domingo, 28 de fevereiro de 2021

Um Ministério Público completamente partidarizado?

 A capa do Jornal de Notícias de hoje deveria suscitar interrogações e preocupações em quem se preocupa com o estado da democracia no nosso país, mormente com o pluralismo inerente e o equilíbrio razoável na composição dos vários poderes. Está em causa, notoriamente, um assalto ao poder judicial, condicionado de modo subtil por um Ministério Público amestrado às idiossincrasias da esquerda socialista e partidariamente centrada no PS. Nunca nenhum outro partido, nem mesmo o PS se atreveu a tanto como este de agora.

Em política o que parece tende  ser realidade e esta é tão evidente que até dói, pela falta de pudor e a exposição flagrante de uma pouca-vergonha só permitida pela indiferença da opinião pública perante este autêntico atentado ao Estado de Direito. Nem José Sócrates conseguiu ir tão longe...

Tem sido comentada ultimamente a circunstância de os nomes escolhidos para dirigir vários departamentos do Estado na área da Justiça serem pessoas afectas ao PS ou que tenham dado garantias de não incomodar o PS em casos sensíveis e conhecidos mediaticamente. 

Esta circunstância abrange as escolhas da titular da PGR, a actual Lucília escolhida pela cúpula do PS e particularmente a ministra da Justiça, também ela elevada curricularmente à categoria de juíza Conselheira do STJ; o director do DCIAP, Albano Pinto que já deu provas de não querer incomodar demasiado o poder político do momento, abrindo ipso facto uma brecha grave na autonomia interna de cada magistrado do MºPº; o presidente do tribunal de Contas, em tempos colaborador activo de certo poder político, no exercício das próprias funções de magistratura; a escolha do procurador europeu é outro facto triste e com os mesmos protagonistas em que se destaca um deles, de cabelo gominado e presença assídua nos programas da dona Lourença da RTP. 

Manuel Magalhães e Silva, advogado de entalados ilustres,  é o nome desta rosa pálida, com espinhos cravados no Ministério Público, para o ferir na sua mais profunda independência face ao poder político, através da manipulação subtil de nomes e escolhas cirúrgicas a preceito. 

Vejamos como se apresenta mais uma  manobra que me parece exemplar de uma certa corrupção no exercício de um poder a que o PS está intimamente associado.



O que se denuncia nesta notícia - se corresponder à verdade o que é denunciado - consiste na manipulação da legalidade vigente para atingir um objectivo premente e ilegítimo e é simplesmente a  prática de um crime de abuso de poder, segundo os critérios ultimamente seguidos pelo próprio Ministério Público. Senão vejamos:

Houve um concurso publicitado na estrutura interna do MºPº para se escolherem magistrados que coordenem as 24 comarcas do país. 

Houve a constituição de um júri de quatro elementos, escolhidos pelo CSMP.  Sabe-se que dois deles, pelo menos, acabaram por ser do PS e o mais velho era Magalhães e Silva,  raposa batida nesta actividade venatória. 

Foram apresentadas candidaturas dos interessados, com o respectivo currículo definido legalmente no estatuto, deste modo:


Artigo 162.º
Magistrado do Ministério Público coordenador da comarca

1 - O provimento dos lugares de Magistrado do Ministério Público coordenadores da comarca efetua-se de entre magistrados que exerçam funções efetivas como procurador-geral-adjunto ou procurador da República, estes com, pelo menos, 15 anos de serviço e classificação de Muito Bom ou Bom com distinção, por deliberação do Conselho Superior do Ministério Público, após apreciação curricular dos interessados.
2 - As funções previstas no número anterior são exercidas em comissão de serviço de três anos, renovável por igual período, podendo ser excecionalmente renovada por novo período de igual duração caso não exista outro candidato para a comarca em causa.
3 - O exercício de funções de magistrado do Ministério Público coordenador de comarca implica a aprovação em curso de formação específica.

É preciso dizer que este lugar de procurador Coordenador de comarca, criado no tempo da ministra Paula Teixeira da Cruz e na sua reforma judiciária passou desse modo a ser um lugar muito mais importante do que o de Presidente da própria comarca, conferido aos juízes, pela simples razão de que o MºPº é o titular da acção penal e o Coordenador do MºPº é o imediato superior hierárquico dos magistrados e departamentos do MºPº, como os DIAPS, espalhados por todo o país.

 Processo penal importante e que envolva figuras mediáticas ou com relevo político cai na alçada destes departamentos e o responsável máximo por tal, que por isso pode avocar procedimentos, distribuir processos e orientar investigações, para além de as fiscalizar nos termos da lei processual, ou seja no fim dos inquéritos arquivados,  é fatalmente o Coordenador. Os juízes nem cheiram estas competências avulsas assim atribuídas legal e estatutariamente no CPP e no Estatuto do MºPº.

