quinta-feira, 30 de abril de 2020

António Cluny e o "palavreado menos próprio"

Artigo de António Cluny, no i digital:

"A discussão política, a expressão de opiniões e comentários, o simples diálogo social e até, mais recentemente, a análise de temas científicos que ocorrem nos média e nas redes sociais têm vindo a ser crescentemente infetadas pelo vírus da boçalidade, por um doloso vandalismo verbal e escrito.

Não me refiro à afirmação direta e contundente de opiniões – durante muito tempo criticada na seráfica sociedade portuguesa de antigamente –, mas ao gosto primário pela agressão e insinuação ultrajantes que, afinal, nada têm de sincero ou corajoso.

Se os média são, frequentemente, responsáveis e coniventes com tal prática, pois ignoram e não filtram os comentários mais soezes que, muitas vezes, a coberto do anonimato ou de alcunhas ridículas, são neles expressos cobardemente, mais grave, muito mais grave, é o que se passa em algumas redes sociais, como acontece, por exemplo, no Facebook.

Nestas últimas, muita gente parece despir-se de todo o tipo de civilidade indispensável ao são convívio social e à dialética democrática, revelando-se como verdadeiramente é: gente sem qualquer pejo em, despudoradamente, agredir os outros.

Muito desse estilo boçal nasceu, é sabido, nos debates televisivos sobre desporto, em especial sobre futebol.

O mundo cão de muitos debates sobre futebol e, sobretudo, sobre a vida dos seus clubes e dirigentes, deu o mote, e o circo mediático logo aplaudiu e aceitou reproduzi-lo noutros palcos, muitas vezes, até com os mesmos protagonistas.

Mas o que é mais grave, o que nos deve fazer pensar seriamente sobre o que se está a passar, é a inadequada condição institucional e funcional de alguns dos intervenientes em alguns desses formatos e plataformas de discussão pública.

A coberto – e mesmo a descoberto – desses meios formais e informais de expressão, podemos ler intervenções, chocantes umas e, no mínimo, pouco criteriosas outras, de alguns políticos, funcionários públicos, agentes policiais e até magistrados, cidadãos que, pela sua condição, estão, ou deviam estar, obrigados a um comportamento cívico exemplar.

Casos há em que nada nem ninguém, inclusive nas instituições que devem servir, lhes parece merecer o mínimo respeito ou consideração.

Nenhum tema, por mais sério e merecedor de apurado cuidado e sensibilidade de tratamento, os demove do uso irrestrito de um palavreado menos próprio nos grupos de discussão fechados ou abertos em que participam.

Tais intervenções não rebaixam, no entanto, apenas quem as assume; atentam sobretudo contra a confiança que os cidadãos devem ter nas instituições democráticas.

Por isso são tão do agrado dos novos populistas – aqui e em outros países –, que as incentivam e delas usam e abusam para minar a democracia.

Sempre lutei e defendi o direito da livre intervenção na vida pública de funcionários, magistrados e mesmo dos elementos das forças policiais, direito que, por isso, sempre pratiquei sem reservas, sem que ninguém me tenha acusado de rudeza e de ofender quem quer que fosse.

Sempre fui, também, contra todo o tipo de censura na expressão da crítica ao teor das decisões políticas, judiciais ou administrativas.

Enquanto dirigente sindical, ainda jovem, e em momentos verdadeiramente delicados no relacionamento hierárquico da magistratura a que pertenço, então muito mais formal do que hoje, dei inclusive a cara na defesa de colegas acusados injustamente, em meu entender, de exercerem tal direito.

Mas, dito isto, era bom que, hoje, as instituições democráticas e as hierarquias das magistraturas, das forças policiais e da função pública atentassem na boçalidade crescente de alguma da atual intervenção pública dos que nelas servem.

É que certo tipo de linguagem que alguns usam nas suas intervenções públicas – quando não já profissionais –, descobre também, não raramente, o tipo agressivo de relacionamento que praticam com os cidadãos.

Mesmo quando não revestem natureza criminal, tais discursos demonstram, em todo o caso, objetiva e abertamente, uma inadequada incompreensão dos que os fazem em relação às funções que exercem e à cultura das instituições democráticas em que se integram.

Tais discursos não podem, por isso, ser pura e simplesmente ignorados; antes devem, com todo o cuidado e contenção democrática, ser alvo da atenção e de uma intervenção pedagógica por parte dos responsáveis por essas instituições.

