quinta-feira, agosto 05, 2021

A linguagem significante e o significado em Pacheco Pereira.

 Na Sábado de hoje, o artigo de Pacheco Pereira, para além do mais, versa sobre a linguagem,  num apontamento breve e revelador de significado. 


Pacheco Pereira chama "tribalismo" à escolha de designações de fenómenos, acontecimentos e realidades, mormente passadas, com atributos diversos. Ditadura versus Estado Novo; guerra colonial versus guerra do Ultramar; 25 de Abril versus golpe do 25 de Abril, como exemplos apresentados. 

A escolha de termos adequados a designar realidades como a existente antes de 25 de Abril de 1974 deve obedecer a que critérios? 

Afinal, o Estado Novo nunca existiu e foi sempre e exclusivamente uma Ditadura? E o que se passou depois de Setembro de 1968 até 1974 foi apenas a continuação evolutiva de tal Ditadura ou Estado Novo, de molde a legitimar tal designação, à escolha dos fregueses? 

A guerra colonial foi sempre designada como tal e nunca como guerra no Ultramar? 

E a pergunta fatal: quem operou a modificação de linguagem trocando os significados para obter outros significantes? 

Um significante é aquilo que indica e dá a entender algo. O significado é aquilo que uma coisa representa ou exprime.

O que foi a guerra em África, tal como designada até 1974 pelo regime de então e seguida pela opinião pública e publicada em Portugal nessa época. É preciso dizer que  por "opinião pública" entendo o que Marcello Caetano escrevia como se mostra aqui, num escrito da revista Vida Mundial de Setembro de 1968, na altura em que tomou o cargo de presidente do Conselho em vez de Salazar, confinado num hospital, por doença grave: 


Opinião pública é "o conjunto de juízos compartilhados por grande número de componentes de dado grupo social, de tal modo que um indivíduo ao exprimir algum desses juízos perante os seus concidadãos tenha considerável probabilidade de o não ver repelido, mas sim encontrar um ambiente de receptividade e aprovação". 

Dizer e escrever "guerra colonial" antes de Abril de 1974 era possível mas significava apenas que era uma designação da esquerda comunista e socialista marxista e tal me parece indesmentível. O significado estrito era esse: ideológico e marxista, porque a noção de "colonial" adquiriu conotação esquerdista com o advento dos movimentos de guerrilha em África que se opuseram aos detentores do poder sobre tais territórios, conquistados, descobertos ou ocupados. Tal aconteceu a partir dos anos cinquenta do séc. XX e com influência comunista e depois do "terceiro mundo". 

Era um termo legítimo mas ausente da extensão ao conceito de opinião pública. Pacheco Pereira provavelmente poderá ter assumido em determinada altura que a guerra de Portugal em África era uma guerra colonial, mas suspeito que tal terá sido muito tardiamente,  nos finais dos anos sessenta. Seja como for era a opinião de uma minoria absoluta e nada representativa da opinião pública dominante. 

O conceito de "terceiro mundo" que era algo familiar às afriques-asie da época ( e que se vendiam por cá) também é discutível, atendendo por exemplo ao que um Juan Perón dizia ( Flama 6.4.1973, na véspera do 25 de Abril de 74) :



Seja como for, "guerra do Ultramar" era a designação corrente, correcta e amplamente aceite pela maioria da população portuguesa da época. Não seria a propaganda marxista do PCP ou dos socialistas marxistas que iriam alterar tal designação. A meu favor invoco o resultado eleitoral de Abril de 1975. 

O problema, porém, é que desde 1974 que a opinião pública foi sendo gradualmente modificada, através de outro fenómeno: o da ditadura mediática da esquerda comunista e socialista, de pendor intelectual e com disseminação em quase todos os órgãos de comunicação social. 

O que se passou a partir de Maio de 1974 nos media nacionais foi a manipulação completa da linguagem e substituição dos termos correntes até então pelos adoptados por essa esquerda comunista e socialista, sem que se visse qualquer oposição de relevo, mormente nos poucos órgãos de informação que surgiram para representar os significados e significantes dos termos do anterior regime. 

E no entanto, eles continuaram a existir e não se pode dizer que a substituição de tais termos pelos novos, com a modificação de linguagem, fosse algo que espelhasse a realidade, ou seja, o significado das coisas. 

A "guerra do Ultramar" não passou a ser "guerra colonial" por ter sido sempre assim, mas apenas por opção política e ideológica em modificar o significante e impor tal linguagem como a novilíngua corrente. O fenómeno foi analisado na literatura de um Orwell e por isso desmerece eventual valor de referência. E o conceito de Ultramar também poderia ser discutido...tal como se explica aqui.

