sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

A escrita polémica de VPV

Lendo os vários obituários acerca de Vasco Pulido Valente bem como as declarações de pessoas que o conheceram avulta uma opinião unânime: escrevia bem.

Porém, tal unanimismo é bem capaz de resultar de opiniões positivadas com o decesso do cronista, komentador e ensaista.

Hoje no Público aparece esta pequena crónica contra a corrente de tais opiniões:


Haverá aqui uma singela dor de cotovelo? É capaz porque esta escrita que fica aí acima é, como hei-de dizer, pouco apelativa e cheia de vírgulas insondáveis. Não gosto. E gostava da escrita de VPV porque era escorreita. Assim mesmo: escorreita e por vezes com termos esquecidos.
Há indivíduos que tem o condão de escrever coisas que agarram o leitor pelo modo como começam, continuam e acabam o escrito.  A minha última experiência nas leituras desse género de escritores é inglês e chama-se Nick Kent. Escreve sobre música rock e num livro já antigo mas que anda por aí nos escaparates da fnac- The Dark Stuff- e até se pode ler por aqui.

As poucas dezenas de páginas que escreveu há décadas sobre os Beach Boys e o seu líder Brian Wilson li-as de um fôlego por estarem numa escrita impecável e que agarrra o leitor.

Sobre VPV tenho os livros que escreveu sobre figuras históricas e não me parece assim tão apelativo. Obviamente preferia as crónicas pelo estilo e pelo conteúdo porque o segredo da escrita de VPV não se ficava pelo estilo de "escrever bem" mas principalmente pelo interesse no conteúdo.

Outra coisa que me deixou com pulga atrás da orelha foi a omissão de depoimentos de velhos  antagonistas em querelas de paróquia literária na província que se chama Lisboa.

Esqueceram tais obituários de referir dois nomes que se notabilizaram em tais disputas.

O primeiro é conhecido e continua a perorar na tv inanidades que nem me dou ao trabalho de ouvir com regularidade porque sempre que o faço deparo com tais incómodos para a inteligência comum.

Em Março de 2006 VPVvivia aparentemente com a jornalista Constança da Cunha e Sá ( outra que pura e simplesmente não consigo ouvir uma frase sequer)  e ambos meteram-se numa aventura perigosa de animar um blog- o Espectro que durou...uns dias, para grande frustração de quem esperava uma escrita ainda mais contundente e regular do autor.

O  Sol de muito pouca dura foi no entanto suficiente para isto que a visada escreveu no jornal com o mesmo nome, em 6 de Abril de 2007. O que então dizia de Sócrates e o que veio depois a dizer, define-a e não é nada agradável de ver.


O segundo é mais cómico porque revela um acinte que se manteve rancoroso, pouco saudável, eventualmente durante estes anos todos e já ocorreu em Novembro de 2007.

A revista Sábado de 29 de Novembro desse ano contava assim:



Continuando, com os jornais de hoje, Sábado:

No Sol há um obituário de José António Saraiva, no seu estilo inconfundível:


Ainda no mesmo Sol, um artigo mais desenvolvido ( quatro páginas) da autoria de Diogo Vaz Pinto dá conta de um aspecto desconhecido da personalidade de VPV e que se for verdadeiro é uma autêntica desgraça: diz que VPV descobriu a pobreza do país lendo o romance Esteiros de Soeiro Pereira Gomes, em 1953 ou 54 e que "estava lá em casa".


Terá sido então, quando VPV tinha já 12 ou 13 anos que "não levei muito tempo a aprender que havia "nós" e havia "eles"; os que conheciam e se importavam com Gineto e Gatinhas e os que não conheciam nem se importavam" e que tal descoberta terá sido um choque "ao saber da sua existência".

Se isto for verdade lá se vai metade da admiração para com VPV. Como é possível que alguém defina uma posição política duradoura, porque é disto que se trata, através da leitura de um romance em que se retrata uma pobreza  ficcionada em ambiente que não se conhece?  Como é possível compreender que pode haver uns "nós" e uns "eles"  apenas com base em argumentos de romance, manipulados para o efeito?  Como é que VPV não se deu conta da armadilha? Como é que não reconheceu que nada sabia das gentes do campo e da pobreza rural que é um engano ledo e cego? Como é que não conseguiu localizar a verdadeira pobreza que é afinal a do espírito?

