quinta-feira, 27 de dezembro de 2018

O Mundo Moderno, há 50 anos

Há cerca de 50 anos, por este mês de Dezembro surgiu uma revista patrocinada pela Agência Portuguesa de Revistas que se chamou inicialmente Cine-Disco e alguns meses mais tarde, tinha um título fabuloso- Mundo Moderno.
A revista, destinada ao público jovem em geral, era uma mistura de outras publicações existentes e que viriam a surgir nos anos vindouros, como a Plateia, a Nova Antena, a Rádio&Televisão e a futura Mundo da Canção que apareceu dali a um ano.  A Plateia vinha dos anos 50 e era dirigida pelos que apresentaram a nova revista: Mário de Aguiar, entre outros que também se ocupavam da Crónica Feminina. A Nova Antena vinha da Antena mais antiga e surgira também em 1968. A R&T  era uma revista com décadas ( nos anos sessenta já ia na numeração das três centenas). Já há alguns anos se recensearam algumas dessas publicações na Loja de Esquina.
 O ano de 1968 em Portugal e noutros lugares foi tempo de mudança acelerada. O afastamento de Salazar da vida política activa, com o aparecimento de Marcello Caetano acompanhou uma mudança de costumes que se copiavam de outros lugares, com destaque na cultura popular e particularmente na música de expressão anglo-saxónica.

O primeiro número da Cine-Disco tinha esta capa e apresentação onde se destacava já a menção ao "mundo moderno". O pequeno rato estilizado e tocador de rabeca era desenhado por Carlos Alberto Santos que passou a ser o ilustrador residente dessas pequenas vinhetas que davam graça à publicação:


Numa página dava conta dos novos discos a sair para o Natal desse ano:


A revista durou cerca de dois anos.  50 números redondos. Consegui guardar cerca de metade. Ando à procura do resto...mas é difícil encontrar.
Com o recuo que o tempo permite pode dizer-se que  não era uma revista por aí além; na realidade nem tinha  a qualidade que se esperaria de uma publicação inovadora para o meio, mas era idêntica, nesse aspecto às demais do panorama editorial nacional. Flama, Século Ilustrado, por exemplo, não eram assim muito superiores em conteúdo específico. A esse propósito basta conferir os dois livros de Abel Pereira Rosa sobre os Beatles na imprensa portuguesa, editados em 2014 e 2015 e porventura ainda à venda em sítios escolhidos.
Este  conteúdo destacava-se pelas fotos e composição gráfica, sem paralelo com publicações do género que se editavam, como a referida Plateia.


Conforme se pode ler,  o interesse do público nacional da altura pelos discos e músicas populares era ainda bastante caseiro para usar eufemismo e evitar a verdadeira palavra: parolo. Só se descortina Jimi Hendrix e Judy Collins a dar um ar de graça anglo-saxónica de alguma qualidade musical.

Para além desse gosto comercial generalizado,  havia um programa de rádio que se ocupava a passar a música de qualidade que se produzia lá fora e no fim do ano fez uma espécie de top, com as mais qualificadas em votação.

Era o Em Órbita, sofisticado no gosto e esquisito nas escolhas. No número 5 da Cine-Disco, de Fevereiro de 1969 publicava-se tal "top" ( tal como se publicou no ano seguinte, relativamente ao ano anterior) :




Para dar um panorama alargado do teor da revista deve dizer-se que não era revolucionária ou de cariz comunista, como a Mundo da Canção que apareceria no final de 1969.


Cine-Disco de 1.5.1969, com um pequeno apontamento sobre os Beatles, provavelmente o grupo musical com maior número de artigos na revista:


Mundo Moderno de 1.12.1969:


Cine Disco, 1.2.1969:


Mundo Moderno de 1.9. 1970:


Em 1.5.1970 o primeiro disco a solo de John Lennon merecia uma crítica assim:


Também Bob Dylan mereceu alguma atenção nesses anos em que se realizou o festival da ilha de Wight.

Mundo Moderno 15.9.1969:



Mundo Moderno 15.12.1969. Dylam...e o anúncio da construção do autódromo.


E até um artigo sobre um disco pirata de Bob Dylan, provavelmente o disco pirata mais célebre de sempre: Great White Wonder.