A escolha da designação como Ditadura ou  Estado Novo além do mais está mal exposta uma vez que será sempre necessário articular termos acessórios acerca do significado de "ditadura" havendo muitas lacunas e buracos conceptuais em tais tentativas, aliás canhestras, de uma esquerda apostada sempre na novilíngia orwelliana. Daí que não mereça também qualquer cuidado porque carece de "sutentabilidade". Para além disso sobra sempre o tempo de 1968 a 1974 para desmentir factualmente a existência do Estado Novo nessa altura, com as características conhecidas e inerentes, mesmo que se mantivessem alguns aspectos essenciais. 

Ou seja e em resumo: o escrito de Pacheco Pereira é uma calinada, ideologicamente orientada e desprovida de sentido aceitável. 

Passo a mostrar exemplos e recortes sobre a evolução da linguagem. Antes de 25 de Abril de 1974 quem designava a guerra em África como sendo no Ultramar era por exemplo um dos mentores do golpe ( porque foi disso que se tratou, parece-me) do 25 de Abril de 1974 e está aqui bem exposto tal exemplo. Em 1971, Costa Gomes era assim- "guerra do Ultramar"- que designava o assunto e a palavra "terroristas" ainda não fora substituída por "movimentos de libertação" ou por outra coisa qualquer mais consentânea com a ideologia marxista.

No Verão de 1973, ( aqui a revista Observador que não era de extrema-direita nem nada que parecesse) dava destaque ao assunto de interesse nacional, no caso da defesa: 




Na mesma altura a "oposição" socialista e comunista, envergonhada e também cercada pelo regime, dava ar da sua graça e evidentemente que a linguagem era outra, mas não a da opinião pública generalizada: 




Com o advento do golpe militar em 25 de Abril de 74 a linguagem modificou-se por influência directa e imediata dos comunistas e socialistas e com a adopção tácita da mesma por outras forças políticas, de direita moderada, ou social-democrata, como o PPD/PSD e o CDS ( "rigorosamente ao centro"). Foi isso que permitiu a modificação e a adopção da novilíngua que actualmente temos e que um Pacheco Pereira julga ser a única admissível e legítima, contrariando a História e adoptando a posição de um improvável vencedor.

Por exemplo, estes indivíduos, tanto o Álvaro Cunhal, confesso admirador de Estaline, como o que o antecede na escada do avião, o inefável Domingos Abrantes e mulher, crismador original da palavra "fassista" por cauda dos dentes raros, assim como o jazzeiro Duarte que faz de cicerone a um português internacionalizado no comunismo soviético mais empedernido, sentem Portugal de um modo completamente diferente do da esmagadora maioria do povo. E a linguagem que usam não é a do povo, mas da ideologia comunista. Que legitimidade advém desta realidade e destes significados? Sim, que legitimidade é que estes indivíduos adquiriram para modificar o modo como se designavam aquelas realidades, substituindo-as por outros significantes? Diga quem souber...
















Obviamente que a diferença de sensibilidade e de percepção da realidade advinda depois do golpe militar de 25 de Abril de 1974 não permite entender, por exemplo, isto que se pode ler aqui:


Ou isto:






Mas tal não quer dizer que o significado disto tenha desaparecido e alterado por força da linguagem modificada. Em 11 de Novembro de 1980, o actual presidente da República fazia assim o obituário de Marcello Caetano, revelador nas entrelinhas das contradições que minavam e continuam a minar:


Claro que a perspectiva de esquerda era outra e ajudou a modificar os conceitos e a linguagem corrente de modo a que a partir de determinada altura, os originais perderam-se e agora só são eventualmente evocados pela "extrema-direita" ou pelos "admiradores de Salazar", numa manifestação de sectarismo exemplar e que denega o conceito de democracia que ostentam na lapela:


Em conclusão: os termos de linguagem que temos, como correntes nos media actuais e na generalidade do komentariado, mais os jornalistas todos formados nas madrassas que agora adoptam a novilíngua como se fosse a materna, são apenas legítimos na medida em que afastaram à força e pelos métodos orwellianos, os que existiam antes. 

E haja quem o desminta!

quarta-feira, agosto 04, 2021

A esquerda é sempre incompetente para resolver estas coisas...

 Observador, sobre a Dielmar, uma empresa de confecção que se encontra em insolvência:





A sindicalista diz o óbvio: os herdeiros do fundador, doutores e engenheiros, mais os capatazes, os "líderes" "não percebiam nada, não sabiam pegar num casaco". 

