segunda-feira, 31 de dezembro de 2018

Informação falsificada, em Portugal

CM, 28.12.2018:



Costumo comprar, agora e regularmente, o Correio da Manhã. O que leio é notícias rápidas sobre o dia a dia do país, em ocorrências de fait-divers, acidentes vários, artigos de primeira página que resumem sempre assuntos por vezes com interesse, outras vezes nem tanto. Leio as croniquetas em coluna, mesmo as dos mações arregimentados, por vezes na judicatura ( Pedro Mourão) ou na sociedade civilizada ( Rui Pereira) e até gosto de ler a coluna infame de João Pereira Coutinho, na última página.  E adoro ver e ler o Bananal, porventura a melhor página humorística da imprensa portuguesa, actualmente. E nem sei quem seja o autor ( Será o Quintela?)
Aprecio as notícias sobre os media e até outras que aparecem sem contar. Sobre política em geral  ou governamental em particular, o jornal não arrisca grande coisa nem faz disso casus belli, como o fazem outros, geralmente para sufragar o governo que está.  O jornal é um repositório de factos da vida corrente do país: acidentes, desgraças, tragédias, não escapa uma, seja onde for. E contadas com o rigor jornalístico exigível, pela rede de correspondentes do jornal em todo o país. Melhor informação que esta,  sobre estes temas? Só o Jornal de Notícias do Porto que se reporta mais ao Norte do país.

Hoje a primeira página do jornal CM traz uma historieta sem interesse por aí além: o assunto de um prémio do Euromilhões disputado por três irmãos de Vila do Conde. O prémio tinha saído ao pai, este morreu menos de dez anos depois e a fortuna dos milhões está agora em discussão no tribunal e já no de recurso. Pertencerá o direito apenas a um dos filhos, como decidiu já a primeira instância,  ou dos três em conjunto? Who cares, para além dos próprios?
Que é que isto interessa a alguém? Vá-se lá adivinhar os critérios jornalísticos...mas suspeito que será a exploração pura e dura de um certo voyeurismo, tal como as notícias sobre uma tal Rosa Grilo que terá assassinado o marido em conjunto com um  suposto amante e tal deu assunto de notícia durante meses, incluindo a CMTV, onde o mestre Rui Pereira já gastou largos minutos a perorar sobre tal assunto que lhe deve interessar tanto como a última camisa que vestiu. Mas...pagam-lhe para se interessar e não deve ser pouco porque não se faz rogado. É este também o domínio da repórter Tânia Laranjo e outros e pelos vistos rende à Cofina lucros que lhe permitem este score, anunciado ali em cima: mais de oitenta mil exemplares por dia, do jornal e esta do dia 21 do corrente:



Lá em cima, o CM aparece em primeiro lugar, logo seguido pelo Expresso, mas aqui em baixo a diferença é muito maior, em audiência bruta.
Se o CM não me parece ser fonte de notícias falsas, o Expresso é uma das principais fontes de notícias falsificadas do país. O conformismo redactorial do semanário e  dos seus directores, empresta um teor de falsidade a uma realidade que o jornal encobre sistematicamente. E isso há décadas. Quem percorre os números do jornal desde o seu lançamento em Janeiro de 1973 não conseguirá compreender o país que somos a não ser em fatias diacronicamente separadas da realidade histórica e muitas vezes desligadas da realidade pura e simples. O tempo de PREC de 1975 é um bom exemplo disso. Nunca o Expresso fez uma coisa que a revista francesa homónima capeou assim em 10.2.1975, mostrando uma realidade que o país então experimentava. A revista tinha um subtítulo na legenda da imagem, da autoria de Antoine Loisel, um pensador do Direito francês- "quem pode e não impede, peca por isso". O Expresso podia impedir a progressão do comunismo e socialismo mas não queria impedir assim tanto. Tinha lá como redactor principal o actual presidente da República...:


Para conhecer melhor o que foi o país é preferível ler O Jornal, também publicado desde Maio de 1975 e que durou algumas, poucas décadas, pelo menos as que abrangeram as duas bancarrotas , de 1976 e 1984.
Percebe-se melhor a realidade do que foi o país nessa época, com O Jornal do que com o Expresso, apesar de aquele se situar numa esquerda socialista e este numa direita social-democrata.

