quarta-feira, 24 de fevereiro de 2021

E depois do adeus...ficamos sós.

 Na autobiografia de Carlos Cruz que tenho vindo a citar a propósito da mutação de linguagem na transição dos anos setenta para a "democracia" em que julgamos viver, aparece uma passagem reveladora de muita coisa, incluindo a tal mutação linguística. 

Diz o autor que vindo o tempo de Marcello Caetano este acabou por ceder a forças de direita conservadora a esperança de mudança anunciada no início, ou seja, em finais de 1968. E depois tem esta passagem: "Apesar da sua quantidade e maior ou menor violência, não havia medo na população que, em voz baixa, até aplaudia esses grupos ( LUAR, ARA, BR). A insegurança e o medo eram em relação à actuação da PIDE/DGS".

Isto parece-me extraordinário porque a ideia que tenho desse tempo que ainda vivi de modo a poder lembrar-me de tal, é a de que o terrorismo associado a tais grupelhos era execrado pela maioria da população e não o contrário. Talvez em certos círculos de Lisboa de que o autor fazia parte isso não ocorresse mas no país, como um todo, não me parece que tal seja verdadeiro, de todo em todo. 

As "conversas em família" de Marcello Caetano por vezes davam ênfase a tais fenómenos de expressão extremista e terrorista e não me parece que tal fosse visto como desfasado da realidade e sinal de decadência do regime, antes pelo contrário. 

Por isso mesmo tal afirmação do autor revela dessa forma como é que a linguagem se alterou, aos poucos e chegou até 1974 já modificada, nos media em geral, ou seja nos jornais principais. 

Já em 1974, no Rádio Renascença, tentou-se a censura de textos noticiosos no horário da noite, por determinação de monsenhor Sezinando Rosa, designadamente no sentido de as notícias serem dadas sem comentários.

Entre 1972 e 1974 o panorama radiofónico e jornalístico não se alterou substancialmente e os nomes sonantes continuavam a ser os mesmos e aquele Carlos Cruz assumira responsabilidades de promoção dos discos da editora de Arnaldo Trindade, do Porto que promovia artistas de canções populares e sem pretensões. A grande aspiração de Arnaldo Trindade, nessa altura era ser representante dos electrodomésticos Philco...

Juntamente com José Niza ( muito politizado e que tinha sido mobilizado para a guerra no Ultramar, depois ligado o PS), José Calvário, Carlos Mendes ( igualmente de esquerda) fizeram Festa da Vida e ganharam o festival da canção de 1972, em nome da etiqueta Orfeu, de Arnaldo Trindade. 

Depois disso em 1973 apareceu na televisão e da responsabilidade do mesmo autor,  o programa Disco&Daquilo que era uma espécie de lufada de ar fresco musical, precursor dos programas futuros de telediscos, da MTV e afins e superior ao Do La Si ou mesmo ao Semibreve, dedicados ao mesmo tema da música popular. Lembro-me bem de ansiar por ver cada um dos programas e as novidades musicais apresentadas. 

Na emissão de 18 de Dezembro de 1973 os nomes eram...sempre os mesmos, já conhecidos antes: Dinis de Abreu, Luís Villas-Boas ( dos festivais de Jazz de Cascais), Nuno Martins, Paulo de Carvalho e agora... Mário Viegas.


O nome de Mário Viegas é importante neste contexto por causa do seguinte relatado naquele livro: 




Para além deste "diseur" e "poseur" havia outros, como este, aqui em Dezembro de 1971, também já promovido pelo programa de rádio 23ª Hora e que dizia poesia, por exemplo de Manuel Alegre, então refugiado em Argel e de onde apelava á revolta de portugueses na guerra de África, num exercício de patriotismo muito sui generis. 



Ora quem é que acolheu logo no início dos anos sessenta, este diseur de poesia tão progressista no rádio? A Renascença, pela mão de monsenhor Moreira das Neves!

Outra figura inevitável destas andanças do rádio e das canções novas de festival era este melro que passou a apresentar várias músicas ao longo dos anos e a promover ideias de esquerda, igualmente, tal como mostrado aqui pela R&T em 31.7.1971.