Ora esta importância não passa despercebida a quem tem deste Ministério Público a noção de que deve ser um órgão submisso e respeitador de poderes de outra ordem, mormente política, como é manifestamente o caso deste PS. 

Assim, o momento de escolha destes coordenadores torna-se crucial para tal objectivo e quem escolhe é o CSMP, neste caso reduzido a uma comissão de alguns elementos em que se destaca aquele advogado sindicado pelo PS ao lugar e que foi fundador do partido- é preciso não esquecer tal circunstância. Por isso o mesmo se sente totalmente impune porque tem o poder de influenciar a punição de quem tenha a veleidade de o denunciar nesse papel...e nenhum magistrado vai dar o corpo a tal manifesto, publicamente e de modo assumido como tal.

Estas considerações não derivam nem de teorias de conspiração ou de procedimentos intencionais dirigidos ao indivíduo em causa, porque relevam apenas de atitudes e factos publicamente conhecidos e devidamente publicitados no passado. Manuel Magalhães e Silva é um comissário político do PS no CSMP. Ponto. Final.  

E por isso mesmo deveria ficar afastado destes procedimentos de escolha sensível de magistrados para ocuparem lugares-chave como são os de coordenação das comarcas. 

Deveria ficar afastado porque a sua designação para tais tarefas, ipso facto, implica que tenha o dever de cumprir o seu ofício que é o de representar o PS no órgão superior do MºPº e perante as suspeitas e denúncias públicas recentes e enunciadas em cima...o que parece acaba fatalmente por ser e se comprovar. 

É apenas o sinal inequívoco do realismo e nunca uma teoria de conspiração ou processo intencional. Um comissário político nunca actua sem ser nessa condição porque em caso contrário é corrido pelo comissionante, ou seja o Governo,  na primeira oportunidade. Manuel Magalhães e Silva é repetente nestas andanças e sabe o que a casa gasta.

É aliás Manuel Magalhães e Silva quem se põe sempre a jeito nestas circunstâncias...porque esteve no grupo reduzido que escolheu e graduou o procurador europeu e agora no dos coordenadores de comarca, para além de outros. 

O PS escolhe efectivamente quem lhe interessa para tais cargos públicos, mesmo com concursos públicos aparentemente blindados a tais influências e é aqui que reside o busílis destas questões e a subtileza de actuação do referido advogado e outros membros da classe política porque tal não é exclusivo do PS, diga-se. 

Será legítimo que um partido político possa escolher quem lhe agrada para ocupar lugares como os designados? É. Não devia ser, mas é. A única forma de evitar tal efeito seria o de impedir os comissários políticos de intervirem no procedimento de escolha, o que se revela difícil neste simulacro de democracia porque...estão lá exactamente para tal tarefa. 

Porém, existe uma condição não escrita: a transparência da escolha não pode contender com habilidades ou artifícios de chico-espertismo que se tornem escandalosamente públicas,  como foi o caso do procurador europeu, denunciado aliás nas instâncias europeias como similar a um procedimento fraudulento. 

E se para além da ausência de tal transparência avultarem outras circunstâncias manhosas como sejam a obliteração de regras legais ou a simples adopção de procedimentos atentatórios da legalidade, então o jacobinismo reinante impor-se-á contra os próprios porque foram eles que criaram o monstro ideológico vigente. 

Assim, no caso concreto importa verificar pontualmente e com todo o rigor possível como foi escolhido cada nome para o cargo de coordenador e como foram graduados e não graduados, excluídos. Quais os critérios seguidos, em concreto e se estavam de acordo com as prè-definições dos mesmos. 

Se além disso subsistir apenas a subjectividade do procedimento de escolha e selecção importa saber qual o critério de opção, para além da objectividade inerente. 

Na notícia do jornal dá-se conta que a escolha visou impedir pelo menos três nomes de ocuparem os respectivos lugares, indicando-se que presidiu a tal opção excludente a circunstância de se tornarem personae non gratae ao poder político do momento. 

A acusação explícita, na notícia, visa a exclusão de magistrados com "provas dadas no combate à corrupção" e que terão sido escolhidos candidatos com currículo inferior aos visados, ou sem qualificação admissível, numa repetição do que aconteceu com a escolha do procurador europeu. 

Será isto sindicável em termos penais e de modo a incluir estes procedimentos no âmbito da prática de crime de abuso de poder? Poderá efectivamente se tais suspeitas se confirmarem ou seja se a subjectividade da escolha contender com aqueles critérios de índole político-partidária como se tornou suspeito, agora publicamente.  