Aposto que o fundador começou na costura, como aprendiz. Os sucessores formaram-se já no tempo da geração mais bem preparada de sempre. 

Vê-se como é...e isto é bem o espelho de uma esquerda que prevalece no país: basta ver o que se passou a seguir às nacionalizações de 1975 e aos "elefantes brancos" que apareceram dez anos depois. Sem contar com as bancarrotas inerentes...e para ler como foi basta ir ao google e colocar as palavras certas acrescidas de "portadaloja", porque tenho escrito por aqui sobre isto há vários anos. Não tenho a pretensão de dar lições a ninguém, mas apenas mostrar como foi, com recortes de época. Cada um que tire as conclusões. 


domingo, agosto 01, 2021

A máquina da cor de burro a fugir de Pacheco Pereira

 Artigo de Pacheco Pereira no Público de ontem:


O artigo é uma amálgama de ressentimento contra uns alegados e putativos sectários da visão dicotómica que assestam à realidade envolvente. São os indefinidos adeptos do preto-e-branco, naturalmente  sem boavista. Boa vista, para o Pacheco, é a diversidade colorida do arco-íris simbólico. 

O preto-e-branco é "tóxico e faz mal à cabeça" e Pacheco é seguidor indefectível da policromia com profusão de nuances em que se tornou perito auto-proclamado. 

Por exemplo, no caso do obituário de Otelo, Pacheco escreve aqui o seguinte: "O espectáculo dos últimos dias com a morte de Otelo é um bom exemplo de como isto está. Tudo o que escrevi antes aconteceu e acontece, para nossa vergonha colectiva. Ou se é a favor, branco, ou contra, preto. E se é branco em 1974, preto em 1975, mais preto ainda aquando das FP-25, não se pode ser branco em 2021. Se mantivéssemos as cores todas, não havia necessidade deste `monoclorismo` e talvez compreendêssemos melhor o homem.

A citação desmente a própria "tese", uma vez que ao discriminar as várias "fases" de Otelo está evidentemente a enunciar a policromia da personalidade do indivíduo e a mostrar o contrário da visão monocolor. A preferência ou  o relevo concedido a uma dessas fases não anula a existência das outras e os que condenam Otelo, como "preto" têm as razões próprias respeitáveis como as que o branqueiam completamente. 

Para além disso e como exemplo máximo da incoerência e palermice do raciocínio exposto bastaria trazer à colação o que se passa com a evocação do salazarismo. Qual a atitude de Pacheco relativamente a tal fenómeno? Preto mais preto não há. E no entanto, se há matéria em que a policromia seria necessária para mostrar todos os cambiantes da paisagem realista, era precisamente esta. E isto é só um assunto, porque há inúmeros temas em que a posição crónica de Pacheco é o monocromatismo mais empedernido pelo musgo. Basta ler algumas coisas do que escreve e eu leio algumas, porque afinal de contas não gosto de dar pontapés em cães mortos, se bem me faço entender. Tal deveria fazer reflectir Pacheco sobre a utilidade da sátira ou do humor corrosivo contra quem não se conhece pessoalmente, mas com motivos fundamentados. Não é cobardia, mas liberdade de opinião irrisória que não deveria incomodar seriamente fosse quem fosse. A partir do conhecimento fica-se preso e com liberdade de opinião demasiado condicionada. Portanto, aviltar-se contra quem não se conhece, com o  desprezo calculado de Pacheco contra quem o tenta ridicularizar no que poderá merecer,  é ainda e quase sempre estúpido. 

Assim, no caso do tal Otelo, Pacheco, neste caso o que faz? Branqueia ou enegrece? Pois, aqui é que a porca torce o rabo da coerência e do tartufismo encapotado. 

Pacheco escreve no Público do cravo e na ferradura da Sábado, partes da mesma malapata dos media nacionais. Na Sábado desta semana expõe o que pensa de Otelo: 


Pacheco diz dever muito a Otelo pelo "dia único, 25 de Abril 1974". Enfim, uma declaração em "branco". Não querendo agora entrar na polémica sobre o papel de Otelo no dia único, no mínimo mitificado, segundo me parece, atrevo-me apenas a trazer à memória escritos antigos de Vasco Pulido Valente que faz muita falta a esta gente que escreve crónicas nos media. 