Se nada for feito a este respeito, é o serviço público, a maioria dos seus servidores e os cidadãos em geral que sairão agravados; são a democracia e as liberdades cívicas que sairão a perder. "

António Cluny é magistrado do MºPº, dos antigos e da velha guarda em que o PCP dominava a estrutura sindicalista da corporação. Cluny era então comunista. Depois, algures no tempo das cerejas já fora de tempo, tornou-se simplesmente de esquerda, associado a figuras da magistratura com prestígio assegurado como Cunha Rodrigues ou mesmo Joana Marques Vidal. 

Tal associação e valor pessoal assegurou-lhe a possibilidade de frequentar e ocupar o topo dos cargos interessantes na magistratura e valeu-lhe em fim de carreira, a colocação no Eurojust, depois de o   CSMP o rejeitar liminarmente, para tal. 
O percurso de Cluny não se livrou de escolhos e alguns sérios e que o deviam precatar para escritos deste teor. Pura e simplesmente não tem autoridade para certos escritos. 

Depois disso foi alvo de suspeitas sérias acerca da isenção em casos igualmente suspeitos e relacionados com a circunstância de um seu filho ser advogado na firma Morais Leitão, no auge do caso Football Leaks ( fuga aos impostos de Ronaldo, Mourinho e companhia). Há coisas que são o que são e foi isso que a Der Spiegel escreveu. Cluny não se deu por achado.

Aparece agora no i a escrever esta catilinária em nome de uns bons costumes curiosos e uma moralidade envolta em naftalina com forte cheiro a hipocrisia. Deve ser do confinamento.

O exercício escrito manifesta o desconforto contra colegas de profissão e não só que se estendem em comentários que se resumem ao  "uso irrestrito de um palavreado menos próprio nos grupos de discussão fechados ou abertos em que participam."  

É só isto e é muito porque aconselha a intervenção hierárquica para disciplinar o "palavreado" julgado ofensivo.

Os critérios? Catar os casos de "comentários mais soezes" e "alcunhas ridículas", para além da poda circunstanciada da "linguagem boçal" . Isso para já. Depois logo se verá o mais. 

Confesso que ao ler o escrito me assomou um vómito imaginário à ideia proposta e lembrei-me disto que já tem  umas décadas e foi publicado em Junho de 1974 na revista Mundo da Canção, então dirigida pelos correlegionários e kamaradas do PCP.


Diz lá que é "tipicamente fascista a comiseração pelos que praticaram uma neo-inquisição".

O que Cluny propõe neste escrito é uma coisa parecida a tal neo-inquisição: para sobrestar a dislates discursivos e uso irrestrito de um palavreado menos próprio propõe exactamente a restrição do uso de tal palavreado cujo contorno subjectivo poderá ser definido como o uso de alcunhas ridículas ou de  comentários mais soezes apreciados pela devida comissão. No caso dos magistrados, o CSMP e o CSM claro. Os conselhos zeladores da ortodoxia doutrinal e prática que albergam os torquemadas da praxe, sempre prontos à fogueira da hipocrisia. 

Justificação? Pois, a do costume: a dignidade das instituições, pá! [ esta entra já no rol do "palavreado menos próprio...]

Este Cluny que agora se exprime deste modo parece-me um cromo repetido [ outra sujeita ao crivo da "alcunha ridícula"] porque se comporta como uma figura de estilo muito antigo e que afinal nunca desapareceu do espaço público: a do censor de tudo o que não lhe agrada, usando o pretexto gasto da degradação das sagradas instituições. 

Quanto a estas, nunca li que António Cluny se preocupasse com assuntos mais sérios e que- esses sim!- degradam efectivamente as instituições: nepotismo relacionado com o amiguismo do costume, tráfico de influência suspeito, entre magistrados de topo; corrupção político-ideológica que infecta a magistratura de topo; denegação de justiça em casos graves como o do antigo PGR Pinto Monteiro; perseguição individual a certos magistrados que desafinam do concerto do sistema político corrupto ou colocam este em causa ( Carlos Alexandre; a dupla Vítor Magalhães e Paes Faria, por exemplo, mas há outros). Isto só para citar os que me ocorrem agora. 
Cluny há muitos anos que abandonou um estilo que apesar de evitar o palavreado menos próprio dizia o que era preciso dizer: que o rei vai nu. Foi no tempo em que denunciou a política dos governos em acabar com as auditorias nos ministérios para entregar as parecerísticas várias e aos molhos dos milhões a escritórios de advogados de prestígio institucional que costumam ser alvo de "alcunhas ridículas" e "comentários mais soezes". 

