sexta-feira, agosto 19, 2022

A outra senhora advogada

 Público de hoje, artigo da advogada Carmo Afonso, muito lá de casa da esquerda que há...


A temática é a dos juízes corruptos segundo a percepção de uns tantos que acham que é assim que outros juízes serão. 

A advogada que escreve nas sementes de alfarroba também acha tremendo que assim seja, ou seja, que haja muitos juízes a pensar que outros poderão ser corruptos e que o CSM deve intervir neste caso concreto dos juízes que pensam mal de outros juízes. 

E acha nas suas sementes de alfarroba que é o "desprestígio da justiça e o dos juízes" que está em causa quando alguns juízes, mesmo sendo muitos, pensam que outros juízes podem ser corruptos. E que nesse caso da percepção que uns juízes têm de outros é preocupante e "ignorar os resultados do inquérito é objectivamente criar um novo problema, e pelo menos esse poderia ser imediatamente acautelado ou resolvido". 

Esta advogada que escreve nas sementes de alfarroba exige que os "factos sejam encarados publicamente pelas entidades com responsabilidade na magistratura judicial e que sejam anunciadas medias para os resolver".

o presidente do CSM, sensatamente, desvalorizou a "percepção" dos juízes inquiridos e alvitrou que se devem recusar leituras apressadas, ficando o CSM atento e pronto a actuar disciplinarmente sempre que haja indícios de fenómenos corruptivos. Que mais poderia fazer? 

Esta advogada que escreve nas sementes de alfarroba acha que é pouco e que isso é "fazer as mesmas coisas e esperar resultados diferentes". 

Há por isso que fazer mais, tomar medidas, sei lá! Que medidas sugere? Nenhuma! Fica nas sementes de alfarroba que como é sabido é alimento preferido de mulas e burros...

Por mim, sugiro que se faça o seguinte: um inquérito entre advogados para saber se têm a mesma percepção. Por uma razão singela e fatal: se há juízes corruptos, então entre os advogados devem ser legião. E mais: se há alguém susceptível de corromper juízes, são precisamente os advogados, como o mais chão senso comum ensinaria se não se desse o caso de preferirem escrever em sementes de alfarroba.

Enfim, esta senhora advogada escolheu bem o título da página onde escreve. Fica-lhe a matar...

quinta-feira, agosto 18, 2022

Os rifões são para as ocasiões

 A propósito de um rifão sobre a caramunha aqui fica um compêndio deles, já antigo ( a edição é da primeira metade do séc. XX) mas muito instrutivo sobre a sabedoria popular e a nossa cultura ancestral. 

O autor, Pedro Chaves, prefaciou a obra de compilação em 1928 e voltou a anotar em 1945. Assim:







Há ditados e rifões  para todos os gostos e feitios e vou escolher  para aqui os relacionados com a justiça e tribunais e a higiene e medicina, já no final do livro de 452 páginas:






E as páginas sobre o fazer...




Esta cultura perdeu-se e os que a perderam mais depressa são os literatos e jornalistas...


quarta-feira, agosto 17, 2022

Como é que nos informamos sobre os incêndios?

 Confesso a minha perplexidade que deve ser igual à de muitos, acerca dos incêndios dos últimos dias no interior Beirão que começou no dia 6 de Agosto em Garrocho, na Covilhã, distrito de Castelo Branco, passando depois aos concelhos de Manteigas, Gouveia, Guarda e Celorico da Beira, no distrito da Guarda e no dia 12 era anunciado como "controlado".

Não estava controlado ou não foi controlado como deve ser? A questão assume relevo para se saber se quem lida com estes assuntos percebe dessa poda. Por mim é só perplexidades. 

E tanto maiores quanto leio no Público de hoje isto, na entrevista a Xavier Viegas que está muito mais contido e comedido nas críticas a quem manda. Não sei porquê, mas já o ouvi na tv com este discurso mais conformista e surpreendente que contrasta muito com o que dizia no tempo do incêndio de Pedrógão e depois disso, porque ainda há pouco tinha dito que estávamos na mesma quanto a prevenção e que as condições atmosféricas e climáticas, este ano, era mais perigosas do que jamais o foram:




A perplexidade aumenta quando se lêem coisas destas, no caso no Observador, escrito por João Adrião, "gestor ambiental e florestal", portanto alguém à partida mais qualificado para se pronunciar sobre estes assuntos:





Nas páginas anteriores do jornal aparece este pequeno artigo de alguém que tem a coragem de dizer que "dantes" era melhor do que agora, no que ao combate e prevenção a incêndios diz respeito. Tenho a mesma impressão, mas é só isso, uma vez que nunca vi tantos especialistas a tentarem explicar e cada vez menos gente a entender as explicações...incluindo eu cada vez mais confuso com as notícias e a falta de informação credível e que se perceba. 



Os truques do Tal & Qual para vender qualquer coisinha...

 O jornal Tal&Qual, originalmente lançado em 1980, relançado há pouco mais de um ano, depois de uma hibernação prolongada de  vinte anos, anda em busca de leitores perdidos e procura avidamente em cada edição uma capa salvífica que lhe reponha os rendimentos para os seus mentores. 

O destaque redactorial vai para um tal Manuel Catarino, verdadeiro faz-tudo do jornal que se esgaça em artigos sensacionalistas para concorrer num mercado saturado. No tempo em que apareceu, nos idos dos oitenta, era um tablóide de pequenas escandaleiras nacionais que dava guarida a submarinos da redacção escrita, como um Ferreira Fernandes ou um Joaquim Letria, o fundador, muito do grupo dos zambujais de todo o género. Uma fauna da escrita lusitana. 

Actualmente o redactor-mor esfalfa-se em encontrar a capa certa, todas as semanas, para levar ao engano o leitor desprevenido e sempre com o leit-motiv do costume jornalístico: a pequena escandaleira, misteriosa se for possível, para dar o toque de cereja no topo do bolo mole e tentar vender parte da tiragem anunciada de 17 mil e 500 exemplares. Venderá cinco mil?  Duvido.  

Hoje a capa é assim, do género aludido: 


O Pinho malfadado da EDP e do BES anda em bolandas, amarrado a uma pulseira electrónica da justiça à perna. Os factos de que é ainda suspeito são graves porque contendem com a corrupção mais soez e que utilizou os recursos do Estado para afundar a Economia de que o dito era ministro. Pior, seria impossível. 

Pois o Ministério Público e a Justiça andaram a investigar e demorou anos até conseguir  pôr-lhe a perna com o adereço, numa modalidade bem mais benevolente do que a medida requerida que era pura e simplesmente a pildra. 