Vou, porém, colocar aqui uma pequena história, suficientemente reveladora e que apareceu num jornal desta semana, o Expresso:  


Como se lê, heróis, tal como chapéus, pode haver muitos. O que sucederia ao "dia único" se o cabo apontador José Alves Costa tivesse cumprido a ordem de disparar sobre as chaimites de Salgueiro Maia? É fácil de adivinhar se a mira tivesse sido certeira e não haveria qualquer Otelo para celebrar nos tempos a seguir. O regime estava a cair de podre e quem lhe daria o toque final seria...Marcello Caetano, como é possível saber lendo algumas coisas sobre o assunto, para além dos cronistas mediáticos que pululam por aí. E escrever isto é mostrar toda a policromia da realidade desse tempo e não o monocromatismo dos escritos de Pacheco e similares. Escrever sobre Salazar e Caetano, para além do que escrevinham sobre tal assunto os vários pachecos que por aí guitarreiam, é não só necessário como urgente, para dar o tom a todo o fado e não se ficar pela cantiga do ceguinho de antanho, a vender as cautelas todas. 

Além disso, Pacheco quanto a Otelo escreve na Sábado os ditirambos habituais da visão monocromática. No Sol desta semana, porém, mostra-se outro lado obscuro dessa lua cinzenta: 


Pacheco em 1996 votou contra a amnistia aos crimes "políticos" abrangendo o período de 1976 a 1991. Não eram apenas os da FP25, de Otelo, mas também os outros, do lado do preto e sem branco à mistura.  Para justificar, diz o Sol que declarou urbi et orbi na AR, onde perorava em nome do PSD, que havia "pelo menos uma pessoa que não merecia a amnistia" referindo-se a Otelo. 

Agora, para justificar a opção, mistura os alhos brancos com os bugalhos pretos esquecendo a abrangência de tal medida de clemência política e faz exactamente o que critica aos adeptos do preto e branco: distingue os dois ou três Otelos e acantona-o ao lado do preto para lhe denegar o perdão político. Agora, como antes. Do lado dos pretos, para mistificar os brancos. Enfim quem quiser que o leia e perceba o que pretende Pacheco Pereira. Por mim já entendi há muito: viver a sua vida, ganhando o sustento como pode. Uma boa vidinha, segundo se depreende. 

O que aliás será louvável, desde que não se ponha a disparar ad hominem contra fantasmas de um passado que nem sequer conhece como devia ser: em cromatismo ou mesmo abrangendo o cinzentismo da zona escura. 

De há uns anos a esta parte tosa com a fedúncia habitual certos comentadores de ocasião, alguns anónimos, outros identificados em referências inúteis e até- imagine-se!- um tal "procurador nortenho que admira Salazar"! Como se admirar Salazar fosse o pecado mortal irredimível e  aliar-se a indigentes mentais que admiraram Mao-Tse-Toung ou escrever a eito e preceito a biografia continuada de um devoto admirador de Estaline, fossem virtudes supremas. Preto-e-branco, disse?! E continua a dizer...  

São esses os elementos que Pacheco classifica sumariamente como seres das trevas, nem sequer do preto-e-branco, mas apenas habitantes de um "pobre mundo em que vive esta gente viciada nas redes, mundo triste e solitário, enclausurado em boiões de vinagre e uma gigantesca insegurança". Estava quase para lhe assestar um auto-retrato aproximado, mas seria injusto. 

Afinal Pacheco sabe colorir-se e ataviar-se com os ademanes adequados: escreve para a Cofina do fantástico Paulo Fernandes, um portento intelectual dos media mais progressistas; escreve para o pasquim de referência intelectual que é o Público, dirigido pela sumidade Manuel Carvalho e literalmente sustentado pela SONAE e também frequenta ( frequentou...) os estúdios da televisão do grupo Impresa, do inefável Balsemão tal como o estúdio do grupo que o empresário Mário Ferreira agora domina. Ou seja, joga em todos os tabuleiros mediáticos. 

É o chamado três em um: o equilibrismo perfeito de um tartufismo jornalístico que convive alegremente com as tendências coloridas que afinal salpicam a tonalidade acizentada da essência que tal verniz encobre. 

domingo, julho 25, 2021

O obituário de Otelo Saraiva de Carvalho

 Morreu Otelo e o meu obituário é este aliás já com algum tempo ( 2014) . Otelo, sempre enganado, até ao fim: 

Otelo, o militar de Abril que Vasco Pulido Valente no outro dia qualificou como "inimputável simpatiquíssimo", botou muita faladura nas últimas semanas.