Um deles é precisamente o do Morais Leitão.  E há o do Júdice e também o do Sérvulo, alvos frequentes de palavreado menos próprio e portanto ofensivos da honra e consideração de tais sumidades ( mais outra no rol das alcunhas ridículas). E outras que manobram agora na sombra ( aí está o palavreado menos próprio...digno de apreço insitucional de quem de direito).

Cluny associou-se à corte e por isso não consegue ver a nudez do rei. É pena. 

quarta-feira, 29 de abril de 2020

Mata-Bicho 70: China, a grande mentira

Edição desta semana do Le Figaro Magazine ( tudo menos de esquerda...) que é de pôr os olhos em bico.




A China é um país com um regime autoritário que mente quando é preciso. A todos, incluindo aos seus cidadãos. E tal não é de agora mas de sempre que se conhece o regime comunista chinês.
A informação que de lá chega não é credível e por isso deveria ter suscitado as maiores apreensões logo que se conheceram os primeiros sinais do que estava a suceder: a eclosão de uma pandemia.
Há um pormenor importante: antes desta houve outras, recentes mas que se confinaram a fronteiras menos alargadas e manifestamente foi menos agressiva do que esta tem sido.

Há um elemento de facto que parece indiscutível ( embora haja sempre quem o discuta...): as autoridades chinesas dissimularam durante várias semanas a realidade e letalidade da epidemia.
Portanto, a China tem uma grande responsabilidade na difusão da epidemia pelo mundo inteiro.

É isso que escreve o Le Figaro Magazine. E concordo.

ADITAMENTO:

E o que diz o responsável pela OMS? Isto:

Tedros defendeu-se também esta quarta-feira das críticas de que o organismo não estará a desempenhar o papel devido na resposta à pandemia da Covid-19.

«Desde o início da pandemia que a OMS agiu de forma rápida e decisiva para alertar o mundo» no que à epidemia diz respeito, disse Tedros, depois de fornecer uma espécie de linha do tempo, dando conta de tudo o que o organismo sabia antes da Covid-19 ser declarada uma emergência global, a 30 de Janeiro.

«A 12 de janeiro, a China partilhou o ADN do novo coronavírus. Nesse mesmo dia, a China registou a primeira morte. A 13, regista-se a primeira morte fora da China (…) A 22 e 23 de Janeiro, convoquei o Comité de Emergência, composto por 15 especialistas independentes do mundo inteiro. Nesse momento, tínhamos 581 casos na China e apenas 10 fora da China. O Comité de Emergência estava dividido nas suas opiniões e não recomendou que fosse declarada a emergência sanitária internacional», explicou o director da OMS.

«Tocámos o alarme cedo e com frequência», disse o responsável na habitual conferência de imprensa diária, acrescentando: «A OMS está comprometida com a transparência e a prestação de informação», explicou o diretor-geral.

Mata-Bicho 69: o verdadeiro inimigo público

Sábado de hoje, o exercício estilístico habitual de JPP : fustigar o Trump. Seja por que for. Desta vez é por causa de o indivíduo ter propaladamente aconselhado a ingerir lixívia para matar o bicho.

Enfim, nem vou comentar a estultícia que já cheira mal. A caricatura define melhor o cronista que o visado.

Vou apenas colocar a crónica de outro comentador da revista que, esse sim, identifica bem quem é actualmente o inimigo público nº1...



Mata-Bicho 68: os frades tomás da A.R.

Sábado de hoje:


A PSP no local, certamente agentes escolhidos a dedo, aconselhava e ocupava-se em disciplinar os repórteres quanto ao "distanciamento social". A escolha deixou de fora a ponderação acerca da inteligência e senso dos agentes.

Por isto que se vê a seguir: os mesmo agentes sem beliscar qualquer um destes figurões, por causa do mesmíssimo problema de "distanciamento social".

São estes pequenos abusos de poder que definem a categoria de uma democracia. A nossa ainda está nos níveis inferiores e muito por causa desses mesmos figurões que se julgam donos da mesma.

Isto é mais grave do que parece e replica-se em muitos estratos do poder que está.


terça-feira, 28 de abril de 2020

O jornalismo do sistema

Relacionado directamente com a temática anterior, o jornalismo nacional é algo curioso e já foi alvo de estudo aturado, precisamente numa das madrassas em que se ensinam os rudimentos.