Quanto à televisão, primeiro pública e depois as privadas também, não será possível ir muito além disto que escreve Eduardo Cintra Torres no CM de ontem: As tv´s generalistas perdem audiências e aldrabam nos números de espectadores. Falsificam estatísticas e números, portanto.



 Quanto ao Governo, particularmente o primeiro-ministro, a ideia básica pode muito bem ser esta que o cronista do Observador, Alberto Gonçalves escreveu há dias ( Sábado passado) : "Portugal é uma notícia falsa".

Embora o artigo seja um ajuste de contas algo torpe com o director da revista Sábado, Eduardo Dâmaso,  que o despediu de cronista há pouco mais de um ano atrás,  a verdade é que o denunciado conformismo da Sábado confunde-se com o do Expresso: situam-se sempre no contexto e sobrevivem no meio. E o que noticiam soa a falso porque a realidade paira algures mas não na redacção do que escrevem.

E não se vê quem seja capaz de sair desse círculo vicioso de conformismo. De facto,  o jornalismo em Portugal está naufragado nesse pântano. A Sábado, do grupo a que também pertence o Correio da Manhã é apenas mais um sintoma.

Um exemplo oportuno de informação, em Portugal:

O presidente brasileiro de extrema-direita Jair Bolsonaro prometeu esta segunda-feira que vai erradicar o que entende como "lixo marxista" em que se tornaram as instituições de ensino no Brasil.

"Uma das nossas metas para tirar o Brasil das piores posições nos 'rankings' internacionais sobre educação é lutar contra o lixo marxista que se instalou nas instituições de ensino", disse o capitão da reserva do Exército Brasileiro, numa mensagem publicada no Twitter, na véspera da tomada de posse como novo presidente do Brasil.

O líder de extrema-direita, polémico pelas suas declarações racistas e homofóbicas, acrescentou que o objetivo do Ministério da Educação "será avançar na formação de cidadãos e não na de ativistas políticos".

Para Bolsonaro, a presença do Brasil nos últimos lugares dos rankings desenvolvidos por organizações internacionais como a OCDE é o reflexo das políticas do Partido dos Trabalhadores (PT).


Este dislate informativo- o presidente brasileiro é  líder de extrema-direita, polémico pelas suas declarações racistas e homofóbicas, como toda a gente sabe. E quem não sabe fica a saber com  a opinião dest@ jornalista que nem assina o que escreve para que outros lhe possam dizer que não passa de uma idiotice desinformativa. Vem no Sapo24...

domingo, 30 de dezembro de 2018

Os comunistas, "homens bons" que queriam ser torcionários


Repare-se neste anúncio do Público de ontem:


E a sequência de hoje:




E esta página deliciosa sobre Domingos Abrantes, o fóssil comunista mais notável,  ainda em vida.


Durante décadas Portugal, os media em geral e a opinião pública assim condicionada, concedeu aos comunistas e socialistas o privilégio da exclusividade do discurso sobre Salazar e o Estado Novo. O melhor exemplo desta aberração democrática é Fernando Rosas, o sobrinho do ministro de Salazar e Caetano que virou esquerdista, radical, foi membro clandestino do PCP, preso, depois de 1968 ajudou a fundar o MRPP, um partido surrealista e agora colocou-se sob a albarda de um partido radical marxista, o BE,  e perora sobre história à maneira que entende: propaganda anti-salazarista, sempre.


O jornal Público dá voz a estas pessoas, desde sempre e tem a partir de hoje páginas e páginas em três reportagens dedicadas aos comunistas que estiveram presos no forte de Peniche. Presos políticos porque foram condenados por actividades subversivas contra o país que então tinha um regime- Estado Novo- que proibiu actividades comunistas, particularmente do PCP que era partido proibido e portanto clandestino, desde a sua fundação.

