sábado, 20 de fevereiro de 2021

A linguagem mutante

 Quem se der ao trabalho de ler jornais antigos, com mais de 50 anos e por isso anteriores a 1974 e comparar com outros de data posterior notará imediatamente um fenómeno curioso: a alteração da linguagem escrita, quase instantânea a seguir a 25 de Abril de 1974. 

A mutação não foi imediata mas algumas palavras foram introduzidas no léxico corrente e ganharam força como expressão de realidades que antes eram designadas de modo diverso. 

As palavras "fascismo", "colonialismo", "imperialismo", "reaccionário", "burgueses", "proletariado", "operários", "camponeses", "obscurantismo" e muitas outras surgiram de repente na imprensa como designações novas para realidades apresentadas como novidades.

A nova linguagem era apanágio de imprensa de esquerda comunista e socialista, a maior parte dela clandestina e que desse modo passou a ser utilizada abertamente e sem censura por aqueles que já usavam tal terminologia naquilo que escreviam para os seus parceiros ideológicos. 

Os comunistas e socialistas nunca se referiam ao regime de Salazar e Caetano sem o apodarem de fascista, reaccionário e obscurantista, para além de colonialista e chegado ao imperialismo.

Porém, os comunistas eram na altura espécie protegida pela censura que os confinava à clandestinidade da liberdade vigiada ou da cadeia para alguns, muito poucos, aliás. Os seus jornais circulavam entre sussuros e ranger de portas ou por baixo das mesas e por isso não tinham expressão de massa.

Com o advento do 25 de Abril de 1974 tal linguagem ficou solta e sem filtro, como acontecia noutros países em que tais constrangimentos não existiam. Por ter sido proibida durante décadas tornou-se desejada a partir de então para designar as realidades apresentadas como novas pelos seus cultores.

A guerra no Ultramar português nunca mais foi assim designada, passando a ser a guerra colonial, tal como os territórios ultramarinos que chegaram a ser províncias de Portugal, passaram simplesmente a ser colónias, sem mais aquelas. 

Os adeptos do regime deposto passaram automaticamente a ser fascistas, tal como o regime em causa e quem os defendia passou a ser simplesmente reaccionário ou saudosista. 

Foi este o fenómeno mais marcante na realidade da imprensa nacional e media em geral, a seguir a Maio de 1974 e nunca mais deixou de o ser porque a linguagem então corrente foi integralmente substituída pela nova terminologia que ajudou a moldar mentalidades e alterou as designações em documentos oficiais. 

Tal ocorreu de um modo que hoje em dia a opção pela linguagem antiga determina desde logo a pertença ideológica ao fascismo ou reaccionarismo, como se o regime anterior ao 25 de Abril de 74 assumisse tais características intrínsecas só porque a esquerda comunista e socialista assim o definiu. 

Já tenho dito aqui e mostrado que o órgão de informação que melhor retrata o que era Portugal na véspera de 1974 era o Observador, uma revista surgida em Fevereiro de 1971 e que defendia o regime, apoiando Marcello Caetano, tal como o Expresso o faz hoje em dia com o actual. 

Quem quiser perceber o regime que existia aquando do 25 de Abril deve procurar tal revista, alia´s apenas existente em hemerotecas e em coleccionadores ou alfarrabistas. 

A linguagem usada na revista era a corrente, na época e mostra bem a que ponto a mutação foi radical e degenerou na novilíngua marxista ainda em curso. 

Em França, por exemplo, não há exemplo de semelhante mutação genética e subsequente degenerescência. A revista L´Express ou até o Le Nouvel Observateur, só para citar dois exemplos de campos próximos mas distintos, usam a mesma linguagem de há 50 anos, sem a alteração genética que ocorreu em Portugal e que a generalidade das pessoas nem se dá conta. 

O que sucedeu nos meses a seguir a Abril de 1974 foi o fenómeno mais radical que se pode observar nesse aspecto: todos os órgãos de informação passaram a usar a linguagem que os comunistas e socialistas usavam desde sempre nos escritos e a antiga linguagem foi simplesmente obliterada e lançada ao caixote do lixo da História. Até hoje.

Os únicos bastiões que se aguentaram estoicamente em tal batalha perdida foram pequenos jornais de "província" como se dizia e um ou outro jornal lançado por aqueles "saudosistas" ou representantes de tal passado, como A  Rua, O Diabo, o Dia ou o Bandarra. Jornais que a esmagadora maioria das pessoas nem chegou a conhecer e desapareceram rapidamente de circulação por falta de apoio de leitores ou anunciantes. A única excepção que confirma a regra é O Diabo. 