Evidentemente VPV era criatura urbana cuja vida nesse tempo decorria enquanto "comia bifes e ia de autocarro para o liceu".

Uma pessoa assim, metida em tal campo de concentração urbana não pode saber o que era a realidade do campo, pobre, em que não se comiam bifes nem se ia de autocarro para lado nenhum, a não ser para as feiras locais, quando era possível, porque na maior parte das vezes nem havia autocarros para tal.
As deslocações habituais ou ocasionais da maioria das pessoas das zonas rurais, para as cidades, faziam-se a pé, por vezes em dezenas de quilómetros, ainda nos anos cinquenta.
E ninguém se queixava que havia os "nós" e os "eles".
Tais queixas, nos anos cinquenta e muito antes disso, faziam-nas os comunistas mas não por terem pena dos "eles".
Faziam-no para modificar a sociedade segundo planos e padrões que tinham vindo do marxismo esquerdista, o comunismo,  que existia nos países do Leste Europeu e entendiam como sendo o melhor sistema de organização política que existia à face da terra.
Por tal sistema desculparam e desculpam ainda milhões de mortos, de "eles", de perseguições políticas, campos de concentração onde metiam muitos milhares de "eles" e tentavam reeducar para serem como os "nós".
Por tal sistema aplaudiam a ausência de liberdade que criticavam por cá, nem vendo sequer a trave no entendimento em que tal consistia. Preferiam um totalitarismo mais severo e organizado que por cá nunca existiu mas se afadigaram e afadigam a promover como "fassismo".  Os livros correspondentes aos "Esteiros", escritos por autores locais não eram permitidos nesses países que lutavam contra o "fassismo". Aliás, os seus autores eram presos ou deportados para os campos e Sojenitsine era então o exemplo vivo disso.

Era nestas balelas  da "superioridade moral do comunismo" que VPV foi educado pelos progenitores que nelas acreditavam talvez piamente ou nem por isso.
E talvez por se dar conta de que talvez fossem mesmo balelas, VPV preferiu não se empenhar muito pelos "eles" e descobriu o hedonismo como modo de vida, durante algum tempo, o suficiente para a família o pôr a ferros educativos, reforçando-lhe a rebeldia natural com que terá nascido e que o terá salvo do sectarismo comunista para o qual estaria fadado.
Mas nunca se livrou do antifassismo primário contra Salazar, isso não que lhe ficou entranhado nas meninges.

VPV nunca compreendeu o que significa realmente esta imagem singela. Nunca. O autor dos Esteiros talvez, mas manipulou ideologicamente o entrecho para dar um contexto perverso. Onde é que estão aqui os "eles" e os "nós" se todos pertencem ao mesmo meio dos "eles", incluindo aquele que acantonaram nos "nós"?
Nenhuma destas pessoas era das que comiam bifes e iam de autocarro para o liceu, mas não eram pobres no sentido de "eles", mas sim no sentido que o autor dos Esteiros atribuía à expressão que não usou: classe. Que lutaria contra outra. Porque o que o Esteiros pretende significar é tal luta intrínseca em que acreditava o autor.


E muito menos esta que revela o que VPV nunca teve: uma fé.
Quem serão estas pessoas? "Nós" ou "Eles"? É esta uma resposta que os Esteiros nunca poderiam fornecer.


Para mim é espantosa esta revelação. Na mesma altura de idade em que VPV leu os Esteiros também o li, em 1971, numa edição de bolso da editora Europa-América e neste exemplar de Abril desse ano já bastante batido em alterações climáticas, com a patine da sujidade do tempo.


Porém, tal leitura fascinou-me pelo valor intrínseco da historieta e não me revelou uma pobreza que então me parecia comum e não era romanceada. Nunca foi por causa disso que o salazarismo foi posto em causa. Foi por outro motivo: poder. Tomar o poder e mandar em nome de um povo mítico que nunca lhes passaria mandato para o que queriam fazer.
A pobreza para estes "nós" era apenas um pretexto para enganar os papalvos aos milhões, como aliás têm feito com sucesso por vezes garantido e que acrescenta ainda maior pobreza à existente, o que prova o ponto de vista. 
VPV parece que não compreendeu isto, nunca. E leu tantos livros...