Em 21 de Abril, do Jornal de Negócios, aqui citado pelo Diário de Notícias, deixou estas pérolas da sua sabedoria:

Otelo Saraiva de Carvalho acredita que Portugal precisa "de um homem com inteligência e a honestidade do ponto de vista do Salazar" para resolver a crise que atravessa.
Em entrevista ao "Jornal de Negócios", o "capitão de Abril" sublinhou que "precisávamos de um homem com inteligência e a honestidade do ponto de vista do Salazar, mas que não tivesse a perspectiva que impôs, de um fascismo à italiana (...) Alguém que fosse um bom gestor de finanças, que tivesse a perspectiva de, no campo social, beneficiar o povo, mesmo e sobretudo em detrimento das grandes fortunas".
Otelo Saraiva de Carvalho elogia o que se fez a seguir à revolução "ao nível da educação, da saúde". "Houve um rápido crescimento do nível económico das populações a seguir ao 25 de Abril à custa das reservas de ouro que o forreta do Salazar tinha amealhado no Banco de Portugal, mas depois, esgotada essa possibilidade, a coisa começou a entrar em dificuldades", salientou.

 Como se pode ler, Otelo, o militar de Abril cuja estratégia golpista dependeu muito de um par de murros prometidos na hora e principalmente de um fruto político já caduco  de uma árvore que estiolou, dislata mais uma vez.

Não. Não é sobre a necessidade de um Salazar e de caminho a remessa expedita de todos os "democratas" que governaram o país de há quarenta anos a esta parte, para o caixote de lixo da História. É sobre o "fascismo", palavra mágica que encanta todo um povo desde essa altura.

Otelo dislata sobre o fascismo porque não sabe o que foi o fascismo, apesar de ter lido coisas sobre isso, depois de ter sido Legionário, apoiante de Salazar. Daí a nostalgia, às tantas.

Otelo quando gizou o plano militar para ocupar Lisboa, em 25 de Abril de 1974  não sabia bem de que terra era. Portugal estava bem, excepto a tropa miliciana que ganhava mais que ele, de carreira militar. O amigo Melo Antunes, "um imbecil" no dizer  de Vasco Pulido Valente, dito que corroboro, queria mais democracia, mais desenvolvimento e mais "descolonização" porque lera na propaganda comunista que nós, portugueses,  éramos uns safados colonialistas que estávamos a roubar o que era pertença legítima dos africanos e que os camaradas da Internacional também tinham direito de partilha porque acreditavam na mesma cartilha.
Otelo acreditou na mesma balela depois de ter acreditado em Salazar. Depois disso, acreditou na balela sueca, de democracia avançada e social e pouco depois engoliu a balela inteira que lhe contaram em Cuba e na Líbia os líderes máximos Castro e Kadhaffi. Por isso apoiou os bravos das FP25 e encostou às boxes de Caxias e outros lugares de repouso, durante dois pares de anos, para acalmar e reflectir depois da corrida às armas em "boas mãos".
 Será Otelo à semelhança do Antunes, um imbecil? Nem tanto. "inimputável simpatiquíssimo" sim e  basta que melhor não é possível.
 Quarenta anos depois da sua aventura descobriu que Salazar, afinal,  é que era. Vem tarde, claro. Salazar morreu em 1970.  Não tem fundação que lhe valha ( deixou 250 contos num banco nacional), nem tem ruas, pontes, monumentos toponímicos ou lembranças públicas que o perpetuem na memória popular. Não lhe fazem homenagens públicas porque os que estiveram "no limite da dor" marinhavam outra vez pelas paredes imaginárias e não tem direito a moções de simpatia no espaço público. Salazar é um proscrito da democracia. A sua casa no Vimieiro de Santa Comba Dão está em ruínas e não há subscrições públicas que lhe valham. Otelo e os seus camaradas de aventuras tiraram-lhe tudo isso, sem qualquer rebuço democrático porque Salazar era...fascista, a tal palavra mágica que funciona em Portual como o "abre-te sésamo " de Aladino, para aceder à caverna da "pesada herança".

Agora, apesar disso tudo, Otelo suspira por outro Salazar. Igualzinho, mas sem ser "fascista" porque isso é que não pode ser. Seria contra os pobrezinhos e a favor dos ricos e tal nem pensar. Seria forreta e sério e contra os 40 ladrões que arrombaram o país com o "abre-te sésamo" da palavra mágica.
Como sair deste dilema shakespeareano do ser ou não ser?
É simples de explicar e Marcello Caetano já o explicou, na sua obra "As minhas memórias de Salazar" que Otelo não leu; ou se leu, tergiversou por ser um inimputável simpatiquíssimo sem chegar ao estatuto de imbecil, reservado a outros. 
Porém, Otelo  sabe ler e até fazer planos de golpes militares e por isso da próxima vez que for a uma escola básica contar a habitual história da carochinha do 25 de Abril pode começar por dizer: 
"epá! Toda a minha vida fui enganado. Acreditei em balelas toda a idade adulta e afinal quem estava certo era o Salazar. Pensei que era fascista e até nisso me enganaram, pá!" 
Para treinar, pode começar por dizer ao colega de armas, o lateiro Vasco Lourenço, outro da mesma fibra intelectual que devia ler isto também...