O tema foi repescado daqui e deu para ir parar ali. É a "tese" de um brasileiro que se doutorou ( palavara!) na Universidade Nova e que consiste em recolha de entrevistas a várias personagens dos media acerca de um fenómeno explicado pelo autor:

A maior percentagem dos jornalistas que mudaram de lado e foram trabalhar como assessores de imprensa do governo português, continuou ligada ao Estado ou ao poder político após deixar o trabalho governamental. Esta é a conclusão desta tese, que analisou o percurso profissional dos profissionais da informação que foram ser assessores do governo português entre entre 6 de abril de 2002 e 12 de junho de 2011 – abarcando dois governos PSD-CDS e dois governos PS, ou seja, o conjunto dos partidos que desde 1975 ocuparam o poder em Portugal.

Aqui está uma obra de estudo académico para conferir grau de doutor a jornalistas encartados.

O exemplo que apanho é o de um tal David Dinis, personagem inenarrável desse jornalismo feito enguia eléctrica.


Porém, há mais exemplos. Um dos mais relevantes é o de uma tal Tamagnini que começou de "baixo" e foi por ali acima até chegar ao topo. Assessora de ministros e depois a consagração: TAP, a ganhar mais que os doutores...
[ em informação não confirmada, obtida na caixa de comentários, esta fantástica assessora é agora profissional do ofício junto do ministério de Siza Vieira. Como iria ganhar a bagatela de 2900 euros, optou por continuar a receber o vencimento que auferia na TAP. Sem lá estar porque afinal já não precisam dela por lá e é mais necessária nos gabinetes governamentais. Já é dos "quadros". Percebe-se a apetência pela nacionalização de certas empresas...]

Impressionante ascensão! Vertical, entenda-se.


As portas que Abril abriu...

Primeira porta, larga e de pórtico: a balbúrdia, política e económica, tal como se relata neste artigo de o jornal de 14.11.1975, escrito com os pés, nas vésperas do golpe e contra-golpe que afastou o comunismo do poder político efectivo.

O Rádio Renascença tinha sido transformado em cóio do esquerdismo revolucionário, o que prejudicava muito a estratégia do PCP. Resolveu-se assim, o problema: à bomba. Alguns anos depois os derrotados quiseram resolver o problema que lhes tinha sido criado, do mesmo modo. Otelo foi preso e condenado por isso.
Isabel do Carmo e outros também poderiam ter sido condenados pelo mesmo motivo, mas a "legalidade democrática" não o permitiu. Se fosse a revolucionária que eles pretendiam instaurar, teria sido trigo limpo, farinha Amparo.


A balbúrdia económica já era visível escassas semanas após o "35 de Abril" e até o PCP apelava à moderação. Debalde. Vida Mundial, 7.6.1974. O padrinho de tudo isto já figura na foto. Era então ministro dos Negócios Estrangeiros e preparava-se para entregar os territórios ultramarinos a quem de direito, ou seja os movimentos de libertação comunistas, com as consequências conhecidas:



Sabendo agora como um mês de paragem económica pode ser catastrófico, imagine-se o que foi em Portugal naqueles meses todos a seguir ao 25 de Abril...

Entretanto o novo poder andava à procura de um modelo e estivemos perigosamente perto de um dos mais apetecidos pela classe político-jornalística de então: Cuba! Foi lá o bravo Varela Gomes, acompanhado de um marinheiro. E trouxe de lá ideias...


Segundo portão escancarado: a nova censura, repristinação da antiga que era esta, tal como mostrada na Vida Mundial de 7.6.1974, num artigo sobre o "grande salto" chinês, todo encomiástico das fantásticas realizações sociais da camarilha revolucionária de Mao Tse Tung.

Evidentemente que o artigo, sem data mas dos anos setenta, era assinado por um dos que a seguir iriam enfileirar no partido do Arnaldo que antes de morrer considerou tudo isto "um putedo".

Queixava-se a revista de a Censura ter cortado o artigo. Lendo, percebe-se porquê: é um chorrilho de fake news, como se diria agora. Bem cortado, portanto, nesta perspectiva que é a daqueles que hoje defendem tal censura, como o director do Público e muitos mais.


Na revista há ainda outro artigo cortado pela Censura antiga e que se referia às "empresas multinacionais: concentração selvagem". Evidentemente, sufragando todas as teses comunistas acerca do assunto, os monopólios, o imperialismo e as tretas do costume da época e de agora, porque nada esqueceram e nada mudaram.

Apesar desta denúncia da Censura antiga, começaram a praticar o novo modelo e que estes exemplos a seguir mostram sobejamente  no estilo já aprimorado.

Vida Mundial de 14.6.1974, a mesma que trazia uma entrevista a Cunhal que me suscitou o apontamento escrito sobre o estilo do mesmo: "concretamente críptico; abstractamente explícito". Foi sempre assim e ninguém conseguiu dar-lhe a volta, principalmente por não quererem tal coisa.


