sexta-feira, 28 de fevereiro de 2020

A escrita polémica de VPV

Lendo os vários obituários acerca de Vasco Pulido Valente bem como as declarações de pessoas que o conheceram avulta uma opinião unânime: escrevia bem.

Porém, tal unanimismo é bem capaz de resultar de opiniões positivadas com o decesso do cronista, komentador e ensaista.

Hoje no Público aparece esta pequena crónica contra a corrente de tais opiniões:


Haverá aqui uma singela dor de cotovelo? É capaz porque esta escrita que fica aí acima é, como hei-de dizer, pouco apelativa e cheia de vírgulas insondáveis. Não gosto. E gostava da escrita de VPV porque era escorreita. Assim mesmo: escorreita e por vezes com termos esquecidos.
Há indivíduos que tem o condão de escrever coisas que agarram o leitor pelo modo como começam, continuam e acabam o escrito.  A minha última experiência nas leituras desse género de escritores é inglês e chama-se Nick Kent. Escreve sobre música rock e num livro já antigo mas que anda por aí nos escaparates da fnac- The Dark Stuff- e até se pode ler por aqui.

As poucas dezenas de páginas que escreveu há décadas sobre os Beach Boys e o seu líder Brian Wilson li-as de um fôlego por estarem numa escrita impecável e que agarrra o leitor.

Sobre VPV tenho os livros que escreveu sobre figuras históricas e não me parece assim tão apelativo. Obviamente preferia as crónicas pelo estilo e pelo conteúdo porque o segredo da escrita de VPV não se ficava pelo estilo de "escrever bem" mas principalmente pelo interesse no conteúdo.

Outra coisa que me deixou com pulga atrás da orelha foi a omissão de depoimentos de velhos  antagonistas em querelas de paróquia literária na província que se chama Lisboa.

Esqueceram tais obituários de referir dois nomes que se notabilizaram em tais disputas.

O primeiro é conhecido e continua a perorar na tv inanidades que nem me dou ao trabalho de ouvir com regularidade porque sempre que o faço deparo com tais incómodos para a inteligência comum.

Em Março de 2006 VPVvivia aparentemente com a jornalista Constança da Cunha e Sá ( outra que pura e simplesmente não consigo ouvir uma frase sequer)  e ambos meteram-se numa aventura perigosa de animar um blog- o Espectro que durou...uns dias, para grande frustração de quem esperava uma escrita ainda mais contundente e regular do autor.

O  Sol de muito pouca dura foi no entanto suficiente para isto que a visada escreveu no jornal com o mesmo nome, em 6 de Abril de 2007. O que então dizia de Sócrates e o que veio depois a dizer, define-a e não é nada agradável de ver.


O segundo é mais cómico porque revela um acinte que se manteve rancoroso, pouco saudável, eventualmente durante estes anos todos e já ocorreu em Novembro de 2007.

A revista Sábado de 29 de Novembro desse ano contava assim:



Continuando, com os jornais de hoje, Sábado:

No Sol há um obituário de José António Saraiva, no seu estilo inconfundível:


Ainda no mesmo Sol, um artigo mais desenvolvido ( quatro páginas) da autoria de Diogo Vaz Pinto dá conta de um aspecto desconhecido da personalidade de VPV e que se for verdadeiro é uma autêntica desgraça: diz que VPV descobriu a pobreza do país lendo o romance Esteiros de Soeiro Pereira Gomes, em 1953 ou 54 e que "estava lá em casa".


Terá sido então, quando VPV tinha já 12 ou 13 anos que "não levei muito tempo a aprender que havia "nós" e havia "eles"; os que conheciam e se importavam com Gineto e Gatinhas e os que não conheciam nem se importavam" e que tal descoberta terá sido um choque "ao saber da sua existência".

Se isto for verdade lá se vai metade da admiração para com VPV. Como é possível que alguém defina uma posição política duradoura, porque é disto que se trata, através da leitura de um romance em que se retrata uma pobreza  ficcionada em ambiente que não se conhece?  Como é possível compreender que pode haver uns "nós" e uns "eles"  apenas com base em argumentos de romance, manipulados para o efeito?  Como é que VPV não se deu conta da armadilha? Como é que não reconheceu que nada sabia das gentes do campo e da pobreza rural que é um engano ledo e cego? Como é que não conseguiu localizar a verdadeira pobreza que é afinal a do espírito?

Evidentemente VPV era criatura urbana cuja vida nesse tempo decorria enquanto "comia bifes e ia de autocarro para o liceu".