O Tal & Qual desta semana condoído de tal vítima do sistema de Justiça atira uma pedra ao charco para tornar sensação o que nunca deveria ser: o "truque" do Ministério Público para manter este Pinho preso à pulseira que o condiciona na perna e liberdade no andar. 

Qual o truque inventado pelo Tal & Qual para descobrir o ardil do Ministério Público? Está assim explicado pelo tal Manuel Catarino à míngua de sensações, como a do infausto Sérgio Figueiredo, se calhar muito lá de casa e por isso ausente de qualquer notícia do jornal. Truques. 


Leia-se o caso que se explica em poucas linhas: O processo EDP é complexo e Manuel Pinho e o seu advogado excelentíssimo, o fabuloso Sá Fernandes, provavelmente também muito lá de casa do jornal, tentou tudo e mais um par de botas para atrasar os trâmites processuais, conseguindo-o até um certo ponto, com o tribunal Constitucional já requisitado várias vezes para a tarefa, como é de tradição nestes casos. Já passaram 10 anos e a culpa permanece solteira. 

O ponto é que Pinho apesar os esforços do seu advogado, ainda não conseguiu dinamitar o processo, até hoje, mas ainda não desistiu de anular qualquer hipótese de se fazer justiça material, preferindo mil vezes a famigerada justiça formal, a que existe para proteger arguidos de imputações injustas e condenações iníquas, o que no caso de Pinho é claríssimo como água de rosas, como todos sabem e pressentem. 

Em vez de noticiar isto e dar a devida explicação aos leitores, o jornalista Manuel Catarino prefere usar outro truque: imputa ao MºPº um ardil processual nefando e aparentemente escandaloso, ou não fosse esse o motivo de primeira página: separar o processo em dois, articulando factos que se podem autonomizar para tornar mais célere o que o arguido pretende à viva força emperrar até ao limite do possível e a uma desejadíssima prescrição salvífica que o liberte da amarra compulsória e da previsão de vários anos à sombra de uma carregueira qualquer. 

Pois esta iniciativa do Ministério Público, legal, constitucional, desejável e importante para o funcionamento da justiça,  é apresentada pelo Manuel Catarino como um "ardil", apresentado jocosamente como uma "genialidade" dos procuradores encarregados da investigação. Porque, segundo o mesmo, os investigadores ainda não têm provas no processo. Só "indícios" e ele sabe ou alguém lhe disse que assim seria. Adivinha-se quem...enfim, não é difícil de saber. 
Mas o facto que sustenta o processo autonomizado é que é uma porra difícil de contornar: o banqueiro Salgado deu uma avença regular, secreta e sigilosa ao arguido enquanto o mesmo foi ministro e este escondeu-a numa offshore, branqueando capitais. E objectivamente o ministro, agora arguido, deu uma grande ajuda ao antigo patrão, que por seu turno está numa grande embrulhada por ter aproveitado diversas manigâncias, incluindo com a EDP. 

Perante isto o Tal & Qual considera que há um ardil para tramar Manuel Pinho. E truques à mistura...

Quanto a isto Manuel Catarino presta-se ao frete. Quanto ao resto, não responde aos costumes. Tal e qual. 

Sérgio Figueiredo, corrido a pontapé mediático, faz a caramunha habitual...

 Sapo24:


É um acabado sem-vergonha e a prova está aí,

E já são dois sem-vergonha. Nem sei qual o maior...porque este é ministro das Finanças, julgo que no caso sem saber ler nem escrever, para além do discurso político stricto sensu que é o que interesse. Para o essencial há sempre assessores e ajudantes... 

No outro dia o socialista João Soares, na tv, depois de ter concordado com a explicação de Poiares Maduro sobre o acto de ausência de vergonha protagonizado por "ambos os dois" retratados, disse que tinha a ideia que Medina era sério, incapaz de favorecer seja quem for  e que até conhecia os pais dele, pessoas igualmente sérias. 

Há pessoas assim, cuja ingenuidade é tocante tendo em conta quem são e o que sabem da política e do PS em particular e cuja noção de seriedade fica sempre no primeiro patamar, o da aparência. 




terça-feira, agosto 16, 2022

A corrupção entre juízes

 O Público de ontem tinha esta notícia, misturada com opinião da articulista e dos comentadores convidados para a comentar, no estilo habitual do jornal, como se estes fossem neutros ou isentos na apreciação:


O pressuroso sindicalista dos juízes, interrompendo as férias, já veio comentar, com a figura do costume que é exigir sempre responsabilidades, neste caso ao CSM, todo de férias também. 

Assim:




O que é que traz a notícia de substancial e de premente para a exigida intervenção do CSM?  Pois que há cerca de 500 juízes portugueses, inquiridos no primeiro trimestre deste ano, por uma entidade internacional ( Rede Europeia dos Conselhos de Justiça) e destes, cerca de um quarto acha que nos últimos três anos houve subornos ou outras formas de corrupção para alguns juízes decidirem a contento de quem os corrompeu. 
A mesma percentagem de juízes inquiridos entende que as regras de distribuição de processos foi subvertida igualmente, no período indicado, ou seja durante os anos de 2019, 2020 e 2021. 

 O juiz sindicalista, acompanhando a ideia dos comentadores do jornal, acha que isto é tremendo e exige intervenção urgente do CSM ( e eventualmente do CSMP). Que intervenção? Pois...só leio uma coisa: 



Portanto, só isto como medida proposta: declaração de interesses dos juízes ou dos magistrados em geral. 
Chega como medida? Adiantará alguma coisa para resolver os eventuais casos concretos que cerca de um pouco mais de 100 juízes ouvidos no inquérito suspeitam poderem tratar-se de situações de corrupção judicial, mesmo sem se saber que tipo de corrupção e quão lata será?

