quarta-feira, outubro 05, 2022

Contratos públicos: quem os não tem?

 Artigo na Sábado de hoje de Eduardo Dâmaso:


Artigo neste blog, em 30.1.2012:

Jornal i de hoje:

A mentora do Código dos Contratos Públicos, aprovado em 2008 e que regula os ajustes directos feitos pelo Estado, é também uma das principais beneficiadas: a sociedade de advogados Sérvulo & Associados já recebeu 7,5 milhões de euros, por 157 contratos de ajustes directos. Muitos são contratos para defender entidades públicas com irregularidades detectadas em ajustes directos, como é o caso da Parque Escolar, que tem um contrato com a Mota Engil que o Tribunal de Contas considera ilegal.

O ano em que o Código dos Contratos Públicos (CCP) foi aprovado acabou por ser dos mais fracos para aquele escritório de advogados, que apenas conseguiu 89 mil euros em ajustes directos durante todo o ano de 2008. Mas 2009 foi um ano “gordo” para os cofres da sociedade liderada por Sérvulo Correia, tendo auferido 3,277 milhões de euros. Os valores baixaram nos anos seguintes, mas ainda assim 2010 permitiu encaixar 1,9 milhões de euros e 2011 outros dois milhões de euros. Em 2012, segundo o portal Base, onde são publicados todos os contratos públicos por ajuste directo, a Sérvulo & Associados já conseguiu 80 mil euros em duas adjudicações.

As áreas da educação, águas, obras públicas e comunicação social são as que mais contratam a sociedade de advogados. Parque Escolar (quatro contratos), RTP (sete contratos), Estradas de Portugal (cinco contratos), Instituto dos Registos e do Notariado (sete contratos) e Gabinete de Estatística e Planeamento da Educação (oito contratos) são os principais clientes.

O contrato mais elevado já obtido por aquele escritório (que não é o único a usufruir dos ajustes directos) foi com o Banco de Portugal (BdP), que pagou 650 mil euros em Fevereiro de 2011 por assessoria jurídica. O fim específico daquela assessoria não é descrito em detalhe, mas o “Diário de Notícias” revelou, em Dezembro, que o serviço se destinava a apoiar o BdP nos processos de contra-ordenação contra a anterior administração do Millennium BCP.

O banco central português é, aliás, um frequente utilizador dos ajustes directos para assessoria jurídica, pois no mesmo ano também contratou a sociedade de advogados do antigo ministro Vasco Vieira de Almeida, pagando-lhe outros 650 mil euros. Ao todo, desde 2009, o Banco de Portugal já gastou dois milhões de euros em serviços jurídicos.

PARQUE ESCOLAR Um dos mais recentes ajustes directos de que Sérvulo Correia é adjudicatário é deste mês e o adjudicante é a Parque Escolar, no valor de 20 mil euros. A sociedade foi contratada para defender a empresa num caso de ajuste directo chumbado pelo Tribunal de Contras (TC). Em causa está o contrato de obras na Escola Secundária Passos Manuel, em Lisboa, executado pela Mota-Engil. O TC chumbou aquele contrato, no valor de 1,1 milhões de euros, considerando-o “nulo”. Entre várias ilegalidades apontadas está o facto de o ajuste directo ter sido feito já depois da obra estar concluída e também por o contrato não ter sido sujeito à fiscalização prévia do TC.

Repare-se: A firma de advogados Sérvulo & Associados, com sede no Chiado, em edifício sumptuoso ( diz-se que o gabinete de Sérvulo Correia, que já foi secretário do PSD, até tem área de mini-golf...) prosperou estes últimos anos de modo impressionante. E só se constituiu em 1999...

Desde quando prosperou esta firma que, à semelhança das três irmãs pareceristicamente siamesas, contrata juristas brilhantes recém saídos de faculdades e a quem pagam em modo mixuruco para fazerem o trabalho técnico? Desde que acabaram as auditorias jurídicas nos ministérios e o Ministério Público foi relegado para instância acessória em matérias de parecerística jurídica.