O jornal Público sempre foi um jornal esquerdista, de pendor anti-salazarista e anti-fascista, nos termos em que os comunistas e socialistas definiram tal noção que associava Salazar ao fascismo em geral. Debalde se procurará demonstrar que Salazar nunca foi fascista e o Estado Novo também não.  O Público nunca abandonou ou questionou tal noção porque os respectivos directores, sucessivos, deveram sempre qualquer coisa a esse antifassismo primitivo, seja pelas suas experiências pessoais, seja pela dos antepassados ( caso da inacreditável Bárbara Reis).
O Público sempre foi incapaz de definir o comunismo e particularmente o PCP nos seus precisos termos antidemocráticos, totalitários e de características políticas potencialmente mais repressivas, censórias e mais limitadoras de liberdades do que jamais o Estado Novo o foi.
Sempre me espantou a incapacidade dessas pessoas, educadas em faculdades, em filosofias, letras e outras humanidades em perceber a perversão dessa fé cega no comunismo marxista, mesmo após todas as demonstrações feitas, todos os exemplos mostrados e todas as conclusões tiradas. O Público e jornalistas em geral não as tiram, o que é um mistério, dos maiores que Portugal encerra.

Poderia discutir-se porque razão Salazar, o Estado Novo ou depois o Estado Social de Marcello Caetano afinaram pelo mesmo diapasão da proibição do PCP e outras forças de extrema-esquerda comunista. Nunca o fazem. O que fazem é dar por assente que tal proibição foi um mal em si mesmo porque o PCP era um partido que integrava a ideia de democracia que porventura alguma vez partilharam, eventualmente com outra força política de origem marxista, os socialistas que bem cedo assimilaram o discurso dos comunistas sobre Salazar e o Estado Novo.

Pior ainda: hoje,  o PCP é exactamente o que era nos anos 50 ou 60, ideologicamente e tirando a ideia de "ditadura do proletariado" que expurgaram oportuna e tacticamente para enganar incautos e retirar o argumento que usam contra o Estado Novo. O PCP diz-se democrático e a  profissão de fé satisfaz tais intelectuais de tretas.
Quem lê O Militante hoje em dia poderia ler do mesmo modo tal publicação antiga, nos primórdios do seu aparecimento clandestino, apenas com as mudanças introduzidas pelo progresso técnico. As ideias, essas, são as mesmas de sempre, como por aqui tenho mostrado com saciedade.

Ninguém se importa com tal obsolescência e fossilização viva, continuando um jogo de faz-de-conta que dura há mais de 40 anos.
E nem se diga que o PCP se renovou estes últimos anos, adaptando-se a novas realidades, mormente à convivência democrática.
A experiência de 1975, a entrevista de Cunhal a Oriana Falacci ( em que denegou a possibilidade de Portugal ter um regime parlamentar de tipo ocidental, assemelhando-se nesse propósito, precisamente ao modelo salazarista que sempre denunciaram...) e outras atitudes, como as recentes em pretender acabar com empresas rentáveis, em Portugal apenas por efeitos ideológicos e políticos ( como a Autoeuropa e a Carnes Nobre) mostram como o PCP é um partido incorrigível, anti-democrático, politicamente mais perverso para a democracia de tipo ocidental do que jamais foi o Estado Novo ou particularmente o Estado Social.  Ao PCP e Álvaro Cunha é possível acusar de maiores perversidades e ideologia anti-democrática do que a Salazar e no entanto, este é que é fassista e anti-democrático, totalitário, obscurantismo e o diabo a sete.

Como é possível esta loucura colectiva durante tantas décadas? O Público é o exemplo disso mesmo...

Porque é que Salazar era anti-comunista o regime proibiu o PCP?   Nunca vi escrita a explicação concreta e com provas documentais para tal efeito. Toda a gente dá por assente que era assim porque era, e Salazar era o que essa gente diz que era. Mas não era...