Ainda como obituário o Diário de Notícias ( ainda se publica...) tem um artigo de João Céu Silva, o antigo director do Dia D, do Público no tempo de José Manuel Fernandes ( enganei-me, não era nada disso, o João Cândido da Silva é que era)  e que revela a existência de uma série ( 43)  de entrevistas com VPV, entre Outubro de 2018 e Janeiro de 2020, provavelmente a serem publicadas.

O jornal publica a parte das entrevistas em que VPV falava da corrupção na sociedade portuguesa. Assim:


Não é um diagnóstico muito diferente do que se tem feito por aqui, no blog. Tudo começou com "a rapaziada de Cavaco Silva".  Dias Loureiro e aquele rapaz do BPN...

Como tenho material e importa recordar, fica para uma altura destas, tal lembrança de caras, factos e nomes.

Desde já e como tenho algumas coisas por aqui, soltas, fica esta entrevista de VPV a Cavaco Silva, na revista K de Março de 1992. Será que aproveitou a oportunidade de lhe dizer algumas coisas que depois escreveu sobre ele? É ler a entrevista de nove páginas...em que Cavaco diz que "sei o que a burguesia pensa de mim", se calhar julgando que era de classe distinta e que VPV pertencia à tal burguesia. Enfim, equívocos.



As Neves do CSM

CM de hoje:





O mais grave nestas notícias, quanto a mim aparece na caixa: "CSM discute caso na próxima semana".

Depois de se ter tornado um escândalo de proporções gigantescas que atinge a magistratura de modo grave, ao ponto de o presidente sindical dos juízes ter exigido uma sindicância de alto a baixo no sistema de distribuição processual em vigor, ou seja uma sindicância ao funcionamento do sistema Citius e não só, o CSM, órgão máximo e administrativo que gere a colocação dos juízes ( sim, também a deste que foi para presidente da Relação...) e exerce o poder disciplinar sobre os mesmos tem esta displicência: para a semana veremos...enfim é mais uma do CSM que é o órgão que fica sempre impune nestas matérias.
Nem sequer beliscam suas Excelências quando mandam autuar procedimento disciplinares logo na hora e mesmo antes de se conhecer publicamente o motivo, como sucedeu com a entrevista do juiz Carlos Alexandre a uma televisão.  E porquê? Entre outras coisas que o repórter capcioso destacou figura a declaração implícita de que os sorteios electrónicos via Citius permitiriam falcatruas a quem entendesse praticá-las. No TCIC, particularmente. E apesar de a entrevista ter sido gravada meses antes, todos se lembraram da distribuição do processo Marquês, com sucessivos erros até chegar ao "calhou-me a mim!".
Neste caso de perseguição pessoal ao juiz o procedimento foi tão célere que fez jus à fama do lucky Luke , mais rápido que a própria Sombra. Belo Morgado fez de cowboy, então. Mas nem sequer foi pelos bons motivos porque o CSM não mexeu uma palha para averiguar a correcção de tais distribuições supostamente aleatórias. Tudo ficou em águas de bacalhau, menos o processo disciplinar ao juiz.
Agora a reacção do CSM é apenas bovina, pachorrenta e "vamos lá a ver...", o que mostra bem a idiossincrasia da casa e o grande protagonismo que agora assume, sendo um órgão administrativo que se arroga a importância de julgar o poder judicial, como já aconteceu com o caso Neto de Moura.

Como o CSM faz parte do sistema que integra esta cúpula da magistratura, a presidência das Relações, sendo parte envolvida e interessada, será caso para prestar muita atenção ao que se passará terça-feira na sede da instituição e quem vai falar e votar decisões e em que sentido.

De resto o aspecto mais interessante de tudo isto nem são os fait-divers associados, como o abuso das instalações públicas para actos privados de arbitragem voluntária ou a acumulação de proventos com reformas em jubilação.

