terça-feira, 18 de fevereiro de 2020

É o futebol, pá!

Desde que me lembro, o futebol fez sempre parte da vida mediática e os clubes, selecção e jogadores sempre estiveram presentes nos grandes acontecimentos desportivos que empolgaram os media nos últimos 50 anos, pelo menos, porque essas são as minhas memórias, sem as pedir emprestadas.
O que fazia um rapazito quando entrava para a escola primária, nos anos sessenta, no recreio? Para além do mais ( que ainda era bastante...) jogava à bola, uma bola qualquer. Faziam-se e desfaziam-se equipas, escolhiam-se os que jogavam melhor e esperava-se ganhar ao adversário, marcando golos.

A nível profissional não era muito diferente nesse aspecto fundamental e por isso se copiavam os modelos de acordo com a percepção  informativa.

Não havia pretos nem brancos, distintos por isso, mas apenas os que jogavam melhor ou pior. Em Portugal, nos anos sessenta havia um que jogava melhor que os demais e era preto. Chamava-se  Eusébio e está entre os heróis nacionais por causa de uns jogos com a selecção e do valor que tinha como artista da bola. Mais que herói, tornou-se mesmo um símbolo! Um mito, como então escrevi:

Eusébio foi grande jogador de futebol, um dos maiores de sempre e do mundo. Porém, a sua grandeza profissional manifestou-se na segunda metade da década de sessenta do século que passou, num tempo em que Salazar ainda estava no poder e depois, a partir de 1968, no tempo de Marcello Caetano.
Eusébio notabilizou-se por ter jogado muito bem no campeonato do Mundo de futebol de 1966. Não foi suficiente, porém, para vencer a Inglaterra e ficamos em terceiro lugar, num campeonato em que Eusébio marcou nove golos. Foi isto o tal resgate do "orgulho nacional"? Parece-me muito pouco e desproporcionado. Ronaldo, objectivamente, já fez mais e melhor, no campo dos jogos.
Na Selecção Nacional foi isso tudo o que contou para o mito e portanto temos apenas uma memória de 1966. Lembro-me de ver esse jogo- com a Coreia do Norte- e os que se seguiram. A equipa não era apenas Eusébio mas um grupo coeso que nunca mais fez qualquer brilharete do género durante anos a fio. Ao serviço do Benfica, nos anos a seguir notabilizou-se de igual modo, contribuindo para grandes vitórias do clube.
Eusébio foi por isso mitificado depois por causa de uma mística mítica e contraditória com o que então se escrevia sobre o regime anterior, que era apontado como “alienante” em função da “lenda dos três èfes` : Fátima, Futebol e Fado.
Se Portugal fosse um país com muito racismo, em 1966, Eusébio teria sido desvalorizado pela façanha de um jogo frente à Coreia do Norte que vi e muitos milhares de portugueses também viram, transformando Eusébio num herói para sempre, no colectivo imaginário de muitos e muitos portugueses. Até está no Panteão, ao lado de outro mito, esta do Fado, Amália Rodrigues.

Nos anos sessenta em que tudo isto ocorreu e que os posteriores mitificadores acusavam de ser uma época de obscurantismo e fassismo, os jornais de segunda-feira dedicavam páginas e páginas, até em suplementos aos acontecimentos desportivos, mormente ao futebol.

A prova nestas fotos de vários jornais- Diário Popular, A Capital e Diário de Lisboa- abrangendo os anos de 1969 a 1973.


E na RTP, único canal de tv então existente?

Havia "momentos desportivos" ao Domingo e Segunda-Feira. Meia-hora, em cada um, se tanto...

R&T 18.10.1969, em que se pode ver também o que era o rádio dedicado ao "desporto": Na Emissora Nacional e demais emissores, mesmo privados, uma tarde desportiva de "relatos" de que me lembro bem e fugia de ouvir, pelo cascar de emoções artilhadas pelos relatadores em voz corrida e insuportável.
Havia quem escutasse tais relatos em pequenos rádios a pilhas, já transistorizados, no início dos anos setenta, muitos vindos do Japão que então inundava o mercado com tais novidades, a preço convidativo, batendo a Philips e fabricantes alemães. Nunca suportei ouvir tais relatos que marcavam as tardes de domingo de muita gente, embora houvesse peritos na dicção rápida, como um Artur Agostinho ou mesmo um Fernando Correia, antes de aparecer um tal de ripanarapaqueca ou coisa que o valha. Assegurava muitas vezes que "é disto que o meu povo gosta!" E era...mas já faleceu e que Deus o tenha em bom descanso...


No ano seguinte, como mostra a edição da revista de 7.3.1970, o panorama era idêntico: meia hora ao Domingo e outra meia à Segunda-Feira. Durante a semana, nada mais.




Em 1973, como mostra a edição de 15 de Dezembro desse ano, continuava tudo na mesma, a tão propalada "alienação":


Resta dizer que a economia e desenvolvimento económico de então não permitiam a existência, como hoje, de uma "alienação" mantida diariamente a quase todas as horas da tv, nos canais por cabo destinados a tal e nos generalistas, aos Domingos e Segundas-Feiras à noite. Tudo a cores e muitas vezes em directos de horas e horas seguidas.

Nessa altura havia o célebre "trissemanário desportivo" que se intitula A Bola, talvez um dos poucos jornais que nunca comprei na vida e ainda um certo Record. No Norte, havia um Mundo Desportivo.

Eram estes os órgãos da tal "alienação".

Agora há isto:



Dois sentiram-se "uma merda"; o outro apenas humilhado...

No sítio do jornal do Porto, o Jogo, há declarações do presidente do clube, Pinto da Costa, um dos maiores incendiários do clima de guerra verbal no futebol nacional, cúmplice de vários incidentes com violência latente e explícita provocada por indivíduos de claque com nomes sonantes como "macaco".

O futebol é um viveiro de violência. Provavelmente será sempre porque é uma válvula de escape para muitas frustrações e muitos descarregam durante o jogo as pulsões latentes de violência, sobre os árbitros e jogadores.
Transformar tal coisa num fenómeno maior do que efectivamente é torna-se perverso, como se irá ver em tempos futuros.

Misturar política, causas ideológicas e violência é...isso mesmo: fascismo. Que estes media e komentadores avulsos agora promovem como se fosse causa digna de grande relevo.

É o futebol, meu grande estúpido! Meter o racismo nisto é aproveitar o que não deve ser aproveitado, para publicitar o que se deveria evitar.

Entretanto temos um primeiro-ministro no papel de pirómano...vai longe, assim como nesta imagem tirada daqui:


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