A resposta é o óbvio ululante: não chega coisa nenhuma e adianta nada de nada e por isso a fatwa do sindicalista dos juízes sabe à habitual demagogia que só tem um efeito: agitar as águas onde se move. Então dir-se-á: deveria estar calado ou não se manifestar perante o fenómeno exposto da suspeita levantada por cerca de cem juízes num universo de mais de mil e quinhentos, ou que sejam cerca de 400 no universo todo dos juízes, seguindo a regra das sondagens? 
Também não, mas deveria começar, antes de lançar as habituais farpas, por analisar como é que se lida com uma situação destas, ou seja, a de haver um quarto entre cerca de 500 juízes inquiridos e principalmente redefinir os termos da questão formulada, procurando uma resposta para algumas perguntas que se tornam evidentes:
Quem foram os juízes inquiridos? De todas as instâncias ou só de algumas? Que grau de conhecimento podem ter acerca do assunto em causa que lida com a probidade dos seus colegas e a honra profissional e pessoal de uma parte importante da magistratura? 
Mais: em que instâncias é que entendem existir corrupção? Em todas, só na primeira ou nos tribunais superiores e neste caso, em que tribunais, mormente no STJ, STA e outros? Sim, no Constitucional é desse que falo. 
Ainda mais: que tipo de corrupção, para além da designação corriqueira e jornalística de "suborno", admitem como sendo a pecha suspeita? O tráfico de influências também conta? A escolha "a dedo" e a não escolha de outros, também "a dedo", de certos magistrados para inspectores judiciais também entra nas contas? O alargamento do número de juízes em certos tribunais ( sim estou a referir-me ao TCIC e à perseguição miserável a um dos juízes, Carlos Alexandre, patrocinada por insuspeitas figuras) também entra no rol?

Finalmente: se o sindicalista dos juízes quisesse mesmo inteirar-se da razão profunda do mal estar que este tipo de inquéritos suscita e que obviamente é real, deveria ter em atenção as questões agora colocadas e deixar de focar-se apenas em fenómenos tipo "Rangel" que muitos, incluindo membros do CSM,  sabiam há anos e anos que era suspeito de ser corrupto e pouco ou nada fizeram para resolver tal problema, denunciando claramente o que se passava e não deixando correr o marfim das inspecções que não se imiscuem nos aspectos "jurisdicionais", suprema hipocrisia para emoldurar o problema real: as inspecções judiciais!

Apetecia-me outra vez colocar aqui o cartoon que mereceu insultos personalizados e sugestão de inquisição ao autor, ou seja quem assina este postal. Fica para uma próxima- que certamente virá. 

A Felgueirinhas atingiu há muito o patamar de Peter...

 Sapo:


Confesso que fiquei espantado quando vi há meses a Felgueirinhas ( é filha de Fátima Felgueiras...) a assumir o comando da revista Sábado, originando a saída de alguns jornalistas ( Carlos Lima, por exemplo e que poderia ter sido um melhor director do que a dita...). Vaticinei a mim próprio que não duraria muito tempo e só não previ que fosse tão rápido, embore não fique nada admirado. Desde que comecei a ver os lotes de revistas Sábado, no quiosque,  a ficarem quase intactos e a Visão ao lado a diminuir o monte, ao contrário do que até então acontecia, fiquei elucidado. 

Esta Felgueirinhas é uma jornalista que nem sequer para investigação serve por aí além porque busca sempre a perversidade e o sensacionalismo inerente mesmo quando o assunto o não suscita. Este jornalismo da Felgueirinhas é o jornalismo trash, da miséria humana exposta para consumo corrente. É um sinal dos tempos e se calhar a Felgueirinhas julga que deve ser assim e vai continuar, pelos vistos, na TVI. Até ao dia em que a estação, ou seja, quem nela manda para ganhar algum, perceber que afinal as audiências não precisam dela...porque foi essa a conclusão da Cofina que disso sabe mais e melhor, por uma razão: é o modelo desta onda de jornalismo miserável. É o padrão. Eduardo Dâmaso é a excepção que confirma a regra, apenas, embora tenha que alinhar no esquema. Não há oferta jornalística em Portugal capaz de contrariar esta tendência. O Expresso? Talvez, mas expurgado do wokismo.... 

domingo, agosto 14, 2022

A propósito do Padrinho e da mitificação estética

 No suplemente de hoje do CM aparece esta apreciação do filme O Padrinho por causa da efeméride dos 50 anos da sua exibição.





Este tipo de artigos é um género de paráfrase a outros do mesmo género sobre outros assuntos e que acabam por denotar a mitificação ocorrida ao longo do tempo relativamente a acontecimentos que no seu tempo não tiveram o impacto, relevo ou sequer a importância mediática agora concedida. 
Pode dizer-se que este tipo de acontecimentos culturais foram "seminais", como dizia a Visão em artigo já comentado. Porém, seminal tem implícita a ideia de semente, de algo que frutifica e dá origem a qualquer coisa nova. E tal característica, naturalmente só com o tempo se descobre. 
Terá sido esse o caso do Padrinho, como filme estreado no Verão de 1972 nos EUA e por cá no Outono ( 24 de Outubro) desse ano?
O título do artigo diz que foi um sucesso de público, aclamado pela crítica e apreciado pela máfia. Tirando este último aspecto, anedótico, serão verdadeiras as duas acepções do êxito de tal filme no tempo em que apareceu? 

Que foi um sucesso de público, na altura em que estreou, parece evidente, mas...nuance!- nos EUA. Em Portugal não foi. 
Portanto quando se proclama o sucesso de público é preciso dizer onde e como. E no artigo não se diz, deixando implícito que foi em todo o lado e arredores. Por cá, não foi e isso é atestado pela programação espelhada e documentada nos recortes da época.

Na Capital de 15 de Outubro de 1972 anunciava-se a estreia do filme no dia 24 desse mês e ao lado aparecia o elenco dos filmes em cartaz nessa semana. 

O filme estrearia em três salas e era para "maiores de 18 anos":


Se o filme fosse o sucesso retumbante de público que se diz que foi em todo o lado, então em Agosto do ano seguinte, 1973,  ainda estaria em cartaz, como acontecia com alguns dos filmes que apareciam na época. 
E não foi esse o caso, como se demonstra pelo Diário Popular de 30 de Outubro de 1973, em que por exemplo o Trinitá, Cowboy Insolente ainda estava em cartaz, mais de um ano depois...e do Padrinho nem sombras porque devia andar pela "província", certamente com audiências de sucesso mas não as que reflectem o título do artigo. E até se pode ler quantos espectadores é que então iam ao cinema...ver filmes portugueses.
Poderia mesmo mostrar aqui o cartaz dos filmes relativo aos meses anteriores mas asseguro que no início do ano, em Março, já O Padrinho tinha desaparecido de tais cartazes. 


Por outro lado, em 1972 ou 73 não encontrei qualquer artigo de recensão crítica ao filme, ou sequer menção a propósito do seu carácter "seminal", original ou importância cinematográfica, como acontecia com outros filmes e realizadores.  Os críticos da praça nacional, na época não deram qualquer importância ao filme ou sequer ao realizador, F.F. Coppola. 
Agora é o que se lê...
Mas para entender esta discrepância mitificadora poderemos tentar perceber se na terra em que o filme se realizou e estreou houve assim tamanha comoção estética com tal obra agora julgada "seminal".