O mais interessante nisto perpassa nas entrelinhas deste artigo de Jorge Bacelar Gouveia no Público de hoje. Quem tiver olhos que leia; quem tiver suspeitas que suspeite e quem decifrar o mais importante que o faça. Espero que isto mostre a verdadeira face do sistema corrupto que existe, no seio da magistratura de topo. Transparência é tudo aquilo que esta gente execra, como se mostra na atitude do CSM. Hipocrisia e jacobinismo a consequência:


Veremos então se esta montanha tem mais neves...como a do kilimanjaro. Desde logo surge uma pergunta: que juízes jubilados exercem a actividade de árbitros? Como foram designados e para que tipo de acções? Quanto receberam efectivamente? Acumularam com a reforma? Que sistema está insituído entre os "pares"? Afinal, são várias perguntas...e espero que o jornalismo "do pente-fino" faça o seu papel.
Serei espectador atento.

A lição de Coimbra é italiana?

Do blog  Psicolaranja...e já com mais de uma dúzia de anos, o que significa que esta lista está muito desactualizada:






É verdade que os concursos para admissão de professores na universidade são públicos e que nenhum dos nomes expostos, aliás os maiores expoentes da universidade de Coimbra irá admitir sequer a ocorrência desse vício que é o nepotismo e a falta de ética.

Eppure...isto não deixa de ser vergonhoso e até indigno.

Por outro lado, estas coisas depois evoluem...


Desde Agosto de  2016, este filho de Figueiredo Dias era assessor do gabinete do presidente do Tribunal Constitucional, ou seja, de Costa Andrade, da Universidade de Coimbra...que fora eleito em Julho de 2016 presidente daquele órgão constitucional, para ganhar uma fracção do que poderia auferir com a parecerística avulsa.

O prestígio traz um novo "sistema de contactos", conceito muito lá de casa do professor Costa Andrade.

Em tempos que já lá vão, em que aqueles rebentos todos ainda estavam na incubadora universitária,  até discorria sobre tal fenómeno...e era assim:

LUHMANN faz intervir o conceito e a teoria dos “sistemas de contacto”. Que emergem e se instalam em relação aos diferentes sistemas (judicial, administrativo, político, económico, desportivo, etc) que têm de tomar decisões, no termo de um processo que, por suposição normativa, tem de ser organizado e conduzido segundo as exigências de diferenciação e autonomia face aos sistemas-ambiente.
Por exemplo, do juiz em relação às partes e nomeadamente aos advogados; da administração pública em relação aos interessados nas suas decisões como, por exemplo, os oponentes num concurso; dos governantes face aos agentes económicos, aos grupos de interesses, associações, organizações sociais, lobies, etc.
Há sistema de contacto quando agentes dos diferentes sistemas (vg., juiz/advogado, Ministro/empresário), esbatendo ou mesmo neutralizando as fronteiras da diferenciação e autonomia, criam entre si teias de amizade, compromisso ou confiança de que emergem expectativas comuns a suportar critérios generalizados para a solução dos “casos” que venham no futuro a colocá-los frente a frente.

Que saudades! Será que Costa Andrade se lembra desse tempo?

Extrema-esquerda: Ventura chega-lhes bem

Público de hoje: a extrema-esquerda não suporta o Ventura. É muito bom sinal...



quinta-feira, 27 de fevereiro de 2020

BES, Ricardo Salgado e os amigos das ocasiões

Será que alguma vez iremos entender isto no seu verdadeiro significado global?

Observador, hoje, artigo de João Simeão, ex-director adjunto do Montepio Geral:


Recuemos a Setembro de 2014, na altura do estouro do BES, notícia da TVI


Observador, 24 de Julho de 2019: a CVM a actuar...


Resultado da "actuação" da CMVM: três auditores saem da empresa de auditoria. Para outra qualquer...certamente.



E que mais? Só isto?! Bem...explica-se a seguir:

Em Dezembro de 2019 "actuou" um pouco mais:



E já em 2020 foi um pouco mais longe, como mostra esta imagem da Cofina...o rapaz dos óculos é o Francisquinho, filho de Proença de Caravalho. É um dos que conhece esta história toda, quase todinha. Mas não pode contar...



Ora então a CMVM "acusa". Pois lá isso acusa. E depois disso?

Vem estas notícias que são veiculadas por um blog, A voz da Razão:


Destas figuras da banca nacional que ali se retratam, alguns foram condenados pela CMVM. Mas não consta lá o nome de Ricardo Salgado nem o tal Tomás Correia de que se dá conta no excerto acima e que esteve nestas moscambilhas do Montepio... damn it! Porque será?

A CMVM esqueceu-se?