E as suspeitas existem...pelo menos num caso em que se prolongou o exercício do cargo a um procurador que já tinha exercido o mesmo durante duas comissões de serviço. É sabido na notícia que se trata do procurador designado para o Porto, a segunda comarca do país...

 Perante estas circunstâncias parece que deve ser aberto um inquérito pelo mesmo MºPº contra quem decidiu como decidiu, porque se for de outro modo, ou seja, com sindicância administrativa de tal actuação, com fundamento em ilegalidade sobra o motivo de tal e isso não se coaduna com o princípio da legalidade de actuação do MºPº. 

Por muito menos que isto o MºPº em várias comarcas já abriu inquéritos para apurar o crime de abuso de poder em concursos públicos, em que aparentemente todas as regras concursais foram respeitadas e sobrava a escolha subjectiva não suficientemente fundamentada...e até foram acusadas pessoas de tais factos e submetidas a julgamento...

Inquérito ou procedimento disciplinar, porque os membros deste júri e do CSMP neste caso não estão isentos do respectivo dever de imparcialidade e isenção, pelo menos, sendo muito lestos noutros casos, em instaurar procedimentos deste tipo a magistrados, apenas com ligeiras suspeitas e mediante denúncia, até anónima...

Portanto...vai ficar tudo em águas de bacalhau. 


ADITAMENTO em 1.3.2021:

O CM noticia assim o assunto:


Dá conta de três factos que por si só obrigam a instaurar um inquérito criminal porque os indícios são suficientes para tal:

"foi dispensada a audiência dos interessados, foi alterado o júri a meio do concurso, foi alterada a forma de decisão no dia da deliberação". 

Se isto dissesse respeito a um concurso público numa câmara municipal para admissão de suspeitos de serem apaniguados, o MºPº já estava a investigar e se apurasse tais factos acusaria pelo crime de abuso de poder. Já aconteceu em Portugal. 

Logo...talvez o bacalhau esteja com as barbas de molho.

sábado, 27 de fevereiro de 2021

Portugal, as diferenças na linguagem

 Há 50 anos, em Portugal falava-se outra língua, diferente de hoje. 

Em 1973, nas vésperas do golpe de Abril do ano seguinte a linguagem ainda era esta, clara, simples e que todos podiam entender.

É de Marcello Caetano num discurso em Aveiro, em Junho desse ano,  em que explicava o que entendia como sendo as liberdades fundamentais, o Estado Social e sua concepção de liberdade económica, a par de uma análise política que não se revelou acertada mas era adequada ao tempo. 

Afinal, o socialismo da Internacional Socialista de que o PS se reivindicava ainda tinha laivos marxistas, como se veio a revelar e por isso Marcello Caetano achava que seria sempre o partido comunista a tomar conta de tudo. O que aliás, não esteve longe de acontecer, no PREC...





Este discurso, quase com 50 anos tem sentido e actualidade nos dias de hoje, excepto no que se refere aos vaticínios acerca da voragem e inevitabilidade comunista que se desfez com a queda do muro de Berlim. 

Não obstante a linguagem que o esquerdismo socialista e comunista trouxeram à ribalta do país, aliás um mero prolongamento da que usavam já nas suas publicações, foi determinante para se organizarem ideias e conceitos que confundiram as pessoas e as "alienaram" daqueloutra linguagem simples, directa e clara que Marcello Caetano e os media de então, na generalidade usavam. 

Para se entender a diferença basta ler uma entrevista com Carlos Antunes, um dos fundadores do Partido Revolucionário do Proletariado-Brigadas Revolucionárias, ainda em 1972 e na clandestinidade porque era efectivamente perseguido pela DGS da época, por actividades subversivas. 

E que actividades eram essas? Vejamos pelo que o mesmo dizia em tal entrevista de 1972 a uma tal "Rádio Voz da Liberdade",  publicada depois em 1974 num livrinho sobre as "Brigadas Revolucionárias".



Este linguarejar em léxico marxista tomou a dianteira logo nas semanas a seguir a Abril de 1974, nas publicações periódicas. 

Também a linguagem parece simples mas o código é um pouco mais complexo e presta-se a outra forma de falar em que se especializaram os novos democratas, aludindo à liberdade cuja expressão é aliás explicada em sentido diverso do que Marcello Caetano dissera. 

É esta uma diferença fundamental que também o PCP partilha: a noção de democracia e liberdade não é a mesma porque também a liberdade burguesa se não compara à liberdade proletária, e ambos os termos são cunhados por essa esquerda. 