Para se entender melhor o contexto destas peças de teatro apresentadas em directo, a preto e branco e ao vivo na RTP da época, convém ler isto que apareceu no Sempre Fixe de 30.9.1974


Na mesma altura de Setembro de 1974 aconteceu outra repristinação notável: um autodafé político, que remetia para os livros queimados em pira, pelos partidários nazis, nos anos trinta. Desta feita a acção era patriótica, contra a reacção. Legitimada, portanto.



A nova Censura passou então a ter este recorte democrático: um jornal que se desviasse da linha justa, era pura e simplesmente cassado da convivência "democrática". Já nem era precisa qualquer comissão de censura ou exame prévio, por causa da guerra. A luta de classes dava o mote a quem a aplaudia e eram quase todos os jornalistas que se queixavam muito da censura que lhes fazia o regime anterior...


E como é que se resolviam estas disputas "democráticas"? Assim, como mostra o o jornal de 16 de Maio de 1975: com "danças de cadeiras". Ainda hoje a dança continua e pode ver-se a nova valsa no Diário de Notícias falido ou num Público sempre falido e sustentado pelo capitalismo mais explorador da SONAE, sem complexos. A mentalidade do jornalismo, em Portugal nada mudou, nesse aspecto. Antes, piorou porque perdeu toda a vergonha que então existia e a humildade derivada da ignorância assumida. Agora são todos doutores.

Como se pode ler havia um "povo com direito à informação". O "povo" no entanto era um conceito difuso que só acolhia os que pensavam como eles...


Em 27 de Setembro de 1975 uma militante destas camarilhas escrevia assim no Expresso, defendendo a censura, o despedimento de colegas e a repressão policial sobre a "imprensa vendida"...


Portanto estas portas que Abril abriu tiveram os seus porteiros. Entre eles, destaco estas figuras que continuam na proa, inacreditavelmente.


E estes, culturalmente esclarecidos e que andam por aí, nas actividades culturais de sempre, agora no BE e partidos adjacentes, com muita gente do PS lá metida também: em prol da mesmíssima esquerda que aí fica retratada, em cima. São estes que agora festejam do modo eufórico que se viu o "25 de Abril".  Pudera!


Qual o resultado prático de tudo isto para o povo que dizem defender e particularmente os "pobrezinhos" ou as "classes mais desfavorecidas"?

Bem, em 16 de Maio de 1975 o panorama já não era famoso:


Dali a pouco tempo mostrou-se a verdadeira face desta esquerda que celebra o 25 de Abril: austeridade! Desde sempre...


Além disso, o nosso futuro escrever-se-ia com cartas marcadas, como dizia claramente o actual presidente da República, na altura da Constituinte ao o jornal de 16 de Maio de 1975.

O que se esperava da Constituinte? Pois...que o PS mandasse o que tinha para mandar. E mandou.


Conviria ter presente o seguinte: enquanto se mantiver este novelo nunca seremos um país desenvolvido e próspero. Apenas um país à imagem deste PS que anda por aí, agora a reboque do Costa mas que já foi de um Sócrates.

Inacreditável? Pois, a meu ver é a história destas décadas.

segunda-feira, 27 de abril de 2020

"o jornal" da esquerda socialista democrática

A história de o jornal, aparecido em 2 de Maio de 1975 já foi contada aqui, há meia dúzia de anos.

Na altura em que surgiu a publicação era uma novidade de vulto, na imprensa portuguesa da época, pelo estilo e inovação.
Nessa altura de 1975, como semanários de informação geral, havia a Vida Mundial, revista já com muitos anos e do grupo do Século, tornada em veículo de propaganda cripto-comunista;  o Sempre Fixe, aparecido em 1973, numa reencarnação do antigamente republicano e jacobino, tornado comunista sem rodeios e o Expresso, demasiado rodeado de personagens da política do grupo dos "liberais" de Sá Carneiro e afins ( Marcelo Rebelo de Sousa) em que se incluía o director, Balsemão.

O Tempo só apareceu em finais desse mês e foi logo corrido da comunidade jornalística, incluindo a do o jornal, por ser "reaccionário".

Então nesse dia de Maio de 1975, uma Sexta-Feira,  apareceu este novo semanário, com uma belíssima apresentação e grafismo, a começar pelo tipo de letra escolhido .


O grafismo e o papel atraiu-me logo a atenção porque se diferenciavam do que então existia nos escaparates.
O indivíduo que aparece na foto, a pintar o número do primeiro de Maio ainda nem conhecia mas depois tornou-se um dos colaboradores mais importantes do semanário: João Abel Manta, um grande artista gráfico, comunista de sempre. Do PCP mais fóssil.