Pedro Osório, músico de créditos firmados tinha concorrido ao festival em 1968, 1970 ( Corre Nina, com Paulo de Carvalho) 1972 ( música de Vamos cantar de pé, com Paco Bandeira) e diversas orquestrações :




Como se pode ler Pedro Osório trabalhava nessa altura para participar noutro festival, neste caso da Guarda, uma subespécie do género nobre que se apresentava todos os anos na RTP. 

Este festival da Guarda era mal visto na época como resulta da caricatura ( ZéManel) da última página da revista nesse mesmo número em que se dá "vassourada" no estilo musical representado por exemplo por um Paco Bandeira que já tinha ganho notoriedade com o "Ó Elvas" ou seja "A minha cidade", uma belíssima música, por sinal: 


Este género de dicotomia em que a pretensa qualidade se opunha ao cançonetismo piroso ainda era tema nesta altura mas já vinha de trás. 

Em 7 de Março de 1970, Toni de Matos, um dos representantes lídimos do cançonetismo dava assim esta entrevista muito realista ainda nos dias de hoje e que até José Cid tinha de algum modo sufragado, no tema essencial, como atrás de mostrou.



O paradigma do bom tom e do bom gosto era antes este, publicado na edição de 14 de Março de 1970. Manuel Freire referia-se ao meio cabotino que era então o predominante, em que um programa de tv como o Zip Zip desencadeara um movimento cultural: 



Um dos que ajudou a superar tal dicotomia ainda nos anos setenta foi um actor e músico que estava em França, fugido à guerra do Ultramar e que viria a dar muito que falar por causa da linguagem das suas canções. Mesmo em 1971 Sérgio Godinho já dava que falar, à R&T de 16 .10.1971.

O disco que iria lançar nesse Outono seria um e.p. contendo Romance de um dia na estrada e o dj do Página Um, José Manuel Nunes, alvitrava que era "o anúncio do novo figurino da música portuguesa neste Outono". E era. 



A partir dessa música saiu depois, no ano seguinte,  o primeiro lp, Sobreviventes cuja primeira música tem como tema Que força é essa...que trazes nos braços e começa com o verso "vi-te a trabalhar o dia inteiro, a construir as cidades para os outros...", alusões aos operários emigrados e que ainda hoje servem de hino a comícios do Bloco de Esquerda. 

A mutação da linguagem começou assim a ser notória. O disco foi proibido por causa dessas e de outras mas depois foi autorizado e ficou a linguagem que se exasperou em 1975  de um modo radical e que perdura. 

Em 1973 saiu um número da revista Seara Nova então dirigida por Augusto Abelaira ( que viria a ser director da Vida Mundial depois do 25 de Abril de 74) em que a linguagem evolutiva já é notória.


Num artigo de três páginas sobre o jornalismo e a linguagem já lá estão quase todas as palavras mágicas que viriam a ser pedras de toque em toda a imprensa e notíciários dali a pouco mais de um ano.

Uma definição avulta, além do mais: "informação neutra é informação que não divide" e a análise da informação em geral ainda hoje se torna interessante e útil: 




O texto apresentado mostra bem o que sucedeu no panorama da imprensa portuguesa através dos exemplos concretos expostos e ao modo de redigir notícias. 

Hoje em dia este texto é mais actual que nunca...e as últimas palavras do ideológo do actual Bloco de Esquerda, João Martins Pereira, são bem explícitas.

 A prova? Está nesta capa da mesma revista logo em Maio de 1974: 


A imagem ainda é demasiado "neutra" uma vez que só aparecem pancartas dos sindicatos, mas lá ao fundo já aparece a designação de "guerra colonial", coisa nunca vista até então em manifestações públicas ou linguagem corrente nos media- tv, rádio ou jornais. 

Por outro lado o glossário completo aparece em duas páginas interiores e pela pena de um certo António Reis, um mação de Mação que integrava o PS e que tomou logo conta da RTP. 