É por isso que ainda hoje o PCP proclama as "amplas liberdades" e a "democacia avançada", sendo entendido devidamente pelos que descodificam tais expressões marxistas mas  confundem voluntária e expressamente os que defendem a mesma coisa,  com outra dimensão, com remissão à noção de liberdades fundamentais enunciadas por Marcello Caetano claramente e sem tergiversações. 

O equívoco permanece até hoje e é fonte de diversas questões que separam a direita e a esquerda, mesmo a que se filia no socialismo dito democrático, ou seja, não comunista. 

Estas mesmas questões fundamentais colocaram-se em França aquando da corrida eleitoral de 1974 em que François Miterrand perdeu face a Giscard D´Éstaing mas tendo repetido em 1981, venceu a contenda e instalou um ambiente de incerteza político- social que teve grandes repercussões na altura. 

A França não tinha uma censura instituída como havia em Portugal ( embora tivesse censura de costumes efectiva) e por isso o comunismo, socialismo e diversas opções políticas associadas eram discutidas abertamente na imprensa, sem tabus. 

Por cá havia efectivamente um tabu, sendo aquelas declarações de Marcello Caetano enganadoras porque o assunto não se discutia abertamente como acontecia em França. 

Talvez por isso e como dizia o referido Carlos Cruz a politização da maioria das pessoas, em Portugal, mesmo instruídas, era incipiente para dizer o menos. 

Quem efectivamente estava politizado e de modo marxista eram os esquerdistas do PCP e do novel PS formado em 1973, lá fora, embora cá dentro pudessem ter concorrido a eleições nesse ano, optando por não o fazer precisamente por causa das divisões na esquerda. 

O PS de então e durante o ano de 1974 tinha uma linguagem nitidamente marxista e muito diversa daquela usada por Marcello Caetano. 

Basta ler o programa do PS em Setembro de 1973 tal como publicado na Revista do Povo de 15 de Junho de 1974:


A linguagem nada tem a ver com a usada por Marcello Caetano na mesma altura e assenta em conceitos marxistas, marcados e determinados. "Fascismo", "colonialismo", "capitalismo", "burguesia" "combate antifascista" "democracia burguesa" "alienação do trabalho" são conceitos marxistas e para cereja no topo do bolo até aparece escrito para que não haja dúvidas " considerando a revolução socialista soviética como marco fundamental na história da humanidade" e mesmo "caminhada para o socialismo". O delírio era portanto completo. 

Este mesmo PS e Mário Soares foram os que apareceram em 1974 como salvadores da pátria que era fascista e com eles deixou de ser...

Associando o PS ao PCP e todas as forças esquerdistas, nessa altura, o golpe de 25 de Abril de 1974 transformou-se rapidamente numa revolução porque quem o fizera, os militares do MFA eram gente da tropa e sem preparação intelectual nesse nível ou politização, com excepção de um punhado deles e destaque para Melo Antunes, já de esquerda e embebido por isso nesta linguagem, 

Não admira por isso que o texto de António Reis que publiquei em postal anterior tirado da Seara Nova de Maio de 1974, escassos dias após o golpe,  reflectisse  exactamente tal tipo de linguagem que passou a ser o modelo, o "standard" para o futuro. 



A primeira vez que me deparei com um texto cuja linguagem divergia daquela a que estava habituado a ler em Portugal, foi na revista Time de 5 de Novembro de 1973, num pequeno artigo intitulado "sonhos desagradáveis". Fiquei abismado...mas também não sabia quem era uma tal Martha de la Cal ou sequer quem eram mesmo as três Marias ( uma delas era do PCP e em matéria de costumes era de género sui generis como aliás o livro censurado mostrava bem)...porque nessa altura lia o Observador ( o original) e não trazia nada disto por lá, embora fosse publicação que não escondia ou censurava os problemas. Tinha era outra linguagem...e estas Marias não contavam para nada de especial. Nem deviam contar. 




Quem não tem cães caça com ratos e gatos fedorentos

 Duas crónicas dos jornais de hoje revelam a mesma estratégia do governo para combater a crise sanitária: havendo falta de meios democráticos usa-se o poder de imposição autoritário. Como somos pindéricos obrigam-nos a sê-lo ainda mais...



Se a maioria das pessoas percebesse isto que afinal é tão simples e ao mesmo tempo inconfessável, o Governo nunca teria a popularidade que tem.

quinta-feira, 25 de fevereiro de 2021

O boy ascensional

 Artigo de Fátima Bonifácio no Público de hoje sobre o "boy ascensional" de quem se fala: 


Quanto a este boy ascensional valerá a pena ouvir a letra e música de uma cantiga de um José Jorge Letria com o mesmo título fonético que se lhe aplica. Por isso quem entender pode mudar o y pelo simples...i. De imbecil, também, mas como isto é insulto fica rasurado aqui e sem intenção de publicação com tal carga pejorativa. Apenas qualificativa.  

