domingo, 9 de fevereiro de 2020

A lira de Orfeu na Antena 2 recomenda-se

Há um programa de rádio na Antena 2 que escuto regularmente, desde que começou há uns tempos. Chama-se A lira de Orfeu e o seu mentor é um jovem ( nem terá trinta anos) - Martin Sousa Tavares, provavelmente filho do pai com o mesmo apelido.

É impressionante a erudição musical do rapaz e que admiro genuinamente. não tem grande voz de locução e entoa com ligeira agressividade latente, denotando um sanguíneo, como o pai, mas ouve-se muito bem.
No programa de hoje, já disponível em podcast, misturou John Cage com Brian Eno e Terry Riley, separando os trechos com textos aprimorados sobre as origens dos temas e dos músicos.

Em programas anteriores, dedicou-se a Beethoven e música do seu tempo e a outros compositores, numa paleta sonora impressionante e colorida de sons muito bem documentados.

Lembro-me de ouvir e ver o maestro António Vitorino d´Almeida, na RTP do tempo do fassismo que eles não gostam, mas aproveitaram, a perorar sobre histórias da música erudita em Viena, onde se encontrava como "adido cultural" ( seja lá isso o que for...).
Tinha tanto apreço por tais programas e o músico que os apresentava, representando uma lufada de ar fresco cultural na tv da época que um dia, encontrando-o na rua lhe pedi...um autógrafo. É o único autógrafo que tenho de alguém, tirando o que pedi a José Almada, há uns anos atrás.

Como não tinha outro suporte foi mesmo numa página interior da revista Realidade, de Junho de 1973, brasileira e que acabara de comprar.



Os programas de António Vitorino de Almeida, como então se assinava, eram bastante populares na tv única de então, a preto e branco.

Como mostram estes apontamentos da revista Rádio & Televisão de Janeiro de 1974 que resumia o que se tinha passado no ano anterior, na Cultura em geral.

Até a proto-escritora Alice Vieira, "amigada" ( era como dantes se dizia) com o comunista Castrim, crítico de tv no Diário de Lisboa e que gostava de ler, reconhecia:


E o que trazia a revista que me chamou a atenção? Para além do artigo desenvolvido e muito ilustrado sobre a União Soviética, laudatório e da autoria de dois jornalistas italianos havia isto que me fascinou como poucas imagens que vi em revistas, desde sempre:




Esta imagem de Brigitte Bardot tinha um brilho nos olhos que a impressão gráfica conferia de um modo hiper-realista.

O autor da caricatura, Morchoisne, um francês então com 31 anos e que se juntara aos dois outros- Mulatier e Ricord, ambos com 26 anos, eram então mais velhos que eu mas faziam-me sonhar com esta arte.

Em Março de 1974 estes lançaram uma publicação periódica, trimestral,  similar à MAD americana a que chamaram Mormoil.
Durou muito pouco,  mas os respectivos números que só descansei quando os arranjei, são  um repositório artística desta arte considerada menor mas com muito valor para mim: o desenho de caricatura e afim.


Em Dezembro de 1974 no nº 3 publicaram aquela caricatura da Bardot mas a impressão gráfica é muito inferior à que os brasileiros da Realidade tinham feito no ano anterior.


De tudo isto me lembrei por causa do programa do filho do Sousa Tavares, também um jovem como eles e já com uma erudição notável.

A Mormoil anunciava no seu nº 6 de Setembro de 1975 e prestes a findar-se, as novidades que surgiram em França nesse ano, na banda desenhada: A Fluide Glacial e principalmente a mítica Métal Hurlant que nunca foram vendidas por cá... na altura.


Haja esperança na juventude!

Ah! Que já me esquecia: esta publicação francesa que nada tinha de pornográfico era reservada a "adultos"...e isso já em 1974, em França. Tal como outras, aliás.

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