Quem é a CMVM? Está tudo aqui, o que se pode saber, claro:


Gabriela Figueiredo Dias? Sim, filha de Jorge Figueiredo Dias, o filho de um dono de tabacaria de Viseu que chegou longe na Universidade de Coimbra ( porque soube aproveitar as boas graças de Eduardo Correia, tal como escreve Teresa Beleza no artigo mostrado ontem)  e na política nacional do PSD do princípio e é um dos patronos da nossa lei penal actual. Tal como Costa Andrade, actual presidente do Tribunal Constitucional.

Isto é que é uma família alargada, de Coimbra!

Para além disso não há vida pública rentável, em Portugal, fora de alguns partidos. Quer dizer, fora do PS e do PSD. A prova? Ora, ora... não é preciso ir a Coimbra. Lisboa é que é!

Teresa Pizarro Beleza, um texto primoroso

É raro concordar com uma coisa escrita sobre as matérias de direito penal aplicado. Este texto de Teresa Pizarro Beleza, académica do Direito, exala uma inteligência rara e um conhecimento que me parece profundo, de tudo e não só de direito penal.
O perfil auto-biográfico da autora está aqui e revela um despojo de ademanes que poucos enjeitam. O perfil alheio revela que é feminista e do MDM, ou seja esquerdista.

 Contudo este texto de página no Público de hoje, mesmo com a catilinária contra o Chega, é suficiente para dar a perceber o problema que temos hoje no direito penal nacional: uma ausência de verdadeira discussão sobre aspectos fundamentais do que é o substracto do actual Código Penal e da idiossincrasia que o aprovou e legislou.

Muitas das dificuldades e perplexidades que se revelam nas decisões judiciais vêm daqui, de uma terra de ninguém que muitos juristas e magistrados julgam dominar e lavram a eito.

É ler para se acompanharem algumas questões: "Qual é o real efeito de agravação das penas para certos crimes? Ninguém sabe"; "qual a potencialidade da criação de novas penas para certos crimes? Resposta: ninguém sabe"; "qual é a razão pela qual existe a convicção generalizada de que as leis, e em especial as de natureza proibitiva ( a penal, por antonomásia), resolvem os problemas sociais, económicos, políticos? Resposta: sabemos alguma coisa, sobretudo da ciência política, da sociologia, da criminologia" . 
Nesta última questão é que reside a vexata, ou seja a espinhosa pergunta: se não sabe, porque o afirma?
A resposta, aliás, é dada pela autora: " no limite, a compreensão séria, funda, completa destes fenómenos é potencialmente "subversiva", porque embate de frente com muitas certezas, muitas crenças e muitas convicções políticas e de bom senso".

Ou seja, citando Frank Zappa: "Informação não é conhecimento; conhecimento não é sabedoria; sabedoria não é a verdade; verdade não é a beleza; beleza não é amor; amor não é música...música é o melhor que há“

Lembrei-me disto a propósito das apavs dos movimentos anti-racistas que vivem disso mesmo, das comissões de análise póstuma de crimes de género, etc etc.

A resposta a todas as perguntas está dada pela penalista: ninguém sabe. Pelo que a humildade seria a principal atitude de quem se arvora especialista e conhecedor, acima dos outros.


No jornal O Diabo de 21 de Fevereiro passado encontra-se uma espécie de resposta a algumas interrogações de Tereza Beleza, porque afinal o que redunda da escola de Direito de Coimbra que inspirou o Código Penal é um pouco isto: o culto de um valor acima do que deveria ser o real:


A aristocracia do Direito da Universidade de Coimbra que inspirou e criou o Código Penal e outras leis, deixou-se conquistar pelo dinheiro.
Em vez da corrupção de costumes adoptou uma forma mais perversa do vício: a corrupção das ideias vertidas nos instrumentos fiduciários que à míngua de outros adequaram ao efeito, impressos nos pareceres avulsos vendidos a preceito.
Tal prática corrente trouxe os devidos frutos: alguém se questionou já acerca dos lugares que alguns dos rebentos destes catedráticos ocupam na sociedade portuguesa actual e como lá chegaram?

