que conduziu o país ao descalabro da primeira bancarrota, em 1976.

O "plano de nacionalizações" e a "reforma agrária"  previsto no programa do PS não se distinguia em nada do do PCP, porque a ideologia madre era a mesma puta de sempre.



Em França, o ami Miterrand,  em 1981 chegou a ter as mesmas ilusões mas durante muito pouco tempo. Arrepiou caminho logo que viu o espectro da bancarrota e da miséria económica a aproximar-se. Por cá durou muito mais tempo que isso. 
Aliás no final dos anos setenta era ainda um mito apresar da bancarrota que se vivia e das dificuldades económicas inerentes a tais políticas que o PS sempre apadrinhou e promoveu nessa altura.
Nesta imagem de Julho de 1975, ambos os dois estão juntos...


E só quando o líder comunista anunciou através de um lapso inegável que aliás desmentiu, que em Portugal nunca haveria um regime parlamentar como havia na Europa é que soaram as campaínhas todas no PS e lá andaram com as calças na mão a convocar manifestações na Fonte Luminosa. Em 1975, não em 1974 como a reportagem sem penas indicou.  
A imagem é da Paris Match de 28 de Junho de 1975:



Mesmo assim aprovou-se uma Constituição que jurava aos portugueses que estávamos a caminho do socialismo e da sociedade sem classes. E portanto não havia lugar a iniciativas como esta, promovida no Verão de 1974 e rechaçada pela Esquerda, incluindo o Partido Socialista.
A imagem é do jornal Sempre Fixe ( com tendência comunista acirrada e extremista) de 31.8.1974:


Em 1977 a situação económica, promovida pelo PS e pelo PCP era desesperante e os portugueses sofriam as agruras da ideologia socialista. 





Apesar destas evidências o PS e Mário Soares em 1978 continuavam a apostar no cavalo branco da economia estatizada.


O qual se transformou em elefante branco dali a meia dúzia de anos, em 1984 e com outra bancarrota às costas do portugueses, assim promovida pelo mesmíssimo PS de Mário Soares.


Passados mais dez anos os portugueses, agradecidos como sempre a este PS, votaram outra vez nesta gente:



Depois de reconhecer que se tinha metido num pântano, gizado, construído e alimentado pelo PS e esquerda em geral, deixou o legado a outros que pouco tempo tiveram para recompor o estado do país, tal como se encontrava em 1974. 

Surgiu depois este bando, do mesmíssimo partido, para gáudio dos eleitores que lhe deram maioria absoluta. No Público a reportagem sem penas até diz que o indivíduo da frente era o "Cavaco do PS" ! Imagine-se este naipe de patriotas de subida preparação intelectual e juntos àqueloutros, a orientar os destinos do país em maioria absoluta. É isto o PS, sem tirar nem pôr:


Quanto ao presidente tornado rei pela maioria dos portugueses votantes era isto, mais ou menos:







O PS é e sempre foi isto. O resto é folclore. E miséria assegurada para todos nós.
Ah! E já me esquecia: ontem, na tv, o refugiado ( na Suécia) Rui Mateus, prócere do PS e que continua a jurar fidelidade ao mesmo e amizade post-mortem a Mário Soares, disse, ao fim de quase trinta anos que o que escreveu no livro  Contos Proibidos-memória de um PS desconhecido, é tudo verdade "porque nunca foi desmentido". Tal e qual, o que significa que o PS foi um partido de grandes corruptos, incluindo Mário Soares. 

Entrevista de Ivo Rosa ao Expresso