Numa página interior o desenho era explícito acerca da ideologia vigente: socialismo comunista. Helicópteros do MFA, saídos da base tranquila de um Marx para combater gordos cifrões em fuga, feitos morcegos. Em baixo a turba-multa hasteia bandeiras sem símbolos e apenas com listas de ondulação sob o olhar atento do Marx barbudo de cartola aristocrática. A caricatura vale o desenho.


Lembro-me bem de comprar e ler, folheando este primeiro número, com um papel fino, quase bíblia, de toque agradável e deslizante, nada rugoso, com um formato ligeiramente maior em largura que um tablóide.
Durante alguns anos, até finais dos anos oitenta, comprei regularmente tal jornal, assim como o Expresso e outros que foram saindo. E guardei todos os números que comprei. Caixas e caixas.  Já nos anos noventa o jornal acabou, falido. Já tinha aparecido o Independente.  Das cinzas nasceu a revista Visão, herdeira da mesma rota ideológica e jornalística. Alguns jornalistas do o jornal foram os fundadores da Visão e isso nota-se, ainda hoje.

Um dos aspectos que me levaram a comprar o jornal, em 1975 e depois,  foi a secção cultural, orientada de raiz por um Fernando Assis Pacheco. Os outros semanários eram uma miséria criativa, com destaque para o Expresso, nulo nesse aspecto. A crónica do que aconteceu em Cascais, na altura em que os Genesis vieram cá, é exemplar...

Esta recensão crítica a um dos melhores discos da música popular portuguesa de sempre é também exemplar da exiguidade e mediocridade do espaço dedicado a tais assuntos.


O Jornal politicamente não me incomodava muito devido à moderação relativa, em atenção ao que era a normalidade informativa então vigente. Comparado com a Vida Mundial era um oásis de tolerância ideológica e com o Sempre Fixe era um esteio de sensatez. O Expresso já era demasiado marcelorebelodesouseano e por vezes insuportável.
Hoje também se torna insuportável ver o que se escrevia e pensava nas páginas de o jornal e basta ler uma página de análise do resultado das eleições de 25 de Abril de 1975, para a Assembleia Constituinte para tal se tornar evidente:



Na altura o jornal apresentou-se como sendo "um semanário de jornalistas que para tal se constituiram em sociedade, decididos a trabalhar por uma informação objectiva e esclarecedora, desligada das pressões dos grupos económicos ( todos já nacionalizados-nota minha) e da influência de quaisquer forças políticas ( menos as do MFA e da área do socialismo democrático) económicas, culturais ou religiosas adoptando perante os acontecimentos uma posição crítica progressista ( com a conotação devida, claro-nota minha). 
Na nota de abertura, o director escrevia logo assim: " Acaba de cumprir-se um ano sobre a data que nos libertou do regime totalitário", o que diz logo tudo acerca da propalada isenção e objectividade.

Portanto era um jornal marcadamente de esquerda. Não era o Avante ou o Grito do Povo mas era simpático para com estes arautos da propaganda política, essa sim verdadeiramente totalitária.

Para se entender a idiossincrasia do jornal é necessário saber quem eram os seus jornalistas. E quatro anos depois, em 11.5.1979, quando a publicação já "era lida" por 138 mil leitores, a edição mostrava quem e como se fazia o jornal.


Havia poucos letrados na redacção. Na verdade apenas quatro elementos eram licenciados, "senhores dr.s",  em Letras ou Filosofia.
Os demais tinham feito o curso liceal e um deles estudos "vagamente universitários". Chegava e sobrava na altura, em que se aprendia a ser jornalista na tarimba profissional junto aos mais velhos. Escola da vida profissional...que deu no que deu: os rebentos foram para as madrassas da Comunicação Social e são agora mais que as mães.

O perfil ideológico dos jornalistas deste jornal é simples de verificar: todos de esquerda, com grande simpatia pelo antifassismo...e portanto manifestamente hostis ao regime anterior. A objectividade a que os leitores tinham direito era essa e só essa.
Suponho que foi logo nessa altura que me tornei politicamente céptico. Quer dizer, não ligava a esta gente, ideologicamente falando. Mas lia o que escreviam e publicavam porque a alternativa também não era agradável ( o Expresso sempre me pareceu um jornal cretino e nisso nunca me desiludiu ao longo das décadas)  e pelo menos este jornal graficamente me parecia um mimo.