O Público de hoje, 26 de Fevereiro, tem um desenho magnífico do grande ilustrador Nuno Saraiva que vale mil palavras e por isso fica aqui:



NOTA: apaguei o postal que coloquei a seguir porque me confundi na data da Sábado que mencionava um assunto que aqui aliás já foi tratado: a herança de Mário Soares. As minhas desculpas.

Os arautos da mudança mediática

 Em Portugal, nas vésperas de 25 de Abril de 1974 existia um largo sector mediático, de jornalistas jovens,  nos jornais, rádios e televisão que foram ganhando consciência política contra o regime vigente.

Através de influências várias, designadamente de colegas mais velhos e de propaganda intramuros dos partidos de esquerda, como o comunista e o movimento socialista, a linguagem noticiosa foi-se modificando e os temas escolhidos foram-se adequando ao que era o "trabalho a fazer".

Nesse amplo sector mediático destacava-se o papel desempenhado pelos meios de informação de algum modo ligados à Igreja Católica e sectores "progressistas", de alguma forma tolerados pelo regime do novo Estado Social, de Marcello Caetano. 

Um dos exemplos mais flagrantes de tal evolução começou com o programa de tv Zip Zip, em 1969, considerado inovador e animado por pessoas, mormente Carlos Cruz que nos anos vindouros iriam ter protagonismo muito importante no rádio e televisão e até nas redacções noticiosas, como já se viu.

O Zip Zip, em 1969 foi alvo da atenção da revista Flama, uma publicação que começara no final dos anos trinta, ligada à Igreja e à União Gráfica, empresa da Igreja Católica e que a partir de meados dos anos sessenta e até ao seu fim, em 1976,  foi dirigida por António dos Reis, pessoa ligada também à Igreja e que aliás tinha sido quase padre. 

Foi esta revista que abriu as portas da redacção a indivíduos que adulteraram depois a linguagem, adoptando o léxico esquerdista a todo o pano, com a máxima amplitudo no PREC. 

A pequena história da revista em uma dúzia de páginas fez-se por aqui, no ISCTE, a madrassa principal deste pobre país, totalmente ligada ao PS e à esquerda mais radical deste partido. 

Como lá diz, ocultando porém todo o resto, a revista, em 1972 foi comprada por accionistas privados e particularmente de bancos que acabaram por ser nacionalizados em 1975 e acabou em 1976 porque era já um produto medíocre, totalmente influenciado e manipulado por uma esquerda radical. 
Um dos últimos números, de 13 de Agosto de 1976, para além de mostrar à saciedade os efeitos da novi-língua  é bem o exemplo desta deriva fatal que levou à ruína e desaparecimento da publicação, até hoje: 




Ora esta revista foi precisamente durante os anos sessenta e setenta um dos principais veículos de emprego dos fautores da novi-língua, tal como a empresa ligada à Igreja o foi também, a Renascença e o rádio que tinha como locutores e noticiaristas indivíduos que foram depois os que se rebelaram contra a entidade patronal e fizeram greve de muitas semanas, em Fevereiro de 1975, em protesto por não os deixarem ser radicais livres de extrema-esquerda. 

Em Junho e Julho de 1969 deu duas capas ao Zip Zip e aos seus autores e novo ideário televisivo e de conteúdos. 
Tal como Carlos Cruz explicou na sua autobiografia foi o Zip que lhe foi dando "consciência de classe" ou pelo menos alertando para problemas sociais que o mesmo e os demais julgavam apenas poderem ser resolvidos pela esquerda, mormente comunista e socialista porque ainda não havia outra. Os demais, eram tudo da "direita", até hoje. 





Como se pode ler, o crítico de tv  ( no Diário de Lisboa) Mário Castrim, membro activo do PCP, era um entusiasta do programa...e a linguagem já não enganava ninguém e muito menos deveria ter enganado o pobre monsenhor Zezinando, em 1972, quando entrou a mandar.



A escolha do "estudante universitário" José Jorge Letria ( o celebrado autor do livrinho E tudo era possível, o que é verdade porque de facto tudo lhes foi facilitado, até hoje) já aparecia nas páginas da revista. Em 1969...porque era "cantor e compositor de baladas e antigo colaborador do Diário de Lisboa". E só tinha 18 anos...