Quem foi o autor da ideia básica que encheu os cofres das três irmãs que entretanto alargaram a família a outros parentes pobres e afastados, mas que lograram chegar-se à mesa do Orçamento, tipo José Pedro Aguiar Branco e outros?

Durante muitos anos o Ministério Público manteve um carácter de entidade consultiva do poder político, incluindo o legislativo.

Em regime democrático, o Ministério Público, sempre teve como função "representar o Estado". Claro que a discussão acerca do significado da representação só poderia abrir nova brecha conceptual, com Sérvulo Correia ( precisamente) a defender ( ver pág 25 do pdf) no final dos anos noventa, que o MP representa o Estado, em matérias administrativas, em verdadeiro patrocínio judiciário e não em representação orgânica, o que implicaria outra noção de Estado. Percebe-se o ponto onde o mesmo queria chegar...

O Conselho Consultivo do MP tinha e tem como funções emitir pareceres sobre a legalidade designadamente a solicitação do Governo, "acerca da formulação e conteúdo jurídico de projectos de diplomas legislativos e pronunciar-se sobre a legalidade dos contratos em que o Estado seja interessado, quando o seu parecer for exigido por lei ou solicitado pelo governo." Deve ainda informar o governo, acerca de obscuridades, deficiências ou contradições nos textos legais e propor as devidas alterações. "

Para além do Conselho Consultivo, o Ministério Público tinha ainda auditores jurídicos junto dos ministérios ( o antigo vice-PGR, Gomes Dias era auditor jurídico...). Os quais funcionavam mal, por causa dos próprios, mas deviam e podiam ser renovados em proveito da causa pública.

Este papel importante na orgânica democrática foi obliterado. Quando? particularmente, em 2006, por Alberto Costa ( quem, senão essa figura sinistra para a magistratura poderia ter feito isto?) no governo de José Sócrates. Acabou com esses serviços de auditoria de um modo que mereceu um comentário do próprio António Cluny, assim:

"Numa altura de contenção orçamental, a opção parece estranha", comentou ao DN António Cluny, presidente do Sindicato dos Magistrados do Ministério Público (SMMP) - entidade ontem recebida pelo ministro da justiça Alberto Costa, para abordarem os vários assuntos em reforma no sector, nomeadamente a formação dos futuros magistrados (...). Poderia perguntar-se a razão verdadeira de tal opção política. Em política o que parece é e Alberto Costa era advogado, embora de firma anódina e que não se sabe se alguma vez exerceu a sério a profissão. Como advogado era e é Rogério Alves, da PLMJ e que assim comentou na altura o assunto: "Eu entendo que, como regra, a consulta jurídica e o patrocínio judiciário devem ser garantidos por advogados. E não excluo o Estado, os departamentos do Estado ou outros organismos da administração pública", disse ao DN Rogério Alves, bastonário da Ordem dos Advogados, para quem a extinção das auditorias jurídicas foi "uma boa medida desde que haja outra formas de assessoria", frisou. Também na altura, "vários PGA ouvidos pelo DN, garantem que a medida vai sair cara ao Estado. " 

A medida de extinção das auditorias inseria-se num dos objectivos do famigerado PRACE, orientado superiormente por uma tal Maria Manuel Leitão Marques, mulher de Vital Moreira. A seguir a isto o que veio? O Código da Contratação Pública, entrado em vigor em 2008, mas gizado anteriormente. Por quem? Sérvulo & Associados, firma fundada em 1999, voilà!

 O último escândalo revelado agora pelo i implica a Sérvulo, por motivos óbvios e simples de entender: foi a firma quem elaborou o código, tornando-se o autêntico legislador e como tal, o intérprete autêntico também será a firma. 

Escândalo, isto? Mais que escândalo, um sinal da decadência do regime que apodreceu de há quinze anos a esta parte e há meia dúzia deles começou mesmo a apodrecer pela cabeça, como o peixe. 