Vale a pena ler porque está aqui todo o fraseado e palavreado que tomou conta da imprensa dali para a frente. 

O verdadeiro dicionário da novi-língua é este e nem sequer vem de um comunista...tendo surgido antes das bandeiras e de todo o folclore do esquerdismo nascente. 



Com estas imagens começa outro tempo e outra linguagem. 


terça-feira, 23 de fevereiro de 2021

O rádio que promoveu a novi-língua

 No início dos anos setenta surgiu outro fenómeno que ligou o rádio, a televisão mais a cantoria publicitada nos jornais: o festival anual da canção promovido pela RTP foi tomado de assalto pelos precursores da novi-língua, com destaque para uns tantos, aliás sempre os mesmos e vindos do mesmo lado.

Nessa altura tinha passado pouco tempo desde que no Zip Zip ( na RTP durante o ano de 1969)  se apresentara um cantor de viola acústica com poucos acordes e baladas a tiracolo. Manuel Freire com a Pedra Filosofal do poeta António Gedeão tornara-se uma alternativa ao cançonetismo em voga que por sua vez alternava à vez com o fado das casas especializadas. 

Para além deste repertório o rádio pouco mais tinha e um dos autores que tentava fugir ao paradigma era José Cid que em 1 de Maio à revista R&T dizia o que para si era a divisão entre o cançonetismo e os que faziam "música nova":




O autor da entrevista- Daniel Reis- diz a José Cid que "nos tempos de hoje, a arte pela arte não é mais possível. Música sem o conteúdo social e sem a consciência de situar onde se nasce e vive tem os dias contados..."

Pois então..."música com conteúdo social" não era bem o ideal de José Cid, como se veio a comprovar nos anos a seguir. 

No entanto, o músico colocava a questão onde então se situava: nos festivais que "dava dinheiro". 

Foi em 1971 que esta questão do dinheiro se colocou de modo assinalável:  

Século Ilustrado de 6.2.1971:

E na semana seguinte, o resultado:


Quem explica como isto sucedeu é ainda Carlos Cruz na sua Autobiografia de 2016 ( numa das fotos aparece o mesmo José Duarte que era funcionário da TAP, do PCP e que foi esperar Álvaro Cunhal mesmo à saída da portinhola do avião que o trouxe das terras frias do Leste para espalhar a boa nova e a novi-língua adjacente): 




 Outro dos arautos da poesia que moldou a nova linguagem foi este grande precursor ligado às letras das cantigas. Este melro de voz aflautada e vindo da burguesia alta de Lisboa e arredores deu uma entrevista publicada na R&T de 27.1.1973. 





 E os noticiários da Renascença eram assim delineados, já com a participação dos jornalistas que formataram a seguir a linguagem revolucionária...e como escreve Carlos Cruz, "mais tarde juntou-se a nós o Rui Pedro". 
Este indivíduo é o que aparece citado no Relatório do 25 de Novembro de 1975 como sendo um dos locutores revolucionários. Do PCP, claro. E já tinha sido despedido da Renascença, em Maio de 1974, por efeito da sua linguagem mutante, como se mostra neste artigo da revista Cinéfilo de 1 de Junho de 1974.






A R&T em Dezembro de 1971 também dava um pequeno panorama sobre esta "nova canção", a da "canção de protesto",  acompanhado de opiniões  e referências aos locutores do rádio, com destaque para João Paulo Guerra, um dos arautos da novi-língua que apareceria e que estava no "Tempo Zip", na Onda Média da Rádio Renascença. 
Além disso aparecem todos os artistas da canção de protesto...e quanto à "preferência do público comum" era uma desgraça: "não gosto das baladas porque é uma música moderna muito estúpida" diz uma jovem de 14 anos...











Outro personagem desta saga radiofónica é o pai da artista de tv, Catarina Furtado. Também foi assalariado do Rádio Renascença da época. A linguagem já não engana ninguém. Só faltam os termos próprios que depois passou a usar, abertamente nas ondas hertzianas. Foi um dos principais precursores...este Joaquim Furtado. Em Julho de 1971, altura da entrevista,  andava na tropa e provavelmente ainda não diria "guerra colonial" mas é duvidoso, atenta esta categoria de linguagem que já usa na entrevista. 