A ideia corrente sobre Salazar é uma das maiores notícias falsas que temos em Portugal há décadas, uma mistificação completa, levada a cabo por marxistas com a conivência de idiotas úteis às manadas que seguem tais panurgos.

Em meia dúzia de páginas do livrinho de Salazar,  de 1936, "Como se levanta um Estado" ( original em francês e editado em 1991 pela mobilis in mobile, Salazar explica o pensamento básico sobre tal matéria.







De notar que 1936 é o ano da experiência cripto-comunista em França, com a Frente Popular, uma espécie de geringonça avant la lettre e portanto dirigida por socialistas, com comunistas à ilharga, os quais acabaram presos, dali a dois anos.  É o ano do começo da guerra civil espanhola, entre republicanos marxistas e conservadores franquistas. É o ano dos processos de Moscovo, testemunhados in loco por comunistas portugueses que então lá estavam, vieram para cá, foram presos no Tarrafal e queixaram-se de tal, como se em Moscovo as condições oferecidas a opositores ao regime fossem tão brandas como a deportação para campos de trabalho forçado, mas não de morte, como pretendem ( chamaram-lhes de "morte lenta" , sem pudor,  apesar de saberem que em Moscovo seria muito mais mais rápida, para aqueles que combatiam...).

 A proibição do PCP em Portugal,  durou todo o tempo do Estado Novo e prolongou-se até 25 de Abril de 1974.
Pode discutir-se a razão para tais proibições e nomeadamente uma que parece importante:  que sentido tinha, em 1936 , permitir a existência de um PCP, em perfeita liberdade democrática, à semelhança de uma França?
Para além do mais, os franceses em geral sabiam publicamente o que se passava em Moscovo nesse ano, antes de depois, com Estaline? Não sabiam. Nem os franceses nem o mundo em geral, porque a censura na URSS era mais férrea do que jamais foi em Portugal.  Ninguém se importa com isso e com a condescendência que o PCP ainda hoje manifesta para com Estaline?

Na verdade os franceses e o mundo só vieram a saber quando Krutschev chegou ao poder, em meados dos anos 50 ( em Fevereiro de 1956 denunciou publicamente os crimes de Estaline, mas tal não foi suficiente para o PCP arrepiar caminho, como outros o fizeram) e tentou remodelar o regime que afinal caiu fragorosamente por ruína económica nos anos noventa do século XX.
Nem este facto é suficiente para que o PCP desapareça da cena política, porque continua a vender as mesmas receitas políticas e sociais, nos dias de hoje, como o fazia então, nesse tempo.

Como refere Salzar no livrinho indicado, "o caso português é uma experiência a juntar ao grande número daquelas que estão a ser realizadas por toda a Europa, na esperança de resolver  os problemas políticos e sociais do nosso tempo".  Nem mais!

Como é que se poderá alguma vez preferir a experiência que aqueles "homens bons" defendiam para o nosso país, como sendo a melhor e mais adequada a Portugal?

Mas quem é o louco que ainda acredita  nisso?  Haverá algum para além daqueles fanáticos do pensamento marxista, como o Domingos Abrantes que passou a vida toda a acreditar nessas balelas?

Que mais será preciso dizer ou fazer para que Público e outros media parem com o descaramento da mitificação de indivíduos sectários, anti-democráticos de gema  e o despudor de chamar "homens bons" a esses que acreditaram numa doutrina totalitária como Portugal nunca conheceu com Salazar ou que queriam um regime de torcionários e repressivo como era o da antiga URSS que deportava para gulags gelados os presos políticos que ainda poderiam ser recuperados para a "revolução" e dizimava aos milhões, pela fome, execuções directas e repressão indizível e extrema?

Quem é que pode tolerar que se chamem "homens bons" a esse tipo de carrascos? Só se fossem muito estúpidos é que poderiam ser tal coisa.