Em 1973 a revista Observador tinha um cronista habitual chamado António Lopes Ribeiro, cineasta e intelectual de direita, conservador  ( ali com uma carta redigida em Julho de 1971aos nascituros e que hoje terão 50 anos...e cujo conteúdo na parte final vale a pena ler) e que apresentava regularmente na RTP o programa Museu de Cinema, com filmes do tempo do cinema mudo, acompanhados em banda sonora pelo piano do maestro António Melo, cuja participação falada ficava sempre por um sumido "boa noite!".  É desse programa que repico esta imagem da revista R&T de 13.1.1973:



Na Observador de 23 de Fevereiro de 1973 António Lopes Ribeiro explicava o que era para si a linguagem, juntando-lhe algumas anedotas, uma delas da sabedoria chinesa acerca do "bom entendimento da linguagem":




Nesse ano, em 10 de Outubro de 1973 a revista mostrava e desenvolvia em várias páginas alguns dos grandes temas nacionais e um deles era a "política ultramarina", ainda por cima ilustrada com a imagem de dois "traidores" que lutavam por Portugal como portugueses que de facto eram. 



Mostrava ainda que havia eleições com participação da "Oposição" referindo mesmo os comunistas como força autónoma, embora relegados para uma posição de "extrema-esquerda que quase  todos os portugueses recusam normalmente a enquadrar numa perspectiva nacional", o que resume tudo numa linguagem cifrada, embora perfeitamente entendida por todos. 

Também se dá conta numa página dos problemas dessa mesma Oposição que recusava um certo Mário Soares como líder de tal movimento, por causa de "certos sectores progressistas" que não iam à bola com ele.




Havia destaque para empreendimentos industriais de vulto e que nunca mais tivemos igual, mencionando-se o regresso de Champalimaud, "ilibado" num processo que "talvez tenha custado muito mais ao país":


E havia depois estas imagens que permitem uma reflexão sobre o significado da palavra linguagem na acepção dada por António Lopes Ribeiro, a do seu bom entendimento , porque "são as palavras mal entendidas que fazem as discussões" e as dissensões. 

No caso, a recepção apoteótica e patriótica, sem laivos de manipulação propagandística para além do visível, de Marcello Caetano no regresso de Londres. Local onde o mesmo Mário Soares tinha organizado juntamento com o partido dos trabalhistas,  manifestações anti-patrióticas por causas ideológicas e que viriam a descambar na entrega dos territórios ultramarinos, em 1974, de mão beijada aos movimentos de guerrilha comunista, como o MPLA, FRELIMO e PAIGC, com as consequências que se conhecem.



Era este o panorama e a linguagem dos media nacionais em 1973, até Abril de 1974. 

Logo a seguir surgiu isto: a chegada do comunismo de Álvaro Cunhal, aqui acompanhado do sibilante antifassista Domingos Abrantes e mulher e ciceronados pelo prestável e jazzístico José Duarte que ainda faz os "cinco minutos de jazz". Cunhal é o símbolo do novo linguarejar que se espalhou como nódoa de azeite pelos media, até hoje. Uma nódoa, de facto e que levará muito tempo a passar.  


Como é que este fenómeno evoluiu? Foi assim, em caricatura simples e dessa época, da autoria de João Abel Manta, outro cultor desse novi-linguarejar:


A partir das primeiras semanas passou-se a este panorama nacional, tudo com influência daqueles passageiros vindos do Leste com as ideias fossilizadas deste barbudo que se representava entre nuvens:


O resultado durou pouco tempo a ver-se pelo país e o paradigma passou a ser outro, tal como a linguagem acompanhante: aquele Champalimaud, dos poucos a terem direito a mansões aqui caricaturadas, passou a proscrito em menos de um fósforo, obrigado a escapulir-se para outras paragens, ficando no seu lugar o pinderiquismo nacional, aqui representado poeticamente pelos famintos e deserdados da terra, cantados numa cantiga que a actual ministra da Saúde ainda se gaba de trinar, mesmo vestindo Prada ou trapos do mesmo género.


Esta mutação foi acompanhada e orquestrada pela linguagem substitutiva e foram os jornais os principais meios de difusão de tais palavras-chave com ideias a preceito que fizeram o seu caminho até hoje, ao sistema de geringonça que anda por aí até se desconjuntar completamente, o que aliás já faltou mais.
O líder actual da traquitana é aliás filho de uma jornalista que estava já embebida em tal linguagem e como tal alimentou o filho com tal subsídio de aleitação estranho ao país e à pátria que os viram nascer. 
Não se espere que o mesmo fale noutra linguagem porque a desconhece e burro velho não aprende línguas como é sabido entre o povo. 

Por isso o resto da história fica para o próximo postal que este já vai longo.

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