Se lermos o que se passava no contexto da época, segundo os registos de hoje, falíveis precisamente pelo que acabo de descrever, poderemos ao menos ler alguns factos e acontecimentos de 1972. Aqui, por exemplo:




Portanto, nos EUA foi um sucesso de público aquando da sua estreia, embora mitigado, comparado por exemplo com O Violino no Telhado, do ano anterior e que em Portugal  estreou na mesma altura do Padrinho, também com um sucesso de bilheteira muito superior a este.
Portanto impõe-se uma relativização principalmente para tentar compreender a origem do mito que entretanto se criou  e como é que estes fenómenos acontecem nos media. Nisto como noutros assuntos, por exemplo o caso Watergate, da mesma altura. 

E na crítica, foi uma "aclamação"? Talvez, no caso de Pauline Kael, a crítica respeitada do New Yorker que viu no filme e na interpretação dos seus actores uma obra importante, logo em 10 de Março de 1972. 


Porém, na Rolling Stone, o crítico Jon Landau, também respeitado, em Maio do mesmo ano não tinha exactamente a mesma opinião e considerava-o mesmo um "unsuccessful film":



Portanto, para termos uma ideia mais precisa do que era o gosto e o ambiente estético em 1972, no contexto dos EUA e que pouco tinha a ver com Portugal, ao contrário de hoje, cuja influência me parece notória, por causa da facilidade de consulta de opiniões alheias, via internet, talvez valha a pena dizer que a Rolling Stone não dedicou em 1972 ou no ano seguinte qualquer artigo de fundo ao Padrinho ou ao seu realizador, o agora muito celebrado Coppola. Nada. 
Porém, relativamente a outro filme também julgado "seminal", O Último Tango em Paris o assunto era diverso e talvez mais esclarecedor do que parece.

Em 23 de Novembro de 1972 foi notícia a ante-estreia do filme de Bertolluci num festival cinematográfico e vale a pena ler para se poder perceber que em Itália o filme fora censurado, em partes importantes. Por cá a censura foi total, até 1974, mas para quem apresenta a Censura como um argumento acerca do fassismo é bom de ler isto que segue:


E o filme teve tanta importância que na edição  de 21 de Junho de 1973, apareceu uma entrevista com Bertolucci, pelo intelectual da revista, Jonathan Cott, com ênfase no Último Tango em Paris:


 

Por cá, como já indiquei, a crítica local primeiro exigiu a exibição e "abaixo a censura"; depois de o ver e já em finais de 1974,  demoliu-o como obra de pequeno-burguês, sem interesse algum. 

Portanto para se compreender o ar do tempo é preciso cheirá-lo ou apreender o cheiro pelos sinais, como faziam os índios nos tempos dos cóbóis. 

Aqui, em Portugal, na crítica actual dos media, nem uma coisa nem outra. Preferem copiar os cheiros que outros sentiram...lendo e voltando a ler, para escrever coisas como esta.
É tão fácil ser crítico em Portugal: basta saber fazer redacções e cópias. Ditados é que é mais difícil...

O pior é que depois o que lemos acaba por ser uma mistela em que os factos são verdadeiros, os acontecimentos também,  mas a explicação dos mesmos é que se torna um enigma resolvido do único modo que sabem fazer: de acordo com o ar do tempo. Presente. Copiado.

A "manhã submersa": contra a ideia de violência a violência da ideia...

 Este escrito no Público de hoje de Maria José Fernandes que assina como "Procuradora-Geral Adjunta", juntando inexplicavelmente a profissão para dar relevo a um escrito ou se calhar para atestar idoneidade ou crédito que inexistiria sem tal, é, na ausência de outros epítetos mais adequados, vergonhoso, no meu entender e passo a explicar porquê depois de o mostrar.


Em primeiro lugar o artigo é mistificador. O que se passou "sob o manto de poder da Igreja Católica por alguns membros do seu clero e ordens religiosas" no capítulo de abusos sexuais de crianças é algo que merece esclarecimento para não se identificar imediatamente o "poder da Igreja Católica" com tais práticas sexuais abusivas e criminosas. 

É necessário entender, explicar e não mistificar o contexto em que tais práticas podem ter ocorrido e qual a relação com o "poder da Igreja Católica". 

Talvez um estudo de wiki, para não ir mais longe, poderá contextualizar o problema. Essencialmente o contexto dos abusos ocorreu no âmbito de instituições de ensino religiosas, neste caso da Igreja Católica. O número de abusos relatado e elencado, relativamente ao número e quantidade de estabelecimentos de ensino do género em todo o mundo é o que é. Quem quiser que leia e faça a correlação e o seu juízo. Como sabemos desde o caso Casa Pia, os abusos sexuais de menores em estabelecimentos de ensino não são exclusivo dos colégios católicos. Cadê os outros, por isso mesmo? 

A hierarquia da Igreja Católica, perante a denúncia dos escândalos e abusos sexuais, nos anos mais recentes dos últimos vinte anos, época em que surgiram e sempre associados ao "poder da Igreja Católica" reagiu timidamente e depois assumiu que deveria enfrentar o problema, actuando como sempre actuou a hierarquia da Igreja Católica, ao longo de dois milénios: se não os podes vencer, junta-te a eles. 

Mero instinto de sobrevivência, parece-me.  A hipocrisia suave é a forma de governo e regeneração da Igreja Católica. Aliás é no próprio Evangelho (de S. Mateus) que encontra acolhimento tal ideia violenta e tal encontra-se facilmente na NET:   

«É inevitável que haja escândalos; mas ai daquele que os causa! Melhor seria para ele que lhe atassem ao pescoço uma pedra de moinho e o lançassem ao mar, do que escandalizar um só destes pequeninos. Tende cuidado convosco!
Se o teu irmão te ofender, repreende-o; e, se ele se arrepender, perdoa-lhe. Se te ofender sete vezes ao dia e sete vezes te vier dizer: 'Arrependo-me', perdoa-lhe.»

 Até aparecerem os escândalos, a Igreja Católica não reage e actua como sempre soube fazer: com o senso comum e a ideia de caridade que é real e é o que me faz gostar da Igreja Católica, porque é a virtude que mais aprecio das que são chamadas Teologais. A Caridade, para mim, é a essência da Igreja Católica e por isso não preciso do socialismo jacobino e maçónico para aprender o amor aos outros.  É a ideia central do catolicismo e o "mandamento novo" de Jesus Cristo: amar a Deus sobre todas as coisas e ao próximo como a nós mesmos, por amor de Deus. 