Nessa altura de 1975 também eu me preparava para ingressar nos estudos "vagamente universitários", estagiando desde logo num "serviço cívico"  preparado pelo sistema que já não sabia lidar com a súbita massificação de candidatos ao ensino superior. O sistema de ensino precisava então dos alves correias e de muitos assistentes universitários acabados de se formar, com notas que ainda não deviam muito ao sistema de nepotes que entretanto se instalou.
O mesmo aconteceu, ou seja a necessidade de recém formados, ainda em maior escala no ensino secundário, estendendo-se para além dos anos oitenta. Também a mim me calhou tal sorte, logo em 1981, mas por pouco tempo.

A mim interessava-me o grafismo do jornal e vim a saber em 1979 quem eram os autores do mesmo, aqui em baixo identificados.


Pelos vistos foi neste ambiente que mergulhou um dos inovadores que depois apareceu no nosso jornalismo caseiro, no Independente de 1988 quando já tinha mais de trinta anos: Miguel Esteves Cardoso.

Ontem, esse mesmo jornalista,  lembrou que também leu esse primeiro número e ainda com 19 anos escreveu à direcção para lhes dizer que tinham bocados de couve nos dentes, ou coisa que o valha.



Diz que começou a escrever no jornal depois de ter feito por escrito, à direcção do mesmo, um reparo por causa de erros na secção do roteiro de cinema que se podia ver em salas e que designa de "algumas sinopses". Que era esta, nesse primeiro número:


Fui ver às wikis e os únicos erros que detectei são dois e relativamente a datas. 73 em vez de 72 e 74 em vez de 73 ou assim, no caso do Tupamaros ou da Dorotheia. Coisa pouca. Cisco nos dentes.

Seria caso para tal? Terá sido por isso que lhe deram o chóio de escrever, por exemplo isto que terá sido a primeira crónica publicada por MEC no o jornal, em 5.9.1975, quando tinha acabado de fazer 20 anos?
O texto é uma nulidade e já respira o ar politicamente correcto da esquerda. Desconfio que o cisco nos dentes era mais deste tipo, mas não sei:


Por outro lado MEC, nessa crónica do Público depois de ter sido recrutado e ido à redacção ( na Av. da Liberdade em Lisboa) refere que o entusiasmou trabalhar num jornal "feito por jornalistas que adoravam jornais, que liam tudo, incluindo jornais americanos, como o Washington Post e o New York Times, jornais que ninguém lia em Portugal.

É esta frase que me parece mais que cisco o que me leva a este reparo no postal.

Não sei interpretar a frase no sentido exacto que terá. Não sei se refere a ausência de interesse na leitura de jornais americanos, no Portugal do PREC já em andamento, de 1975, o que aliás duvido; ou se refere ausência de conhecimento do jornalismo caseiro acerca desses decanos do jornalismo americano o que me revelaria estultícia escusada.

Se for este o caso, como me parece, vale a pena mostrar este recorte de 8.2.1972, no Diário Popular, para mostrar que a observação é mais que cisco nos dentes. É ignorância grave de quem se distraiu, em 1975.
Por outro lado, pergunto-me como seria possível aos jornalistas da Av. da Liberdade lerem aqueles dois jornais diários, americanos, numa altura em que tal imprensa nem chegava cá. Chegavam a Time e a Newsweek, tal como a Rolling Stone que ansiava ver já na altura.

Não me lembro de ver tais jornais nos escaparates do Rossio ou noutros lados. Nem nessa altura nem depois.  A primeira vez que vi fisicamente o New York Times em edição dominical foi em Paris na VHS Smith. Em 1999. Tal como o Village Voice que aliás comprei.

Não sei portanto como é que faziam os jornalistas do o jornal para se desunharem a ler o que por cá não aparecia regularmente.
Ainda por outro lado, na edição de 1979 em que explicavam como se fazia o jornal diziam que tinham alguns colaboradores permanente no estrangeiro, sem dizer quais e usavam um "conjunto de serviços internacionais" assegurados por   algumas publicações, todas europeias e limitadas ao Le Nouvel Observateur francês e à espanhola Cambio16. Daqueles dois nem referência, sequer. Seriam números clandestinos, vindos na TAP, como eram alguns discos de então? Não sei e cheira-me a galga.



E nem era só o Diário Popular. Em 1969 a Vida Mundial repassava um artigo de James Reston, do mesmo NYT:


Enfim, reparos a quem reparou em pormenores menos significativos no primeiro número de o jornal quando tinha 19 anos e 45 anos depois vem lembrar a coisa...


domingo, 26 de abril de 2020

Balanço do 25 de Abril...

Ontem publiquei por aqui uma entrevista a Pedro Ferraz da Costa, um indivíduo que ao longo das últimas décadas, desde o tempo do PREC até hoje tem dito o que deveria ter sido seguido por quem manda e quase nunca o foi porque não há muitas pessoas como o dito e muito menos a pensar desse modo.

Em 15 de Abril de 2014, noutra entrevista ao jornal i, Pedro Ferraz da Costa explicava o que tinha sido o seu "25 de Abril", fazendo-o de um modo absolutamente claro e sem peias.


Há nesta entrevista dois passos essenciais para se entender o modo de pensar de PFC e que partilho inteiramente:
O primeiro tem a ver com a destruição do "tecido produtivo" do país em 1975 e por aí fora, tendo começado nas greves sistemáticas de 1974-1975 e as nacionalizações dos sectores mais importantes da economia e a intervenção do Estado em todos os sectores, mesmo os privados, com a instrumentalização dos bancos e seguros.

Em consequência das bancarrotas sucessivas que esta política geral engendrou, no final dos anos oitenta e noventa começou a mudar o entendimento de tal política com a admissão de uma iniciativa privada em tais sectores, mormente o bancário, seguros e algumas empresas.

A lógica das privatizações deveria ter conduzido a indemnizações justas aos antigos proprietários o que não sucedeu e PFC explica desde logo o que propunha em 1975:



Em 1976 o panorama já era tão negro que um jornalista-economista, precursor dos que agora andam por aí aos pontapés à economia, tipo Cristina Ferreira ( a do Público...) escrevia assim no O Jornal de 9.7.1976:


Nada do que PFC preconizava se fez e muito por causa desta mentalidade aqui bem expressa e que durou décadas a mudar e só um pouquinho. Este recorte, provindo daqui, de um postal sobre o nosso pretérito-mais-que-perfeito é do mesmo O Jornal de 7.7.1978:


O que diziam então os notáveis, um deles advogado e socialista encapotado que orientou muito bem a vidinha à sombra do Estado, mesmo disfarçado de actividade liberal e privada ( Sérvulo Correia)? Isto que impressiona pela tragédia que convocou, ao insistir em modelos caducos e marxistas de organização social e económica:


Outro aspecto importantíssimo é o da Educação, do sistema de ensino e que PFC dizia assim ser o que o educou, antes de 25 de Abril de 1974:


Os liceus eram muito bons e o antigo ISEG, dos actuais trigos e pereiras todos, tinha professores óptimos e foram essas escolas que formaram PFC e muitos outros que apesar de tudo não foram suficientes para travar a tragédia que se abateu sobre nós, deste modo singelo e imputável aos mesmos de sempre: socialistas e comunistas.


Aqui melhor explicada, esta ideia peregrina do socialismo e comunismo, logo em Setembro de 1975:



O entendimento deste desgraçado que estragou tudo de modo que se tornou depois irremediável, por causa do socialismo e da "igualdade",  era este:

"Trata-se de democratizar, ao nível do ensino secundário, as estruturas escolares, implantando um tronco comum, em que não haja vias paralelas de desigual prestígio que reproduzam e reforcem a hierarquia classista da formação social, designadamente a divisão de trabalho manual e do trabalho intelectual. A estratificação e hierarquizada sociedade portuguesa sofreu, com o 25 de Abril, abalo forte, mas não se decompôs, de maneira que os grupos socialmente dominantes nunca terão perdido a esperança de uma recuperação."
É difícil encontra maior estupidez junta numa frase. E tanto mal que se fez a um país, com estas ideias estúpidas.

A meu ver foram  estas as duas causas maiores de termos já no currículo nacional três bancarrotas e irmos a caminho da quarta. E de termos a governar esta gente que nos envergonha e anda sempre com a boca cheia de democracia o os bolsos sempre ligados ao úbere do Estado. 

É esta a luta deste blog, desde sempre: procurar entender como fomos capazes de ser tão estúpidos, como povo...sendo minha convicção que durante os 48 anos de fassismo não o fomos. 

Para isso, quem então mandava, primeiro no regime do Estado Novo e depois no Estado Social, entendeu que deveria proibir os que agora mandam, ou seja os socialistas e comunistas, de tomarem as rédeas do poder, impedindo-os de divulgar livremente as suas ideias trágicas e fósseis. 

O erro desse regime, quanto a mim, foi esse: impedir que as pessoas pudessem ver livremente o que era e significavam tais ideias fósseis, tal como na Europa era possível. Por isso nesses países os partidos comunistas praticamente desapareceram ou nunca tiveram expressão. 

Por cá, tornaram-se os modelos culturais e continuam a ser...