Joaquim Furtado é um dos elementos do rádio mais activos em 25 de Abril de 1974 et pour cause: 





 
Todos se conheciam entre si e conjugaram esforços para atingir o objectivo traçado e delineado por aquele Adelino Gomes, na entrevista já mencionada, após o despedimento da Renascença: tinham um trabalho a fazer, em Portugal. E fizeram-no. 

A Igreja Católica e o Rádio Renascença, apesar dos esforços para domesticar e travar os ímpetos não logrou tal objectivo porque era tarde e as horas já eram más. 
A seguir: o resultado...

Os criadores de corvos queixam-se das bicadas...

 No Público de hoje há um "abaixo-assinado" de algumas luminárias de esquerda a queixarem-se dos telejornais que duram muito tempo, passam imagens repetidas ad nauseam de doentes e enfermarias, dos entrevistadores do género adelinofaria e quejandos, das opiniões esportuladas a eito pelos cabeças palradoras do género pedromourinhorodriguesguedesdecarvalhoanalourenço, etc etc etc. 

Apelam à "saudável preocupação pedagógica de informar" como se tal fosse intuitivo ou desprovido de orientação ideológica que um dos subscritores bem representa, como é o caso do inenarrável encenador de peças em que se publicita a beleza de matar fascistas.

Incomoda-os o permanente julgamento noticioso dos governantes que tanto apreciam, ao contrário dos de há uns anos que enxotavam portugueses para o estrangeiro e promoviam a pobreza e a miséria por causa de uma troika . Até criticam a "manifesta agenda política, legítima- mas nunca assumida- nos canais privados, mas, em absoluto inaceitável na televisão pública"! 

Neste caso deveram estar todos a pensar no tratamento especial dado ao CHEGA, pela certa...

Enfim, esta gente não se enxerga, é o que é. Apesar de terem toda a razão, paradoxalmente...




segunda-feira, 22 de fevereiro de 2021

A queda de um Ascenso

 Recebido por mensagem e digno de leitura, para gáudio e chacota a quem a mereça...é uma carta aberta publicada algures e dirigida ao deputado Ascenso Simões, recentemente notabilizado no exercício triste da hilaridade bacoca.


"Meu Caro Ascenso Confusões,

Analisei atentamente as suas últimas declarações, em que justifica a sua posição contra o voto de pesar da Assembleia da República sobre a morte de Marcelino da Mata, e que me merecem algumas considerações.

Antes de mais, meu caro Inveja Simões, esclareço que o trato de caro, não porque por si nutra alguma consideração, carinho ou respeito, mas porque me é caro, a mim, e a todos os portugueses que o sustentamos, pois se desenvolve algumas atividades pro bono, não foi pro bono, mas sim pro bolso, que foi aquilo que pagamos durante os anos em que desempenhou funções na administração da ERSE…

Depois, caro Inveja Cifrões, trato-o agora de inveja, por que estou convencido de que uma das razões das sábias palavras que proferiu, os outros motivos comentá-los-ei mais à frente, é a inveja , a certeza de que quando morrer , mais tarde ou mais cedo, ninguém se vai lembrar de si , nenhuma celeuma vai surgir á sua volta, se deve ser glorificado ou criticado, pois caro Inveja Simões, o senhor não passa de mais um zero á esquerda, a quem , infelizmente os médias dão palco… Mas esteja confiante, caro Esquecimento Simões, de que quando morrer, se for nos tempos mais próximos, o mais que se poderá ouvir será um generalizado e nacional suspiro de alívio, mas se for daqui uns anos , no momento da sua ascensão , Simões, ninguém se vai lembrar de si, ninguém irá falar em Ascenso Panteões…

Mas antes de passar ao elogio das suas nobres palavras, caro Inocente Simões, uma pequena declaração de interesses:

• Não tenho nada contra a sua cor de pele, não sou, portanto, racista, e isto apesar de, meu caro Aumento Simões, ter tornado a vida muito mais negra aos consumidores de energia em Portugal, sejam pessoas ou indústrias, durante a sua passagem pela ERSE.