Aliás, tenho para mim que a cruzada recente, contra a Igreja Católica por causa destes escândalos reais tem a mãozinha desta gente que da Caridade entende apenas o justicialismo interessado em minar a Fé que é outra virtude teologal. Para um católico isto é a mão do Diabo, simplesmente. 

Por uma razão singela: sempre que estes escândalos atingem outras instituições, mormente a Família que é exactamente onde os mesmos são mais frequentes, horrorosos, perenes e mortais, como pecados, ou noutras instituições, mesmo do Estado, a indignação e o escândalo esbatem-se como contexto e abafam-se as responsabilidades, passando a individuais, em vez de colectivas, como é o caso que as pessoas que escrevem artigos como o supra pretendem: colectivizar uma responsabilidade, corporizando-a numa instituição, em modo abertamente jacobino. 

A hierarquia católica, perante os "ventos da História" que se manifestam em forma de ideia de violência, não hostiliza com qualquer violência de ideias porque prefere aquele modo de actuar, adaptando-se e deixando passar a maré. É o que o papa Francisco, muito celebrado por jacobinos e maçónicos, anda a fazer: tentar aplacar tais ventos com medidas que tentam conciliar a Caridade com a Justiça terrena e movida pelo jacobinismo. 

É nesse contexto que se compreende o que vem escrito aqui, na Wiki, sobre o assunto:  

Face às crescentes denúncias e aos escândalos descobertos, o cardeal português José Saraiva Martins, a propósito do caso do padre norte-americano Lawrence Murphy, afirmou que "não devemos estar muito escandalizados se alguns bispos sabiam dos casos, mas mantiveram segredo. É isso que acontece em qualquer família, não se lava roupa suja em público", acrescentando que, na sua opinião, as denúncias que vêm ocorrendo derivam de interesse financeiro e que são parte de um complô contra a Igreja.[89][90] O jornalista Ferreira Fernandes comenta que "a questão não é a casa da Igreja ter pedófilos - é um pecado de que nenhuma família está livre. O problema é eles, conhecidos, não terem sido expulsos." [91]

Contrariando o tom do cardeal Saraiva Martins, o Papa Bento XVI (J. Ratzinger) escreveu, em Março de 2010, uma carta pastoral condenando mais uma vez a pedofilia, que já era condenada pela doutrina católica. Nesta carta, o Papa Bento XVI, que foi acusado de encobrir vários casos de padres pedófilos, expressou a sua profunda "vergonha" pelos crimes de pedofilia cometidos pelos clérigos católicos, "pediu desculpa às vítimas" e disse ainda "que os culpados devem responder “diante de Deus e dos tribunais”". O Papa ainda "“assinalou erros graves de julgamento e falhas de liderança”" dentro da Igreja e pediu a continuação dos "“esforços para remediar os erros passados e prevenir situações idênticas através do direito canónico e da cooperação com as autoridades civis”".[92][93]

O cardeal Saraiva Martins mostra o que é a verdadeira Igreja Católica ao dizer: "não devemos estar muito escandalizados se alguns bispos sabiam dos casos, mas mantiveram segredo. É isso que acontece em qualquer família, não se lava roupa suja em público", acrescentando que, na sua opinião, as denúncias que vêm ocorrendo derivam de interesse financeiro e que são parte de um complô contra a Igreja."

A reacção da hierarquia da Igreja, já no tempo de Bento XVI mostra o que a Igreja faz sempre nestes casos: adaptar-se e sobreviver como tem acontecido de há dois milénios para cá. E vai continuar a ser, enquanto o poder jacobino e anti-clerical for dominante, como é e se revela em escritos como o apontado, mesmo sem intenção deliberada. 

Portanto, em conclusão: perante os números, factos e escândalos, mesmo os agora relatados em Portugal a quem estas considerações também se aplicam, não há nenhuma submersão de manhã alguma. Há uma regeneração da Igreja Católica, actuando como sempre actuou a hierarquia: com uma sabedoria de suavidade hipócrita. 

Quanto a mim, prefiro mesmo o entendimento do Cardeal Saraiva Martins, porque também no Evangelho há palavras sobre os hipócritas: "sepulcros caiados", é assim que aparece a definição que deles faz Jesus Cristo. Fariseus, também. A mim enojam-me mais do que qualquer outra coisa e nas hierarquias de todos os quadrantes é o que mais há, precisamente por causa do instinto de sobrevivência e da cobardia. De resto há quem não compreenda isto e escreva da maneira que se lê. 

Quanto ao resto do escrito, sobre o fenómeno literário que procurou mostrar o ambiente dos seminários e também colégios jesuitas, ainda é mais lamentável.

Trazer à liça o caso dos seminários tais como descritos por Vergílio Ferreira ou Eça de Queirós é incorrer noutra pecha muito comum: falar de assuntos que não se conhecem a não ser de cor e por via literária. 

Falar dos seminários da primeira metade do século XX, apontando-os como sítios de horror e lugares de "domínio psicológico" reclamando fogueira psicológica e inquisição nova para que se faça "o historial desta forma de violência" ou mesmo a revisitação desse passado, para "promover um módico de reparação às vítimas, pedindo-lhes desculpa" é o mesmo que assumir uma filosofia "woke", nada mais para dizer o menos que me apetecia dizer e só uma amizade profissional me impede de o fazer. 

Não entender a educação ou mesmo o funcionamento da sociedade da primeira metade do século XX em Portugal que evidentemente se reflectia na educação e disciplina ministrada nesses estabelecimentos de ensino e formação religiosa é grave e denota uma carência séria de entendimento de realidades que espanta vindo de quem vem. 

Não perceber como é que se educava nessa altura que durou até uns bem entrados anos oitenta, em Portugal, na família, na escola e na igreja é a meu ver mais grave do que reclamar medidas "woke" ao som da moda do momento. 

sexta-feira, agosto 12, 2022

Sérgio Figueiredo, "cavalo de cortesias"

 CM de hoje, com um retrato de Sérgio Figueiredo feito por quem conhece o meio...


A denúncia de um acto de corrupção, claro e inequívoco, do "mercadejar" favores, por João Bilhim, no Público de hoje, 13.8.2022. A questão já não é apenas ética ou política, como pretende o manhoso primeiro-ministro que temos.

O mais preocupante nisto tudo é a displicência com que é encarado o assunto, como se fosse qualquer coisa de normalíssimo no exercício do poder executivo:




Porque é que os demais partidos se abstêm de pronunciar claramente sobre este assunto? Óbvio: não acham isto um acto de corrupção. E terão exemplos à farta das mesmíssimas poucas-vergonhas. 

quinta-feira, agosto 11, 2022

Visão: a invenção de memórias para papalvo ler

 A revista Visão reincide numa pecha antiga que é a de reinventar memórias de factos e acontecimentos para condicionar um discurso e uma Visão política da História. 