Mas não se pense que é a única firma beneficiada no âmbito da última cartada do regabofe orçamental de Sócrates. A par da Sérvulo estão também metidos na assessoria jurídica da Parque Escolar, as firmas de Morais Leitão ( de onde saiu Assunção Cristas) e de José Pedro Aguiar Branco. 

Na Parque Escolar estão concentrados todos os elementos que podem mostrar às pessoas como é que chegamos ao Estado a que chegamos e entramos em bancarrota. Basta que as pessoas queiram ver. Alguém julga que esta escandaleira e este regabofe cujo caldo de cultura foi preparado pelos governos socialistas e que foi aproveitado por todos os próceres do Bloco Central foi gratuito e por acaso? Alguém julga que isto tem emenda e que as firmas de advogados serão reconduzidas ao seu lugar natural de profissão liberal, sem ligações umbilicais ao Estado-providência que lhes assegura os réditos principais? Alguém julga que isto sucede em algum país da Europa? E porque é que sucede? 

As firmas de advogados em Portugal, as do regime entenda-se, tornaram-se autênticas sanguessugas de recursos públicos, eventualmente com prejuízo para os interesses nacionais e com a complacência de certas figuras. Vital Moreira, por exemplo. E o que ainda é pior é a circunstância de se poderem defender com a mais perfeita legalidade que como se sabe, por doutrina de outro ministro socialista da Justiça ( A. Martins) equivale estritamente à ética." 

Isto que acima se escreve tem dez anos. É de 2012! O panorama melhorou com o tempo? Segundo Eduardo Dâmaso é o que se pode ver. Adiantou alguma coisa haver alguém a escrever sobre o assunto?!

 Mais: falta ainda esclarecer nos tempos mais recentes como é que a própria Secretaria da Presidência da República  contratou um certo escritório de advogados num caso que envolve crimes relacionados com o desvio de artigos do museu da presidência...e o presidente da República podia esclarecer, já que fala sobre tudo e muitos pares de botas, sempre que tem um microfone e uma câmara á frente...

Inveja, o desporto nacional por excelência...

 Sábado de hoje, com capa sobre as reformas "milionárias" de muita gente publicamente conhecida. Mistura políticos com banqueiros e juízes na amálgama ideal para suscitar a indignação pública e hipócrita de quem inveja o estatuto e julga depreciativamente tal classe de gente. 

Para realçar ainda mais a ignomínia escondem-se que os valores são brutos e estão sujeitos a um corte de quase metade, para impostos: convém ainda misturar os que descontaram toda a vida para agora outros usufruirem, com os que descontaram apenas alguns anos porque é na confusão que reina esta informação...

Quanto aos jornalistas e particularmente o que ganham os que mandam na informação das lusas e tv´s que temos, não vale a pena falar porque ficariam sem assunto. 

É este o jornalismo da Sábado actualmente, dirigida por um tal Nuno Tiago Pinto. ( quanto lhe paga a Cofina para este serviço, já agora? É sigilo ou temos o direito a saber? Ganha mais que um simples deputado ou um juiz? )



Como isto se destina a acicatar a inveja latente em todos os que vêem nisto uma "mama" e nestes indivíduos todos, uns "mamões", ficam aqui os últimos versos dos Lusíadas, particularmente a última palavra do poema: "inveja". Palavra que é sempre o leit-motiv deste género de reportagens. 





Princípio, meio e fim da monarquia em Portugal

 Decorre hoje em três cidades do país uma comemoração da "independência de Portugal", tal como anunciado e já publicitado aqui

Independência de quem e de quê? Na comemoração aparece a imagem do fundador da Nacionalidade em destaque no programa e portanto sindica-se tal independência ao dia 5 de Outubro de 1143, data em que o rei de Leão assentiu na separação do território do Condado Portucalense para originar um novo reino, assinando um tratado em Zamora. Portanto uma fundação, mais que uma independência.