O protagonismo dos juízes

 Entrevista do juiz Manuel Soares, presidente do sindicato dos juízes ao CM de hoje, com um título que exprime um conceito: "cara do juiz não pode ser mais importante que a sentença". 


De acordo com esta máxima o juiz Manuel Soares deveria reservar a imagem ao contrário do que acontece de há anos a esta parte, em que aparece polifotografado em várias poses de "revista" e algo esquisitas depois de tanta exposição. Mesmo esquisito e a merecer análise psicológica. 

Aparentemente e segundo diz e escreve, o que incomodou o juiz Manuel Soares, no caso do TCIC foi o protagonismo dos dois titulares, particularmente um deles, Carlos Alexandre. Não há que fugir a tal evidência, tantas foram as vezes em que explicitamente assim o declarou e repete: " a fulanização existe e tornou-se irrazoável".  Irrazoável?! Porquê, numa sociedade mediatizada pela tendência Cofina extensível às tvi´s e sic´s? Não será esse o problema, a causa?  E depois para aclimatar a explicação incompreensível: " Duvido que tenha sido voluntária. Naquele tribunal podia acontecer qualquer coisa parecida com outros juízes". 

Vejamos: o que é que verdadeiramente incomoda o juiz Manuel Soares? É a fulanização mediática dos correios da manhã deste pobre país ou a essência das decisões desses fulanos que sendo juízes aí exercem e estão encarregados de processos inevitavelmente mediatizados? O mesmo responde: é a fulanização! E no caso, promovida pela Cofina, Impresa e tutti quanti e não pelos juízes em causa, ao contrário do que sucede com o próprio Manuel Soares que se expõe mediaticamente, voluntariamente, em palavras e imagens que se tornam já estranhamente profusas. No entanto, ao ouvir e ler Manuel Soares quase se entende que acusa esses juizes de protagonismo voluntário e de que afinal são vítimas  involuntárias, protagonistas de o pretenderem ser e por isso a sugestão, seguida avidamente pelo poder político, de difusão de tal protagonismo por mais meia dúzia. Foi esse o remédio encontrado e o resto é-lhe indiferente, porque assume que qualquer juiz pode desempenhar o papel dos fulanos em causa. Mas engana-se e a prova está à vista nos processos respectivos durante estes anos todos que já somam quase vinte. 

O juiz Manuel Soares exprime a sua opinião sobre o assunto, com graves consequências na decisão política tomada pelo poder respectivo a quem agradou sobremaneira tal opinião e por este motivo muito a propósito, explanado no JN de 28.3.2021: 


Qual é o problema do juiz Carlos Alexandre ser considerado pelos correios da manhã das tânias laranjo deste pobre país, como "super-juiz" ou ser acaparado pelos media da Cofina de modo interesseiro como efectivamente o tem sido, apenas por motivos comerciais? Acaso no caso da operação do "cartão vermelho", em que o juiz em causa é protagonista de instrução, o seu nome foi amplificado com efeito de fulanização recortada no sentido pejorativo que o juiz Manuel Soares teme e estranhamente repele? Não foi, uma vez que outros interesses maiores se alevantaram, designadamente a sobreposição de vários protagonistas ligados ao fenómeno desportivo que atirou o juiz em causa para o quase anonimato preferido pelo estranho Manuel Soares. 

Nos casos singulares dos salafrários ligados à corrupção política e empresarial dos últimos anos, com o os expoentes máximos em Ricardo Salgado e José Sócrates, o foco da atenção foi apontado aos juízes Carlos Alexandre e Ivo Rosa por serem os titulares dos respectivos processos. E daí? O que interesssa verdadeiramente é o nome, a exposição ou o protagonismo dos juízes ou a essência das suas decisões? Porque é que Manuel Soares nunca se afere a esse nível, o único que interessa para os casos? Estranho, mais uma vez que prefira destacar algo espúrio e que o incomoda, verdadeiramente incomoda e tal é notório e preocupante. 