E desta vez nem hesita na falsificação de acontecimentos que desloca no tempo para lhe servir de pano de fundo do mote da capa. Este:


A ideia básica explica-a a revista: "os impactos de 1972 na política nacional e internacional, mas também no cinema, na música, literatura e modo de vida- com muitos paralelos surpreendentes com o mundo de hoje".  E com a chamada de capa, dando o mote jornalístico do sensacionalismo mais parolo: "o ano que semeou revoluções". Semeou revoluções? Quais?!! E de que sementeira estamos a falar?!

Confesso que o único paralelo que topo e nem é surpreendente, será o da inflação. O resto é mito, construído em falsidades diacrónicas como passo a expor.

Começa logo no início, nestas duas páginas em que se narra o acontecimento de Wiriamu, aliás ocorrido em Dezembro de 1972 e por isso no fim do ano em causa:





Estes acontecimentos ocorridos em finais de 1972 só no ano seguinte deram brado internacional. A imagem da capa da Der Spiegel, ao contrário do sugerido pela Visão é de Agosto de 1973, como se pode ver
Este acontecimento - o aproveitamento político-mediático, posterior, em 1973, do facto de 1972- é que foi a semente. E de de quê, afinal?  
Apenas isto que já foi relatado aqui e que se resume no seguinte: foi um caso, um fait-divers da guerra em África, grave, é certo, mas que apenas foi denunciado em 1973 por uns missionários e foi explorado em Londres pelo partido Trabalhista, com grande participação desse grande patriota, Mário Soares, que aproveitou a visita de Estado de Marcello Caetano a Londres para denegrir a Pátria portuguesa em prol do seu socialismo nascente. Foi apenas isto e nada mais, como aliás se contou aqui.
É preciso dizer que não foi esse caso que conduziu a qualquer revolução e muito menos à do 25 de Abril de 1974, não sendo semente de coisa nenhuma a não ser a do vilipêndio internacional de Portugal, em nome do socialismo.
Tal caso e vilipêndio internacional de Portugal orquestrado por Mário Soares e os Trabalhistas britânicos, foi assim tratado pelo povo em Portugal, após a chegada de Marcello Caetano, vindo de Londres onde tinha sido enxovalhado pelos seus compatriotas do socialismo ainda não democrático.
Esta é uma imagem da revista Observador de 13 de Julho de 1973 ( e não de 1972...) 


É preciso por isso dizer que não foi o caso ocorrido em Wiriamu, em Dezembro de 1972 que espoletou alguma semente de coisa alguma que se pudesse ver no futuro. Foi antes o activismo político de Mário Soares e os trabalhistas ingleses que em 1973 tudo fizeram para aproveitar politicamente o caso e denegrir Portugal e o regime político vigente. Se alguma semente houve, foi essa, a do vilipêndio antipatriótico e com interesse político pessoal, como mostrava também a mesma revista nessa altura, na semana seguinte, 20 de Julho de 1973:


Muito mais importante como "semente" de algo, foi o que o jornal Expresso de então, de 14 de Julho de 1973, no mesmo número em que noticiava o caso Wiriamu,  noticiava também a propósito dos movimentos de oposição ao regime e portanto sobre o socialismo daquele Mário Soares: a cisão na "oposição" ou seja, a divisão que se tornou evidente entre o chamado "socialismo democrático" e o socialismo de esquerda ligado ao partido comunista e afins. 
Afinal, a união de esquerda era uma utopia que apenas no tempo deste Costa se alcançou com a Geringonça. 
Esta é que foi a verdadeira sementeira das nossas desgraças futuras..., mas a isto a Visão nem cheira nem quer cheirar, porque não convém desfazer os mitos vigentes ou as ideias feitas de quem escreve sobre mitos e lendas sem critério ou rigor de objectividade. 

 
Por outro lado nesse mesmo número do Expresso há uma reportagem sobre outra semente muito mais importante, social, cultural e economicamente do que as inventadas pela Visão neste número. Esta que espelha uma evolução social e de costumes que nos moldou a vida quotidiana. E não começou em 1972, mas em anos anteriores e por isso também se reflectiu nesse ano em que foram inauguradas novos supermercados numa tendência crescente e que se solidificou nas décadas seguintes e por isso fica aqui:


 Claro que a revista tinha que dar o destaque típico aos movimentos de extrema-esquerda que aliás nem se formaram nesse ano ( o MRPP foi em 1970) e portanto essa semente nefasta de um totalitarismo completamente oposto à democracia apresenta-se aqui na Visão como um acontecimento relevante para o devir democrático, num paradoxo que revela a fonte deste tipo de reportagens : o revivalismo serôdio dos nostálgicos do comunismo extremista. Por isso se gastam duas páginas a contar o episódio ocorrido com o estudante Ribeiro Santos, mitificado mais uma vez e ocorrido em Outubro de 1972. 
O acontecimento em si é apresentado como semente de revolta estudantil acelerada que conduziu...a quê, afinal? Ao recrudescer da "luta estudantil contra o regime" como diz José Lamego? E já agora em nome de quê? Da democracia representativa e parlamentar, como fatalmente viríamos a conseguir, mesmo com Marcello Caetano no poder, se não tivesse ocorrido o 25 de Abril de 1974? Não, de todo. Teríamos a semente de uma revolução de extrema-esquerda como aliás quiseram ter essas mesmas pessoas agora endeusadas numa mitificação espúria e que se estatelaram social e politicamente em 25 de Novembro de 1975 mas não desistiram porque formaram as FP25 e os PRP-Br de todos os matizes. Será essa a semente de que se escreve aqui? Só pode ser porque não vejo outra e se o for é muito fraca semente e já é tempo de a largar e de a esquecer como nociva que é e sempre foi. No entanto a ternura que acaparam por essa semente é preocupante. E perdura.



Já não sei quantas vezes li a história do Ribeiro Santos e o depoimento do José Lamego sobre estes assuntos. Sei que já cansa porque o episódio não teve importância nenhuma para além de ter influenciado uns tantos estudantes ( e afastado muitos mais) para a tal luta política extremista em que o próprio José Lamego se empenhou para deixar dali a uns tempos, recolhendo-se ao remanso de um partido socialista que o ajudou profissionalmente. Como a muitos outros, aliás. Se a semente foi essa, também compreendo muito bem, mas não venham com histórias da carochinha como aliás teremos já em Outubro, tal como anunciado pela revista: uma outra extremista da época, Diana Andringa, inenarrável, vai dar corpo ao manifesto de mais um panfleto a narrar o caso singular, na tv e já está prometida a transmissão de mais esta mistificação mediática. Vai haver foguetório mediático lá para Outubro, até na Torre do Tombo, controlada por estes heróis por conta própria da extrema-esquerda festiva. 