Não obstante, na véspera de 25 de Abril de 1974 a linguagem usual na imprensa ainda não era a que veio a seguir. Tirando as publicações nitidamente de esquerda como a Seara Nova, era possível ler artigos em que a palavra "fascismo" ainda não adquirira a conotação semântica que o PCP e o PS lhe deram e adoptaram a seguir, com amplitude inimaginável. 

Na revista Flama de 6.4.1973 com uma capa consagrada ao artista Tordo, cantigueiro de festival e futuro intelectual de esquerda, na actualidade contestatário da "direita",  mesmo que seja social-democrata, o mesmo dizia assim, já influenciado pelo poeta da alta burguesia Ary dos Santos com quem aliás "comungava nas mesmas ideias": 




Neste mesmo número em que aparece a linguagem proto-esquerdista aparece também este texto sobre Juan Péron e o uso da palavra "fascismo" e da expressão "terceiro mundo" com semântica diversa da que veio a adquirir no domínio da novi-língua. 
O texto era proveniente de agências estrangeiras...no caso a FWF ADS ( agência dias da silva, a mesma que distribuía os livrinhos de cóbóis...) porque de outro modo nem existiria com estes dizeres. 


Quanto ao problema de base relacionado com a música e a qualidade de produção da mesma em Portugal,  o mesmo Carlos Cruz em entrevista à mesma Flama de 30.7. 1971 colocava os pontos nos ii, claramente e sem subterfúgios, numa linguagem original e ainda sem grandes resquícios da contaminação que viria a sofrer alguns anos a seguir. 
O problema, dizia, só se resolveria com a educação de quem ouvia e comprava discos, "com todas as implicações culturais e sociais que o problema traz":


Ora foram estes mesmos problemas culturais e sociais que tiveram influência com o que se passou durante o ano de 1974. 

Em 6.3.1971 a revista Século Ilustrado mostrava duas coisas: que a miséria no nosso país ainda era grande e que a revista gostava de a mostrar tal como era, com objectivos evidentemente políticos e de propaganda ao contrário. 


A ficha redactorial já não deixava enganar sobre quem eram os jornalistas que assim escreviam e escolhiam estes temas então "fracturantes"...e alguns deles eram exactamento os que vieram depois a colher a novi-língua comunista e socialista como se fosse a original língua materna. 
Maria Antónia Palla, por exemplo...e que é mãe do actual primeiro-ministro a quem deu certamente a mamar esta mistela linguística.



Em finais de 1973 o grupo editorial desta revista teve como director Manuel Figueira que lá ficou durante uns tempos e também dirigiu a Vida Mundial. 


Manuel Figueira não era e nunca foi adepto da novi-língua, motivo pelo qual não durou muito no lugar quando apareceu o 25 de Abril de 1974. 

Em Março de 1974 a tentativa de introdução da novi-língua ainda era combatida na revista, deste modo, por exemplo, numa crítica veemente a um livro de António José Saraiva, um esquerdista que depois de arrependeu:



Não obstante, em 10 de Maio desse ano Manuel Figueira ainda dirigia a Vida Mundial e por isso as notícias sobre certos assuntos ainda eram assim redigidas em linguagem jornalística escorreita e sem grandes concessões ao linguarejar esquerdista, aliás já espalhado nas redacções, mormente daquelas revistas e jornais. 




Como esta linguagem não interessava aos meninos jesus que então apareceram a prometer o natal sempre que um homem quisesse ou o bacalhau a pataco, Manuel Figueira foi corrido, com um agradecimento breve e de circunstância e em seu lugar ficou o que era director da Seara Nova, Augusto Abelaira, um escritor de livros que ninguém lê porque são ilegíveis,  como "o único animal que"...


Numa das páginas interiores pode ver-se claramente o sentido da mudança e a mutação de linguagem operada...


A mutação ainda era fresca e por isso incipiente. A seguir houve a invasão dos bárbaros radicais da esquerda. 

Veremos então como foi...e como aperitivo ficam mais meia dúzia de páginas da autobiografia de Carlos Cruz, precisamente sobre o período em causa e as personagens que participaram. Todas já  conhecidas e instruídas na novi-língua.
 




Ah! E de onda partiu o santo e a senha para o assalto ao poder que conferiu o direito de impor a novi-língua? Pois...além do Rádio Clube Português, com a voz do inefável Joaquim Furtado, já senhor do domínio total da novi-língua, partiu do Rádio Renascença, tal com aqui se conta:

A Rádio Renascença também teve um papel importante no triunfo da democracia. Manuel Tomaz, em conjunto com Leite de Vasconcelos, Carlos Albino e Marcel Almeida, da meia noite às 02h00, preenchia a antena com o programa “Limite”, procurando ser contundente e agitar a mentalidade dos cidadãos mais passivos. Os objetivos dos jornalistas, coincidentes com os dos militares, fizeram do “Limite” o espaço ideal para a transmissão da segunda senha da revolução. Agora sim, Zeca Afonso, com “Grândola Vila Morena“.