Por isto que passo a expor: aqui há uns tempos Manuel Soares foi ele mesmo protagonista involuntário de algo que foi mediaticamente designado como o processo da "sedução mútua". O que significa tal coisa? Que sendo conhecido como é, teve o relevo que teve como "asa" de um colectivo que proferiu uma "sentença" mediaticamente criticável? Claro que foi. E daí?! 

E que dizer do caso Neto de Moura? O que é que o protagonismo deste juiz teve a ver com a sua nula exposição mediática antes da decisão que proferiu? E porque é que os colegas de profissão, tal como o próprio Manuel Soares se acobardaram ou, pior, aliaram aos detractores, relativamente a uma decisão que deveria ser explicada e desmontada relativamente ao feminismo avassalador que tomou conta do assunto, num tempo mediaticamente propício? A Justiça é isso?!

Os juízes, pela função que exercem, não podem ser apenas autores anónimos de sentenças e merecem ser conhecidos das pessoas em nome das quais aplicam a justiça, tal como sucedeu com Neto de Moura e sucederá com outros. Isso incomoda o juiz Manuel Soares, com medo atávico do "protagonismo"? A justiça não é como um condomínio sem administrador, porque o administrador é mesmo o juiz que a aplica em nome de todos os que legislaram e firmaram o Direito. E o juiz tem personalidade, não sendo um robot. 

Portanto, o que continua a incomodar o juiz Manuel Soares é mesmo o protagonismo? Ou será outra coisa, mais fluida, manhosa e estranha? O que dizer das incontáveis entrevistas de Manuel Soares, em directo e diferido e em profusão estonteante, sempre com o mesmo discurso que enquistou ideias que me parecem erradas mas que serviram de isco para o poder político legislar num certo sentido? Vidè o exemplo da entrevista ao JN de 28.3.2021:



Para se ver o protagonismo do juiz Manuel Soares, por exemplo aqui neste blog e com reflexo no Google, basta clicar com as palavras "Manuel Soares portadaloja" e o resultado é este: 


E se for apenas "Manuel Soares juiz" o resultado é este: 



Este protagonismo de visual é normal, segundo o entendimento idiossincrático do próprio Manuel Soares? As poses são o quê? Apenas um sinal de narcisismo que se apresenta já estranhamente exacerbado, como se evidencia e um par do juiz- Mourão- já o tinha topado há uns anos

Na altura não me ocorreu, mas o juiz Mourão era bem capaz de ter razão...o que aliás explicaria a estranha obsessão com um protagonismo que afinal acabou por servir muito bem a quem se estava mesmo a c. para o assunto. E sabe-se bem quem foi e a quem aproveitam os efeitos produzidos: ao poder político que está e eventualmente virá. Isso não faz reflectir o juiz Manuel Soares?

Para entender a estranheza deste assunto, digite-se "Carlos Alexandre juiz" no mesmo Google e o resultado é este: 


Apesar de o número de imagens icónicas ser superior a verdade é que são diferentes, mais antigas e denotam uma ausência de protagonismo visual, ao contrário daquele. 

É evidente que há algo estranho na estranha obsessão com a preocupação do tal protagonismo e sintetizado na frase fatal do CM de hoje: "cara do juiz não pode ser mais importante que a sentença". 


sábado, julho 24, 2021

A velha comunista nada esqueceu e nada aprendeu...

 Crónica da ultra-esquerdista Isabel do Carmo, no Público de hoje. Um artigo terrorista acolhido pelo director do jornal e que espelha bem a alma ideológica do mesmo. 




As comendadorias da casta

 Artigo de José António Saraiva no Sol de hoje, sobre as castas em democracia:


Segundo Saraiva há pessoas em Portugal, ligadas ao poder político que deixaram de entender o povo em geral, devido aos privilégios acumulados, em democracia. E até cita nomes: o ministro Cabrita que não se enxerga; o ministro Matos Fernandes que come miolo de enxerga e até um  Ferro Rodrigues que desde há décadas se deita na enxerga do Estado como se fosse cama própria. 

Todos com um denominador comum: perderam o sentido da realidade mais comezinha por terem sido beneficiados com as comendadorias das funções que foram ocupando, sempre à sombra da política do Estado que temos, julgando-se por isso ao abrigo de deveres e obrigações que impõem aos outros. 

Um dos principais fautores desta  nova casta foi sem dúvida um deles, Mário Soares, o principal herdeiro da "revolução de Abril" que o alcandorou a um estatuto que porventura nunca sonhou e lhe deu tudo o que havia para dar porque soube rodear-se de uma corte a quem foi distribuindo as comendas das novas ordens. Saraiva volta a citar nomes de alguns destes comendadores pindéricos: Berardo, Nabeiro e até a intelectual preferida de Vasco Pulido Valente, aliás outro comendado, Clara Ferreira Alves. 