Não obstante, antes disso já D. Afonso Henriques era considerado rei pelos que por cá viviam no Condado Portucalense que aliás ainda nem se tinha estendido às nossas fronteiras actuais, só definidas após o assalto e conquista de Lisboa, em 1147 ( portanto em 1143, data da aludida independência comemorada também em Lisboa, esta cidade ainda era dos mouros)  e depois, só em 1249, já no reinado de Afonso III Portugal quando passou a abranger os Algarves. E por outro lado, só em 1179 é que o Papa Alexandre III reconheceu a nossa nacionalidade independente e distinta das demais, com o reconhecimento de D. Afonso Henriques como rei. Na época era assim e nem Carlos Magno escapou ao costume, alguns séculos antes. A prova está à entrada da basílica de S. Pedro, em Roma.

Portanto, os monárquicos que organizam as comemorações sabem muito bem disto tudo e mesmo assim preferiram reunir nesta data a ideia de comemorar a nossa independência, coincidente com a do fim da própria monarquia. Mau gosto?  Enfim, vale a pena relembrar a nossa História, tal como contada por outros. 

Neste caso, a História documentada mas recontada em tom delicodoce, em 1940, altura em que o Estado Novo comemorou o duplo centenário, precisamente o da fundação e o da restauração, da independência, claro.

Assim, sem preconceitos contra a monarquia mas também sem exaltações desnecessárias. A nossa História foi o que foi:


 
A bula que nos concede verdadeiramente e de direito,  a independência...em 1179:


E a evocação de um facto importantíssimo que vejo muito esquecido nestas comemorações, algo jacobinas por isso mesmo: a ideia religiosa que nos alumiava sempre nessa época, de modo a que o Rei combatia com a espada e a cruz para assegurar que éramos tementes a Deus e que nos fora ensinado na Bíblia cristã, sendo por isso cruzados, nessas batalhas pela expansão da cristandade e contra os mouros, ou seja os muçulmanos que foram sempre nossos inimigos na conquista da nacionalidade a par dos espanhóis e a quem reconquistamos a efectiva independência em 1640, o que dá pleno sentido ao duplo centenário aludido.



A Ínclita Geração e o aparecimento fortuito da Casa de Bragança, que deu um novo rumo à monarquia portuguesa, até ao fim desta:



E o fim da História monárquica, triste e revelador, também hoje comemorado pelo jacobinismo ambiente e mata-frades de substância:



Portanto, em toda esta História há um ponto comum salientado aliás pelos historiadores que foram ler os cronistas da época: o povo! É o povo português, no seu geral e classes que o compõe, que manda nos reis, sem excepção e lhes impõe soluções políticas. Ou talvez a excepção que determinou o fim da monarquia: a solução liberal não parece ter seguido a Tradição. E provavelmente daí a queda, com a participação infausta de uma Casa de Bragança que já não era o que foi...ou se calhar nunca foi. 

Para se entender melhor a importância do povo, o real e concreto, de algumas classes populares e não a poba em geral, vale a pena ler estas páginas de Domingos Mascarenhas, no livro Portugalidade já por aqui citado ( e esgotado) que aliás se limita a reproduzir o que os cronistas escreveram...interpretando à sua maneira a ausência de "luta de classes", sem contudo evitar a indicação de um povo alargado a gentes do campo e das cidades, incluindo o clero que de algum modo se opunha a uma nobreza renitente.






domingo, outubro 02, 2022

Negócios e C.ª

 No DN de hoje, tal como no jornal de Negócios da semana passada há uma entrevista com Javier Blas, co-autor de um livro recente acerca de O Mundo à Venda. O livro explicita que se destina a elucidar leitores acerca dos negociantes que abastecem o mundo de energia, alimentos e metais, na actualidade, contando a respectiva história destes negociantes de matérias primas. Obviamente é interessante tanto mais que não conheço publicações recentes acerca deste assunto, prontas a esclarecer quem pretende saber como se negoceiam estes bens essenciais.