• Não tenho nada contra as gentes de Vila Real, meu caro Ascenso Exceções, antes pelo contrário tenho a melhor das impressões das gentes daquela região, onde vivi sucessos e desgostos desportivos, proferi palestras académicas, e com cuja universidade, ainda hoje, desenvolvo, em trabalho conjunto, inovadores projetos profissionais. Tenho lá bons Amigos, e sempre houve um enorme carinho recíproco entre os habitantes de Vila Real e a minha humilde pessoa… Mas não há regra sem exceção…

• Não tenho nada contra a AESE/IESE , meu caro Infelizmente Simões, entidade de ensino que também frequentei, e que muito veio a contribuir para o meu desenvolvimento, tanto profissional, como pessoal, o que infeliz e excecionalmente, não parece ter sido o seu caso…

E após este longo prefácio, meu caro Inocente Simões, chegamos finalmente ao tema que aqui me trás, as suas palavras sobre a falta de sangue no 25 de Abril , sobre a negação da existência de uma civilização portuguesa pluricontinental, e sobre o desmantelamentos das obras que evoquem o sucesso de Portugal, e a sua importância como potência mundial, até ao advento do 25 de Abril de 1974.

Meu caro Ignorante Simões, tem como atenuante o facto de todos nós termos consciência de que hoje, para singrar no PS, salvo raras e honrosas exceções, tem de se ser ignorante, pouco culto, dotado de alguma flexibilidade de princípios, ser eticamente maleável, e não muito inteligente. Meu caro Ascenso Submissões, é do conhecimento geral, que um individuo normal, não dotado das características acima referidas, jamais aceitaria a vassalagem intelectual e moral para singrar no partido de que faz parte. Mas vamos comparar as suas torpes insinuações com fatos:

A primeira:

no 25 de Abril “devia ter havido sangue, devia ter havido mortos”.

Permita-me relembrar, meu caro Ascenso Insinuações, que do 25 de Abril resultaram:

• só em Angola, foram 2 milhões de mortos, 1.7 milhões de refugiados, e 80 mil estropiados; dois milhões de seres humanos que eram portugueses, até serem traídos e abandonados por si e pelos seus camaradas… 1, 7 milhões de seres humanos que eram portugueses, até serem traídos e abandonados por si e pelos seus camaradas… 80 milhares de seres humanos que eram portugueses, até serem traídos e abandonados por si e pelos seus camaradas;


• em Moçambique na guerra civil dos 16 anos foram mais de um milhão de vítimas da guerra e da fome, mais de um milhão de seres humanos que eram portugueses até serem traídos e abandonados por si e pelos seus camaradas. E a chacina ainda vai no adro…

Acha pouco sangue português? E falo aqui no sentido literal… É claro que não houve sangue entre os seus camaradas de abril, que por vis motivos de soldo, renegaram a Bandeira e a Constituição a que tinham jurado fidelidade, prestando-se a ser marionetes de interesses estrangeiros que vieram a ser responsáveis pela chacina acima descrita…

Meu caro Ascenso Traições, acha pouco sangue ainda? Pode então adicionar o dos portugueses da Guiné e de Timor, mais umas dezenas de milhares de seres humanos, que eram portugueses, até serem traídos e abandonados por si e pelos seus camaradas …..

A segunda :

“Falta o conhecimento da história. Falta perceber verdadeiramente que não tivemos império nenhum. Que os tempos que vivemos desde o século XV até ao 25 e Abril foram tempos de grande instabilidade que nunca consolidaram império nenhum, mas esse império que está na nossa cabeça é o império salazarista. É uma construção simbólica do império salazarista…

Meu caro Ignorante Simões, Portugal, sendo, no seu início apenas uma pequena nação na Europa, vive tempos de instabilidade desde a sua fundação até hoje; que saudades temos desses tempos de instabilidade, uns dias melhores outros piores, umas épocas mais fracas, outras mais ricas, mas sempre na perspetiva de que as dificuldades, de uma forma ou outra, seriam vencidas, e que dias melhores viriam.