Quantos livros negros sobre o comunismo vai ser preciso escrever para que Público e demais media deixem de dar o benefício da dúvida a estes torcionários intelectuais e antidemocratas de raiz?


Até quando, em Portugal, esta espécie de romantismo perverso que torna em heróis quem nunca o deveria ser, por maioria de razão  e  de razões  que os ditos imputam a outros, continua a preencher páginas de jornais como o Público?

Até onde chegará esta pouca vergonha e este despudor?

Este indivíduo que aqui fica, se pudesse,  metia na cadeia muitos portugueses; executava muitos outros; censuraria quase todos os jornais e meios de comunicação que não lhe fossem afectos; proibiria reuniões políticas contra o Partido; reprimiria qualquer manifestação pública desafecta; fecharia fronteiras e desligava-nos da Europa; arruinaria economicamente o país, como os kamaradas o fizeram pelo menos uma vez directamente e mais duas indirectamente; conduziria Portugal a um obscurantismo nunca visto.

É isto que deve ser um herói? E os kamaradas "homens bons"? Haja senso e pudor, senhores comunistas do Público...

Se esses "homens bons" querem festejar a sua vitória sobre o fassismo que o façam nos seus tugúrios e locas infectas. Agora que tal seja motivo de regozijo público e oficial, já tresanda a despudor e afronta à inteligência mais básica que só o sectarismo e cegueira podem ajudar a compreender.



sábado, 29 de dezembro de 2018

Mourão voltado, o juiz das estruturas

No CM de hoje uma pequena croniqueta etiquetada "pequeninos!" chamou-me a atenção porque já nem é a primeira vez que tal acontece. Da autoria de "Pedro Mourão Juiz" já aqui comentei outros tiques do  autor que o CM foi desencantar algures no meio vasto em que o dito juiz se mexe. Já foi mesmo "director-geral" o que compartilha com o actual vice-presidente do CSM, com quem parece partilhar muito mais que isso.

O leitor comum do jornal não saberá dizer quem são os "Pequeninos" a quem se refere o juiz Mourão, agora voltado, como na cantiga do Quinteto Violado, mas será fácil se se mostrar aqui o rosto dos vilipendiados pelo juiz voltado que não aprecia fotos em destaque, exceptuando a sua nos tiques que vai debitando oportunamente no CM. Cada croniqueta, cada etiqueta. Desta vez são as fotos do presidente da ASJP que não nomeia e não mostra. Mostro eu...



A revista em causa é esta e o presidente da ASJP o que se mostra na capa e depois em "mais 7 logo nas primeiras folhas!":


O motivo das fotos é prosaico: uma entrevista alargada ao presidente da ASJP. E o que incomoda este Mourão voltado são as fotos do presidente que assimila a um culto de personalidade digno dos kims da Coreia do Norte!

Lendo algumas partes da entrevista podem, no entanto, descortinar-se outras razões para a fobia do reparo de Mourão. Por exemplo esta:



A ideia, ainda com pouca peregrinação é esta: "no que toca ao presidente do STJ diria que não podemos ter um presidente que se vai embora e as pessoas não sabem quem é".  

Referia-se aos presidentes anteriores, como  Henriques Gaspar que delegou quase todos os poderes noutro antigo director-geral, Mário Belo Morgado...ora isso parece ser  fatal para alguns juízes que também foram directores-gerais e se equiparam nas ideias e quiçà oportunidades.

É esse o problema da meia dúzia de fotos no boletim da ASJP que aliás é privativo da classe e por isso atinge um máximo de cerca de 2 mil pessoas, se tanto. O universo da crónica do juiz Mourão é esse: dois mil juízes que votam dentro de alguns meses no futuro nome para a vice-presidência do CSM. O Correio da Manhã ainda não entendeu esta manha?