Podiam começar pelos responsáveis directos do Código Penal. Para ser mais explícito, Figueiredo Dias que tem dois filhos bem colocados nas andanças jurídicas. Onde estão?

quarta-feira, 26 de fevereiro de 2020

Vitalino Canas promete isenção a pataco e imparcialidade por atacado

Observador:


Não fala com o arguido José Sócrates há anos...praticamente desde esta altura, em 2015:


A foto já foi devidamente escalpelizada em modo semiótico e de resto, jantares há muitos, seu Vitalino.

 Não sei bem porquê lembrei-me que esta fábula, tirada daqui, ficava bem aqui, como aliás já tinha ficado antes, também há uns anos:

A lebre perguntou à raposa:
- Que é que levas no teu saco, ouro ou mais uma peça? Pois teu nome significa lucro muito mais do que astúcia?
- Se queres saber - disse a raposa -, vem até minha casa, convido-te para jantar.
A Lebre acompanhou a raposa até sua toca: lá, não havia nada para jantar a não ser a lebre. Esta declarou:
- Como aprendi com minha própria desgraça, sei agora de onde vem teu nome: de tua astúcia e não de teus lucros.
Curiosidade além da conta é fonte de grandes desgraças.
(ESOPO - Século VI a. C.)

Vitalino promete agora isenção a pataco e imparcialidade por atacado. Como depois se verá, quando estiver na toca...

terça-feira, 25 de fevereiro de 2020

Carnaval, há 50 anos

O Carnaval de 1970 calhou na semana de 7 a 10 de Fevereiro. Revendo as revistas desse tempo o destaque foi moderado.

No dia 1 de Fevereiro publicou-se a Mundo Moderno, quinzenal e  que dava duas páginas ilustradas com motivos alusivos e sem grande interesse.


Outra revista de espectáculos- Rádio & Televisão- de 7 de Fevereiro de 1970 dava um destaque de "número dedicado ao Carnaval", com pouca substância dentro.

No interior, na parte dedicada ao assunto, estas duas páginas com um concurso de adivinhas e nada mais:


A programação de tv, detalhada, dos dias de Carnaval. Uma belíssima programação, ainda hoje:


No grupo de O Século, a revista Século Ilustrado era a estrela. No número saído em 7 de Fevereiro de 1970 nada a lembrar o Carnaval, mas tinha uma notícia interessante, sobre um leilão de arte em que foi arrematado por 1300 contos um quadro de Almada Negreiros, retratando Fernando Pessoa.
Entre os licitantes estava um conhecido defensor dos "gostos e interesses do industrial Jorge de Melo" mas não foi tão longe nos lances quanto um outro conhecedor do meio.

Assim, quem o arrematou por tal quantia exorbitante para a época, foi um comerciante de arte, um "marchand" de Lisboa, antiquário de origem russa e alemã, naturalizado português, fugido à Alemanha anterior à guerra,  Obviamente judeu mas não é dada tal informação pela jornalista que é Maria Antónia Palla, mãe do actual primeiro-ministro.

O que o mesmo diz sobre o mercado da arte a partir de então é interessante porque revela o espírito especulador que se veio a revelar certeiro e inevitável. Quanto ao autor, Almada Negreiros, então ainda vivo ( até tinha ido no ano anterior ao Zip-Zip) vendera a obra-prima, 16 anos antes a um tal Fernando Guisado, por...30 contos. e depois disso a Gulbenkian tinha recusado uma proposta de venda por 400 contos. O administrador da fundação devia ser o Perdigão. E o curador de arte um perdigoto.


Sobre este quadro poder ler-se aqui o seguinte que complementa a informação de que adquirente no leilão já tinha um comprador para o mesmo:

O banqueiro Jorge de Brito, que ainda em 1970 comprou a pintura a Mitnitzky no Salão de Antiguidades, doou-o anos mais tarde à Câmara Municipal de Lisboa, e actualmente pode ser visto na Casa Fernando Pessoa.

Em 1964, Almada Negreiros realizou uma cópia deste quadro, uma simetria do primeiro, que foi encomendado pela Fundação Calouste Gulbenkian.