O livro começa com uma história exemplar:






O livro, publicado pela Oxford University Press em 2021 teve,  segundo Blas,  apoio prático da editora do jornalista, a Bloomberg que se dedica desde o início dos anos oitenta a tecnologia e assuntos relacionados com "negócios" num sentido amplo, sendo o seu fundador antigo empregado da Salomon Brothers, tudo de ascendência judaica e enfarinhados nesse mundo do capitalismo americano, com âncora na bolsa de valores, mas com o típico espírito empresarial que não se vê em mais lado nenhum. É por isso que gosto de ler coisas dessa banda, porque são mais transparentes e informadas, usando os filtros necessários.

A editora Bloomberg News publica desde 2009 esta revista também muito interessante e da qual já comprei vários números, por causa disso.  


A revista nem sempre se chamou assim. Publicava-se desde 1929, semanalmente,  com o título Business Week, na mesma área de assuntos e por diversas vezes ao longo dos anos comprei números para me informar sobre coisas diversas, geralmente americanas e relacionadas com o capitalismo local.

A revista em 2009 passou para o universo empresarial de Mike Bloomberg que tinha fundado a referida Bloomberg em 1982. Ficou com o legado de décadas e que se pode consultar.

 Por exemplo, este de 18 de Agosto de 1997, com uma capa extensível com retratos dos oligarcas da informação digital de Silicon Valley. Estão lá todos os que nos deram os dispositivos e programas que usamos diariamente, incluindo este que estou a usar:



Onde é que no mundo de então havia mais disto?! O capitalismo americano no seu melhor...ou pior de acordo com os invejosos de sempre, trogloditas de um mundo parado, sempre a olhar para os pobres para ver se nunca chegariam a ricos, caso em que teriam que ser expropriados, para serem todos iguais.


sábado, outubro 01, 2022

Revistas e música popular

 Certamente como muitos da minha geração, só descobri e me interessei pela música popular no dealbar dos anos setenta. 

Como tal, uma boa parte das obras-primas publicadas antes, particularmente na segunda metade dos sessenta ficaram por conhecer, até mais tarde. 

E havia muito para conhecer dessa época: os discos mais importantes de Bob Dylan, dos Beatles, dos Beach Boys, Byrds, Creedence Clearwater Revival, The Doors, Jimi Hendrix, Simon & Garfunkel, Procol Harum, só para mencionar os mais notórios.

À míngua de reedições que aliás se faziam relativamente aos mais vendidos, o conhecimento de tais obras era esporádico e à mercê de programas de rádio ou de discos aparecidos de conhecidos e amigos. 

Por isso havia muito conhecimento que vinha apenas da leitura de publicações especializadas e mesmo os livros dedicados ao assunto da música popular eram raros.

Porém, tudo isso se modificou nas décadas posteriores, particularmente a partir dos anos noventa. 

Antes disso, o conhecimento do que estava para trás fazia-se através dessas publicações, todas estrangeiras porque em Portugal copiava-se tudo. Como agora, aliás. 

A primeira revista que me lembro de ser uma ajuda preciosa para entender o que eram as obras de certos artistas e grupos foi a francesa Rock & Folk que comecei a comprar no Outono de 1974, nessa altura para ver e acompanhar o que ia surgindo de novo e não o que ficara para trás. 

No entanto, ironicamente tudo começou por causa do que já tinha sido publicado anos antes, com o grupo Crosby Stills Nash & Young que no Verão desse ano tinham dado um concerto em Londres, em Wembley e tal coincidira com a descoberta do seu disco ao vivo, de 1971, Four Way Street e da parte acústica de tal disco que passara no rádio e me impressionara particularmente no tema Right Between the Eyes e G. Nash e Cowgirl in the sand, de Neil Young. 