As páginas seguintes da revista dedicam-se ao assunto de sempre e que se resume no seguinte: " A marcha da História condenava o colonialismo em todas as vertentes". Não é preciso dizer mais porque é o costume da narrativa de esquerda dominante ( a História, para esta gente apenas tem um olho...) e que vem acompanhado da foto de Nixon e do seu encontro com Mao. A foto, rara nos meios mediáticos impressos, vale a pena rever porque revela o penico de Mao que continha as ideias que então um Pacheco Pereira e outros cheiravam intensamente ( alguns até hoje...):



Quanto à foto de Nick Ut ( cujo nome original seria Nguyen Kong Ut) é icónica de facto e foi tirada em Junho de 1972. Foi semente de algo? Bem...do fotojornalismo de guerra? Nem por sombras. Vi esta foto a primeira talvez em Agosto de 1973 nesta revista brasileira que mostrava nesse número as "melhores fotos do século". As fotos eram da Associated Press, incluindo esta:



Porém, sobre a guerra do Vietnam há mais fotos e estas que se mostram a seguir, da mesma revista ainda são mais sensacionais, como então se dizia ( e são mais antigas do que 1972, por isso não foi lançada tal semente nesse ano e muito menos com aquela foto, como a revista insinua em mais uma falsificação diacrónica):



 
O escritor Tom Wolfe dizia numa entrevista à Rolling Stone em 5.11.1987 ( a mesma em que explica claramente o que é o conceito de "novo jornalismo")  que a verdade era esta: " ninety-five percent of the young people in the United States in the Sixties didn´t give a dam about Vietnam. If you could make a survey you´d find that the number of those who cared was very small. They were having a good time. They didn´t have enough leftover energy to be down in the mouth". 
Idêntico raciocínio poderia ser aplicado ao que sucedia em Portugal, em 1972 a propósito destes fait-divers apresentados pela Visão como seminais. 
E diz mais Tom Wolfe sobre este assunto: " I insist that the way the young people changed life in this country was the big news in the Sixties. It overshadows, in importance, Vietnam, the riots, the racial collisions, the space program. And they did it because they had money" .
Em Portugal a juventude de então não tinha dinheiro, como a americana, mas o raciocínio parece-me igualmente válido: tirando meia dúzia de alucinados na extrema-esquerda do género Maria José Morgado e similares Pachecos ou Arnaldos, a juventude em geral estava-se nas tintas para esta gente e estas ideias estranhas da extrema-esquerda maoista ou comunista. Essa é que é a realidade seminal, ó gente da Visão, sem ela!

Sobre o cinema e a música, a revista também abra parangonas para escrever que 1972 foi um ano de sementes...enfim, vamos lá a ver se assim foi. 



No cinema aparecem dois filmes icónicos: O Padrinho e O Último Tango em Paris, como modelos de semente cultural. E um filme pornográfico, Deep Throat, cuja celebridade duvidosa aconteceu por causa do nome do delator do FBI no caso Watergate, contra Nixon. Chegará como semente de alguma coisa? Duvido. 
Quanto ao Padrinho o filme estreou nos EUA em Junho de 1972 e por cá no dia 24 de Outubro desse ano. Foi anunciado no jornal A Capital de 22.10.1972:

De acordo com a revista o filme foi uma das sementes de algo indefinido e "ganhou um óscar" nesse ano. Pois pode ter ganho mas o relevo que em Portugal deram ao filme, o primeiro da saga, foi muito pequeno e definhado. Para semente de algo faltam artigos sobre o assunto que não existem na imprensa especializada da época. Nada. 

Nos EUA o filme teve certamente algum impacto devido à idiossincrasia local. Numa página da revista Newsweek de 3 de Maio de 1971, ainda na altura da rodagem do filme, em Nova York, deu brado uma das cenas mais conhecidas do filme, o atentado ao Padrinho. As pessoas bateram palmas à performance de Marlon Brando, que viram das sacadas dos prédios e uma delas até fotografou, como se mostra: 


Em Portugal, porém, em 1972 nada disto era relevante ou seminal fosse do que fosse. No início do ano seguinte o filme já nem sequer estava em cartaz, percorrendo a "província", ao contrário do Um Violino no Telhado que se aguentou durante semanas a fio em exibição. Na mesma altura o Fúria da Razão de Clint Eastwood era um sucesso de bilheteira, tal como O Trinitá, Cowboy insolente, verdadeiro êxito com meses e meses de cartaz. O Padrinho no meio disto tudo? Pois, tinha uma banda sonora cujo tema entrou no ouvido, mas o êxito e a semente só pegou de estaca com os dois outros filmes da saga e o mito que se lhes seguiu, muitos anos depois e muitas críticas da intelectualidade crítica depois disso. O primeiro, pelo menos em Portugal não foi semente de nada e por isso a Visão falsifica a História, mais uma vez. 
Quanto ao Último Tango em Paris, sendo verdade que foi proibida a sua exibição até ao Verão de 1974, também se pode ler o seguinte a esse respeito, publicado na revista Vida Mundial de 10 de Maio de 1974, com referência à censura do filme. Reclamava-se então a sua exibição:


Fizeram a vontade aos reclamantes e o filme foi sucesso de bilheteira por causa do fenómeno do "fruto proibido" ( o filme em si, é uma estopada...) e até os espanhóis na altura vinham a Portugal ver a novidade em cinema, aliás mistificada. 
Enfim, em Outubro de 1974 aqueles que reclamaram contra a censura criticavam assim o mesmo filme: uma porcaria pequeno-burguesa sem interesse nenhum. A propósito deste tipo de sementes revolucionárias, os que exigiam que o filme não fosse censurado eram os mesmos que então defendiam para Portugal um regime idêntico ao dos países de Leste, comunistas, onde o filme também não foi exibido, segundo julgo. Portanto, a hipocrisia desta gente que no fim de contas são os patronos ideológicos da Visão, não tem fim e espalharam tal sementeira durante décadas. Essa é que foi a verdadeira semente: a da mentira e falsificação histórica e contextual que perdura até hoje e basta ver como descrevem o tempo do Estado Novo. 