Hoje, meu caro Esbanjamento Milhões, graças a si e aos seus camaradas, temos estabilidade na miséria:

Pedimos aos países ricos remédios como esmola, aos países civilizados que nos mandem médicos, enfermeiros e equipamentos, pedimos dinheiro emprestado para comprar comida no mercado mundial…

Espera-nos talvez o risonho futuro dos portugueses de Angola, Moçambique, Guiné, Timor, que vivem na miséria material e intelectual, nós vítimas, tal como eles de termos sido traídos e abandonados por si e pelos seus camaradas. Atrevo-me a perguntar-lhe, meu caro Ascenso Negações: As populações das nossas antigas províncias ultramarinas vivem melhor hoje do que nos tempos da administração portuguesa? Será o atual triste destino dessas luso-Pessoas, o futuro aqui?

A terceira:
que a ponte Salazar mudou de nome para ponte 25 de Abril, também o Padrão devia ser destruído enquanto “monumento do regime ditatorial” que é.
Meu caro Ascenso Sugestões, tenho vindo até aqui a criticá-lo, a desprezá-lo até, mas nesta questão, julgo que a sua sugestão tem algum cabimento; acho que o meu caro Descenso Padrões e seus camaradas devem ser poupados ao convívio com as obras dos regimes anteriores ao regime inaugurado em 25 Abril de 1974…

Mas caro Ascenso Revoluções, não vamos destruir o Padrão dos Descobrimentos, apesar de bem saber que a sua especialidade, e a dos seus camaradas, meu caro Ascenso Destruições, é destruir, destruir, destruir, sem nada construir!

Também não vamos tapar ou ocultar o Padrão, caro Ascenso Visões, proponho algo muito mais simples e económico:

Proibir a si Ascenso Restrições, e a seus camaradas, o usufruto, não só do Padrão dos Descobrimentos, mas de todas as obras construídas pelos regimes, monárquicos ou republicanos, anteriores ao regime inaugurado em 25 Abril de 1974…

É isso mesmo, meu caro Ascego Negações, para quê o Ascego, e seus camaradas, sofrerem, no seu dia a dia, o confronto com as realidades que negam, com as repudiantes estruturas que, de acordo com o que dizem, serão inexistentes, invisíveis, não passando de obras simbólicas das gerações e regimes anteriores ao 25/4.
Meu caro, já viu como o Propenso Nulações, e seus camaradas, seriam felizes se fossem poupados à visão, e banidos da sua utilização, de, entre outros:

• Padrão dos Descobrimentos
• Ponte Salazar
• Parlamento
• Hospital Santa Maria
• Metro
• Caminhos de Ferro
• Hospital Santo António
• Ponte da Arrábida
• Aeroporto de Lisboa
• Aeroporto do Porto
• Porto de Sines
• Porto de Lisboa
• Porto de Leixões
• Universidades
• Liceus
• Escolas
• Vias de comunicação,
• Etc. Etc., Etc.
Meu caro Ascenso Soluções, estou certo de que, entre o aeroporto de Beja, alguns milhares de rotundas e estátuas autárquicas e pavilhões desportivos, Ascenso e seus camaradas encontrarão uma forma de viver não seja dependente de obras feitas por regimes anteriores.

Meu caro Ascenso Intervenções, despeço-me na humilde expectativa de ter o prazer de, em breve, voltar a ouvir as suas doutas palavras.
Passe bem, Ascenso Luís Seixas Simões!

Luís Sena de Vasconcelos"
 

Os alti-falantes antifassistas de há 50 anos

 Como se mostrou no postal anterior, o rádio do final dos anos sessenta e início dos setenta foi alvo de mutações, particularmente em certos programas da "noite" que alteraram radicalmente o modo como se comunicava nas ondas Média e depois em FM. 