O referido Mário Belo Morgado já está na corrida porque o cargo lhe apetece, inequivocamente. E até o manifesta numa espécie de manifesto que aparece publicado no mesmo número da revista:


 Num dos parágrafos da segunda página aprece numa frase, uma expressão que define bem Mário Belo Morgado:

"Potenciados pela especialização dos tribunais, pelo novo modelo de gestão das comarcas e pela real assunção da governança do sistema por parte do CSM"....

O antigo director-geral já se imagina como futuro director-geral...dos juízes em geral. "Governança", reparem no termo aparolado e mal traduzido da gestão anglófona que diz tudo desta espécie particular de arrivismo. No outro dia foi a "inteligência artificial" aplicada aos tribunais. Agora é a "governança"! Santo Deus! Perguntem-lhe coisas de motores! De carros, motas ou assim...

Ridículo? Antes perigoso. E sobre isso a crónica do juiz Mourão é omissa, completamente. Como lhe convém.

sexta-feira, 28 de dezembro de 2018

A Direita precisa de Salazar

Artigo notável no O Diabo de 26 do corrente:


Que se complementa com este no mesmo número do jornal:


O futuro está na juventude mas a educação desta, actualmente, deixa muito a desejar. Talvez apareça um núcleo de jovens que queira conhecer o passado recente do nosso país, no tempo de Salazar e lhe dê a importância que tem sido denegada ao longo das últimas quatro décadas, tantas aliás como as que Salazar ocupou a cadeira do poder, de onde caiu, literalmente, há cerca de 50 anos.

Para se entender Salazar e o seu tempo há alguns livros, poucos, directamente relacionados. Porém, a História mostra-se de outros modos. Há livros de autores que mostram o que era o país de que a Esquerda se apropriou intelectualmente. Romances, ensaios e fotos e até filmes.

O trabalho intelectual de interpretação está por fazer e estou certo que é esse trabalho o principal modo de educação de quem ainda não teve oportunidade de aprender como era o país, para além do que o comunismo e socialismo, ou seja o marxismo,  pretendem que era.


Um livro de recolecção de fotos, editado em 2001 pela Círculo de Leitores e organizado por Joaquim Vieira ( um esquerdista) ajuda a perceber melhor o que foi esse tempo e o contexto em que se viveu.


Por exemplo esta foto contém inúmeras referências semióticas implícitas e susceptíveis de nos dizer quem era Salazar no tempo em que esta foto foi tirada, em 1954 aquando de uma homenagem realizada a Salazar na sua terra natal e protagonizada no caso pela sua irmã, Marta, acompanhada de pessoas da terra. As roupas, o calçado, as caras os semblantes podem dizer muito a quem saiba interpretar.



Ou esta, ainda mais idiossincrática:


E estas sobre o Portugal rural, das Beiras, onde Salazar nasceu e que não era muito diferente do Minho ou de Trás-os-Montes.



E a família directa:


A que se junta um dos amores de juventude, Julinha, filha do proprietário da terra de quem o pai de Salazar era feitor. Perceber esta relação social e de forças é importante para se entender o tempo e o meio social e as histórias associadas.

Ou perceber a razão pela qual Salazar foi para o Seminário, com vista a ser padre ( Mário Soares era filho de padre...).


E a razão por que foi para Coimbra estudar Direito e como era o meio nessa época ( a Casa dos Grilos é um ícone).




E como chegou ao poder político e a razão para tal.


A seguir virá o resto.

quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

O Mundo Moderno, há 50 anos

Há cerca de 50 anos, por este mês de Dezembro surgiu uma revista patrocinada pela Agência Portuguesa de Revistas que se chamou inicialmente Cine-Disco e alguns meses mais tarde, tinha um título fabuloso- Mundo Moderno.
A revista, destinada ao público jovem em geral, era uma mistura de outras publicações existentes e que viriam a surgir nos anos vindouros, como a Plateia, a Nova Antena, a Rádio&Televisão e a futura Mundo da Canção que apareceu dali a um ano.  A Plateia vinha dos anos 50 e era dirigida pelos que apresentaram a nova revista: Mário de Aguiar, entre outros que também se ocupavam da Crónica Feminina. A Nova Antena vinha da Antena mais antiga e surgira também em 1968. A R&T  era uma revista com décadas ( nos anos sessenta já ia na numeração das três centenas). Já há alguns anos se recensearam algumas dessas publicações na Loja de Esquina.
 O ano de 1968 em Portugal e noutros lugares foi tempo de mudança acelerada. O afastamento de Salazar da vida política activa, com o aparecimento de Marcello Caetano acompanhou uma mudança de costumes que se copiavam de outros lugares, com destaque na cultura popular e particularmente na música de expressão anglo-saxónica.