E quem é que lá estava também? Este:

Adelino Gomes, co-autor espontâneo da reportagem da Rádio Renascença no dia 25, considera que os jornalistas que transmitiram as senhas não sentiram muita emoção, porque sabiam muito pouco sobre o que estava a acontecer. “Ninguém lhes disse: Vais pôr uma senha porque vamos fazer um golpe de Estado”, explica. Foi o que aconteceu com Leite de Vasconcelos. “Nem ficou chateado, ficou só com pena que não lhe tivesse dito, mas percebeu”, descreve Manuel Tomaz.

Só não sei como o regime ainda não deu uma comenda ao dito cujo que tinha este trabalho a fazer, já deste 1971...

quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

E depois do adeus...ficamos sós.

 Na autobiografia de Carlos Cruz que tenho vindo a citar a propósito da mutação de linguagem na transição dos anos setenta para a "democracia" em que julgamos viver, aparece uma passagem reveladora de muita coisa, incluindo a tal mutação linguística. 

Diz o autor que vindo o tempo de Marcello Caetano este acabou por ceder a forças de direita conservadora a esperança de mudança anunciada no início, ou seja, em finais de 1968. E depois tem esta passagem: "Apesar da sua quantidade e maior ou menor violência, não havia medo na população que, em voz baixa, até aplaudia esses grupos ( LUAR, ARA, BR). A insegurança e o medo eram em relação à actuação da PIDE/DGS".

Isto parece-me extraordinário porque a ideia que tenho desse tempo que ainda vivi de modo a poder lembrar-me de tal, é a de que o terrorismo associado a tais grupelhos era execrado pela maioria da população e não o contrário. Talvez em certos círculos de Lisboa de que o autor fazia parte isso não ocorresse mas no país, como um todo, não me parece que tal seja verdadeiro, de todo em todo. 

As "conversas em família" de Marcello Caetano por vezes davam ênfase a tais fenómenos de expressão extremista e terrorista e não me parece que tal fosse visto como desfasado da realidade e sinal de decadência do regime, antes pelo contrário. 

Por isso mesmo tal afirmação do autor revela dessa forma como é que a linguagem se alterou, aos poucos e chegou até 1974 já modificada, nos media em geral, ou seja nos jornais principais. 

Já em 1974, no Rádio Renascença, tentou-se a censura de textos noticiosos no horário da noite, por determinação de monsenhor Sezinando Rosa, designadamente no sentido de as notícias serem dadas sem comentários.

Entre 1972 e 1974 o panorama radiofónico e jornalístico não se alterou substancialmente e os nomes sonantes continuavam a ser os mesmos e aquele Carlos Cruz assumira responsabilidades de promoção dos discos da editora de Arnaldo Trindade, do Porto que promovia artistas de canções populares e sem pretensões. A grande aspiração de Arnaldo Trindade, nessa altura era ser representante dos electrodomésticos Philco...

Juntamente com José Niza ( muito politizado e que tinha sido mobilizado para a guerra no Ultramar, depois ligado o PS), José Calvário, Carlos Mendes ( igualmente de esquerda) fizeram Festa da Vida e ganharam o festival da canção de 1972, em nome da etiqueta Orfeu, de Arnaldo Trindade. 

Depois disso em 1973 apareceu na televisão e da responsabilidade do mesmo autor,  o programa Disco&Daquilo que era uma espécie de lufada de ar fresco musical, precursor dos programas futuros de telediscos, da MTV e afins e superior ao Do La Si ou mesmo ao Semibreve, dedicados ao mesmo tema da música popular. Lembro-me bem de ansiar por ver cada um dos programas e as novidades musicais apresentadas. 

Na emissão de 18 de Dezembro de 1973 os nomes eram...sempre os mesmos, já conhecidos antes: Dinis de Abreu, Luís Villas-Boas ( dos festivais de Jazz de Cascais), Nuno Martins, Paulo de Carvalho e agora... Mário Viegas.


O nome de Mário Viegas é importante neste contexto por causa do seguinte relatado naquele livro: 




Para além deste "diseur" e "poseur" havia outros, como este, aqui em Dezembro de 1971, também já promovido pelo programa de rádio 23ª Hora e que dizia poesia, por exemplo de Manuel Alegre, então refugiado em Argel e de onde apelava á revolta de portugueses na guerra de África, num exercício de patriotismo muito sui generis. 