Os programas mais importantes passaram a ser os que derivaram dessa concepção nova e tinham nomes como PBX, 23ª Hora, Tempo Zip e Página Um,  em que a palavra falada dos locutores de serviço tinha mais relevo e acompanhava uma selecção musical mais cuidada e dirigida a um público diverso daquele que escutava o rádio durante o dia. A publicidade em rádio era mais concentrada nos programas diurnos e por isso à noite falava-se mais. 

 Um dos protagonistas mais importantes nesta renovação radiofónica foi Carlos Cruz, o agora proscrito que antes de ser um senhor da televisão tinha sido um homem do rádio. 

 Vale a pena ler algumas páginas da sua autobiografia de 2016, livro imprescindível para se conhecer a génese destas coisas e a raiz da mutação linguística operada naquela época. 

Antes do Zip-Zip, na televisão, foi assim no rádio e tudo começara em 1965 no Rádio Renascença, com uma 23ª Hora que já existia e passou então a divulgar as músicas da moda pop. Um dos colaboradores já era o nosso conhecido José Duarte, o futuro cicerone de Álvaro Cunhal e Domingos Abrantes e mulher, no aeroporto da Portela, quando estes vieram do lado de lá da cortina de ferro.  

Pelo meio os rádios piratas ingleses ( A BBC ainda não admitia concorrência) e até o Mundial de 1966.   A Renascença e Igreja Católica interpuseram-se e originaram a dissidência de costumes e linguagem, aliás então já em curso.

Nesta primeira página mostra-se como se processou a mutação de poder e costumes...na RTP:


Aqui começa aventura no rádio:




  





As páginas seguintes, a par da primeira acima mostrada,  dão uma espécie de explicação para a pergunta que coloquei: como é que as pessoas mudaram, ideologicamente,  quase da noite para o dia em 25 de Abril de 1974 e começaram a falar outra linguagem?
Repare-se que Carlos Cruz, um indivíduo culto, cosmopolita, informado, confessa nesta autobiografia   em 1970 e antes do Zip Zip, a sua  total "incultura sobre organização social e política articulada com uma doutrina". 
A partir de então tomou outra atitude...e no livro,  a guerra que então era do Ultramar já passa a ser escrita como "colonial", Milagres das mutações...




Portanto em 1970 o regresso ao rádio foi à Renascença, com Tempo Zip, programa que começou em Janeiro de 1970. 
E o episódio do avião publicitário foi assim comentado na revista Mundo da Canção nº 5 de Abril de 1970. Com foto e tudo:



Será preciso mais explicação a propósito da mutação da linguagem com aqueles nomes acima mostrados, por exemplo Teresa Horta e Urbano Tavares Rodrigues,  que liam o Avante às escondidas e iam a reuniões clandestinas onde conspiravam à espera de um amanhã que cantasse como cantou em 25 de Abril de 1974?

Não, parece-me suficiente, apesar de lá estar também uma certa Vera Lagoa ( por sinal casada com um certo Tengarrinha e também antes opositora a Salazar e apoiante de Humberto Delgado), mas é preciso ver quem é que estava mais: Cáceres Monteiro, por exemplo e que depois seguiu para O Jornal.

E na Igreja do Rádio Renascença quem era nessa altura que mandava nestas coisas? A Flama de 20 de Março de 1970 mostrava. O Pe Sezinando chegou a ser, até 2012 quando morreu, o padre mais velho do país  e portanto teve tempo de ver o desenvolvimento da sua obra: 


E em Julho desse ano um grupo todo de pessoal da União Gráfica, com destaque para o então bispo de Tigilava e presidente da Comissão Episcopal para os meios de comunicação social, D. António Ribeiro, futuro cardeal patriarca de Lisboa. 
Não há milagres nestas coisas e os fenómenos têm sempre as suas causas...



A seguir: os baladeiros e cantores de intervenção mais os cantores populares e o papel do rádio, particularmente os Discos Zip, outro rebento da mesma árvore. 

E depois do adeus...ficamos sós.