O Público, jornal falido, subsidiado
pela generosidade filantrópica de Belmiro de Azevedo, tem hoje um editorial de
antologia sobre a morte de Eusébio.
Citando um dos comentadores, António- Pedro Vasconcelos,
acompanha-o na peregrinação mística, com o mito em fito e aponta que “num tempo em que ser português era sinal de
opróbrio e de vergonha, Eusébio resgatou o nosso orgulho e devolveu-nos a
dignidade.”
No afã de denegrir o tempo em que viveram os acontecimentos,
só porque o regime lhes era padrasto, mudam o contexto e reconstroem as imagens
“memes” que pretendem divulgar como sendo a nova História contemporânea em
vigor para as massas aprenderem a soletrar. O Público é sempre o meme.
Relembremos os factos :
Eusébio foi grande jogador de futebol, um dos maiores de
sempre e do mundo. Porém, a sua grandeza
profissional manifestou-se na segunda metade da década de sessenta do século
que passou, num tempo em que Salazar ainda estava no poder e depois, a partir de 1968, no tempo
de Marcello Caetano.
Eusébio notabilizou-se por ter jogado muito bem no
campeonato do Mundo de futebol de 1966. Não foi suficiente, porém, para vencer
a Inglaterra e ficamos em terceiro lugar, num campeonato em que Eusébio marcou nove golos. Foi isto o tal resgate do "orgulho nacional"? Parece-me muito pouco e desproporcionado. Ronaldo, objectivamente, já fez mais e melhor, no campo dos jogos.
Na Selecção Nacional foi isso tudo o que contou para o mito e portanto temos apenas uma
memória de 1966. Lembro-me de ver esse jogo- com a Coreia do Norte- e os que se seguiram. A equipa não era apenas Eusébio mas um grupo
coeso que nunca mais fez qualquer brilharete do género durante anos a fio. Ao serviço do Benfica, nos anos a seguir
notabilizou-se de igual modo, contribuindo para grandes vitórias do clube.
Em 1973 e 74 o futebol nacional andava pelas ruas da
amargura, como atesta este pequeno
artigo no Cinéfilo dessa época- 23 de Fevereiro de 1974. António-Pedro Vasconcelos era um dos responsáveis pela revista.
Eusébio foi por isso mitificado depois por causa de uma
mística mítica e contraditória com o que então se escrevia sobre o regime anterior,
que era apontado como “alienante” em função da “lenda dos três èfes` : Fátima,
Futebol e Fado. Em 11 de Fevereiro de 1977 na revista Música & Som no seu primeiro número, o crítico Manuel Cadafaz de Matos, outro "meme", escrevia assim sobre as músicas de então, um comentário sobre o tal fenómeno da "alienação" que afinal era o discurso corrente da esquerda nacional.
O texto do crítico referia-se a uma música de Júlio Pereira do álbum Fernandinho vai ó vinho, de 1976, um grande disco da música popular portuguesa.
A música tinha uma letra assim:
Dizia-me o meu paí,
quando era pequenino
Ah, mas que bem que te fica
Como eu seres do Benfica.
Ao que a minha mãe dizia
Que esse clube não prestava,
Muito melhor era o Sporting
Que era aquele que ganhava.
Já pensava nessa altura
Que o desporto era importante,
Pois por estranho que pareça,
Ouvia a todo o instante:
Ah! Se o Benfica ganhar
Vamos então passear.
E na escola existia
Aula d´Educação Física
Mas há muitos mais desportos
Que nós vamos aprender
Um dia fica p´rós outros
O outro para o futebol
Porque é sempre o Futebol
O desporto nacional. (...)
O texto do crítico referia-se a uma música de Júlio Pereira do álbum Fernandinho vai ó vinho, de 1976, um grande disco da música popular portuguesa.
A música tinha uma letra assim:
Dizia-me o meu paí,
quando era pequenino
Ah, mas que bem que te fica
Como eu seres do Benfica.
Ao que a minha mãe dizia
Que esse clube não prestava,
Muito melhor era o Sporting
Que era aquele que ganhava.
Já pensava nessa altura
Que o desporto era importante,
Pois por estranho que pareça,
Ouvia a todo o instante:
Ah! Se o Benfica ganhar
Vamos então passear.
E na escola existia
Aula d´Educação Física
Mas há muitos mais desportos
Que nós vamos aprender
Um dia fica p´rós outros
O outro para o futebol
Porque é sempre o Futebol
O desporto nacional. (...)
Para completar esta trilogia maldita e vilipendiada, faltava o efeito "meme" que se caracteriza pela reciclagem histórica falsicadora dos factos e mitificadora das lendas avulsas.
Como é sabido o futebol nunca teve tamanha expressão televisiva e mediática quanto hoje. Se "alienação" havia, agora tornou-se exponencialmente avassaladora. O Fado porta-se bem e Amália foi aproveitada pelos "memes" do actual regime como símbolo da Música nacional. Quanto a Fátima, é assunto que não é deste mundo mediatico a não ser nos dias 13 de Maio de cada ano.
Para esta mitificação vigente contribuiu, sem qualquer dúvida, o regime mediático que temos, semeado de "memes" e encharcado de revisionismo histórico, sem memória contextualizada do tempo que passou e obliterando sovieticamente as personagens malditas do mesmo, tal como o Público agora faz com a mestria que se pode ler.
Pois bem. Para desmemória não está nada mal. Este personagem cuja mitificação virá a caminho, em 1998 tinha provavelmente outro conceito do relativismo histórico, como atestam estas imagens do Expresso de 10 de Janeiro de 1998, comemorativas dos seus 25 anos e exemplo máximo do processo da "memificação" em curso há 40 anos.