Ora quem é que acolheu logo no início dos anos sessenta, este diseur de poesia tão progressista no rádio? A Renascença, pela mão de monsenhor Moreira das Neves!

Outra figura inevitável destas andanças do rádio e das canções novas de festival era este melro que passou a apresentar várias músicas ao longo dos anos e a promover ideias de esquerda, igualmente, tal como mostrado aqui pela R&T em 31.7.1971.

Pedro Osório, músico de créditos firmados tinha concorrido ao festival em 1968, 1970 ( Corre Nina, com Paulo de Carvalho) 1972 ( música de Vamos cantar de pé, com Paco Bandeira) e diversas orquestrações :




Como se pode ler Pedro Osório trabalhava nessa altura para participar noutro festival, neste caso da Guarda, uma subespécie do género nobre que se apresentava todos os anos na RTP. 

Este festival da Guarda era mal visto na época como resulta da caricatura ( ZéManel) da última página da revista nesse mesmo número em que se dá "vassourada" no estilo musical representado por exemplo por um Paco Bandeira que já tinha ganho notoriedade com o "Ó Elvas" ou seja "A minha cidade", uma belíssima música, por sinal: 


Este género de dicotomia em que a pretensa qualidade se opunha ao cançonetismo piroso ainda era tema nesta altura mas já vinha de trás. 

Em 7 de Março de 1970, Toni de Matos, um dos representantes lídimos do cançonetismo dava assim esta entrevista muito realista ainda nos dias de hoje e que até José Cid tinha de algum modo sufragado, no tema essencial, como atrás de mostrou.



O paradigma do bom tom e do bom gosto era antes este, publicado na edição de 14 de Março de 1970. Manuel Freire referia-se ao meio cabotino que era então o predominante, em que um programa de tv como o Zip Zip desencadeara um movimento cultural: 



Um dos que ajudou a superar tal dicotomia ainda nos anos setenta foi um actor e músico que estava em França, fugido à guerra do Ultramar e que viria a dar muito que falar por causa da linguagem das suas canções. Mesmo em 1971 Sérgio Godinho já dava que falar, à R&T de 16 .10.1971.

O disco que iria lançar nesse Outono seria um e.p. contendo Romance de um dia na estrada e o dj do Página Um, José Manuel Nunes, alvitrava que era "o anúncio do novo figurino da música portuguesa neste Outono". E era. 



A partir dessa música saiu depois, no ano seguinte,  o primeiro lp, Sobreviventes cuja primeira música tem como tema Que força é essa...que trazes nos braços e começa com o verso "vi-te a trabalhar o dia inteiro, a construir as cidades para os outros...", alusões aos operários emigrados e que ainda hoje servem de hino a comícios do Bloco de Esquerda. 

A mutação da linguagem começou assim a ser notória. O disco foi proibido por causa dessas e de outras mas depois foi autorizado e ficou a linguagem que se exasperou em 1975  de um modo radical e que perdura. 

Em 1973 saiu um número da revista Seara Nova então dirigida por Augusto Abelaira ( que viria a ser director da Vida Mundial depois do 25 de Abril de 74) em que a linguagem evolutiva já é notória.


Num artigo de três páginas sobre o jornalismo e a linguagem já lá estão quase todas as palavras mágicas que viriam a ser pedras de toque em toda a imprensa e notíciários dali a pouco mais de um ano.

Uma definição avulta, além do mais: "informação neutra é informação que não divide" e a análise da informação em geral ainda hoje se torna interessante e útil: 




O texto apresentado mostra bem o que sucedeu no panorama da imprensa portuguesa através dos exemplos concretos expostos e ao modo de redigir notícias. 

Hoje em dia este texto é mais actual que nunca...e as últimas palavras do ideológo do actual Bloco de Esquerda, João Martins Pereira, são bem explícitas.

 A prova? Está nesta capa da mesma revista logo em Maio de 1974: 


A imagem ainda é demasiado "neutra" uma vez que só aparecem pancartas dos sindicatos, mas lá ao fundo já aparece a designação de "guerra colonial", coisa nunca vista até então em manifestações públicas ou linguagem corrente nos media- tv, rádio ou jornais. 

Por outro lado o glossário completo aparece em duas páginas interiores e pela pena de um certo António Reis, um mação de Mação que integrava o PS e que tomou logo conta da RTP. 

Vale a pena ler porque está aqui todo o fraseado e palavreado que tomou conta da imprensa dali para a frente. 

O verdadeiro dicionário da novi-língua é este e nem sequer vem de um comunista...tendo surgido antes das bandeiras e de todo o folclore do esquerdismo nascente. 



Com estas imagens começa outro tempo e outra linguagem. 


Os escombros do apocalipse