O cantor Fernando Tordo saiu para o Brasil ( está bom tempo por lá, agora...) e o filho que escreve livros escreveu-lhe uma carta que já é aberta e com significado mediático.
Ontem, as tv´s deram voz e imagem à carta e ao autor e este disse uma imbecilidade: a culpa do pai sair, emigrado para o Brasil, é da austeridade. E ainda outra: "os nossos governantes têm-se preparado para anunciar, contentíssimos,
que a crise acabou, esquecendo-se de dizer tudo o que acabou com ela. A
primeira coisa foi a cultura, que é o património de um país."
Por outro lado, a carta tem uma passagem que merece reflexão e respeito porque é assim mesmo:
"Eu entendo o desamor. Sempre o entendi; é natural, ainda mais natural
quando vivemos como vivemos e onde vivemos e com as dificuldades por que
passamos. O que eu não entendo é o ódio. O meu pai, que é uma pessoa
cheia de defeitos como todos nós – e como todos os autores destes
singelos insultos –, fez aquilo que lhe restava fazer."
Tem muita razão o filho de Fernando Tordo, João que até escreve bem. E ganhou a minha simpatia com essa passagem, porque eu também não entendo o ódio ( palavra que detesto porque importada no significado).
Sobre o cantor Fernando Tordo mais haveria para dizer e é para já.
No final de 1973, ou seja há quarenta anos surgiu no rádio uma cantiga fantástica e diferente do que ouvira até então. Chamava-se O Café, tinha letra de Ary dos Santos e a música era de Fernando Tordo que a cantava também e de um modo impressionante. A letra, sarcástica, tinha piada e para mim é das melhores cantigas da pop portuguesa, de sempre.
Fernando Tordo já dera sinais de si desde 1969 e em 1971 cantara Cavalo à Solta no festival da Canção da RTP, acontecimento sempre marcante no ambiente cultural da época. Em 1973 cantara no mesmo festival a célebre Tourada, capa da Flama de 6 de Abril desse ano.
Tordo, então com 24 anos já sabia o que a casa portuguesa gastava em matéria de música e por isso dizia candidamente à revista o que agora já esqueceu: o mercado da música em Portugal é pequeno para tanta gente..."no entanto desde que as pessoas se disponham a trabalhar muito ( gravando díscos e participando em espectáculos) podem conseguir um pequeno rendimento para sobreviver. É o meu caso."
Quer dizer, nessa altura não se lembrava de deitar culpas ao Estado pelo mercado ser pequeno. Agora, parece que a culpa é da "austeridade"...
Fernando Tordo, depois do 25 de Abril de 1974 associou-se aos camaradas que já entendiam antes que a canção era uma arma. Em 1978 fugiram da prisão de Alcoentre, onde se encontravam detidos por serem "fascistas", 89 "pides", ou seja agentes da DGS, uma polícia do regime anterior. Tordo fez então uma canção panfletária que soava no rádio como uma anedota. "Que se passa? Então isto não é uma ameaça? " Era, porque os tempos estavam a mudar e o PCP perdia influência política.
Segundo escreve o filho, Tordo está afastado de tais actividades: "associam-no à política, de que se dissociou activamente há décadas
(enquanto lá esteve contribuiu, à sua modesta maneira, com outros
músicos, escritores, cineastas e artistas, para a libertação de um povo)".
Afastado estará. Esquecido, não. Melhor esclarecido, duvido.
Portanto, resta-nos sempre um magnífico tema para ouvir, por exemplo aqui, de onde copiei a letra:
O Café
música Fernando Tordo, letra Ary dos Santos (1973)
Chegam uns meninos de mota,
Com a china na bota e o papá na algibeira
São pescada marmota que não vende na lota
Que apodrece no tempo e não cheira
Porque o tempo
É a derrota
Chegam criaturas fatais
Muito intelectuais tal como a fava-rica
Sabem sempre de mais,
Escrevem para os jornais com canetas molhadas na bica
E a inveja (sim, a inveja!)
É quanto fica
Como quem está num chá dançante
Duas velhas de penante depenicam uma intriga
Debicando bolinhos vários
Dizem mal dos operários que são a espécie inimiga
Chegam depois boas maneiras
Com anéis e pulseiras e sapatos de salto
São as bichas matreiras que só dizem asneiras
Sâo rapazes pescado do alto
E o que resta
É pó de talco
Chegam depois os vagabundos
Que por falta de fundos não ocupam a mesa
Têm olhos profundos,
Vão atrás de outros mundos que pagaram com sono e beleza
Mas o troco
É a pobreza
Chegam finalmente os cantores
Os que fazem as flores neste mundo de gente
São os modernos trovadores
Que adormecem as dores numa bica bem quente
Como quem está num chá dançante
Duas velhas de penante depenicam uma intriga
Debicando bolinhos vários
Dizem mal dos operários que são a espécie inimiga
Chegam depois boas maneiras
Com anéis e pulseiras e sapatos de salto
São raposas matreiras que só dizem asneiras
Sâo rapazes pescado do alto
E que resta
(Evidentemente que é) Pó de talco
Chegam depois os vagabundos
Que por falta de fundos não ocupam a mesa
Têm olhos profundos,
Vão atrás de outros mundos que pagaram com sono e beleza
Mas o troco
É sempre a pobreza
Chegam finalmente os cantores
Os que fazem as flores neste mundo de gente
São os modernos trovadores
Que adormecem as dores numa bica bem quente.
Para terminar: Tordo é um grande artista da canção nacional, sans blague. Tem uma voz com um timbre magnífico que me lembra no feminino a cantora Tonicha e canta muito bem, temas sempre interessantes e com músicas ainda mais.
É pena que não consiga viver bem de canções, em Portugal, mas como dizia em 1971, "o mercado é pequeno". E nada mais. A não ser isto: em 1973, em pleno "fascismo" o mercado ainda era mais pequeno, mas Tordo tinha audiência e era capa de revistas.
Quarenta anos depois, a qualidade artística manteve-se, mas quem faz as capas de revistas são outros artisticamente bem piores. De quem é a culpa? Do mercado... porque a cantiga deixou de ser uma arma contra a burguesia e a cultura é panorama muito mais vasto do que alguns entendem que deve ser. Quem deixa de ser figura do mercado deve procurar saber porquê.
Às vezes nem é por nada a não ser por moda que é coisa intangível e fugidia, como o aroma agradável de uma bica nem quente.