A Rock & Folk trazia uma menção aos CSN&Y na capa, referindo-se no interior ao concerto do Verão de 1974 em Wembley e que aliás acabou por ser publicado em cd e blu ray, com video do concerto, em  2014, numa edição comemorativa especial, mas cuja qualidade técnica e de execução musical do grupo nem sequer se aproxima da revelada naquele disco ao vivo, de 1971, tornando-se mesmo fastidioso assistir a quase duas horas de prestação sofrível do grupo, nada comparável à impecável excelência manifestada na gravação de 1971.

Sendo escassíssima a informação que então tinha acerca do grupo, aproveitei para saber mais um pouco sobre o mesmo e os seus elementos, cuja música me agradava muitíssimo na época e continua, aliás, a agradar.

A revista tinha publicado anos antes, em Janeiro de 1972, numa página inteira, os discos do grupo e dos membros, individualmente, porém não tinha visto tal edição e desconhecia alguns discos. Na  verdade, deles todos só conhecia o Déja Vu porque o tinha visto mais ou menos por essa altura na casa de um amigo.


Por outro lado a mesma revista trazia em todos os números uma página - Érudit Rock- na qual respondia a questões de leitores acerca de discografias e pormenores técnicos e outras particularidades da música popular e que se revelava uma fonte de informação preciosa para quem não tinha nenhuma.

Um exemplo do nº de Outubro de 1974:


Deve ter sido a primeira vez que vi escrito o nome dos Flying Burrito Brothers, mas na próxima em que tal sucedeu já me soava a déja vu, com curiosidade aumentada.

Durante alguns números foi essa a fonte de informação acerca de discografias e outros pormenores até que em Fevereiro de 1976 apareceu isto, um artigo extenso sobre a discografia dos Velvet Underground e Lou Reed, nessa altura já muito conhecido por causa do disco ao vivo Rock n roll animal que passava muitas vezes  no rádio ( Sweet Jane depois da longa introdução)  e de Transformer, de anos anteriores:

Em Março, foi a discografia dos The Who, com capa dedicada e número especial:


Em Abril a de Neil Young:


Em Junho número especial dedicado aos Rolling Stones e a capa com foto tirada do álbum Black & Blue do ano anterior e da autoria do japonês Hiro:



E em Novembro a discografia dos Beatles que vi pela primeira vez a cores:



E em Março de 1977 a dos Pink Floyd:


E os Genesis, algum tempo depois, em Julho de 1977.

Com isto e a informação dos eruditos da Rock & Folk já estava convenientemente ilustrado sobre esta matéria. Mas continuavam a faltar os discos. 

Quanto aos Stones e Beatles no rádio de vez em quando lá passavam temas antigos mas era esporádico e incerto. Em 1976 ou 77, num programa de rádio, possivelmente no Rádio Comercial e com Jaime Fernandes passaram uma série de canções dos Rolling Stones que gravei em cassete e cuja compilação desconheço até hoje se consta de algum álbum do grupo. Idem para Bob Dylan, nas mesmas circunstâncias.


 Durante dez anos foi este o panorama da informação sobre estes temas. Foram saindo entretanto livros de documentação e biografias do rock, poucos e quase nada publicado por cá. 

Daí a vantagem de quem tinha acesso a publicações estrangeiras, como jornais, revistas ou mesmo livros, como este, dos anos setenta e com reedições posteriores. A minha foi adquirida em 1986 e trazia as discografias completas, até tal data, dos grupos e artistas mais conhecidos da música popular, com fotos das capas dos discos. Muitos deles foi por aqui que os fiquei a conhecer: 

Por essa altura, já quase nos finais dos oitenta, a revista americana Rolling Stone começou também a publicar números especiais sobre o passado da música rock, sendo certo que já em meados dos setenta tinha publicado uma "enciclopédia", aliás resumida e concisa de tal género musical e que nunca cheguei a ter, por isso mesmo e ter lido alguns verbetes na revista quando a mesma foi publicada.
 O primeiro surgiu em Agosto de 1987 e depois no início dos anos noventa seguiram-se outros números de antologia:


Os americanos mais práticos e sóbrios nestas andanças, começaram a publicar números especiais sobre estas matérias, como na Guitar Player em janeiro de 1987, uma edição das mais cuidadas e completas  que me foi dado ler: 





Quanto aos ingleses também foi por meados dos oitenta que o panorama se modificou para começarem a organizar antologias e números especiais acerca de grupos e artistas do rock. 