Uma pessoa assim, metida em tal campo de concentração urbana não pode saber o que era a realidade do campo, pobre, em que não se comiam bifes nem se ia de autocarro para lado nenhum, a não ser para as feiras locais, quando era possível, porque na maior parte das vezes nem havia autocarros para tal.
As deslocações habituais ou ocasionais da maioria das pessoas das zonas rurais, para as cidades, faziam-se a pé, por vezes em dezenas de quilómetros, ainda nos anos cinquenta.
E ninguém se queixava que havia os "nós" e os "eles".
Tais queixas, nos anos cinquenta e muito antes disso, faziam-nas os comunistas mas não por terem pena dos "eles".
Faziam-no para modificar a sociedade segundo planos e padrões que tinham vindo do marxismo esquerdista, o comunismo,  que existia nos países do Leste Europeu e entendiam como sendo o melhor sistema de organização política que existia à face da terra.
Por tal sistema desculparam e desculpam ainda milhões de mortos, de "eles", de perseguições políticas, campos de concentração onde metiam muitos milhares de "eles" e tentavam reeducar para serem como os "nós".
Por tal sistema aplaudiam a ausência de liberdade que criticavam por cá, nem vendo sequer a trave no entendimento em que tal consistia. Preferiam um totalitarismo mais severo e organizado que por cá nunca existiu mas se afadigaram e afadigam a promover como "fassismo".  Os livros correspondentes aos "Esteiros", escritos por autores locais não eram permitidos nesses países que lutavam contra o "fassismo". Aliás, os seus autores eram presos ou deportados para os campos e Sojenitsine era então o exemplo vivo disso.

Era nestas balelas  da "superioridade moral do comunismo" que VPV foi educado pelos progenitores que nelas acreditavam talvez piamente ou nem por isso.
E talvez por se dar conta de que talvez fossem mesmo balelas, VPV preferiu não se empenhar muito pelos "eles" e descobriu o hedonismo como modo de vida, durante algum tempo, o suficiente para a família o pôr a ferros educativos, reforçando-lhe a rebeldia natural com que terá nascido e que o terá salvo do sectarismo comunista para o qual estaria fadado.
Mas nunca se livrou do antifassismo primário contra Salazar, isso não que lhe ficou entranhado nas meninges.

VPV nunca compreendeu o que significa realmente esta imagem singela. Nunca. O autor dos Esteiros talvez, mas manipulou ideologicamente o entrecho para dar um contexto perverso. Onde é que estão aqui os "eles" e os "nós" se todos pertencem ao mesmo meio dos "eles", incluindo aquele que acantonaram nos "nós"?
Nenhuma destas pessoas era das que comiam bifes e iam de autocarro para o liceu, mas não eram pobres no sentido de "eles", mas sim no sentido que o autor dos Esteiros atribuía à expressão que não usou: classe. Que lutaria contra outra. Porque o que o Esteiros pretende significar é tal luta intrínseca em que acreditava o autor.


E muito menos esta que revela o que VPV nunca teve: uma fé.
Quem serão estas pessoas? "Nós" ou "Eles"? É esta uma resposta que os Esteiros nunca poderiam fornecer.


Para mim é espantosa esta revelação. Na mesma altura de idade em que VPV leu os Esteiros também o li, em 1971, numa edição de bolso da editora Europa-América e neste exemplar de Abril desse ano já bastante batido em alterações climáticas, com a patine da sujidade do tempo.


Porém, tal leitura fascinou-me pelo valor intrínseco da historieta e não me revelou uma pobreza que então me parecia comum e não era romanceada. Nunca foi por causa disso que o salazarismo foi posto em causa. Foi por outro motivo: poder. Tomar o poder e mandar em nome de um povo mítico que nunca lhes passaria mandato para o que queriam fazer.
A pobreza para estes "nós" era apenas um pretexto para enganar os papalvos aos milhões, como aliás têm feito com sucesso por vezes garantido e que acrescenta ainda maior pobreza à existente, o que prova o ponto de vista. 
VPV parece que não compreendeu isto, nunca. E leu tantos livros...

Ainda como obituário o Diário de Notícias ( ainda se publica...) tem um artigo de João Céu Silva, o antigo director do Dia D, do Público no tempo de José Manuel Fernandes ( enganei-me, não era nada disso, o João Cândido da Silva é que era)  e que revela a existência de uma série ( 43)  de entrevistas com VPV, entre Outubro de 2018 e Janeiro de 2020, provavelmente a serem publicadas.

O jornal publica a parte das entrevistas em que VPV falava da corrupção na sociedade portuguesa. Assim:


Não é um diagnóstico muito diferente do que se tem feito por aqui, no blog. Tudo começou com "a rapaziada de Cavaco Silva".  Dias Loureiro e aquele rapaz do BPN...

Como tenho material e importa recordar, fica para uma altura destas, tal lembrança de caras, factos e nomes.

Desde já e como tenho algumas coisas por aqui, soltas, fica esta entrevista de VPV a Cavaco Silva, na revista K de Março de 1992. Será que aproveitou a oportunidade de lhe dizer algumas coisas que depois escreveu sobre ele? É ler a entrevista de nove páginas...em que Cavaco diz que "sei o que a burguesia pensa de mim", se calhar julgando que era de classe distinta e que VPV pertencia à tal burguesia. Enfim, equívocos.



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