sábado, setembro 18, 2021

A guerra em África ingloriamente perdida

 Apontamento de um boletim da Gulbenkian ( nº 17) de 1969, sobre o que se passou em África desde o  século XIX, com o domínio de todo o continente pelas nações europeias. 

O domínio territorial europeu, em África, durou quase um século e terminou praticamente durante os anos sessenta do século XX. Em alguns casos terminou como começou, de modo violento. 

Portugal, o mais antigo país europeu com territórios africanos, em consequência das descobertas do séc. XV-XVI, julgava-se diferente e com possibilidade de integração nacional das populações autóctones, o que se revelou falacioso e trágico.




A revista francesa Guerres & Histoire deste mês tem uma entrevista com um "pára" dos tempos da guerra na Guiné. O modo como conta o que se passou é ilustrativo do desconhecimento que ainda grassa por cá relativamente às nossas guerras de África, nomeadamente quanto à carência de recursos, notória face ao que os americanos faziam no Vietnam, e ao ambiente internacional em que estávamos fatalmente inseridos e que nos condicionava. 
Mesmo assim, este combatente mostra o que era um verdadeiro patriota, muito diverso dos que se punham a salvo, cavando para além-fronteiras por serem contra o "colonialismo".
Por cá muito dificilmente estas pessoas têm voz nos principais media e muito menos nas televisões, onde predominam o esquerdismo a que os balsemões deram a sua bênção a troco dos trinta dinheiros da praxe.









Abusos de poder e peculatos efémeros

 Esta, pespineta como se apresenta, aparentemente não conhece os deveres de função. E isso apesar de ter em casa um exemplo flagrante de abuso de poder do mesmíssimo género e com condenação transitada em julgado.

Espera-se que o MºPº regional do Porto abra o inquérito necessário, o que duvido muito venha a suceder, cá por coisas...




Doações Ephemeras

 Do Tal&Qual desta semana:


Um indivíduo doou um espólio pessoal de vários documentos, com eventual interesse cultural a outro indivíduo com notoriedade pública, devida ao que se sabe. Este último aceitou a doação, através de um "protocolo" e segundo conta o primeiro, não deu boa conta do legado. Agora este pretende revogar a doação efectuada, por desmerecimento do donatário e o dito, mal-agradecido, recusa a devolução, fundando-se em critérios pretensamente jurídicos e teimosias de feitio 

Se fosse comigo o espólio em causa já tinha sido devolvido ao interessado, sem mais. Por outro lado, lembro-me de um ditado de infância, citado entre putos da escola: "quem dá e  tira para o inferno mira!"

Não obstante, juridicamente, a hipótese de devolução do que foi doado é possível e em certas circunstâncias desejável...

O que fica então desta situação que define de algum  modo os intervenientes? Pouco e triste. Não percebo como alguém que pretende reunir um arquivo de ferro velho com coisas doadas pro bono se transforma em dono das mesmas por mero efeito de um "protocolo". 

A ética tem destes exemplos...

segunda-feira, setembro 13, 2021

Reflexões de Cabral de Moncada sobre o fim do seu tempo nos anos sessenta

 O professor Cabral de Moncada viveu os acontecimentos mais importantes do séc.XX que nos afectaram, sendo professor de Direito, em Coimbra e contemporâneo de Salazar e outros. 

Em 1972 escreveu as suas memórias, publicadas vinte anos depois e que li agora, com muito interesse e proveito, uma vez que me revejo em muitas das suas reflexões, crenças e filosofia de vida, porque afinal fui educado como ele foi, num tempo em que a Religião era importante e para mim, tal como para ele, nunca deixou de ser, tornando-se aliás o aspecto mais importante de uma existência, com maior Credo pessoal. 

Cabral de Moncada, em 1958, tal como Salazar, estava no tempo da reforma, por ter feito 70 anos. O tempo que passou até 1972, ano em que escreveu as Memórias foi descrito pelo mesmo, com a menção a factos, pessoas e ideias, de um modo singular e sumamente interessante para quem quiser conhecer o que foi a mentalidade da primeira metade do século XX, para quem foi educado como ele foi e muitos foram, incluindo precisamente Salazar e quem então nos governava. 


A educação religiosa católica, com a Fé em Deus e no que Jesus Cristo fez e deixou como legado nos Evangelhos foi sempre muitíssimo importante para pessoas assim, com as quais me identifico completamente. 

É por isso que as suas reflexões sobre o que sucedeu em Portugal e no Mundo, nos anos sessenta,  se tornam também muito interessantes e importantes. A autêntica revolução que então se operou já não foi muito bem compreendida por aquele que estava ligado ao que aprendera enquanto jovem do início do século e que portanto estranhava todas as novidades que surgiam em aceleração estupenda, nesses anos de brasa, particularmente nos costumes. 