Quanto aos casos das "Três Marias" e da "Capela do Rato", sempre muito glosados nestas andanças da esquerda mediática, de há décadas a esta parte, é preciso dizer algo também por causa das sementes que esses casos representam. 
As "Três Marias" eram esquerdistas, pelo menos uma delas abertamente comunistas e escreveram em conjunto um livro que desafio quem quer que seja a dizer que o leu integralmente e tirou proveito da leitura. Como semente não está nada mal, par as "desempoeiradas mulheres" que defendiam o totalitarismo político e social em Portugal, por imitação do modelo comunista. O Livro foi editado por uma maluca, Natália Correia, libertária e aventureira, provocadora por essência. A repercussão que o livro teve lá fora, aconteceu nos círculos literários e políticos que se opunham ao regime que tínhamos pelo que fizeram do livro uma simples arma de arremesso político e nada mais. 
Como semente havia muitas mais deste género, todas a germinar na esquerda e extrema-esquerda, muito lá de casa dos redactores antigos e actuais da Visão e por isso ficamos conversados acerca da importância intrínseca do objecto cultural em causa. 

E o caso da "capela do Rato", como semente de algo? Pois vejamos como o regime da época o encarou. Vem publicado no jornal socialista, maçónico e jacobino que já era tolerado pela Censura da época, o República dirigido por Raul Rego que dispensa apresentações. 
No número de fim de ano de 1973 fazia assim o relato dos acontecimentos ocorridos um ano antes e assim comentados pela "nota oficiosa do Ministério do Interior" de então, acompanhada da "nota do Patriarcado" de então, sobre tal assunto:


Portanto o assunto era "a guerra colonial" e os mentores da manifestação política num local religioso os manipuladores do costume, ou seja a oposição política que pretendia para Portugal um regime ainda mais totalitário do que aquele de que acusavam o então vigente. Não está mal, como semente...que até contaminava personalidades como Teotónio Pereira, arquitecto e "católico progressista" que depois fez parte do MES e até apoiou o grande democrata Otelo, num movimento extraordinário de extrema-esquerda que pretendia quadrar um círculo de giz perfeito, juntado a ditatura totalitária com a democracia mais chã, a directa. 
Outro dos presos foi Pereira de Moura, figura relevante logo após o 25 de Abril, economista que defendeu as nacionalizações e chegou a ministro de Vasco Gonçalves, outro eminente democrata. Sementes de primeira apanha...para esta Visão da História. 
Não deixa de ser relevante e seminal que esta gente da Visão continue a apontar as Brigadas Revolucionárias como gente de valor democrático inquestionável que ajudaram com "préstimos organizativos" nessa acção na capela. Certamente manuseando os petardos ( tal como fizeram depois com bombas a sério que mataram gente real) que anunciavam ao povo a revolução que aí viria...e cuja semente é apresentada pela Visão deste modo tão singelo e claro.

Sobre o Watergate já escrevi aqui. Tudo se passou em 1973-74, depois dos factos ocorridos em 1972 e as sementes foram lançadas depois disso. Não são sementes de 1972 e por isso há outra falsificação diacrónica.
Relativamente à música popular, não lembra a qualquer careca tomar o ano de 1972 e particularmente David Bowie como ícones da sementeira revolucionária e apontando-o como o grande "influencer".
A razão é simples de expôr mas vou documentar a mesma com recortes das revistas e publicações originais, sem copiar as referências como faz o articulista PDA sem referir as fontes.
David Bowie é importante na evolução da pop mas a sua relevância começara muito antes e já estava acompanhado de outros porventura mais relevantes: os T. Rex e os Roxy Music e ainda outros que em 1972 e muito tempo antes também publicaram obras seminais ( de semente) nesse género de música que se convencionou chamar "Glam-Rock"!
 Não era uma dimensão revolucionária mas apenas uma evolução na continuidade e o ano de 1972 já era de continuidade começada logo no início de 1970. 





Portanto um artigo completamente falhado, com graves erros diacrónicos e uma perfeita falsificação histórica, para vender uma ideia falsa sobre o que éramos em 1972. Mais um a juntar a muitos outros. Será que esta gente viveu esse tempo ou escrevem de cor?!

Quem quiser saber melhor como foi 1972 tem que ler outras coisas, para além destes cromos de sempre que reproduzem um discurso "fake" e perigoso porque já perdura há décadas e tem sempre a mesma tonalidade. A democracia não é isto. 

Melhor seria começarem por ler esta revista, nas hemerotecas:



O que a Visão deveria ver claramente, se consultasse estes documentos escritos e que testemunham a época e o ano de 1972 era mais isto, verdadeiramente seminal e que respeita aos meios de comunicação que nesse ano estavam em marcha e foram parados com as bancarrotas que se seguiram ao golpe de 25 de Abril de 1974 que trouxe a democracia em que é o PS e a esquerda que mandam...







Por muito que nos queiram fazer acreditar que Portugal começou em 1974 e que a democracia foi o começo de tal era radiosa, a verdade é que a democracia socialista só piorou o que tínhamos antes e só estragou o que viria a ser o país. A canalha, nos dois sentidos da expressão que emergiu na era democrática, com pico de everest na era José Sócrates, foi a responsável por isso e os media que a apoiaram e continuam a apoiar, os cúmplices objectivos de tal desgraça nacional. Em nome da democracia! E da sua vidinha que se estende a uns tantos milhares. Nem muitos. Se calhar tantos como era o número de esquerdistas em Portugal em Abril de 1974, uma minoria que se impôs a uma maioria. Democraticamente, claro. Se a oligarquia em Portugal tem um nome, é esse, precisamente. 

ADITAMENTO:
Para além disto que não é pouco, fui informado por quem de direito que esta foto de manobras militares que figura na pág, 32 da revista Visão é uma perfeita invenção diacrónica sobre algo que poderia estar relacionado com o ano de 1972. 
Segundo me informam, a foto em causa, publicada para ilustrar episódio da "guerra colonial" e particularmente o caso Wiriamu, diz respeito à saída para instrução em campo de um curso de formação do GISG da BA3 Tancos, e é datada de Dezembro de 1985. E o autor da foto chama-se Luís Santos, para que conste.


Esta gente da Visão, sem ela, não se deu conta que haveria pessoas a ver e a fazer o trabalho de "fact-checking" que não souberam fazer?
Se fosse nos EUA ou no UK, este tipo de lapsos, erros e invenções teria consequências. Aliás para qualquer publicação que se quer séria e rigorosa, teria sempre consequências. Aqui, para quem é, bacalhau basta, como sempre. 

A outra senhora advogada