Ambos os quadros representam Fernando Pessoa sentado num restaurante (discutido muitas vezes qual restaurante é, existindo como hipóteses: Irmãos Unidos, Martinho da Arcada e Brasileira) com o número dois de Orpheu sobre a mesa

A mesma Palla escreve sobre outro fait-divers: a morte do filósofo Bertrand Russel, o "filósofo da felicidade e da paz", obviamente um filósofo caro à esquerda utópica: "no cumprimento das suas ideias, colabora com todas as organizações que se propõem defender a paz mundial e ataca, intransigentemente, todas as manifestações imperialistas, sejam elas a intervenção dos Estados Unidos no Vietname ou da União Soviética na Checoslováquia."  Isto é da lavra da jornalista...que só não referiu a nossa "guerra imperialista" nas então províncias ultramarinas porque havia censura. Mas o recado estava dado...


Aliás, este filósofo de utopias esquerdistas era indivíduo muito estimado no grupo de O Século. No ano anterior, em 1 de Agosto de 1969 até tinha dado a capa, com foto do homenzinho tramado pelo símbolo hippie. No interior várias páginas consagradas à filosofia do indivíduo. Sem censura.


Era este o caldo de cultura mediática que originou o 25 de Abril de 1974 e parece que não haverá muitas dúvidas disso porque não havia contraponto para denunciar a verdadeira filosofia de Russell e os propósitos a que conduziria.
Tal contrapondo inexistente não se fazia mediaticamente porque a maioria dos órgãos de informação escrita estava nas mãos e mentes da ideologia das Pallas...nos olhos.

segunda-feira, 24 de fevereiro de 2020

Vitalino Canas para o Constitucional, já!

Polígrafo: 


Como indefectível apoiante de José Sócrates, a par de um Campos e outros Raposos, Vitalino Canas será uma imprescindível mais valia quando os recursos do apoiado forem distribuídos no palácio Ratton.
Há mais ratos, por lá...

Entretanto o assunto já atingiu o nível do bananal  para o CM de 26.2.2020. Está agora onde deve estar, no campo do ridículo:





A ciência social do racismo

No dia 15 de Fevereiro no Público houve um artigo de José Ribeiro e Castro que se referia aos fenómenos racistas na sociedade portuguesa.

Dizia então Ribeiro e Castro, além do mais e numa linguagem chã e desprovida de ademanes das ciências sociais:

Não dou, portanto, para o peditório dos que se entretêm a desenterrar o machado de guerra para resolver problemas resolvidos. Entretêm-se a incendiar ânimos, aplicando o modelo do marxismo cultural às relações inter-raciais. Não dou para o “mamadouismo-joacinismo”. Não aceito transformar Portugal num qualquer Alabama. Não pode entrar na nossa terra e sobretudo no nosso espírito a ideia de que somos colectivamente racistas, fomentando relações raciais de ódio e batalha. Este é um veneno que não podemos consentir, nem administrar.

Há bondade, humana e social, nas relações interétnicas, que devemos detectar, sublinhar, valorizar. Esse é o caminho, o discurso certo. Esse é o solo que queremos pisar. O luso-tropicalismo não é um negacionismo, nem conformismo; é uma promessa inscrita no melhor de cada um de nós. Além de me rever no olhar bondoso do luso-tropicalismo, considero-o uma ferramenta fundamental: um povo que tem de si mesmo a ideia de que não é racista vincula-se a não o ser, a reprimir tudo o que ofenda esse código ético e a levar sempre mais longe esse compromisso. É o que eu quero.


Hoje no Público, uma cientista social da celebrada casa de cultura do celebérrimo professor Buonaventura, de Barcouço, lá para os lados de Coimbra e que ostenta a placa dentífrica CES, acoitando-se nos anexos da universidade centenária, escreve sobre o assunto, assim, com uma pose de autêntica exploradora dos meandros da mente social e humana: 


Estas cientistas sociais passam anos a estudar a realidade passada do Estado Novo e produzem estes escritos, para fixar uma ideia já fixa: somos e fomos sempre racistas, particularmente nesse Estado Novo que aprimorou  de modo estulto a ocultação de tal evidência. 

A prova? O profundo estudo histórico-político no anexo do celebérrimo professor Buonaventura, insigne autodidacta e mestre doutorado em várias línguas e latitudes, principalmente na América Latina onde catedratizou durante anos. 

Tais estudos frutificaram e já rebentaram em vicejos deste teor, com poses catedráticas de teorias definitivas. 

No fim está a frase fatal: "Podemos passar à política?".

Então não podemos! Foi sempre esse o desiderato...

Outra vez Porter em causa