E escreveu assim sobre isso, nas últimas páginas das suas memórias que vale a pena ler, incluindo sobre o que sucedeu na Igreja Católica após o Concílio Vaticano II que modificou o entendimento da praxis, ainda do tempo de Trento. 







O que escreve sobre as obras na "alta" de Coimbra, nos anos cinquenta, que consistiram em arrasar quase tudo o que existia de antigo para construir a nova Universidade com as suas faculdades mais importantes, merece reflexão, até para se ponderar como Salazar não era avesso a inovações e mudanças radicais, incluindo naquilo que consistiu o seu berço académico, idêntico ao de Cabral Moncada e do mesmo tempo. Por este não se teriam feito as obras como se fizeram o que denota um conservadorismo ainda mais arreigado. 














Esta reflexão sobre um Advento promissor, apesar de tudo, também é interessante: 




E esta sobre o advir do Ultramar português igualmente interessante e que subscrevo inteiramente, em prognose póstuma.
 Era isto que poderíamos ter esperança em alcançar, com Marcello Caetano no poder. Porém, não foi isso que sucedeu porque nem sequer Cabral de Moncada previu a desgraça que sobre nós se abateu, no mesmo ano em que ele morreu: a vitória do comunismo e esquerdismo contra o que ele esperançosamente julgava que poderia suceder nos anos vindouros...e que prova que o seu conservadorismo era inteligente ao ponto de não ter ficado enquistado em mitos de um passado distante e sem correspondência com uma nova realidade que se apresentava clara e inequívoca. Cabral de Moncada expressamente acreditava que havia "ventos" na História, ao contrário de alguns que zombavam de tal ideia. 





sábado, setembro 11, 2021

A "teoria francesa" gerou aberrações socio-culturais

 Observador:



Como é que se explicam estas aberrações que têm assento no Parlamento nacional? Assim, em francês, como convém, na revista Revue des deux mondes, deste mês.

Palavras-chave: Claude Lévy-Strauss, Michel Foucault, Derrida, Estruturalismo:






















O retrato psicológico de Salazar, por Cabral de Moncada

 No outro dia na Feira do Livro comprei este, de memórias do professor de Coimbra, Cabral de Moncada que viveu entre 1888 e 1974, atravessando por isso a transição de Portugal da monarquia para a República e depois acompanhando o Portugal de Salazar, de quem foi aliás colega de universidade, sendo este um pouco mais velho ( Salazar fez parte do júri de doutoramento daquele, em 1919)  

De Salazar, Cabral de Moncada só tem elogios à pessoa e político, embora comedidos, como era timbre do autobiografado. Este, nascido em Lisboa, de "boas famílias", educado pelos jesuítas do Colégio de S. Fiel ( que relata em algumas páginas que fazem lembrar os seminários até aos anos setenta do século que passou) e formado no espírito religioso da Santa Madre Igreja, tomou assento universitário em 1920 em Coimbra, sendo contemporâneo de Carneiro Pacheco, Fezas Vital, Magalhães Colaço, Alberto dos Reis e Guilherme Moreira, entre outros e amigo de Paulo Merêa, também aí professor. 

Cabral de Moncada conheceu e viveu os tempos conturbados da República e o que lhe sucedeu em consequência dos desmandos "democráticos" que levaram Salazar ao poder. 

Sobre a grande figura do século XX português, Cabral de Moncada escreve assim, num retrato aprimorado pelo conhecimento pessoal do dito, o que não é o caso de alguns biógrafos e de alguns detractores que falsificam a história.

O livro foi publicado em Janeiro de 1992 mas escrito vinte anos antes. Cabral de Moncada faleceu em 9 de Abril de 1974 e por isso não viveu o 25 de Abril desse ano. Se tivesse vivido estou certo que conviveria bem com o que veio a seguir, tal como aconteceu nas fases de transição entre o séc. XIX monárquico e o XX republicano. Conheceu pessoalmente Bernardino Machado, Afonso Costa e os malefícios da Maçonaria de então. 

Aparentemente, Cabral de Moncada não se metia muito em "políticas" e ideologicamente era dúctil embora firme em certos princípios, como os religiosos. Ou seja, foi educado como jesuíta e assim ficou, em modo laico. 

Como professor, Cabral de Moncada ensinou essencialmente história do Direito e estudou filosofia do Direito. Tinha sido delegado do procurador da República, primeiro na Graciosa, Açores e depois em Alvaiázere e Soure, durante dois anos, tendo descoberto que não era vocacionado para o rame rame da burocracia de magistrado e candidatou-se a doutoramento, alcançando o lugar de professor num tempo em que estes não atingiam a cátedra ao estilo de um tal Jorge Simões, marido da actual ministra da Saúde. 

O retrato de Salazar, feito por Cabral de Moncada, contextualizado no seu tempo e de acordo com observações particulares parece-me primoroso e denota o que sempre pensei de Salazar: vale a pena conhecer quem foi para saber como fomos. E como perdemos tal identidade em pouco tempo.