M.M. 15.6.1970:


No mesmo número da revista de 1.5.1970 um artigo curioso que hoje seria impossível, o que denota bem a mudança de costumes em curso na altura:


E este de 1.7.1970 sobre a moda dos posters:


Sobre a revista, em 15.12.1969, um "apanhado" do público alvo:


E a prova de que a revista não era revolucionária, mas saudavelmente conformista e que a juventude da época não estranhava estas coisas- M.M. 15.8.1970:


E por falar nisso, uma notícia de 15.9.1969: um single- Je t´aime...moi non plus,  proibido pela Censura na Europa em geral e que por cá o não foi do mesmo modo:


Enfim, 50 anos depois, a música popular anglo-saxónica tinha outros nomes e outras obras para além dos Beatles e Bob Dylan. E mesmo para além daqueles que o Em Órbita colocou nos dez primeiros lugares do pódio votado esse ano.

Claro que o disco Branco dos Beatles, saído em Novembro de 1968  era obrigatório. Mas outros faltaram: por exemplo o primeiro dos Jethro Tull. Ou Music from Big Pink  dos The Band.

Nesta imagem, a maior parte dos discos de 1968 que merecem apontamento. Faltam alguns, poucos, como Beggar´s Banquet dos Rolling Stones. Falta Bookends, de Simon&Garfunkel, porém  já aqui citado. E falta o dos Faces e outros, ainda, como Cheap Thrills dos Big Brother and the holding company, com as primeiras vocalizações de Janis Joplin e que foi um sucesso na altura. Ou ainda os Kinks, com Village Green Preservation Society; os The Who com Sell Out; Van Morrison com Astral Weeks ou Neil Young com o seu primeiro disco a solo.


Da esquerda para a direita: The Band, Music from Big Pink; Zappa  &Mothers, We´re only in it for the money; The Byrds, Sweetheart of the rodeo; Jimi Hendrix, Are you experienced; Jimi Hendrix, Axis: bold as love; Steve Miller, Sailor; The Doors, Unknown Soldier; Moody Blues, In search of the lost chord; The Dillards, Wheatstraw suite; The Fantastic expedition of Dillard and Clarke: Jethro Tull, This Was; Beatles, edição americana.Todos, com excepção dos The Doors e o de Jimi Hendrix , Axis: bold as love, em edição original.

Este ano foram reeditados, com remisturas ou rematrizações de alguns desses discos e destaco os seguintes:


Qualquer um destes novos discos rematrizados ou remisturados vale a pena ouvir, além dos originais.

O dos Beatles é provavelmente a melhor versão em vinil do disco original. Tenho a versão mono, original inglesa e ainda a versão em estéreo, americana. Pois a comparação entre as três dá uma vantagem sonora, ligeira,  à nova versão de 2018, que tem um dinâmica mais robusta nos baixos relativamente à versão original de 1968, mono, inglesa e com abertura do álbum pela parte de cima, mesmo com número de série elevado ( da ordem das três centenas de milhar) . É um disco de colecção, esta nova versão em vinil.
Na caixa, em versão à parte do vinil, há os cd´s e o blu ray,  relativos às gravações na casa de George Harrison ( Esher Demos) e várias gravações de sessões do disco. Vale a pena ouvir a terceira versão, "take 27", no cd 5,  do tema While my guitar gently weeps, de George Harrison e a guitarra de Eric Clapton. diferente da versão do álbum. Há ainda um livro com todas as canções do álbum e história das mesmas. Só este livro vale o preço da caixa.

O disco dos Moody Blues, In Search of the lost Chord, um dos preferidos do Em Órbita ( algo estranha esta preferência) na versão deluxe vale a pena ouvir porque a gravação em dvd audio permite uma melhoria sonora relativamente aos discos originais, tanto em mono como em estéreo. Tais versões, pelo menos nos exemplares que tenho, apresentam um som mais abafado e menos dinâmico, embora muito equilibrado e de audição satisfatória e repousante.

O primeiro disco dos Jethro Tull,This Was remisturado por Steve Wilson também é uma pequena preciosidade sonora relativamente ao original, mas não o suplanta em qualidade, apenas na ausência de ruído do vinil...

Quanto ao disco de Jimi Hendrix, Electric Ladyland que alguns consideram uma obra-prima absoluta e o melhor disco de 1968, esta versão é mesmo fantástica, em blu ray e rematrizado por Bernie Grundman.

Sem comentários:

Chega-lhes, André!