Para além destes na foto do artigo aparecem mais alguns, incluindo um tal Marques Mendes ou um certo Luís Nazaré. 

A casta que temos agora em Portugal apoia-se nestas aristocracias fundadas no novo regime, com este perfil: " pelo facto de pertencerem a uma mesma casta, de se encontrarem com frequência nos mesmos locais, de conviverem, de beneficiarem de muitos privilégios, adquiriram os mesmos tiques". 

Querem ver? No mesmo número do Sol aparece outro do clube, herdeiro espiritual do famoso Soares que o comendou com a ordem da sucessão dinástica incumprida. Chama-se Sérgio Sousa Pinto e é um portento intelectual, formado no seio da mais alta academia da casta. 

Leia-se o percurso para se entender como chegou onde queria e lá se deixou ficar, assumindo agora as despesas de um partido algo perdido que não o quis para líder e preferiu aliar-se a quem lhe mantém o poder por táctica eleitoral.











Como se lê, este pequeno comendador foi para o Parlamento Europeu ganhar a vida, na carreira política que adoptou. Como se sabe, os deputados europeus ganham o que ninguém na função pública consegue ganhar honestamente em Portugal. Muito mais. O pequeno comendador aprendeu à sua custa que o partido que o apoia e os que apoiam o seu partido são os fautores principais da miséria económica relativa em que nos encontramos e de que o mesmo dá conta como sendo produto de pensamento de entulho. Além disso percebeu algo fundamental: "ver o que é ser classe média na Bélgica e o que é ser classe média em Portugal, não tem nada a ver". Pois não, mas os males originais permanecem por causa do tal entulho. 

Então como fazem os da "casta" para ultrapassarem as dificuldades e serem classe média do nível belga? Acumulam prebendas. Arranjam empregos no Estado ou nas universidades avulsas que por aí pululam, através das redes de influência dos que se "conhecem todos". Arranjam avenças e apoios dos mais diversos organismos do Estado, vivendo à sombra do Orçamento, mesmo exercendo na "privada" como certos advogados da casta, de que a actual ministra da Justiça faz parte, por exemplo. 

Qual é o patamar mínimo de sobrevivência desta casta? Não sei bem, mas alvitro um número: 5000 mil euros por mês, limpos. Mais algum para os próximos, filharada e parentes mais chegados. Assim vive a casta. A partir daí o céu é o limite e alguns já lá chegaram como o tal Vieira do Benfica, com ajuda dos retratados na foto e mais alguns na Sombra dos gabinetes e reposteiros. 

Ao longo das décadas a casta foi alargando ao ponto de já incluir magistrados, vários, já na ordem das dezenas, particularmente juízes, como dá conta o bastonário da Ordem dos Advogados em entrevista ao Público: 



Como é que estes novos elementos da casta chegaram lá? É simples e o antigo ministro Rui Pereira, outro comendado de prestígio explica na sua crónica de hoje no CM. Por escolha criteriosa em que atributos misteriosos e inconfessáveis, como a pertença a certas quintas colunas democráticas, contaram, alguns atingiram o estatuto que lhes permite vestirem Armani sem se endividarem.

No caso de Rui Pereira, além dos cargos de professor público, acumula outros cargos, privados, como o de comentador e cronista ( tal como o pequeno comendador acima entrevistado) e assim se compõe o ramalhete necessário ao funcionamento do sistema:


De resto, o sistema de casta pretende manter-se à tona desta vidinha com algumas concessões aos que lhes poderiam estragar a festa. Uma delas aparece no Observador, hoje: o celebérrimo e prestigiadíssimo professor Buonaventura, vindo das berças de Barcouço até ao terceiro-mundo altermundialista apoia o Governo. E assim se mantêm o sistema. De castas.



O grande e celebérrimo professor é o maior na ética, deontologia e aversão ao nepotismo, como se confirma. 

Um caso exemplar de alguém que deixou de ver a realidade. Há muitos anos, aliás. 

Sobre o rapaz Sérgio Sousa Pinto, numa entrevista aqui há uns meses, ao Público de 21 de Março de 2021, dizia coisas dramáticas que denotam a cegueira desta casta que nos vai desgraçar uma vez mais.

Sérgio Sousa Pinto representa uma fractura muito séria no actual PS e a denegação do que o atual primeiro-ministro representa. Basta ler o que o mesmo diz com toda a clareza: