sexta-feira, outubro 15, 2021

Ivo Rosa, a nulidade da inexistência

 CM de hoje, mais um caso do inenarrável juiz Ivo Rosa:


A Relação de Lisboa considerou "inexistente" um despacho do juiz Ivo Rosa que se intrometia na competência de um colega do mesmo tribunal, o TCIC, acerca de um assunto em que nunca deveria ter metido o bedelho. 

A "inexistência" enquanto conceito jurídico é ensinada nas faculdades de Direito, logo no início do curso, assim, como se mostra no Manual de Teoria Geral do Direito Civil, de Mota Pinto, aqui numa edição de meados dos setenta.


A prosa é típica das aldrabices do Direito: a "inexistência" declarada relativamente a algo pode ser discutível uma vez que o que não existe nunca deveria surtir qualquer efeito e portanto algumas inexistências deveriam configurar "nulidades", por ainda assim surtirem efeitos desnecessários. 
No caso do juiz Ivo Rosa a sua inexistência surte muitos efeitos, desde logo um, terrível, e que o CSM teima penosamente em não considerar, preferindo entreter-se com os casos gravíssimos, como o do juiz Rui Castro, despedido sumariamente da magistratura por opiniões expressas publicamente e sem reflexo em qualquer processo concreto. 
O efeito terrível da "inexistência" do juiz Ivo Rosa é exactamente a mesma que o CSM considerou ser motivo suficiente para despedimento do juiz Castro: atentado grave, insuperável e irremediável à imagem da Justiça. 

Diga quem entender: qual mais grave e pior para a imagem da justiça, em Portugal, a atitude do juiz Castro ou as sucessivas atitudes, escritas, despachadas e sentenciadas pelo juiz Ivo Rosa, já às dezenas e algumas escandalosas?!

Até quando esta farsa irá continuar, com o CSM a ver?!


quarta-feira, outubro 13, 2021

A ditadura, a censura e o politicamente correcto como marketing

 O Tal&Qual de hoje tem esta página acerca de um coleccionador de discos, particularmente dos Beatles, o estimável Abel Rosa. 


O artigo anuncia uma nova edição deste livro editado no final do ano passado: 


Os Beatles em Portugal foram censurados no tempo do Estado Novo de Salazar e também no Estado Social de Caetano. Porquê e como? 

Explica o autor, primeiro em relação ao filme A Hard day´s night, de meados dos sessenta e que sofreu vários cortes em certos diálogos e foi classificado para maiores de 17 anos. Nisso consistiu a censura:






Também em 1970, o mesmo se passou com o filme Let it Be, aprovado para maiores de 12 anos, sem cortes...embora com considerações sobre moralismos:



Enfim, uma censura venatória, de caça a expressões ou exposições gráficas consideradas como atentatórias da moral pública e bons costumes, mas não só, porque também cingida a provocações de índole política, num tempo de revolucionários comunistas encapotados em extremismos variados. 

O livrinho tem interesse documental e tem boa apresentação, mas carece de outro contexto de época. 

Na mesmíssima altura, antes dela e depois dela, na terra de onde provinha o produto acabado dos Beatles, havia igualmente...censura. E se calhar da boa porque não incomodava por aí além quem do lado de cá bramia ou assobiava nas salas contra os cortes...o que aliás era frequente. 

Em 1967, uma canção aparentemente inócua dos Beatles,  A day in the life, foi censurada pela prestigiada BBC, onde penavam alguns portugueses como o comunista António Cartaxo, num exílio prateado.

A censura neste caso tinha a ver com...bons costumes. 



E se formos a ver na Wikipedia o rol das canções proibidas pela estação britância, considerada por cá como um modelo de fazer rádio, então é o escândalo, segundo os critérios acima enunciados. Fica aqui uma amostra das centenas e centenas de canções censuradas na estação. Muito mais do que por cá alguma vez sucedeu, no tempo em questão: 



E não se pense que o fenómeno se restringiu à púdica Albion, por influência dos tempos vitorianos. na França republicana de sempre, jacobina e revolucionária, berço dos filósofos do politicamente correcto, a censura era de preceito nos rádios, tal como se conta aqui:


Portanto para se escrever sobre censura em artefactos culturais talvez seja necessário contextualizar um pouco mais, alargando o leque de países onde tal se praticava e continua a praticar, agora sob outro prisma e com outras tácticas, ainda mais perversas, ou seja, outro marketing. Assim


Is it only rock n roll? No...

O MIPAD discrimina em função da raça

Observador:

 


O que é o MIPAD? É uma organização destinada a promover pessoas descendentes de africanos e com elas todo o continente e obviamente a raça negra em "diáspora". Está lá escrito, com fotos dos seus heróis e pessoas destacadas no mundo, com tal característica particular: serem descendentes de africanos.


Interrogo-me o que seria se existisse uma organização similar destinada a promover os europeus de raça branca em diáspora pelo mundo fora...sendo certo que já houve em tempos um país e um führer que teve como desiderato agregar numa região, na Europa, uma raça escolhida, ariana, pura segundo critérios dúbios do tempo de um Lombroso, o antropólogo italiano, darwinista. 

Acho isto incrível e assustador a passividade de quem se encrespa contra o racismo, sempre que tal efeito atinge pessoas de cor diferente da branca europeia mas não se incomoda com a discriminação positiva que seja, tendo como base o único critério da raça e local de proveniência dos distinguidos. 
A notícia das "distinções" deste ano está na internet, sem qualquer reserva e apresentada como uma espécie de passagem de modelos dos descendentes de africanos reconhecidos como valores na "diáspora". A palavra é deles, do MIPAD, lamentável mas assim mesmo. 

A CRP anotada por Vital Moreira e Canotilho, sobre isto diz o seguinte: 





Este direito altamente secante esconde a aldrabice de sempre: mascarar em conceitos difusos a ideia básica de proibir a descriminação racial, mesmo positiva, admitindo-a paradoxalmente em circunstâncias favoráveis. 

Em 1974 a revista brasileira Manchete trazia uma reportagem curiosa que julgo ser improvável nestes tempos que correm e que afinal assume o mesmo efeito discriminatório e racial, positivo, relativamente a outro povo particular que partilham com os cristãos a Bíblia do Antigo Testamento: 







Nesse tempo de 1974 o paralelo assinalado não incomodava nenhuma concepção politicamente correcta porque nem existia. E assim é que estaria bem. 
 Actualmente, porém, entender como perfeitamente normal que se distingam pessoas descendentes de africanos, só por isso e porque se salientaram neste ou naquele campo de actividade humana, parece-me completamente extravagante pois significa ter dois pesos e duas medidas relativamente a estas questões. 
Uma hipocrisia, dupla ainda por cima, uma vez que a distinção de pessoas descendentes de africanos, no mundo que não é africano, apenas por isso,  significa o reconhecimento de uma menoridade cultural e de um atraso em desenvolvimento que merece outro olhar que não o rácico, afinal condescendente e paternalista. 
Quem é que é racista, afinal? 

terça-feira, outubro 12, 2021

Cavaco Silva, arauto de desgraça, mais uma vez.

 Cavaco Silva escreveu e o Expresso publicou esta semana este artigo: 


Tal como já tinha feito anteriormente, no tempo de Sócrates, Cavaco anuncia uma desgraça com as políticas deste governo socialista. E mostra que Portugal se atrasou economicamente em relação aos antigos países de Leste.  

Cavaco Silva foi governante e em tempos foi analisado mediaticamente o seu consulado. No tempo que esteve no poder político executivo provavelmente poderia ter feito melhor, mas é fácil de assim dizer depois do que se passou. 

Seja como for continua a ser uma voz importante e experimentada, mesmo como arauto de desgraças

Daí que o artigo em causa devesse ser lido e comentado com maior pormenor e sabedoria, nas tv´s por exemplo.

Não obstante, as tv´s estão tomadas por arautos do situacionismo socialista que apenas pretendem manter o lugar a todo o custo. E por isso não há discussões que lhes possam por em perigo tais lugares...

Se perguntarem algo sobre o assunto aos quatro que figuram imediatamente em baixo, será de fugir para não se ouvirem os dislates, disparates e aleivosias que dali sairiam. E as ofensas pessoais, eventualmente. 

domingo, outubro 10, 2021

A elite oligárquica que enquadra o poder

 Para se perceber como funciona em Portugal uma certa elite político-partidária, com forte influência académica vale a  pena ler isto que saiu no Expresso desta semana e quase falhava, não fosse uma recomendação a propósito de outro assunto. 



Sendo isto assim, uma confraria, é natural que a personagem do meio seja catedrático "with a bullet" como dizia Frank Zappa. Outra coisa nem seria de esperar...


O da direita é o psiquiatra Gameiro cujo perfil não conheço nem me apetece conhecer. O da esquerda é o Novais, é professor na FDUL e só conheço o perfil das suas intervenções raivosas, na tv contra "o Passos", como constitucionalista à la carte. 

Ambos peroram nas tv´s ocasionalmente sobre assuntos das suas competências, sempre eivados do facciosismo político-partidário que os anima e se reflecte neste encontro testemunhado pelo Expresso, camareiro-mor do regime. São todos de "esquerda",  "com muito gosto!", como o bimbo da Bimbo na publicidade de há alguns anos.

Quanto ao Simões, está tudo dito aqui

É isto a elite oligárquica de um certo poder em Portugal: é isto! E nada mais. Os familiares, próximos e apaniguados políticos têm esta protecção que se replica noutras áreas com o mesmíssimo perfil dos amigos e nepotes de sempre.  A ministra Temido, uma singela administradora de hospital público, foi ministra porquê? Está aqui explicado, em parte...

sábado, outubro 09, 2021

A circunstância particular da ministra da Justiça

O último número do Tal & Qual trazia esta notícia do "privado":  

O jornal alude à circunstância particular de uma pessoa que é ministra da Justiça ser familiar de indivíduos de um estado estrangeiro ( em 1977 Angola já o era...) que foram assassinados por razões políticas que determinaram a morte violenta de dezenas de milhar de pessoas, em Angola. 

Em Maio de 1977 a actual ministra ainda não tinha terminado o curso de Direito, na FDUL. Agora é ministra de um Governo cujo Estado vai colaborar com outro Estado na identificação de algumas vítimas dessa matança genocida. 
Objectivamente o interesse particular da actual ministra confunde-se com o interesse necessariamente público do Governo português em enviar a Angola especialistas de polícia para identificar cadáveres ou restos deles, incluindo os familiares da referida ministra. 
Diz a notícia que a "missão portuguesa foi enviada a pedido do presidente angolano, João Lourenço, empenhado numa cruzada para a ´reconciliação nacional`".
Resta saber se tal cruzada implica o reconhecimento de corpos há muito desaparecidos, como o de um tal "Monstro Imortal" ou familiares da actual ministra da Justiça, a cargo de quem ficou o envio da "missão" e se tal procedimento é de algum modo ético e não reflecte o interesse particular de alguém que sendo membro de um governo coloca esta entidade ao serviço de tais interesses. 

O contexto para quem não saiba é este, já por aqui esplanado com a "circunstância da ministra" em causa e cujo postal de 2015 se reproduz:

"Francisca Van Dunem é uma portuguesa de Angola cujos parentes directos tiveram grande protagonismo político nas vicissitudes da indpendência daquele antigo território ultramarino português.
Segundo escreve a Visão de 3 de Dezembro último, é "uma princesa do MºPº (...) e trabalhou próximo de todos os PGR das últimas duas décadas". 


Em 1977, um irmão, José Van Dunem e cunhada Cita ( ou Sita)  Vales, "combatentes e dirigentes do MPLA"   estiveram envolvidos numa conjura para derrubar o governo de Agostinho Neto e foram chacinados, juntamente com o cabecilha Nito Alves.  Nessa altura Francisca estava em Lisboa a estudar e tinha pouco mais de vinte anos.

Após a independência apressada de Angola , acontecimento que perfez há pouco 40 anos, do qual Portugal esteve oficialmente ausente, o novo país viveu uma fase de transição e guerra civil que perdurou anos a fio até se alcançar uma paz aparentemente duradoura.

Os acontecimentos de 1977 foram agora evocados mas com pouca nitidez.

Assim, o O Jornal dessa época consagrou vários números, desde 27 de Maio de 1977 até Setembro desse anos dando conta do que se passava em Angola.

O essencial foi contado no nº de 3 de Junho de 1977.


Na semana seguinte, 8 de Junho procurava dar a explicação cabal...

Um dos portugueses envolvidos no golpe de 27 de Maio, de Nito Alves e dos familiares Van Dunem era o célebre major piloto aviador Costa Martins, que foi ministro do Trabalho nos II, III, IV e V governos. Comunista ligado a Carlos Carvalhas e Eugénio Rosa, além de Rosa Coutinho, Costa Martins fugiu para Angola na sequência dos acontecimentos de 25 de Novembro de 1975 e por lá ficou, como refugiado político, asilado. Aliou-se aos "nitistas" porque também pretendia uma maior intervenção da pátria soviética em território angolano, tal como o quisera em Portugal.

Em 17 de Junho o mesmo O Jornal contava a história...



Conclusão?

Já passaram quase 40 anos e os protagonistas estão mortos. Porém, o que pretendiam era ligar Angola ao comunismo soviético de modo mais "exclusivo". E foi isso que os perdeu.

Curiosamente, ainda há muita gente por cá, actualmente, a proclamar que a independência de Angola foi o objectivo do 25 de Abril de 1974, por vontade dos soviéticos...o que não deixa de ser curioso, levantando a seguinte questão: se foi assim porque é que o regime do MPLA de Agostinho Neto prendeu e matou os que queriam tal coisa, ou seja, uma ligação mais umbilical a tal imperialismo?

Quanto à actual ministra, mal ou bem, estes são os seus familiares directos. O pai e a mãe vieram para cá nessa altura, fugidos também ao regime do MPLA de A. Neto.

A pergunta que gostaria de ver respondida a este propósito é esta: Francisca Van Dunem era comunista nessa altura, adepta das teorias do seu irmão e cunhada? E deixou de sê-lo?
Não tem grande importância mas gostava de saber.

 Porquê? Por um motivo singelo: esta esquerda cansa-me e esta espécie de monarquias plebeias de uma esquerda que foi radical ainda mais e estão em estado de graça. Ninguém lhes toca. E esta união de vontades de esquerda vai dar miséria maior. Espero estar enganado. [fim do postal de 2015].

Deve ainda dizer-se que as vítimas de Maio de 1977, incluindo os familiares directos da actual ministra da Justiça de Portugal, se tivessem vencido, seriam uns carrascos ainda mais monstruosos que os outros que os chacinaram, pela simples razão de que teriam de chacinar mais gente se quisessem sobreviver a tal luta.  E a actual ministra da Justiça era irmã do principal cabecilha chacinado, tendo ficado a seu cargo a educação do filho do mesmo. 

É razoável supor que se José Van Dunem tivesse ganho a luta no interior do MPLA,  a actual ministra da Justiça de Portugal poderia ter sido ministra da Justiça de Angola e portanto cidadã angolana que porventura chegou a ser,  num breve intervalo de 1975 a 76 ou 77, circunstância que também não está bem esclarecida.

Por último deve ainda dizer-se que esta senhora que é ministra da Justiça do meu país, irá em breve ocupar um lugar de Conselheira no STJ deste mesmo país. Curiosamente não será a única com ligações desse tempo ao MPLA, nesse órgão cimeiro da Justiça portuguesa. Pobre país. 

sexta-feira, outubro 08, 2021

A ética do Estado ao serviço de interesses particulares

O jornal Diário de Notícias publicou esta semana, vários artigos sobre o sempiterno problema da corrupção em Portugal. 

Na Segunda-Feira convidou três juristas ( o procurador Rui Cardoso, o académico Paulo Pinto de Albuquerque e a juíza Sónia Moura) para falarem e dizerem de sua justiça. O que disseram foi simples: não adianta fazer boas leis se não forem aplicadas e para tal são necessários meios de investigação que não há como deve ser, neste momento. 

Na Terça-Feira, o jornal fez uma retrospectiva dos processos mais mediáticos dos últimos dez anos ( Marquês, Monte Branco, Face Oculta, Monte Branco, Bes, Vistos Gold, Lex, Fizz, E-toupeira), com estatísticas. 

Na Quarta-Feira uma entrevista a um especialista do fenómeno- Luís de Sousa- que fala sobre ", "comportamentos de eleitos no exercício de funções" e particularmente com o emprego de políticos após exercerem as funções, que é apresentado como um problema grave e que só tem solução se houver um escrutínio apertado, antes de os ditos cujos tomarem posse dos cargos. Assim: 



Ontem foi a vez de se retomar tal problemática com uma entrevista a Susana Coroado acerca do fenómeno das "portas giratórias" e da completa ineficácia da legislação a propósito de tal assunto. Diz que " a entidade da transparência não passa de areia para os olhos".  Por outro lado equaciona muito bem o problema, desta maneira: 



No artigo de opinião sobre o mesmo assunto o advogado Luíz Menezes Leitão, actual Bastonário, diz algo interessante sobre a corrupção ao definir o efeito da mesma como o de colocar o Estado ao serviço dos interesses particulares.  Se lhe falarem de alguns casos concretos, que cito a seguir, desviará logo o foco para outros problemas, mas enfim, fica a pérola. 

A propósito disto e da inutilidade de um combate à corrupção, pelo modo inconsequente, voluntário e premeditado, actualmente figurado pelo sistema político que temos, com os actuais detentores de cargos a poderem servir de exemplo flagrante de tal, como é o caso da ministra da Justiça mai-lo seu marido advogado e professor, importa repescar um assunto antigo que agora aflorou mediaticamente num dos seus protagonistas. 

Tal&Qual de Quarta-Feira: 

Nuno Morais Sarmento é um político do PSD que pode muito bem servir de exemplo para o problema acima exposto e o modo como a ética do Estado se colocou ao serviço de interesses particulares, porque os factos assim o mostram.

A sua biografia mostra-o como familiar de condes e viscondes, licenciado em Direito em 1984 e político desde muito novo, sendo governante durante vários anos, desde 2002 e político desde sempre, além de advogado, actualmente sócio da PLMJ cujo cabeça pensadora foi José Miguel Júdice até se reformar. 

Para atalhar razões, pode ler-se aqui e aqui algo sobre o dito Sarmento familiar de condes e viscondes e alvo da notícia do Tal&Qual, que aliás repica notícias sobre o escândalo das offshores divulgadas por um consórcio de jornalistas coscuvilheiros.

Dali tiro esta passagem já de 2013 sobre uma factura que faltava pedir e com uma história encantada, tal como este personagem ( no caso Júdice) da  nossa opereta trágica, já foi por diversas vezes contada por aqui, mas que nunca é demais lembrar:

O caso particular da firma de advogados PLMJ, já por aqui foi várias vezes citado, mencionando uma interpelação do deputado socialista António Galamba, ao governo de então, liderado por Santana Lopes. O mesmo que tinha como ministro, Morais Sarmento, um dos advogados da firma PLMJ que saira como sócio vulgar, para reingressar como sócio de capital, com inerências respectivas, após o prestígio do ministério.

Sobre este caso, a denúncia interpelatória de António Galamba, era muito simples: o Público tinha escrito que a firma PLMJ, receberia cerca de um milhão de dólares, quinzenalmente, enquanto durasse o período de negociação da eventual privatização da GALP e saída da ENI, no âmbito da reestruturação do sector energético.
O artigo do Sol, a este respeito, é confuso, não permitindo entender claramente se a firma PLMJ recebeu ou não esse montante e durante quanto tempo. Quem pagou efectivamente e quanto, exactamente.
Os números de milhões atropelam-se à medida que as responsabilidades de pagamento, são transferidas da Parpública para a EDP ou para a REN.
Uma coisa é clara, segundo o jornal: o governo PSD de Durão Barroso, em 2003, obrigara a Parpública a contratar os serviços da PLMJ, para a reestruturação do sector energético e no período de três anos, a factura da PLMJ atingiu os três milhões de euros. Longe do milhão de dólares quinzenal, portanto. Mas há mais dossiers e mais honorários facturados. Contam-se dossiers sobre a Portucel, Gescartão e outros.


O assunto reportava-se aos contratos que as firmas de advogados obtinham do Estado e prosperavam com tais encomendas. De tal modo que Bagão Félix dizia então, já há uma boa dúzia de anos [à data de 2013...] (e entretanto tudo piorou e muito neste aspecto...):

Bagão Félix e depois Campos e Cunha não apadrinhavam a PLMJ e uma secretária de Estado do segundo, até dera ordens à Parpública, para cessar pagamentos à firma, por se lhe afigurarem escandalosos perante os resultados alcançados, escrevendo mesmo em nota que "a Parpública, funcionara como uma agência de contratação de consultores financeiros e jurídicos ao serviço do Executivo".
Os governos seguintes desdisseram esta orientação e a consultadoria paracerística pôde continuar, sob a orientação de Teixeira dos Santos que autorizou o pagamento de novos honorários, de ordem milionária e por conta pública.

Bagão Félix, ouvido pelo jornal a este propósito, diz:

"O valor de outsourcing dos serviços especializados ( incluindo os jurídicos) era muito elevado: 200 milhões de euros. E disparou no actual governo para um valor anual de 400 milhões de euros."
E adianta, revelando a falência do Estado, no enriquecimento das firmas:

" Enquanto cidadão e contribuinte, repugna-me que muitos projectos de leis e decretos-lei centrais, sejam feitos nos grandes escritórios".
Que por sua vez, são constituidos por advogados com interesses privados, como é natural. É por isso, provavelmente que Bagão Félix diz, sem papas na língua que o jornal transcreve:

"Estado é refém dos advogados" e que por sua vez actuam em oligopólio. As firmas são, quase sempre as mesmas...

Morais Sarmento, por sua vez, não tem qualquer pejo em declarar ao mesmo jornal que:
"Interrompi o vínculo com a PLMJ quando entrei para o governo ( era o que mais faltava, não interromper...).
E ainda: A PLMJ acabou por ser prejudicada porque não permiti que trabalhasse directamente com a...RTP" . Mas ainda assim, contratou duas advogadas da mesma firma, para lhe prestarem assistência jurídica em assuntos com a RTP e enquanto ministro.
De facto, por causa disso, terá sido uma desgraça para a firma. Porém, logo esquecida, no fim do período governativo do advogado. Regressado, como filho pródigo , à firma em causa e depois de lhe ter causado esse prejuizo, foi recompensado, pelo grupo restrito dos donos da firma, como um par, atribuindo-lhe o estatuto de sócio de capital. Notável.

 Como então se escrevia

Sobre as facturas dessas firmas de advogados com esses serviços, Marinho e Pinto, agora estranhamente preocupado com o assunto, nunca se esforçou muito em denunciar embora tenha por vezes balbuciado umas incoerências, de vez em quando, como pelos vistos o terá feito agora, num programa da noite, na tv, onde perora com Rui Rangel que exerce profissão de juiz de direito.
Relativamente a esta voragem de dinheiros públicos em parecerística, uma edição do jornal Sol de 2008 ( antes da queda por causa do incrível e inenarrável Rui Pedo Soares), mostrava uma infografia assim:



Estes assuntos têm já muitos anos em cima, leis a eito e planos de luta contra corrupção. Surge agora esta notícia sobre o tal Morais Sarmento, personagem político ligado a Rui Rio e ao PSD actual e de sempre. Ninguém se incomodou particularmente porque ter dinheiro em offshores não é crime algum, em si. 

Resta dizer o seguinte, em conclusão: o problema da corrupção em Portugal é insolúvel porque para o resolver seria necessário acabar com isto que acima se expôs e é apenas um exemplo, no caso de Morais Sarmento. Que aliás não é corrupto nem perto disso. Quem o disser, difama-o. E quem disser o mesmo dos actuais advogados que ajudam o primeiro.ministro em funções, provindos de escritórios recheados deles, idem aspas. Nicht wahr? 
Pode o Diário de Notícias e outros jornais continuarem a fazer reportagens, no caso do DN, magnífica e merecedora de parabéns. Para quê? 
Eu digo: para esta gente se rir de nós, na nossa cara e em directo nas televisões que os contratam para botar faladura. 
Para os Morais&Batalha continuarem a escrever aleivosias  associando crime comum a delitos sem normas penais e confundindo as pessoas que os lêem. 
A discussão de base sobre a corrupção deveria começar neste patamar: tomar o exemplo de um destes personagens e escalpelizar o modo como actua(r)am, para se poder ver como foi e prevenir o que é, mas ta nunca será possível a não ser que apareça um escândalo qualquer que lhes destape a careca. 

Sobre tal assunto ainda tenho este postalzinho,  quase com dez anos, mas que pode ser revisitado...


Em 2012 alguém actuou?!

quarta-feira, outubro 06, 2021

Degrelle e o elogio da Alemanha...nazi.

 O jornal Independente de 26 de Junho de 1992 publicou uma entrevista com Léon Degrelle, um belga nascido com o séc.XX e que nos anos 30 lutou por uma causa europeia contra o bolchevismo, num discurso de extrema-direita e contextualizado . 

Tal como referia Jonathan Littel, autor de Les Bienveillantes, numa entrevista a Cohn Bendit, na tv, em 28 de Fevereiro de 2008,  a propósito do lançamento do livro na Alemanha, o nazismo funcionou como a cristandade na Idade Média, como linguagem comum do tempo. E no interior de tal linguagem comum, tal como no comunismo, há o nazismo de esquerda, de direita, os desviacionistas e os economistas "pointus".

Degrelle, aliás,  aparece como personagem do romance de Littel, a propósito da sua integração como elemento preponderante das Waffen-SS, com escudete preto ou vermelho e de origem fundador do partido belga rexista, nos anos trinta, na Valónia belga.

Degrelle morreu em Espanha com 88 anos, em 1994 e o tempo para ele, parou simbolicamente em 1945, com a derrota do nazismo, o que em nada alterou o pensamento que manteve em actividade nas décadas posteriores. 

A entrevista de Sara Adamopoulos revela isso mesmo: o apego a ideais de um passado proscrito e sem admissão de factos que se revelaram no mínimo discutíveis como o Holocausto com a dimensão de Shoa ou o totalitarismo insuportável de um regime que tem apenas um outro que se lhe assemelha, o comunismo, particularmente o estalinista. 

Não obstante, há na entrevista ideias que merecem reflexão, a propósito da alternativa que se desenhou na Europa, após a partilha do continente, entre os vencedores da guerra e os destinos que se seguiram com uma democracia que deixa muito a desejar. 










 Em 3.4.2008 a revista francesa Le Nouvel Observateur, publicou um artigo e entrevista com aquele Jonathan Littel ( de ascendência judaica, tal como o director original da revista Jean Daniel) a propósito de um livro do mesmo sobre Degrelle. No artigo, Littel procura uma explicação psicológica para o fenómeno do nazismo-fascismo, rebuscada e nem por isso muito bem conseguida. 

Obviamente que este perfil, incluindo a entrevista ao Independente,  vai muito mais além do que a simples consideração de Degrelle como um singelo católico fundador do rexismo belga e a leitura do mesmo permite colocar a personagem no centro do movimento neo-nazi, na Europa...








Ivo Rosa, a nulidade da inexistência