O primeiro número da Cine-Disco tinha esta capa e apresentação onde se destacava já a menção ao "mundo moderno". O pequeno rato estilizado e tocador de rabeca era desenhado por Carlos Alberto Santos que passou a ser o ilustrador residente dessas pequenas vinhetas que davam graça à publicação:


Numa página dava conta dos novos discos a sair para o Natal desse ano:


A revista durou cerca de dois anos.  50 números redondos. Consegui guardar cerca de metade. Ando à procura do resto...mas é difícil encontrar.
Com o recuo que o tempo permite pode dizer-se que  não era uma revista por aí além; na realidade nem tinha  a qualidade que se esperaria de uma publicação inovadora para o meio, mas era idêntica, nesse aspecto às demais do panorama editorial nacional. Flama, Século Ilustrado, por exemplo, não eram assim muito superiores em conteúdo específico. A esse propósito basta conferir os dois livros de Abel Pereira Rosa sobre os Beatles na imprensa portuguesa, editados em 2014 e 2015 e porventura ainda à venda em sítios escolhidos.
Este  conteúdo destacava-se pelas fotos e composição gráfica, sem paralelo com publicações do género que se editavam, como a referida Plateia.


Conforme se pode ler,  o interesse do público nacional da altura pelos discos e músicas populares era ainda bastante caseiro para usar eufemismo e evitar a verdadeira palavra: parolo. Só se descortina Jimi Hendrix e Judy Collins a dar um ar de graça anglo-saxónica de alguma qualidade musical.

Para além desse gosto comercial generalizado,  havia um programa de rádio que se ocupava a passar a música de qualidade que se produzia lá fora e no fim do ano fez uma espécie de top, com as mais qualificadas em votação.

Era o Em Órbita, sofisticado no gosto e esquisito nas escolhas. No número 5 da Cine-Disco, de Fevereiro de 1969 publicava-se tal "top" ( tal como se publicou no ano seguinte, relativamente ao ano anterior) :




Para dar um panorama alargado do teor da revista deve dizer-se que não era revolucionária ou de cariz comunista, como a Mundo da Canção que apareceria no final de 1969.


Cine-Disco de 1.5.1969, com um pequeno apontamento sobre os Beatles, provavelmente o grupo musical com maior número de artigos na revista:


Mundo Moderno de 1.12.1969:


Cine Disco, 1.2.1969:


Mundo Moderno de 1.9. 1970:


Em 1.5.1970 o primeiro disco a solo de John Lennon merecia uma crítica assim:


Também Bob Dylan mereceu alguma atenção nesses anos em que se realizou o festival da ilha de Wight.

Mundo Moderno 15.9.1969:



Mundo Moderno 15.12.1969. Dylam...e o anúncio da construção do autódromo.


E até um artigo sobre um disco pirata de Bob Dylan, provavelmente o disco pirata mais célebre de sempre: Great White Wonder.

M.M. 15.6.1970:


No mesmo número da revista de 1.5.1970 um artigo curioso que hoje seria impossível, o que denota bem a mudança de costumes em curso na altura:


E este de 1.7.1970 sobre a moda dos posters:


Sobre a revista, em 15.12.1969, um "apanhado" do público alvo:


E a prova de que a revista não era revolucionária, mas saudavelmente conformista e que a juventude da época não estranhava estas coisas- M.M. 15.8.1970:


E por falar nisso, uma notícia de 15.9.1969: um single- Je t´aime...moi non plus,  proibido pela Censura na Europa em geral e que por cá o não foi do mesmo modo:


Enfim, 50 anos depois, a música popular anglo-saxónica tinha outros nomes e outras obras para além dos Beatles e Bob Dylan. E mesmo para além daqueles que o Em Órbita colocou nos dez primeiros lugares do pódio votado esse ano.