Em 1986 surgiu uma revista mensal importante neste domínio e que se acrescentou aos jornais semanais de sempre que no Reino Unido eram vários e de qualidade, como o NME ou o Melody Maker, Sounds ou Disc and Music Echo, para além do Zig Zag. 

Esta revista, simplesmente intitulada Q surgiu e depois dela apareceram outras ainda mais interessantes e importantes, como a Vox, a Mojo e a Uncut. Estas duas últimas, tal como a Record Collector, mais antiga, de finais dos setenta, ainda existem. 


A partir dos anos noventa e até hoje estas revistas escalpelizaram tudo o que havia a dizer sobre a música popular, os grupos e artistas variados, discos novos e reimpressões mais reedições,  de expressão anglo-americana e que constituem o sector amplo da música rock em geral. Algumas especializaram-se, como a Prog, já com edição italiana, aliás muito interessante, e outras acabaram como a efémera The Word.


A Vox surgiu em finais de 1990 e foi a primeira pedra no charco do imobilismo em que os semanários tinham caído. 


Neste terceiro número de Dezembro de 1990, o primeiro que comprei, a variedade e qualidade de artigos era impressionante.
Desde o elenco de grupos que tinham ficado desfalcados com a morte de algum dos seus componentes, assim tratados:


Passando por uma análise, faixa a faixa, do então novo disco de Paul Simon, The Rythm of the Saints:


Até a anúncios a fitas de cassetes, assim:


E com uma entrevista a Jimmy Page, organizada pelo mentor de outras reportagens sobre o grupo, no NME, Nick Kent:


Um artigo sobre desenhos de capas de discos feitos pelos próprios artistas. Alguns tinham jeito. Mas não era o caso da maioria, como John Entwistle dos The Who:


E trazia um suplemento apenas dedicado aos caçadores de discos. No caso, uma compilação dos Byrds que foi a primeira que tive, do grupo:


Um artigo desenvolvido sobre uma etiqueta de discos, americana, a Elektra:




Este tipo de artigos tornou-se usual nestas revistas ao longo dos anos e nesse número já se aludia á diferença de qualidade do lp em face do cd...


Os franceses da Rock & Folk não se deixaram ficar e nestas coisas foram um pouco mais longe e bem, antecipando-se uns anos a tendências que depois os ingleses seguiram. Publicaram antologias dos melhores discos da música rock, segundo os seus critérios, aliás lidos por mim desde sempre e com maior aproveitamento do que os dos críticos ingleses, demasiado tongue in cheek para o meu gosto.
Em Dezembro de 1991:


E em Dezembro de 1999:


Entretanto em Novembro de 1993 apareceu esta revista que modificou ainda um pouco mais este panorama,  melhorando-o significativamente:



E seguindo a tradição da Vox tinha artigos deste tipo:


E em Junho de 1997 outra, Uncut,  do mesmo género e aparentemente dedicada a algo que não teria muita continuidade, a ligação da música rock e do cinema. Acabou por prevalecer a primeira e a revista ainda existe, concorrente da Mojo e com idêntica qualidade. 


Quanto ao velhinho NME, ainda chegou aos 50 mas não durou muito mais...porque afinal não há mão de obra suficiente para todos os media, mesmo na velha Albion, com carradas de velhos hippies ou pseudos, para manterem à tona tudo isto, com um público leitor interessado e que se conta aos milhares e milhares. Lembra-me um velho ditado algo escatológico que resguardo por algum pudor, acerca das musas...


E quanto a livrinhos também foram saindo uns quantos nestas últimas décadas. Não há fome nos setentas que não tenha dado em fartura nas décadas a seguir...




Contratos públicos: quem os não tem?