segunda-feira, 27 de abril de 2020

"o jornal" da esquerda socialista democrática

A história de o jornal, aparecido em 2 de Maio de 1975 já foi contada aqui, há meia dúzia de anos.

Na altura em que surgiu a publicação era uma novidade de vulto, na imprensa portuguesa da época, pelo estilo e inovação.
Nessa altura de 1975, como semanários de informação geral, havia a Vida Mundial, revista já com muitos anos e do grupo do Século, tornada em veículo de propaganda cripto-comunista;  o Sempre Fixe, aparecido em 1973, numa reencarnação do antigamente republicano e jacobino, tornado comunista sem rodeios e o Expresso, demasiado rodeado de personagens da política do grupo dos "liberais" de Sá Carneiro e afins ( Marcelo Rebelo de Sousa) em que se incluía o director, Balsemão.

O Tempo só apareceu em finais desse mês e foi logo corrido da comunidade jornalística, incluindo a do o jornal, por ser "reaccionário".

Então nesse dia de Maio de 1975, uma Sexta-Feira,  apareceu este novo semanário, com uma belíssima apresentação e grafismo, a começar pelo tipo de letra escolhido .


O grafismo e o papel atraiu-me logo a atenção porque se diferenciavam do que então existia nos escaparates.
O indivíduo que aparece na foto, a pintar o número do primeiro de Maio ainda nem conhecia mas depois tornou-se um dos colaboradores mais importantes do semanário: João Abel Manta, um grande artista gráfico, comunista de sempre. Do PCP mais fóssil.

Numa página interior o desenho era explícito acerca da ideologia vigente: socialismo comunista. Helicópteros do MFA, saídos da base tranquila de um Marx para combater gordos cifrões em fuga, feitos morcegos. Em baixo a turba-multa hasteia bandeiras sem símbolos e apenas com listas de ondulação sob o olhar atento do Marx barbudo de cartola aristocrática. A caricatura vale o desenho.


Lembro-me bem de comprar e ler, folheando este primeiro número, com um papel fino, quase bíblia, de toque agradável e deslizante, nada rugoso, com um formato ligeiramente maior em largura que um tablóide.
Durante alguns anos, até finais dos anos oitenta, comprei regularmente tal jornal, assim como o Expresso e outros que foram saindo. E guardei todos os números que comprei. Caixas e caixas.  Já nos anos noventa o jornal acabou, falido. Já tinha aparecido o Independente.  Das cinzas nasceu a revista Visão, herdeira da mesma rota ideológica e jornalística. Alguns jornalistas do o jornal foram os fundadores da Visão e isso nota-se, ainda hoje.

Um dos aspectos que me levaram a comprar o jornal, em 1975 e depois,  foi a secção cultural, orientada de raiz por um Fernando Assis Pacheco. Os outros semanários eram uma miséria criativa, com destaque para o Expresso, nulo nesse aspecto. A crónica do que aconteceu em Cascais, na altura em que os Genesis vieram cá, é exemplar...

Esta recensão crítica a um dos melhores discos da música popular portuguesa de sempre é também exemplar da exiguidade e mediocridade do espaço dedicado a tais assuntos.


O Jornal politicamente não me incomodava muito devido à moderação relativa, em atenção ao que era a normalidade informativa então vigente. Comparado com a Vida Mundial era um oásis de tolerância ideológica e com o Sempre Fixe era um esteio de sensatez. O Expresso já era demasiado marcelorebelodesouseano e por vezes insuportável.
Hoje também se torna insuportável ver o que se escrevia e pensava nas páginas de o jornal e basta ler uma página de análise do resultado das eleições de 25 de Abril de 1975, para a Assembleia Constituinte para tal se tornar evidente:



Na altura o jornal apresentou-se como sendo "um semanário de jornalistas que para tal se constituiram em sociedade, decididos a trabalhar por uma informação objectiva e esclarecedora, desligada das pressões dos grupos económicos ( todos já nacionalizados-nota minha) e da influência de quaisquer forças políticas ( menos as do MFA e da área do socialismo democrático) económicas, culturais ou religiosas adoptando perante os acontecimentos uma posição crítica progressista ( com a conotação devida, claro-nota minha). 
Na nota de abertura, o director escrevia logo assim: " Acaba de cumprir-se um ano sobre a data que nos libertou do regime totalitário", o que diz logo tudo acerca da propalada isenção e objectividade.

Portanto era um jornal marcadamente de esquerda. Não era o Avante ou o Grito do Povo mas era simpático para com estes arautos da propaganda política, essa sim verdadeiramente totalitária.

Para se entender a idiossincrasia do jornal é necessário saber quem eram os seus jornalistas. E quatro anos depois, em 11.5.1979, quando a publicação já "era lida" por 138 mil leitores, a edição mostrava quem e como se fazia o jornal.


Havia poucos letrados na redacção. Na verdade apenas quatro elementos eram licenciados, "senhores dr.s",  em Letras ou Filosofia.
Os demais tinham feito o curso liceal e um deles estudos "vagamente universitários". Chegava e sobrava na altura, em que se aprendia a ser jornalista na tarimba profissional junto aos mais velhos. Escola da vida profissional...que deu no que deu: os rebentos foram para as madrassas da Comunicação Social e são agora mais que as mães.

O perfil ideológico dos jornalistas deste jornal é simples de verificar: todos de esquerda, com grande simpatia pelo antifassismo...e portanto manifestamente hostis ao regime anterior. A objectividade a que os leitores tinham direito era essa e só essa.
Suponho que foi logo nessa altura que me tornei politicamente céptico. Quer dizer, não ligava a esta gente, ideologicamente falando. Mas lia o que escreviam e publicavam porque a alternativa também não era agradável ( o Expresso sempre me pareceu um jornal cretino e nisso nunca me desiludiu ao longo das décadas)  e pelo menos este jornal graficamente me parecia um mimo.

Nessa altura de 1975 também eu me preparava para ingressar nos estudos "vagamente universitários", estagiando desde logo num "serviço cívico"  preparado pelo sistema que já não sabia lidar com a súbita massificação de candidatos ao ensino superior. O sistema de ensino precisava então dos alves correias e de muitos assistentes universitários acabados de se formar, com notas que ainda não deviam muito ao sistema de nepotes que entretanto se instalou.
O mesmo aconteceu, ou seja a necessidade de recém formados, ainda em maior escala no ensino secundário, estendendo-se para além dos anos oitenta. Também a mim me calhou tal sorte, logo em 1981, mas por pouco tempo.

A mim interessava-me o grafismo do jornal e vim a saber em 1979 quem eram os autores do mesmo, aqui em baixo identificados.


Pelos vistos foi neste ambiente que mergulhou um dos inovadores que depois apareceu no nosso jornalismo caseiro, no Independente de 1988 quando já tinha mais de trinta anos: Miguel Esteves Cardoso.

Ontem, esse mesmo jornalista,  lembrou que também leu esse primeiro número e ainda com 19 anos escreveu à direcção para lhes dizer que tinham bocados de couve nos dentes, ou coisa que o valha.



Diz que começou a escrever no jornal depois de ter feito por escrito, à direcção do mesmo, um reparo por causa de erros na secção do roteiro de cinema que se podia ver em salas e que designa de "algumas sinopses". Que era esta, nesse primeiro número:


Fui ver às wikis e os únicos erros que detectei são dois e relativamente a datas. 73 em vez de 72 e 74 em vez de 73 ou assim, no caso do Tupamaros ou da Dorotheia. Coisa pouca. Cisco nos dentes.

Seria caso para tal? Terá sido por isso que lhe deram o chóio de escrever, por exemplo isto que terá sido a primeira crónica publicada por MEC no o jornal, em 5.9.1975, quando tinha acabado de fazer 20 anos?
O texto é uma nulidade e já respira o ar politicamente correcto da esquerda. Desconfio que o cisco nos dentes era mais deste tipo, mas não sei:


Por outro lado MEC, nessa crónica do Público depois de ter sido recrutado e ido à redacção ( na Av. da Liberdade em Lisboa) refere que o entusiasmou trabalhar num jornal "feito por jornalistas que adoravam jornais, que liam tudo, incluindo jornais americanos, como o Washington Post e o New York Times, jornais que ninguém lia em Portugal.

É esta frase que me parece mais que cisco o que me leva a este reparo no postal.

Não sei interpretar a frase no sentido exacto que terá. Não sei se refere a ausência de interesse na leitura de jornais americanos, no Portugal do PREC já em andamento, de 1975, o que aliás duvido; ou se refere ausência de conhecimento do jornalismo caseiro acerca desses decanos do jornalismo americano o que me revelaria estultícia escusada.

Se for este o caso, como me parece, vale a pena mostrar este recorte de 8.2.1972, no Diário Popular, para mostrar que a observação é mais que cisco nos dentes. É ignorância grave de quem se distraiu, em 1975.
Por outro lado, pergunto-me como seria possível aos jornalistas da Av. da Liberdade lerem aqueles dois jornais diários, americanos, numa altura em que tal imprensa nem chegava cá. Chegavam a Time e a Newsweek, tal como a Rolling Stone que ansiava ver já na altura.

Não me lembro de ver tais jornais nos escaparates do Rossio ou noutros lados. Nem nessa altura nem depois.  A primeira vez que vi fisicamente o New York Times em edição dominical foi em Paris na VHS Smith. Em 1999. Tal como o Village Voice que aliás comprei.

Não sei portanto como é que faziam os jornalistas do o jornal para se desunharem a ler o que por cá não aparecia regularmente.
Ainda por outro lado, na edição de 1979 em que explicavam como se fazia o jornal diziam que tinham alguns colaboradores permanente no estrangeiro, sem dizer quais e usavam um "conjunto de serviços internacionais" assegurados por   algumas publicações, todas europeias e limitadas ao Le Nouvel Observateur francês e à espanhola Cambio16. Daqueles dois nem referência, sequer. Seriam números clandestinos, vindos na TAP, como eram alguns discos de então? Não sei e cheira-me a galga.



E nem era só o Diário Popular. Em 1969 a Vida Mundial repassava um artigo de James Reston, do mesmo NYT:


Enfim, reparos a quem reparou em pormenores menos significativos no primeiro número de o jornal quando tinha 19 anos e 45 anos depois vem lembrar a coisa...


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Louçã, savonarola dos pequeninos