segunda-feira, janeiro 06, 2014

É sempre a "meme" coisa: o mito de Eusébio e a lenda dos três efes




O Público, jornal falido,  subsidiado pela generosidade filantrópica de Belmiro de Azevedo, tem hoje um editorial de antologia sobre a morte de Eusébio.  
Citando um dos comentadores, António- Pedro Vasconcelos, acompanha-o na peregrinação mística, com o mito em fito e aponta que  num tempo em que ser português era sinal de opróbrio e de vergonha, Eusébio resgatou o nosso orgulho e devolveu-nos a dignidade.”
No afã de denegrir o tempo em que viveram os acontecimentos, só porque o regime lhes era padrasto, mudam o contexto e reconstroem as imagens “memes” que pretendem divulgar como sendo a nova História contemporânea em vigor para as massas aprenderem a soletrar. O Público é sempre o meme.
Relembremos os factos :   
Eusébio foi grande jogador de futebol, um dos maiores de sempre e do mundo.  Porém, a sua grandeza profissional manifestou-se na segunda metade da década de sessenta do século que passou, num tempo em que Salazar ainda estava no poder e depois, a partir de 1968, no tempo de Marcello Caetano.
Eusébio notabilizou-se por ter jogado muito bem no campeonato do Mundo de futebol de 1966. Não foi suficiente, porém, para vencer a Inglaterra e  ficamos em terceiro lugar, num campeonato em que Eusébio marcou nove golos. Foi isto o tal resgate do "orgulho nacional"? Parece-me muito pouco e desproporcionado. Ronaldo, objectivamente,  já fez mais e melhor, no campo dos jogos. 
Na Selecção Nacional foi isso tudo o que contou para o mito e portanto temos apenas uma memória de 1966. Lembro-me de ver esse jogo- com a Coreia do Norte- e os que se seguiram.  A equipa não era apenas Eusébio mas um grupo coeso que nunca mais fez qualquer brilharete do género durante anos a fio.  Ao serviço do Benfica, nos anos a seguir notabilizou-se de igual modo, contribuindo para grandes vitórias do clube.
Em 1973 e 74 o futebol nacional andava pelas ruas da amargura, como  atesta este pequeno artigo no Cinéfilo dessa época- 23 de Fevereiro de 1974.  António-Pedro Vasconcelos  era um dos responsáveis pela revista.


Eusébio foi por isso mitificado depois por causa de uma mística mítica e contraditória com o que então se escrevia sobre o regime anterior, que era apontado como “alienante” em função da “lenda dos três èfes` : Fátima, Futebol e Fado. Em 11 de Fevereiro de 1977 na revista Música & Som no seu primeiro número, o crítico Manuel Cadafaz de Matos, outro "meme", escrevia assim sobre as músicas de então, um comentário sobre o tal fenómeno da "alienação" que afinal era o discurso corrente da esquerda nacional.
O texto do crítico referia-se a uma música de Júlio Pereira do álbum Fernandinho vai ó vinho, de 1976, um grande disco da música popular portuguesa.
A música tinha uma letra assim:

Dizia-me o meu paí,
quando era pequenino
Ah,  mas que bem que te fica
Como eu seres do Benfica.
Ao que a minha mãe dizia
Que esse clube não prestava,
Muito melhor era o Sporting
Que era aquele que ganhava.

Já pensava nessa altura
Que o desporto era importante,
Pois por estranho que pareça,
Ouvia a todo o instante:
Ah! Se o Benfica ganhar
Vamos então passear.

E na escola existia
Aula d´Educação Física

Mas há muitos mais desportos
Que nós vamos aprender
Um dia fica p´rós outros
O outro para o futebol

Porque é sempre o Futebol
O desporto nacional. (...)
 Para completar esta trilogia maldita e vilipendiada, faltava o efeito "meme" que se caracteriza pela reciclagem histórica falsicadora dos factos e mitificadora das lendas avulsas. 
Como é sabido o futebol nunca teve tamanha expressão televisiva e mediática quanto hoje. Se "alienação" havia, agora tornou-se exponencialmente avassaladora. O Fado porta-se bem e Amália foi aproveitada pelos "memes" do actual regime como símbolo da Música nacional. Quanto a Fátima, é assunto que não é deste mundo mediatico a não ser nos dias 13 de Maio de cada ano.

Para esta mitificação vigente contribuiu, sem qualquer dúvida, o regime mediático que temos, semeado de "memes" e encharcado de revisionismo histórico, sem memória contextualizada do tempo que passou e obliterando sovieticamente as personagens malditas do mesmo, tal como o Público agora faz com a mestria que se pode ler.

Para cereja no bolo, consta que Màrio Soares, o meme dos memes, andou agora  por aí a dizer que Eusébio, afinal  era  "uma pessoa sem grande cultura e que bebia álcool logo pela manhã." 
Pois bem. Para desmemória não está nada mal. Este personagem cuja mitificação virá a caminho, em 1998 tinha provavelmente outro conceito do relativismo histórico, como atestam estas imagens do Expresso de 10 de Janeiro de 1998, comemorativas dos seus 25 anos e  exemplo máximo do processo da "memificação" em curso há 40 anos.



Questuber! Mais um escândalo!