Claro que o disco Branco dos Beatles, saído em Novembro de 1968  era obrigatório. Mas outros faltaram: por exemplo o primeiro dos Jethro Tull. Ou Music from Big Pink  dos The Band.

Nesta imagem, a maior parte dos discos de 1968 que merecem apontamento. Faltam alguns, poucos, como Beggar´s Banquet dos Rolling Stones. Falta Bookends, de Simon&Garfunkel, porém  já aqui citado. E falta o dos Faces e outros, ainda, como Cheap Thrills dos Big Brother and the holding company, com as primeiras vocalizações de Janis Joplin e que foi um sucesso na altura. Ou ainda os Kinks, com Village Green Preservation Society; os The Who com Sell Out; Van Morrison com Astral Weeks ou Neil Young com o seu primeiro disco a solo.


Da esquerda para a direita: The Band, Music from Big Pink; Zappa  &Mothers, We´re only in it for the money; The Byrds, Sweetheart of the rodeo; Jimi Hendrix, Are you experienced; Jimi Hendrix, Axis: bold as love; Steve Miller, Sailor; The Doors, Unknown Soldier; Moody Blues, In search of the lost chord; The Dillards, Wheatstraw suite; The Fantastic expedition of Dillard and Clarke: Jethro Tull, This Was; Beatles, edição americana.Todos, com excepção dos The Doors e o de Jimi Hendrix , Axis: bold as love, em edição original.

Este ano foram reeditados, com remisturas ou rematrizações de alguns desses discos e destaco os seguintes:


Qualquer um destes novos discos rematrizados ou remisturados vale a pena ouvir, além dos originais.

O dos Beatles é provavelmente a melhor versão em vinil do disco original. Tenho a versão mono, original inglesa e ainda a versão em estéreo, americana. Pois a comparação entre as três dá uma vantagem sonora, ligeira,  à nova versão de 2018, que tem um dinâmica mais robusta nos baixos relativamente à versão original de 1968, mono, inglesa e com abertura do álbum pela parte de cima, mesmo com número de série elevado ( da ordem das três centenas de milhar) . É um disco de colecção, esta nova versão em vinil.
Na caixa, em versão à parte do vinil, há os cd´s e o blu ray,  relativos às gravações na casa de George Harrison ( Esher Demos) e várias gravações de sessões do disco. Vale a pena ouvir a terceira versão, "take 27", no cd 5,  do tema While my guitar gently weeps, de George Harrison e a guitarra de Eric Clapton. diferente da versão do álbum. Há ainda um livro com todas as canções do álbum e história das mesmas. Só este livro vale o preço da caixa.

O disco dos Moody Blues, In Search of the lost Chord, um dos preferidos do Em Órbita ( algo estranha esta preferência) na versão deluxe vale a pena ouvir porque a gravação em dvd audio permite uma melhoria sonora relativamente aos discos originais, tanto em mono como em estéreo. Tais versões, pelo menos nos exemplares que tenho, apresentam um som mais abafado e menos dinâmico, embora muito equilibrado e de audição satisfatória e repousante.

O primeiro disco dos Jethro Tull,This Was remisturado por Steve Wilson também é uma pequena preciosidade sonora relativamente ao original, mas não o suplanta em qualidade, apenas na ausência de ruído do vinil...

Quanto ao disco de Jimi Hendrix, Electric Ladyland que alguns consideram uma obra-prima absoluta e o melhor disco de 1968, esta versão é mesmo fantástica, em blu ray e rematrizado por Bernie Grundman.

O apelo populista a Salazar